Coletivo. Um grupo de dez mulheres fica encarregado de preparar as refeições no acampamento dos caminhoneiros na Via Dutra, na altura de Seropédica – Antonio Scorza / Agência O Globo

POR IGOR MELLO (Jornal O Globo)

SEROPÉDICA – Enquanto militares do Exército e homens da Polícia Rodoviária Federal (PRF) ordenavam o trânsito, dezenas de homens aglomeravam-se ontem em torno de uma tenda improvisada no quilômetro 204 da Rodovia Presidente Dutra, na altura de Seropédica (RJ). Uma caixa de som tocava os versos iniciais do Hino da Independência em altos decibéis: “Já podeis da pátria filhos, ver contente a mãe gentil”. Ali proliferavam placas, cartazes, faixas e mesmo pichações pedindo que militares derrubem o presidente Michel Temer e assumam o poder, dando caráter visível a uma pauta que vem ganhando eco entre os caminhoneiros em greve ao longo dos últimos dias.

A tensão dos últimos dias pode ser vista nas marcas de pneus queimados. Entre os caminhoneiros, a justificativa para o pedido de golpe militar é a desconfiança de que o governo não vai atender às suas reivindicações.

— A intervenção militar não vai nos prejudicar, vai ajudar — opina o caminhoneiro Laudício Alves de Oliveira, de 50 anos, 20 deles na boleia. — Os militares vão abaixar o preço do óleo diesel, reduzir os impostos e tirar os corruptos lá de Brasília.

Logo nos primeiros dias após o golpe militar, em 1964, milhares de pessoas foram presas ou demitidas do serviço público, entre elas lideranças sindicais. Em junho daquele ano, o presidente Castelo Branco sancionou uma lei que restringia o direito à greve e previa penas de prisão e multa para trabalhadores que participassem de movimentos. O caminhoneiro Antônio Carlos Campos Junior, de 40 anos, admite que uma greve como a atual poderia ser reprimida pelos militares, mas diz não se importar:

— A gente quer intervenção militar porque, se o Temer não resolve, alguém tem que resolver. Se o movimento fosse reprimido (pelos militares), mas resolvessem nosso problema, estaria bom. Se reprimissem sem resolver, a gente pararia de novo.

Antônio Carlos é motorista autônomo, mas admite que grande parte dos colegas empregados em transportadoras tem aval dos patrões para participar da greve:

— O que é bom para a gente é bom para o patrão também — afirma, referindo-se à queda dos preços de combustíveis e pedágios reivindicados pela categoria.

Paulo Martins, de 56 anos, conta que a empresa para a qual trabalha tem apoiado os manifestantes. Oriundo de São Paulo, ele está em contato com uma filial na Pavuna, Zona Norte do Rio:

— Se precisar de dinheiro ou comida, é só ligar que eles mandam. Mas aqui não é o caso, porque não está faltando nada no acampamento.

Vários motoristas repetiam o discurso de confiança. Diziam acreditar que, com mais alguns dias de paralisação, o governo cederia e atenderia a todas as reivindicações. Um, mais exaltado, gritava: “a gente só sai daqui quando o Temer cair”.

ALIMENTOS VÊM DE DOAÇÕES

Do outro lado da rodovia, a empolgação não era a mesma. Um grupo reclamava da falta de resultados da mobilização e dizia ter vontade de partir. Eles disseram, porém, que seus caminhões estavam no fundo do terreno utilizado para guardar os veículos, impossibilitando a saída.

— Ninguém mais aguenta. Todo mundo está estressado. Queremos ir embora. Estamos vendo que isso aqui não vai dar em nada — diz Sebastião Alves, de 49 anos, caminhoneiro há 14.

Políticos e sindicalistas são personas non grata na mobilização, explica Antônio Carlos. Segundo ele, ninguém representa os acampados: sem líderes, eles decidiriam tudo coletivamente.

— Ninguém aqui quer sindicato, porque são todos vendidos. Aqui chega um monte de político, mas nós botamos para correr.

O vereador carioca João Batista Oliveira de Araújo, o Babá (PSOL), circulava discretamente pelo local. Ele tem visitado o bloqueio desde a última quinta-feira, tentando auxiliar os grevistas no diálogo com a polícia e as Forças Armadas. Sobre os pedidos de intervenção militar, ele disse serem “manifestações de um grupo minoritário”.

O almoço foi preparado por um grupo de cerca de dez mulheres, que se encarregam das refeições — feitas com alimentos doados pela população e por comerciantes da região. Uma das líderes do grupo é Cristiane Teixeira Damasceno Campos, mulher de Antônio Carlos. Segundo ela, não tem faltado nada:

— Ninguém colocou a mão nas cargas, é tudo doação.

Já o caminhoneiro José Antônio Rodrigues, de 43 anos, está ali com a mulher, Rosemeire Camargo, e a filha Ana Lívia, de apenas seis meses:

— Aqui a gente consegue tudo para ela: tem onde dar banho, recebemos doações de fraldas e de leite.

Fonte: Jornal O Globo