Os efeitos foram observados através de pesquisa. Desenvolvido pela UFC e Universidade de Laval, no Canadá, o estudo identificou que polímeros naturais podem ajudar pacientes com cardiopatias

Substâncias encontradas em camarões e algas podem reduzir efeitos colaterais no tratamento de pacientes cardíacos, constatou um estudo publicado recentemente por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC), em parceria com a Universidade de Laval, no Canadá. Além de eficazes, as substâncias são mais baratas em relação ao tratamento realizado hoje e podem ajudar a evitar infartos e AVCs.

“Esses materiais, extraídos de fontes naturais, possuem baixo custo e visam atingir propriedades semelhantes ou até melhoradas em relação à heparina, anticoagulante mais utilizado no tratamento hoje”, explica o professor Rodrigo Silveira, do Departamento de Engenharia Química da UFC, que assinou o artigo. “Essas substâncias podem ser utilizadas como agentes anticoagulantes ou em superfícies que entrarão em contato direto com o sangue”.

Neste último caso, elas são usadas para revestir os chamados stents metálicos – pequenos tubos de aço inoxidável e ligas metálicas colocados no corpo humano para desobstruir vasos sanguíneos entupidos. O revestimento reduz a reestenose, que é a formação de uma nova obstrução no vaso através do stent, porém, tem elevado potencial trombogênico em comparação aos stents convencionais.

Por conta disso, os pacientes precisam utilizar medicações para evitar essas tromboses por mais tempo. 

Vantagens

A principal vantagem dessas substâncias para o revestimento é o custo. O cardiologista intervencionista do Hospital do Coração, em Sobral, Joaquim David Carneiro Neto, explica que existem dois tipos de stents: o convencional (cerca de R$ 2 mil, segundo a tabela do Sistema Único de Saúde; e o farmacológico, entre R$ 4 mil e R$ 7 mil).

Este último proporciona uma melhor qualidade de vida ao paciente, mas “é extremamente restrito” no Brasil. “Menos de 5% dos pacientes conseguem acessar este stent. Temos muita expectativa que estudos como este se desenvolvam para diminuir os custos”.

O aposentado Hamilton Madeira Sousa, 53, felizmente, conseguiu o modelo mais eficiente. Ele completa, neste mês, três anos com dois stents farmacológicos – que conseguiu pelo Plano de Saúde. “Vinha sentindo muito cansaço e fiz um cateterismo, que constatou que precisaria colocar dois stents, já que tinha duas veias entupidas”, explica. Hoje, ele segue realizando exames de rotina e passou a praticar atividades físicas, além de deixar de fumar. “Com esse modelo, não ficou nenhuma sequela”, relembra Hamilton.

A realidade, porém, não se estende à maioria. O Hospital do Coração realiza, por mês, de 100 a 120 implantes, somando uma faixa de 1.400 ao ano. “A grande maioria é convencional”, aponta David.

Porém, o especialista acredita que, com a utilização de substâncias como as propostas na pesquisa é possível baratear o uso de stents farmacológicos, tornando-os ainda mais seguros. “Eles são compostos de duas unidades: um polímero e um remédio. A pesquisa propõe um polímero natural que já funciona como medicação, o que deve baratear muito os custos. Se fossem animais raros, certamente seria mais caro, mas algas e camarões são facilmente encontrados”.

Próximos passos

A pesquisa da UFC vem sendo desenvolvida desde 2012, juntamente com o professor Diego Mantovani, no Canadá. Atualmente, o estudo busca avaliar a diminuição da corrosão para as superfícies revestidas com as substâncias das algas e camarões. “Em seguida, faremos experimentos ‘in vivo’, utilizando artéria de coelhos, como modelo animal, simulando intervenções utilizando stents coronários”, explica Rodrigo Silveira.

Também compõem o projeto a doutoranda Anatália Felismino Morais e a mestranda Sandy Danielle.

Fonte: Diário do Nordeste

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