História: A Grande cheia, “O tsunami que arrasou Recife em 1975”

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47 anos do maior desastre natural ocorrido no Recife: a enchente de julho de 1975.
Recife que cresceu e conservou o título de “Veneza Brasileira” devido à malha de riachos, que são como galhos de uma árvore cujo tronco é o rio Capibaribe, teve que conviver com a força das águas ao longo de sua história.

Este mês, o maior desastre natural ocorrido no Recife completa 40 anos. Em 1975, Recife teve 80% do seu território coberto por água devido a enchente no Rio Capibaribe. Nesse cenário devastador, que marcou a vida de muitos recifenses, 350 mil pessoas ficaram desabrigadas e houve ainda um registro de 107 mortes.

Ilha do Retiro

O prejuízo estimado na época ficou em torno de 1,5 bilhão de cruzeiros. Ao todo foram 31 bairros, entre eles os mais atingidos foram Caxangá, Iputinga, Cordeiro, Casa Forte, Afogados e Madalena. Outros 25 municípios da bacia do Capibaribe também foram atingidos.
Histórico de enchentes de Pernambuco

O período das grandes enchentes em Pernambuco tem sido historicamente de junho a agosto. Entre os meses de janeiro e fevereiro só há registros, em toda a História, de duas pequenas inundações, assim mesmo restritas a algumas áreas do Recife. Uma breve linha do tempo das enchentes ocorridas no estado de Pernambuco, obtida dos arquivos de jornais da cidade, é apresentada a seguir.

Veja mais em: imagens incríveis da cheia de 1975

Estádio do Arruda na cheia de 1975.
Avenida Agamenon Magalhães na cheia de 1975.
Bairro da Boa Vista, ao fundo HR.
Ponte da Torre na cheia de 75.
Ilha do Retiro na cheia de 75.

1632 – A 28 de janeiro, ocorre a primeira enchente de que se tem notícia no Recife, “causando perdas de muitas casas e vivandeiros estabelecidos às margens do Rio Capibaribe”.

1638 – Maurício de Nassau manda construir a primeira barragem no leito do Rio Capibaribe para proteger o Recife das enchentes: foi o Dique de Afogados, que tinha mais de 2 km e hoje é uma rua do Recife, a Imperial.
1824 – Entre fevereiro e abril, nova enchente atinge o Recife.
1842 – Junho. Enchente atinge o Recife, derrubando várias casas. Pontes desabaram; trens saíram dos trilhos; milhares de pessoas ficaram desabrigadas. Foi a primeira enchente de grandes proporções do Rio Capibaribe.
1854 – Ocorre a maior enchente do século XIX. Durou 72 horas, atingindo todos os bairros do Recife. Derrubou a muralha que guarnecia a Rua da Aurora; parte do cais da Casa de Detenção veio abaixo; a cidade ficou sem comunicações com o interior; no porto do Recife, os navios foram atirados uns contra os outros.
1862 – Nova enchente castiga o Recife.
1869 – Grande enchente destrói as pontes da Torre, Remédios e Barbalho, e rompe os aterros da via férrea do Recife. Foi a maior enchente até então, tendo o imperador Pedro II determinado que o engenheiro Rafael Arcanjo Galvão viesse a Pernambuco “estudar o problema”.
1870 – A 16 de Julho, o bacharel em matemática e ciências físicas José Tibúrcio Pereira de Magalhães, diretor de Obras e Fiscalização do Serviço Público do Estado, sugere ao governo imperial a construção de uma série de barragens nos principais afluentes do rio Capibaribe, para evitar cheias no Recife.
1884 – Outra enchente atinge o Recife.
1894 – Em junho, enchente atinge todos os subúrbios recifenses situados às margens do rio Capibaribe.
1899 – 01 de Julho. Vários bairros do Recife foram inundados por cheia do rio Capibaribe. No município de Vitória de Santo Antão, desaba o segundo encontro da ponte sobre o rio Itapicuru.
1914 – Outra enchente desaba sobre o Recife, deixando vários mortos.
1920 – A 14 de Abril, grande enchente deixa Recife isolada do resto do Estado, durante três dias. Postes foram derrubados; linhas telegráficas interrompidas; trens paralisados; pontes vieram abaixo, entre elas a da Torre. Os bairros de Caxangá, Cordeiro, Várzea e Iputinga ficaram totalmente isolados do resto da cidade.
1924 – Nova enchente deixa os bairros da Ilha do Leite, Santo Amaro, Afogados, Dois Irmãos, Apipucos, Torre, Zumbi e Cordeiro complemente submersos. O prédio do Serviço de Saúde e Assistência desabou e as obras do Quartel do Derby sofreram grandes prejuízos.
1960 – Nova enchente do rio Capibaribe castiga o Recife.
1961 – Enchente deixa 2 mil pessoas desabrigadas no Recife.
1965 – Outra enchente castiga o Recife. Os bairros de Caxangá, Iputinga, Zumbi e Bongi ficaram complemente inundados. Nas áreas mais próximas ao Rio Capibaribe, a água cobriu o telhado das casas.
1966 – Enchente catastrófica provocada pelo rio Capibaribe, com a água atingindo mais de 2 metros de altura, nas áreas mais baixas do Recife. Em poucas horas, toda a extensão da Av. Caxangá foi transformada num grande rio. Na capital e interior, mais de 10 mil casas (a maioria mocambos) foram destruídas e outras 30 mil sofreram danos, como paredes derrubadas. Morreram 175 pessoas e mais de 10 mil ficaram desabrigadas. O nível do rio Capibaribe subiu 9,20 metros além do nível. O presidente da República, Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, veio ao Recife verificar os danos causados.
1967 – A Sudene apresenta relatório de uma comissão de técnicos, constituída logo após a enchente, buscando encontrar soluções para o problema. O relatório sugere a construção de barragens nos seus principais afluentes e no próprio rio Capibaribe, que é a mesma sugestão apresentada quase um século antes pelo engenheiro José Tibúrcio.
1970 – Ano atípico, quando duas enchentes ocorreram, a primeira nos dias 21 e 22 de julho, havendo coincidência entre picos de descarga do rio e maré alta. Vinte dias após esse evento, no dia 10 de agosto, a cidade ficou totalmente inundada por chuvas locais. A tormenta, que se concentrou no Recife e em Olinda, atingiu em 16 horas uma precipitação de cerca de 336 mm, com intensidade que alcançou até 65mm/hora.
Em Julho, as águas atingem a zona da Mata Sul e o Agreste do Estado, por conta do transbordamento dos rios Una, Ipojuca, Formoso, Tapacurá, Pirapama,Gurjaú, Amaraji e outros. A cidade que mais sofreu foi o Cabo, que teve 04 dosseus 05 hospitais inundados e várias indústrias pararam suas atividades. No Recife, as águas da Capibaribe causaram grande destruição. Na capital e interior, 500 mil pessoas foram atingidas e 150 morreram; 1.266 casas foram destruídas em 28 cidades. Só no Recife, 50 mil pessoas ficaram desabrigadas.Em Agosto, a nova cheia que atingiu o Recife e Olinda, foi provocada pelo rio Beberibe. Em Olinda, 5 mil pessoas ficaram desabrigadas e foi decretado estado de calamidade pública.
1971 – Iniciadas as obras da barragem de Tapacurá, no rio de mesmo nome,sendo a primeira providência tomada com relação ao controle das cheias.
1973 – Concluída as obras da construção da barragem de Tapacurá, em 25/07/1973. Material de propaganda da Secretaria de Obras do Governo do Estado anuncia, em letras garrafais, que a Barragem de Tapacurá, inaugurada naquele ano, era solução definitiva para dois graves problemas que afetavam o Recife: abastecimento de água da população e “o fim” das enchentes no Recife.
1974 – Outra enchente atinge o Recife. A Comissão de Defesa Civil, que tinha previsão do avanço das águas, retirou a tempo a população das área ribeirinhas. Em São Lourenço da Mata, uma ponte ficou parcialmente destruída e a população isolada. No município de Macaparana, 20 pessoas morreram, por conta do transbordamento do riacho Tiúma.
1975 – Considerada a maior calamidade do século, esta enchente ocorreu entre os dias 17 e 18 de Julho. O Recife foi mais uma vez vítima de inundações, que alcançou níveis nunca antes verificados, atingindo mais de 50% de toda a área urbana da cidade. Outros 25 municípios da bacia do Capibaribe também foram atingidos. Morreram 107 pessoas e outras 350 mil ficaram desabrigadas.
Na capital e interior, 1.000 km de ferrovias ficaram sem condições de tráfego, pontes desabaram, casas foram arrastadas pelas águas. Só no Recife, 31 bairros, 370 ruas e praças ficaram submersos; 40% dos postos de gasolina da cidade foram inundados; o sistema de energia elétrica foi cortado em 70% da área do município; quase todos os hospitais recifenses ficaram inundados, tendo o depósito de alimentos do Hospital Pedro II sido saqueado. Por terra, o Recife ficou isolada do resto do país durante dois dias.

Abaixo – Região inundada mais escura, registro da SUDENE, 1975.

Na manhã do dia 21, quando as águas baixaram e a população começava retomar a vida, o pânico tomou conta das ruas do Recife, em decorrência de um boato de que a Barragem de Tapacurá havia estourado e que a cidade seria arrasada. A Polícia Federal investigou a origem, nunca descoberta, do boato. O pânico durou cerca de duas horas, mas seu momento de maior intensidade teve cerca de 30 minutos. Mais de 100 pessoas foram atendidas nos serviços de emergência dos hospitais.
Como conseqüência desses eventos catastróficos novas medidas de controle foram implementadas: a construção da barragem de Carpina, destinada ao controle de enchentes, retificação da calha na área urbana (alargamento e ampliação do vão das pontes do Derby e Torre) e ainda a construção de barragem de contenção sobre o rio Goitá. Antes da conclusão dessas obras problemas de menor porte continuaram a ocorrer.
1977 – A 01 de Maio, nova enchente do Rio Capibaribe deixa 16 bairros do Recife embaixo d’água. Olinda e outras 15 cidades do interior do Estado também foram atingidas. Mais de 15 mil pessoas ficaram desabrigadas e só não foram registradas mortes porque a população das áreas ribeirinhas foram retiradas 24 horas antes. São Lourenço da Mata foi o município mais atingido. Em Limoeiro, houve desabamento de ponte.
1978 – A 29 de Maio é inaugurada a Barragem de Carpina, construída para conter as enchentes do rio Capibaribe. Com 950 metros de comprimento, 42 metros de altura, a barragem tem capacidade para armazenar 295 milhões de m3 de água.
2000 – Entre os dias 30 de julho e 01 de agosto, fortes chuvas castigaram o Estado, inclusive a Região Metropolitana do Recife, deixando um total de 22 mortos, 100 feridos e mais de 60 mil pessoas desabrigadas. Cidades foram parcialmente destruídas, tendo ás águas que transbordaram dos rios levado pontes e casas. As chuvas foram anunciadas com 40 dias de antecedência pelos serviços de meteorologia, mas as autoridades governamentais deram pouca importância à previsão. As chuvas atingiram 300 milímetros em apenas três dias e só na RMR aconteceram 102 deslizamentos de barreiras.
2004 – Fortes chuvas entre 08 de janeiro 02 de fevereiro de 2004 castigam todas as regiões do Estado, deixando 36 mortos e cerca de 20 mil pessoas desabrigadas. As chuvas (jamais registradas entre os dois primeiros meses do ano) foram provocadas por fenômenos meteorológicos atípicos (frente fria e outros) e destruíram pontes e estradas, açudes romperam, casas desabaram, populações inteiras ficaram ilhadas. Barragens que estavam secas há anos chegaram a verter. O conjunto de barragens construído no Capibaribe para controle de cheias, as barragens de Jucazinho, Carpina, Goitá e Tapacurá, conteve possíveis ondas de cheia vindas do interior do estado. Jucazinho chegou a verter pela primeira vez. Na cidade de Recife a calha principal do Capibaribe suportou bem as chuvas, mas a rede de canais interligados que a ele afluem apresentaram problemas de alagamento dos mais variados. Na cidade de Olinda, cortada pelo rio Beberibe e seus afluentes, o bairro de Jardim Brasil foi um dos mais castigados. Todas as barragens do Sertão e Agreste apresentaram vertimento, inclusive Jucazinho, em Surubim. De acordo com levantamento do governo estadual, os prejuízos em todo o Estado chegaram a R$ 54 milhões.
2005 – Entre os dias 30 de maio e 02 de junho, fortes chuvas provocaram enchentes em 25 idades do Agreste, Zona da Mata e Litoral pernambucanos, deixando 36 mortos e mais de 30 mil pessoas desabrigadas. Cerca de sete mil casas foram parcial ou totalmente destruídas; 40 pontes foram danificadas; 11 rodovias estaduais foram atingidas, sendo que sete delas ficaram interditadas; a água inundou ruas centrais, hospitais, escolas e casas comerciais de várias cidades, provocando enormes prejuízos materiais.O que se observa na planície do Recife e Olinda é a freqüente ocorrência de inundações, o que leva a fácil conclusão sobre o ineficiente sistema de macro e microdrenagem, o qual está longe de atender as necessidades da sociedade.

Após a retificação da calha do Capibaribe observa-se que durante a incidência de chuvas intensas não tem ocorrido extravasamentos, mas a ineficiência da rede de drenagem, por se encontrar obstruída devido ao lançamento de resíduos sólidos e líquidos, além do assoreamento, provocam alagamentos constantes.

Font: Riachos Urbanos do Recife