No meio do caminho havia a Rãzinha-de-Seropédica

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Há alguns anos, uma grande polêmica envolvendo um pequeno anfíbio, conhecido como rãzinha-de-seropédica, tomou conta da mídia por conta das obras do Arco Metropolitano, no Rio de Janeiro.

Planejado para interligar a BR-101, em Rio Bonito, ao Porto de Itaguaí, a obra que atravessaria a Baixada Fluminense precisou ser interrompida por um ano.

Por quê?

Porque ela passaria pela Floresta Nacional Mário Xavier, em Seropédica, o que fatalmente levaria a Physalaemus soaresi à extinção pela destruição de seu habitat, já que essa espécie só ocorre na região, além de Barro Branco, em Duque de Caxias, e na Serra do Mendanha.

E quem é a Physalaemus soaresi na fila do pão?

Dono de um canto que pode ser ouvido a centenas de metros, esse anfíbio só é encontrado, como foi dito, em uma área restrita. Ou seja, uma vez que seu habitat fosse destruído ou seriamente modificado, a espécie desapareceria, levando a desequilíbrios ecológicos envolvendo outras espécies que habitam a região.

A espécie só existe em uma região da Baixada Fluminense – Foto: Projeto DOTS in: GUEDES, T. S. 2020. Distribuição da espécie Physalaemus soaresi IZECKSOHN, 1965 na floresta nacional Mário Xavier: estratégias para conservação

Sua área é caracterizada como floresta subtropical úmida de baixa altitude, vivendo em marismas intermitentes de água doce.

Costuma vocalizar no solo, perto de poças, em áreas sombreadas e escondido sob as folhas. O adulto é carnívoro.

Em relação à reprodução, constroem ninhos de espuma. Esse ninho é produzido pelo casal durante a postura e fertilização dos óvulos. Seu formato é arredondado e ao final abriga mais de 300 ovos. Os ninhos costumam localizar-se próximo às margens das poças. A reprodução costuma acontecer na época chuvosa, entre outubro e fevereiro.

Bem, voltando à nossa polêmica, é sabido que muitas espécies foram e são exterminadas antes mesmo de serem conhecidas, simplesmente pela destruição de sua área de ocorrência, levando com elas uma série de relações ecológicas, além de características e processos que poderiam nos auxiliar a entender a dinâmica de determinada região.

Felizmente, neste caso houve um final satisfatório.

A obra foi desviada e o habitat da Physalaemus soarensi conservado, apesar de algumas interferências antrópicas (humanas) que ainda sofre. Mas o pior foi evitado, graças à mobilização da comunidade científica, que estava alerta. Hoje, há projetos que visam a educação ambiental na área em questão, como por exemplo o Guarda Compartilhada Flona Mário Xavier.

 

É preciso falar mais sobre a importância de conservar e salvar as espécies, independentemente de quais sejam. Como dizem por aí, só se conserva o que se ama e só se ama o que se conhece.

Parafraseando Milton e Caetano em “Paula e Bebeto”, lindamente gravada por Gal, que nos deixou semana retrasada (“Qualquer maneira de amor vale o canto / Qualquer maneira me vale cantar”):

Salvar qualquer espécie sempre vale a pena
Salvar qualquer espécie sempre valerá

Bióloga, mestra em Zoologia pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro e professora nas redes estadual e particular do Rio de Janeiro.
olhaobicho@faunanews.com.br

Nomes populares: rãzinha-de-seropédica, Santa Cruz dwarf frog (sapo-anão-de-Santa-Cruz)
Nome científico: Physalaemus soaresi
Estado de conservação: “Em Perigo” (EN) na lista vermelha da IUCN e “Criticamente em Perigo” (CR) na Lista Nacional de Espécies Ameaçadas de Extinção

Fonte: Fauna News