A introdução de bactéria nos mosquitos reduz a capacidade de transmissão de doenças como dengue, zika e chikungunya

A introdução do Aedes aegypti com a bactéria Wolbachia na natureza, em substituição as populações existentes é uma iniciativa promissora. Essa é a avaliação do pesquisador Sérgio Luz, diretor do Instituto Leônidas & Maria Deane (ILMD/Fiocruz Amazônia), a respeito do novo método de combate da dengue, zika, chikungunya e febre amarela, todas transmitidas pelo mosquito.

O projeto World Mosquito Program Brasil (WMP-Brasil), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em parceria com o Ministério da Saúde, vai implementar a etapa final do “método Wolbachia” nas cidades de Campo Grande (MS), Petrolina (PE) e Belo Horizonte (MG), antes da sua incorporação no Sistema Único de Saúde (SUS).

A metodologia consiste na liberação do mosquito com a bactéria Wolbachia na natureza, reduzindo sua capacidade de transmissão de doenças. “Os cientistas, testando em laboratório a introdução dessa bactéria na população de mosquitos, tiveram a expectativa de que ela reduziria o tempo de vida do mosquito. Porém, o que acontecia era que o mosquito com Wolbachia bloqueava a transmissão do vírus para outros hospedeiros”, explica  Sérgio Luz, sobre os experimentos feitos pelos pesquisadores na Austrália.


Tubos onde os mosquitos com Wolbachia ficam para serem soltos nas cidades durante os testes. Foto: divulgação/WMP-Brasil

O microrganismo Wolbachia está presente em 60% dos insetos existentes no mundo, incluindo borboletas e diversos mosquitos, como o Culex, o comum “pernilongo”, menos no mosquito, Aedes aegypti. Apesar desta ampla gama de hospedeiros, a Wolbachia não é infecciosa e não é capaz de infectar vertebrados, como humanos.

Com a resposta de que a bactéria bloqueia a infecção no hospedeiro, fez-se necessário testar em condições de campo e realidade como o método inovador vai funcionar. “É preciso inserir a bactéria nos mosquitos e fazer com que as fêmeas (mosquitos) cruzem com machos e gerem filhos com Wolbachia. Essa população de mosquitos com Wolbachia tem que ser introduzida no ambiente para aos poucos substituírem a população que não tem a bactéria”, afirma.

Conforme o pesquisador,  as atuais metodologias de controles vetoriais são medidas que baixam a população do mosquito, mas não eliminam totalmente. Essa seria uma alternativa de mudar a população do mosquito. “A metodologia já implantada na Austrália trouxe bons resultados, mas ninguém ainda tem a finalização disso. As metodologias testadas precisam ser monitoradas”, acrescenta.

Fase final do teste

A última fase de teste, que inicia no segundo semestre, agora em cidades com mais de 1,5 milhão de habitantes, vai servir de base para verificar a eficácia da metodologia. Segundo o Ministério da Saúde, a operação de aplicação do método, que vai durar três anos, é segura para as pessoas e para o ambiente, pois a Wolbachia vive apenas dentro das células dos insetos.

As liberações de mosquitos são precedidas por uma série de ações educativas e de comunicação, com o objetivo de informar a população sobre o método.

Desde 2011, o Ministério,  em parceria com a Fundação Bill & Melinda Gates e National Institutes of Health, já investiram  R$ 31,5 milhões no método no País.

Autossustentabilidade nas gerações

Uma vez inserida artificialmente em ovos de Aedes aegypti, Wolbachia reduz a capacidade dele transmitir as doenças. Com a liberação de mosquitos com a Wolbachia, a tendência é que eles  se tornem predominantes e diminua o número de doenças associadas à espécie.

A bactéria só pode ser transmitida verticalmente, ou seja, de mãe para filho, por meio do ovo da fêmea de mosquito.

Como resultado, o sucesso da Wolbachia está diretamente ligado à capacidade de reprodução. Fêmeas com Wolbachia sempre geram filhotes com Wolbachia no processo de reprodução, seja ao se acasalar com machos sem a bactéria ou machos com a bactéria. E, quando as fêmeas sem Wolbachia se acasalam com machos com a Wolbachia, os óvulos fertilizados morrem.

Diante disso, uma vez estabelecido o método em campo, os mosquitos continuam a transmitir a Wolbachia naturalmente para seus descendentes, dispensando a necessidade de intervenções adicionais.

Doenças em Manaus

Em 2018, Manaus registrou 419 casos confirmados de dengue, zika e chikungunya, uma redução de 54% em comparação com 2017, quando foram confirmados 912 casos. Em comparação a 2017, os casos confirmados de dengue reduziram em 79%, os de zika  diminuíram 10,2% e de chikungunya, 91,7%.

Índices de infestação

No 1º Diagnóstico da Infestação do Aedes aegypti de 2019, realizado pela Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) no mês de fevereiro, Manaus apresenta um índice de infestação de 2,2%, permanecendo em médio risco para as doenças transmitidas pelo Aedes aegypti. O número aponta uma redução em relação ao primeiro diagnóstico de infestação realizado no mesmo período do ano 2018, quando o índice registrado foi de 3,0%.

O diagnóstico de infestação do Aedes  aegypti é realizado periodicamente e o índice tem permanecido em médio risco, o que compreende valores entre 1,0% e 3,9%.  O período considerado epidêmico para as doenças transmitidas pelo mosquito é o que vai de novembro a maio.


Larvas do mosquito transmissor de doenças como dengue, zika, chikungunya e até febre amarela se desenvolvem em água parada. Foto: Antonio Lima – 18/abr/2019

Nesse primeiro diagnóstico do ano, equipes de agentes de endemias visitaram 28,8 mil imóveis em todos os bairros de Manaus, envolvendo cerca de 380 profissionais da Semsa. A estratégia de trabalho abrangeu, por meio de visita domiciliar, a identificação e coleta de formas imaturas (larvas) do mosquito, assim como a eliminação e tratamento de potenciais criadouros.

Fonte: acrítica

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