RJ teve pelo menos sete rompimentos de adutora em um mês; especialistas alertam para razões
2 de fevereiro de 2024

Consequências afetam diretamente moradores que têm o abastecimento de água reduzido ou interrompido e as casas inundadas

Falta de manutenção, pressão na rede de abastecimento, construção irregular ou problema pontual. Esses são alguns dos motivos que podem causar os rompimentos de adutoras e tubulações. Somente neste mês de janeiro, foram registradas sete falhas no Rio. As consequências deixadas pelos vazamentos afetam diretamente os cariocas, que têm o abastecimento de água reduzido ou interrompido e as casas inundadas. 
 
Para o professor do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Adacto Ottoni, as falhas estão diretamente ligadas com a falta de manutenção das tubulações e a alta pressão. “Em cada caso de vazamento de adutora, precisa ser analisado caso a caso para saber das peculiaridades. Não existe uma razão única, mas o meu feeling é uma junção de fatores: tubulação velha com pressão alta que agrava ainda mais o risco de vazamento. Por exemplo, se a região tá crescendo muito e precisa ter água pra todo mundo, a adutora começa a ser ampliada e precisa colocar mais pressão na rede para chegar em mais pontos. Se você coloca mais pressão do que é suportado, ela vai estourar”, explicou.
 
O professor e pesquisador Julio Cesar da Silva, subchefe do Departamento de Engenharia Sanitária e do Meio Ambiente da UERJ, também coloca a falta de manutenção como uma das principais causas de vazamentos, já que o material possui uma vida útil. Além disso, cita a qualidade das instalações em caso de tubulações mais recentes.
 
“Primeiro ponto é a qualidade das instalações, porque às vezes há problemas em instalações de adutoras recentes. Então, isso também está ligado à qualidade de execução do serviço. Algumas adutoras estão tendo rupturas por questão de vida útil. Na realidade, tudo tem vida útil. Então, é preciso ter uma manutenção preventiva para detectar possíveis problemas e antever o rompimento”, contou.
 
Além disso, Julio Cesar critica a falta de um planejamento por parte das concessionárias. “O principal é ter um bom plano de manutenção preventiva e não vemos isso. Só vemos falar de reparos após a ocorrência. Na realidade, a gente só vê manutenção corretiva. Poucos fazem manutenção preventiva para garantir que essas tubulações funcionem da melhor forma. Acho que esses problemas só serão resolvidos quando tivermos um bom plano de manutenção preventiva para essa rede de adutoras. Isso minimizaria bastante esses tipos de ocorrências que estão cada vez mais frequentes, até por questões de vida útil dessas tubulações”, afirmou.
 
Nesta quinta-feira (31), o rompimento de uma tubulação de grande porte em Vila Isabel, na Zona Norte, afetou o fornecimento de água em 15 bairros da cidade. No dia anterior, outra falha em uma tubulação causou o despejo de esgoto no mar da Praia de São Conrado, na Zona Sul. No último dia 24, moradores da Praça Seca e do Tanque, em Jacarepaguá, também tiveram o abastecimento de água afetado após o rompimento de uma rede de distribuição localizada na Rua Godofredo Viana.
 
No primeiro dia do ano, um vazamento em uma tubulação de água no Flamengo, na Zona Sul do Rio, causou a interdição da Rua Barão do Flamengo. Os bairros Catete, Glória, Lapa e parte de Laranjeiras também foram afetados. Quatro dias depois, uma adutora da Iguá rompeu na Estrada Miguel Salazar Mendes de Moraes, na Cidade de Deus, Zona Oeste do Rio. No último dia 12, um vazamento de água alagou pelo menos duas ruas no Centro de Campo Grande, Zona Oeste. Imagens compartilhadas na internet mostravam carros passando em meio à água na Rua Professor Gonçalves, altura da Estrada do Monteiro. 
 
Em 9 de janeiro, uma jovem de 18 anos, identificada como Sara Gomes, morreu após ser arrastada pela força da água de uma tubulação da Águas do Rio que rompeu no Rio Botas, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. De acordo o irmão da vítima, Matheus Araújo, a jovem brincava na água com outras crianças, quando tentou ajudar uma menina que ficou com a perna presa.
 
Para a prevenção, Adacto Ottoni orienta para o monitoramento através de sensores e a criação de planos de manutenção e conservação. “Se colocar um sensor de pressão na rede e olhar de madrugada, por exemplo, que o consumo é menor, e tiver apontando uma perda de pressão, pode ser um vazamento ou um gato. Outra opção de prevenção é a concessionária ter um plano de manutenção e conservação. A primeira coisa é saber a saúde da tubulação, por exemplo, uma tubulação está há 50 anos sem ser trocada, mas só pode ficar 40. Então, deveria ter um plano para trocar essas tubulações, independente se está vazando ou não, o que não dá é ficar esperando pra ver se vai vazar ou não”, ressaltou.
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De acordo com o professor da Uerj, a falta de fiscalização também é um dos fatores para os frequentes vazamentos. Ele explica que caso houvesse uma legislação rigorosa para punir as empresas, os problemas deixariam de acontecer. “Se a concessionária não está investindo como deveria, tem que ter multa altíssima. Com isso, no futuro, para não deixar aquilo acontecer e receber uma multa, a concessionária investiria na prevenção. Mas infelizmente não tem um órgão de fiscalização, as concessionária pagam uma multa pequena e os problemas continuam acontecendo”, finalizou.
 
O que dizem as concessionárias
 
Procurada, a Águas do Rio afirmou que a concessionária trabalha na recuperação de estruturas deterioradas e modernização dos sistemas de distribuição de água e coleta e tratamento de esgoto. “Além disso, há investimento em tecnologia como o uso de um satélite que identifica vazamentos subterrâneos, e automação dos sistemas de monitoramento da distribuição de água. Estas e outras iniciativas visam a melhor prestação de serviço à população e a segurança da operação”, comunicou.
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A concessionária ainda alegou que a existência de construções e moradias acima de grandes adutoras – áreas legalmente não edificáveis -é um “desafio adicional” pelo risco à vida dos cidadãos e pelas alterações que estas obras podem causar nas pressões atuantes sobre as tubulações, além de dificultar as inspeções e manutenções.
 
Já a Rio+Saneamento informou que, desde o início da operação, em agosto de 2022, tem realizado melhorias para garantir a segurança do sistema. “Os investimentos incluem a troca e implantação de equipamentos de proteção, como ventosas e descargas, substituição de redes de água, e a instalação de macromedidores”, disse em nota.
 
A concessionária ressaltou que implantou quatro Centros de Controle Operacional (CCOs), que realizam o monitoramento diário das condições do abastecimento de água dos 18 municípios atendidos, em tempo real, 24 horas por dia. Por fim, afirmou que os rompimentos podem ser causados por influência de agentes externos, variação de pressão, entre outros.
 
Por fim, a Iguá afirmou que os rompimentos de adutoras precisam ser analisados de maneira individual, já que há uma variação dos motivos que levam a essas ocorrências. A concessionária é responsável pela operação em 18 bairros da Zona Oeste do Rio de Janeiro e dos municípios de Miguel Pereira e Paty do Alferes, no Sul Fluminense.
 
“Por conta da necessidade de modernizações no sistema de distribuição de água e coleta de esgoto, e da demanda de investimentos para além da capacidade do Estado, em 2021 foi realizado leilão para concessão desses serviços. Na contrapartida destes contratos estão previstas obras e intervenções para melhoria das estruturas e prevenção de intercorrências”, comunicou.
Cinco rompimentos de adutoras em 2023
 
rompimento de uma adutora na Pavuna, em 30 de dezembro foi o quinto registrado em 2023. Os três casos anteriores aconteceram entre os meses de novembro e dezembro. No dia 30 do novembro, uma tubulação de água da Rio+Saneamento se rompeu, na Rua Carobinha, em Campo Grande, Zona Oeste. Na ocasião, imagens gravadas por moradores mostraram a força da água destruindo o asfalto e alagando a via, além de também ter danificado veículos. Ao todo, 12 residências e oito lojas foram atingidas.
 
Cinco dias antes, no dia 25 de novembro, uma adutora da Águas do Rio se rompeu e a água invadiu e destruiu casas no bairro Prados Verdes, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. À época, equipes do DIA estiveram no local e constaram que moradores chegaram a perder a maior parte dos seus utensílios domésticos, alimentos, roupas e até documentos. Eles também relataram que o problema de vazamento e rompimento é recorrente na região.
 
No dia 30 de maio, também em Nova Iguaçu, houve um rompimento de uma adutora da Águas do Rio em um terreno próximo à Rua Santa Maria, no bairro Km 32, e água acabou invadindo diversas casas, atingindo cerca de 50 famílias. Em 2022, outro caso já havia ocorrido na mesma região, dessa vez em uma tubulação da Companhia de Águas e Esgotos (Cedae), que integrava o Sistema Guandu. Já em 25 de março, uma adutora da Rio+Saneamento estourou na Estrada do Lameirão, em Santíssimo, na Zona Oeste, que causou inundação em ruas, casas e lojas, e deixou cinco feridos.
 
Fonte: O DIA
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