Ansiedade e depressão no ambiente acadêmico

Por Alessandra de Carvalho (CCS/UFRRJ), Antonio Carlos Comodaro (*) e Nilsimara Rodrigues (*)

Unidos contra a depressão. Eventos como o ‘Setembro Amarelo’ buscam a promoção de saúde mental através da conscientização “É um luxo ter esperança/A vida desanda”. Um amigo angustiado parafraseia os versos do rapper Emicida, que dizem “É um luxo ter calma/A vida escalda”. No original e na versão, lemos sentimentos que pontuam o cotidiano de milhões de indivíduos mundo afora.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 9,3% da população brasileira sofre com ansiedade, o que torna o Brasil o país mais ansioso do mundo. Além disso, quando o assunto é depressão, temos 5,8% de indivíduos doentes, enquanto a média mundial é de 4,4%.

O ambiente universitário não está imune a problemas de saúde mental. Um estudo publicado na revista Nature Biotechnology, em março de 2018, analisou estudantes de pós-graduação de 26 países, e observou que 41% e 39% apresentaram ansiedade e depressão, respectivamente. Os pesquisadores avaliaram a correlação entre estes índices com dificuldades para equilibrar a vida pessoal com a vida acadêmica.

No Brasil, a V Pesquisa do Perfil Socioeconômico e Cultural de Estudantes da Graduação das Universidades Federais Brasileiras, publicada em maio deste ano, mostrou que dos 420 mil estudantes que participaram do levantamento, 83% disseram ter dificuldades emocionais que interferem nos estudos. Destes, 64% relataram ter ou sentir ansiedade, 45% sentem desânimo e 8,5% já pensaram em suicídio. A maioria (63%) revelou nunca ter procurado atendimento psicológico. A pesquisa foi realizada pelo Fórum Nacional de Pró-reitores de Assistência Estudantil e pela Associação Nacional de Dirigentes de Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes).

O que está havendo?

“Mal-estar discente: lidando com a ansiedade e depressão no meio acadêmico” foi o tema de uma mesa-redonda organizada pela coordenação, Diretório Acadêmico e Programa de Educação Tutorial (PET) do curso de Matemática, em 6 de novembro, no câmpus Seropédica. Participaram as professoras Ana Cláudia Peixoto, do Departamento de Psicologia, e Rosana Pinheiro, do curso de Medicina Veterinária.

A professora Ana Claudia Peixoto apontou três mudanças comportamentais do período contemporâneo que causam impacto na vida e na psique humana: o foco da família para o individuo, a saída da mulher para o mercado de trabalho e a influência da tecnologia.

Ana Cláudia descreveu um tipo de indivíduo criado na sociedade influenciada pela tecnologia: o “Homo digital”. Ele é menos sociável e desregulado emocionalmente; possui um funcionamento anti-humano do cérebro; é automatizado e submisso; e está atrelado à hiperconectividade. Desse modo, a vida se torna acelerada, na forma de processar o momento e, principalmente, na reprodução de uma ordem mercadológica de produzir que é inumana.

A professora explicou que ansiedade e depressão são doenças que andam juntas. É raro ver uma pessoa desenvolver uma, mas não a outra. A pesquisadora também relata que dentro da academia, na maioria das vezes, os alunos são desestimulados a expressar o que estão sentindo – eles não podem ser autorais nas avaliações de disciplinas, por exemplo.

A professora Rosana Pinheiro coordena um projeto de autoconhecimento com alunos de Veterinária, e falou de comportamentos que potencializam o mal-estar discente. Entre elas estão assédio moral, sexual, psicológico e físico; o abuso de poder dos professores; e atitudes hostis de alunos com acúmulo de tarefas acadêmicas.

Segundo Pinheiro, para evitar a ansiedade e depressão é preciso buscar inteligência emocional, bem-estar e felicidade (tanto em sala de aula como na vida pessoal) e, especialmente, o autoconhecimento. São importantes o tempo livre e lazer; e encontrar coisas em comum com colegas discentes e docentes.

“A docência é a segunda profissão mais afetadas pela síndrome de Burnout (distúrbio caracterizado pela exaustão física e mental ligada à vida profissional)”, afirmou a professora Ana Paula Peixoto. “Os professores chegam à universidade com suas cargas e, ao não saber lidar com isso, acabam por transferi-las para os alunos. E se o aluno estiver do mesmo modo, acaba fazendo o mesmo e todos adoecem.”

Causas do mal-estar docente em debate

No dia 6 de novembro, também ocorreu a palestra “Causas do mal-estar docente”, organizada pela Coordenadoria de Atenção à Saúde e Segurança do Trabalho (Casst), com o objetivo de orientar técnicos, docentes e colaboradores quanto ao trabalho desenvolvido pelo setor, além dar dicas de como ter uma rotina diária de trabalho mais saudável.

O evento contou com as presenças das coordenadoras da área de Promoção em Saúde da Universidade, Elen de Léo e Bianca Janssens, e da psicóloga da Divisão de Saúde da UFRRJ, Maria do Socorro Araújo. Elas destacaram que o mal-estar que envolve os servidores está relacionado a fatores como: competitividade, agressividade de outros servidores, inimizades por diversos motivos, problemas financeiros, dupla jornada de trabalho (mulheres), comentários depreciativos vindos da sociedade com relação à produtividade (redes sociais) e a necessidade de estar sempre atento às inovações em sua área. Estes aspectos podem colocar os servidores em permanente estado de ansiedade.

Como forma de melhorar o dia a dia, elas enfatizaram que é preciso, entre outras coisas, saber ouvir, falar e dizer não; conhecer seus direitos e deveres, gerenciar suas emoções; e exercitar empatia e perdão. “Se importar importa”, disse Bianca Janssens.

A psicóloga Elen de Leo, em entrevista, disse que a Casst atende pessoas com queixas tanto com relação à saúde mental como a um suposto descaso sobre a atenção à saúde mental no dia a dia na UFRRJ. “Ao compartilharmos as formas de atenção prestadas pela Casst quanto à saúde de um modo geral, estas quase sempre se dizem surpresas. Temos intensificado a divulgação dos eventos e programas de atenção à saúde do trabalhador, mas a adesão aumenta lentamente.”, ressalta Elen.

Campanhas de prevenção: Setembro Amarelo na UFRRJ

Elen de Léo. “Temos intensificado a divulgação dos eventos e programas de atenção à saúde do trabalhador, mas a adesão aumenta lentamente”

Neste ano, a campanha de prevenção ao suicídio e valorização da vida realizada na Rural ocorreu na semana de 16 a 20 de setembro, em Nova Iguaçu, Seropédica e Três Rios. Foram 340 participantes de atividades organizadas por setores da UFRRJ ligados à saúde mental do discente, do trabalhador e da comunidade.

A psicóloga Elen de Leo avaliou a importância de eventos que promovam a saúde mental na universidade: “A Casst sempre participa do Setembro Amarelo para, por mais este caminho, buscar promoção de saúde mental através de conscientização e direcionamento aos cuidados. A depressão aparece nos atendimentos da Psicologia e na perícia de saúde. A ideação suicida também aparece em muitos atendimentos. No entanto, a mesma Universidade que aponta suas ‘dores emocionais’ (possivelmente subnotificadas) é a Universidade que comparece pouco a este evento largamente divulgado. Assim, é preciso que conheçamos melhor os entraves a esta participação.”

A pró-reitora de Assuntos Estudantis Juliana Arruda considera que o Setembro Amarelo vem se consolidando a cada ano, com o envolvimento de mais docentes, discentes e técnicos nas ações de organização e apoio. “Conseguimos realizar atividades em três câmpus. Este, sem dúvida, foi um marco e poderá servir de base sólida para fortalecimento de novas parcerias internas e externas, além de prospecção de outros modelos de ação e recursos para sua realização”, avalia a pró-reitora.

Para saber mais sobre serviços de atendimento psicossocial na UFRRJ, acesse:

– Serviços para toda a comunidade: https://bit.ly/2Ya1ATu

– Setor de Apoio Psicossocial ao Estudante (Proaes): http://r1.ufrrj.br/sba/index_seape.php

(*) Bolsistas da Coordenadoria de Comunicação Social (CCS/UFRRJ)

Publicado originalmente no Rural Semanal 13/2019.

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