
Foto: Matheus Treuk/Divulgação
Uma inscrição em persa antigo, localizada no painel central do Salão Assyrio do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, foi finalmente decifrada após passar 117 anos sem tradução. O feito foi realizado por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Grafada em escrita cuneiforme, a mensagem consiste em uma saudação ao rei aquemênida Artaxerxes, soberano da antiga Pérsia. As informações foram originalmente divulgadas pela revista Arte!Brasileiros.
De acordo com o estudo, o texto traduzido afirma: “Do Apadana de Artaxerxes, grande rei, rei dos reis, filho do rei Dario”. O termo “Apadana”, presente na frase, designa um palácio ou salão de recepções solenes dos antigos monarcas persas. Artaxerxes, o governante homenageado, viveu entre 497 a.C. e 427 a.C.
O Contexto da Descoberta
A investigação teve início em janeiro de 2025, durante uma visita ao espaço. O professor Alex Mazzanti Júnior, especialista em estudos clássicos e linguística indo-europeia da UFRJ, identificou o padrão do persa antigo na composição cuneiforme — um dos sistemas de escrita mais antigos da humanidade, criado pelos sumérios na Mesopotâmia por volta de 3200 a.C.
Após a análise inicial, as imagens foram compartilhadas com Matheus Treuk, professor de arqueologia da UERJ e especialista em Pérsia Aquemênida. O trabalho de decifração também contou com o apoio fundamental da museóloga Raquel Villagrán Seoane, coordenadora do Centro de Documentação do Theatro Municipal, que forneceu fotografias em alta resolução e documentos históricos essenciais para o mapeamento decorativo do salão.
Influência Francesa e a Conexão com o Louvre
Inaugurado em 14 de julho de 1909 junto com o edifício principal do Theatro Municipal, o Salão Assyrio é inteiramente revestido de mosaicos e cerâmica esmaltada. Ao longo de sua história, o ambiente já funcionou como restaurante, cabaré e palco de bailes de máscaras, integrando hoje o roteiro das visitas guiadas do prédio histórico.
A execução do projeto decorativo, realizada entre 1905 e 1909, ficou a cargo da renomada empresa francesa La Grande Tuilerie d’Ivry (também conhecida como Grès Muller), sob a direção de Louis Muller. Os pesquisadores apontam que a iconografia do salão dialoga diretamente com as coleções de artefatos iranianos do Museu do Louvre, que ganharam grande visibilidade em Paris durante a Exposição Universal de 1889.

Foto: Matheus Treuk/Divulgação
Iconografia e Identidade do Espaço
A inscrição decifrada está posicionada acima da representação de um altar de fogo — elemento que remete aos relevos funerários aquemênidas de Naqsh-i Rostam. A composição visual traz ainda a figura do rei em um gesto de oferenda, emoldurada por um guardião com lança.
A descoberta traz novamente à tona um debate histórico sobre o nome do espaço. Desde a inauguração do teatro, cronistas e intelectuais questionavam a denominação “assírio”, argumentando que a iconografia é majoritariamente persa, inspirada em artefatos arqueológicos descobertos por missões francesas na antiga cidade de Susa (no atual Irã). No entanto, os pesquisadores ressaltam que o espaço não faz uma cópia literal, mas sim uma síntese artística que mescla referências de Susa, Persépolis e Naqsh-i Rostam.

Foto: Matheus Treuk/Divulgação
Testemunho Histórico e Relevância Artística
O espaço impressionou grandes nomes da literatura nacional, como o cronista João do Rio (sob o pseudônimo de Paulo Barreto), que em 1913 descreveu o ambiente como uma reprodução monumental que multiplicava a sensação de grandiosidade através de espelhos engastados em bronze e fontes d’água.
Em artigo publicado na plataforma SciELO, Alex Mazzanti Júnior e Matheus Treuk destacam a alta erudição da empresa Grès Muller ao conceber uma obra inteiramente nova a partir do ecletismo arqueológico. No Salão Assyrio, elementos de tradições distintas convivem harmoniosamente, como o uso de um abanador de moscas típico de Persépolis ao lado de uma toalha de inspiração nitidamente assíria.
Os autores concluem que a presença desse patrimônio no Rio de Janeiro reflete o fascínio orientalista que marcou o século XIX e defendem que o espaço receba maior centralidade nas discussões acadêmicas sobre a história da arte nacional. “O Salão Assyrio constitui, sem sombra de dúvida, uma das obras mais fascinantes e excepcionais da história do orientalismo e da recepção da Antiguidade Persa, devendo ter um lugar de destaque nos estudos sobre o tema no país”, apontam os pesquisadores.
Informações via Diário do Rio


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