Cortinas fechadas, projetor posicionado e uma tela branca à espera de novas histórias. Ao menos um sábado por mês o auditório Gustavo Dutra, no Pavilhão Central da Rural, recebe dezenas de famílias no CineCasulinho. A programação infantil gratuita é, para muitos, a experiência mais próxima com o cinema. Mas engana-se quem pensa que o filme é a única atração. Há quem chegue horas antes da sessão começar para aproveitar o espaço. Em dias de calor extremo em Seropédica, na Baixada Fluminense, brincar ao redor do lago ou sob as sombras das árvores parece amenizar o sol forte. Contudo, mais prazeroso que o ar fresco ou a programação cultural, é descobrir a universidade como espaço público ao alcance de todos.

“Todos têm acesso”. Foi essa frase que despertou a atenção de Miriam da Cruz, ao ler um cartaz fixado próximo ao supermercado, na altura do KM 49, informando sobre as exibições na Rural. Morando em Seropédica há 18 anos, ela costumava caminhar com os filhos mais velhos na área verde da universidade, mas nunca havia participado das sessões. Foi somente depois do pedido do filho que ela decidiu ir pela primeira vez e nunca mais parou. Já são mais de dois anos como figurinha conhecida entre organizadores e participantes do projeto.

“Quando eu vim para cá, eu senti essa distância: a universidade é uma coisa e a cidade é outra. Só que com o tempo você vai vendo que não é assim, a universidade é pública, você pode aproveitar o espaço que tem lá. É nosso. Desde então, nós começamos a vir aos poucos”, lembrou Miriam.

São os dois filhos menores da diarista, de 8 e 10 anos, que sempre a acompanham nas atividades. Ela conta que depois que as crianças passaram a freqüentar a universidade o interesse em conhecer as coisas aumentou. Passaram a ler mais livros, ver mais filmes e adoram quando ela os leva para conhecer os museus no centro do Rio. Apesar do gosto pelos universos fictício e histórico, é na própria história que eles pretendem a maior transformação.

“Eles já têm o futuro deles planejado: mãe, eu vou sair do CAIC, que vai até o nono ano, vou para o Ctur e de lá eu passo para a Rural”, contou orgulhosa.  

“Eu não quero colocar para eles essas barreiras que muita gente coloca. Eles fazem parte da universidade, estudam em uma escola que faz parte da universidade, então por que eu vou colocar uma barreira? Eu quero que eles tenham total acesso. Eu falo para eles assim: aqui é o quintal da casa de vocês, atravessou a rua, vocês estão na universidade e podem aproveitar tudo que tem aqui dentro”, disse Miriam.

Gratuita e acessível

“Eu costumo chegar umas duas ou três horas antes, fico brincando com ele aqui fora enquanto a sessão não começa. É o passeio do dia”, contou Joshua Moyse, pai de Taranis, de quatro anos.

Joshua Moyse e o filho Taranis / Foto: Jaqueline Suarez

“Para ele é muito importante ter um lugar ao ar livre, onde ele possa correr e brincar, principalmente, se tiver um parquinho e isso tem aqui na Rural. Geralmente o que eu faço é passear com ele na ciclovia, ir na piscina e assistir os filmes aqui no Gustavão. Fora isso, são poucas as opções em Seropédica”.

 

Aluno do curso de veterinária, Joshua é um, dentre vários estudantes, que precisa conciliar a graduação com a criação do filho. Ele faz parte do Copama (Coletivo de Pais e Mães da Rural), que surgiu para trabalhar a inclusão e permanência de estudantes com filhos na universidade. Taranis, que nasceu dias antes do pai iniciar o curso, acompanha todas as atividades do estudante, dentro e fora da sala de aula.

“Eu comecei a frequentar o CineCasulo quando começaram a passar filme infantil, porque as minhas opções de lazer são sempre incluindo meu filho”, lembrou Joshua.

O projeto surgiu há cerca de um ano e se tornou um espaço importante destinado às crianças da região. Como um dos primeiros participantes, Joshua diz notar uma mudança gradual no perfil dos frequentadores. Além do número de pessoas crescer a cada exibição, a programação infantil também tem contribuído para aproximar a Rural dos moradores de Seropédica.

O estudante, que mora no município há onze anos, destaca a importância das atividades culturais para quem não é aluno da universidade e enfatiza a necessidade de diálogo com os moradores. “Tem muita gente que vem para cá passar o fim de semana no lago. O cinema tem atraído muita gente da cidade também, principalmente, na sessão infantil, mas eu acho que é preciso estabelecer uma comunicação. A galera ainda tem uma ideia que a Rural é paga, que as coisas aqui dentro vão ser pagas”, comentou.

Passaporte carimbado

“O meu filho conta para os amigos da escola, coloca no grupo do Whatsapp dos colegas da turma, posta na rede social dele… Ele está sempre anunciando a programação”, diz Miriam, brincando, ao falar sobre o vínculo do filho, Markus Yuri, de 10 anos, com o projeto.

Na mão das crianças, o passaporte carimbado confirma o envolvimento da família com as atividades. Cada marcação representa um filme assistido. Inicialmente, o documento foi pensado para facilitar a solicitação de horas complementares para os alunos da universidade, mas para os meninos adquiriu um valor bem maior.

Família coleciona passaportes culturais da Rural/ Foto: Jaqueline Suarez

 

“Eles dão uma importância a esse passaporte… Tem os adultos, que são alunos da Rural, e tem eles, que são crianças, e eu não vejo diferença de tratamento. Eles se sentem iguais a todos e eu acho isso muito legal”.

Além do cinema, os três filhos de Miriam participam dos cursos regulares oferecidos no Centro de Arte e Cultura (CAC). Mesmo durante as férias, os dois meninos mais novos, Markus e Arthur Kaio, de 8 anos, frequentam as oficinas especiais, que estão acontecendo desde o início de janeiro, no Pavilhão Central da Rural.

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Texto por: Jaqueline Suarez, UFRRJ

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