Mortes em ‘nevasca do século’ nos EUA sobem para 48

0
22

A onda de frio mais rigorosa em décadas nos EUA já deixou ao menos 48 mortos desde a semana passada, segundo a agência de notícias AFP. No estado de Nova York, onde morreram 28 das vítimas, a governadora Kathy Hochul reforçou nesta segunda (26) os pedidos para que as pessoas permaneçam em casa e alertou que a tempestade -chamada por ela de “nevasca do século”- ainda está longe de acabar.

Buffalo, cidade a 600 km de Nova York, é uma das mais atingidas. Corpos foram encontrados em veículos e sob pilhas de neve, que chegam a 2,4 metros de altura e dificultam a ação dos serviços de emergência.

“É como ir para uma zona de guerra”, afirmou Hochul, nascida em Buffalo, acrescentando que a situação continua perigosa e que há risco de novas mortes em decorrência do frio extremo. “Estamos diante de um evento que será comentado durante várias gerações. Esta é claramente a nevasca do século.”

O presidente americano, Joe Biden, escreveu no Twitter que falou com a governadora de Nova York por telefone e que seu governo forneceria recursos para dar apoio à região. “Meu coração está com aqueles que perderam entes queridos neste fim de semana de feriado. Vocês estão em minhas orações e nas de Jill [a primeira-dama]”, afirmou.

O aeroporto internacional de Buffalo, onde quase 1,30 metro de neve se acumulou, permanecerá fechado até pelo menos esta terça-feira (27), e uma proibição para dirigir permanece em vigor em todo o condado de Erie, onde a cidade está localizada.

“A menos que sejam socorristas, não dirijam”, disse Mark Poloncarz, da administração regional de Erie. De acordo com ele, há relatos de pessoas que sofreram paradas cardíacas devido ao esforço físico sob temperatura ainda muito baixa ao tentar limpar a neve acumulada em frente às suas casas.

Segundo ele, o número de óbitos no condado deve superar o de uma tempestade de 1977, também na cidade de Buffalo, quando 28 pessoas morreram. Hochul, que tinha 18 anos na época, disse nesta segunda que ninguém pensou que um fenômeno semelhante àquele seria visto novamente.

No condado de Niágara, um homem de 27 anos morreu intoxicado depois de a neve bloquear a exaustão do sistema de aquecimento de sua casa, prendendo o monóxido de carbono no imóvel.
Equipes de emergência têm tido dificuldade para se locomover na neve, e muitos caminhões, ambulâncias e outros veículos de emergência também precisaram ser resgatados depois de ficarem presos, disseram autoridades locais.

Centenas de soldados da Guarda Nacional ajudaram socorristas locais e a polícia estadual nesta segunda-feira a resgatar pessoas presas em casas e carros e a entregar alimentos e suprimentos básicos. O jornal The New York Times reportou que moradores precisaram caminhar por quase 50 minutos para encontrar mercados que abriram as portas depois de dias fechados.

O frio extremo frustrou os planos de milhares de famílias para o Natal. Mais de 200 mil pessoas em vários estados despertaram sem energia elétrica na manhã de domingo (25). Outras tiveram de cancelar viagens, embora a intensidade da tempestade tenha mostrado sinais de alívio.

De acordo com boletim do Serviço Meteorológico Nacional (NWS, na sigla em inglês), grande parte do leste dos EUA permaneceria “congelada nesta segunda, antes que se estabeleça uma tendência de moderação a partir de terça-feira [27]”. Na região de Buffalo e Syracuse, são esperados ao menos 30 centímetros de neve.

“É doloroso receber ligações de famílias com crianças dizendo que estão congeladas”, disse o xerife do condado de Erie, John Garcia, à rede americana CNN.

O clima extremo provocou temperaturas abaixo de zero em 48 dos 50 estados americanos no fim de semana, o que afetou viajantes e isolou moradores em casas cobertas de gelo e neve.

Pelo menos 47 mortes relacionadas ao frio extremo foram confirmadas em nove estados do país nesta segunda -aumento considerável em relação ao balanço divulgado na véspera, quando 28 mortes tinham sido confirmadas. As autoridades admitem que o número deve aumentar, e a rede NBC já fala em 60 óbitos.

A tempestade provocou o cancelamento de quase 3.000 voos no domingo, além de cerca de 3.500 no sábado e quase 6.000 na sexta, segundo o site especializado FlightAware. Nesta segunda, cerca de mil foram cancelados. Os aeroportos mais afetados foram os de Atlanta, Chicago, Denver, Detroit e Nova York.

O gelo nas estradas também levou ao fechamento temporário de algumas das vias mais movimentadas do país, incluindo a Interestadual 70, que atravessa boa parte dos EUA de leste a oeste.

Um casal que vive próximo à fronteira com o Canadá, em Buffalo, disse à AFP que, com as estradas completamente intransitáveis, não conseguiu fazer um trajeto de dez minutos para encontrar a família no Natal. “As condições são muito ruins […] Muitos departamentos de bombeiros nem enviam caminhões para responder às chamadas”, contou Rebecca Bortolin, 40.

O clima extremo afetou severamente as redes elétricas, com vários fornecedores de energia pedindo à população que reduza o uso de eletricidade para minimizar os apagões em lugares como a Carolina do Norte e o Tennessee. No sábado (24), quase 1,7 milhão de casas em todo país ficaram sem energia, de acordo com a Poweroutage.us. Esse número caiu substancialmente na noite de domingo, embora mais de 50 mil usuários nos estados do leste americano ainda estivessem sem energia nesta segunda.

O Canadá também foi afetado pela tempestade, e todas as províncias dispararam alertas meteorológicos. Acredita-se que um acidente de ônibus na Colúmbia Britânica no fim de semana, com quatro mortos e 53 feridos, tenha sido causado pelo gelo nas estradas. Centenas de milhares de pessoas ficaram sem energia em Ontário e em Québec, e os aeroportos de Vancouver, Toronto e Montreal tiveram voos cancelados.

Segundo o Serviço Nacional de Meteorologia, as condições para as tempestades de inverno e para o ciclone-bomba que derrubaram as temperaturas da costa leste, em Nova York, à fronteira com o México, no Texas, a leste, foram criadas na região dos Grandes Lagos, próximo ao Canadá. Lá, o ar gelado do Ártico se encontra com massas quentes do leste. Neste ano, porém, o fenômeno ganhou intensidade acima da média -algo que, segundo analistas, se deve também à crise climática.

A governadora Hochul vem reforçando, na emergência atual, que o aquecimento global torna o clima extremo mais comum. “Tempestades históricas não são mais históricas para nós”, disse nesta segunda, reconhecendo que a região foi surpreendida mesmo tendo se preparado para o “pior cenário possível” depois de um fenômeno no mês passado que superou em quase três vezes o recorde anterior de neve em 24 horas.

Fonte: Amazonas Atual