Por Leonardo Cazes

Durante o regime militar, a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), em Seropédica, passou por grandes transformações: saiu da alçada o Ministério da Agricultura para o Ministério da Educação, foi obrigada a abrir cursos na área de Ciências Humanas para não perder o título de universidade e ainda sofreu com expurgos de professores e alunos, além de conviver com clima de terror. Em entrevista ao GLOBO, Célia Regina Otranto, professora do Instituto de Educação e coordenadora do Grupo Pesquisa sobre História e Memória da UFRRJ, aponta as principais transformações vividas na época.

A Rural passou por grandes transformações institucionais depois do golpe de 1964, mudando inclusive de nome. De que forma todas essas transformações ainda marcam o presente a UFRRJ?

As diferentes mudanças de denominação demonstram que a instituição nunca se afastou de sua tradição agrária, mesmo quando foi desvinculada do Ministério da Agricultura para o Ministério da Educação. Em 1967, ela deixa de se chamar Universidade Rural do Brasil e se torna a atual Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. O adjetivo “Rural” foi mantido nas diferentes épocas e nunca foi contestado internamente. Ainda hoje, os cursos agronômicos que deram origem à instituição – agronomia e medicina veterinária – se constituem em fortes alicerces da UFRRJ, mesmo após a abertura recente de muitos cursos na área de ciências humanas. Os primeiros cursos na área foram criados devido a necessidade de adequação à reforma universitária de 1968: para uma instituição de ensino superior adquirir ou manter o status de universidade, era obrigada a oferecer cursos em todas as áreas do saber. Assim, o Conselho Universitário decidiu pela criação dos Institutos de Educação e de Ciências Humanas e Sociais, que ocuparam um prédio que tinha sido construído para abrigar o hospital de Itaguaí. Foi a maneira de evitar que os cursos da UFRRJ fossem distribuídos pelas outras instituições federais do Rio. Foram, portanto, institutos impostos pela ditadura militar através das leis de educação decorrentes dos acordos MEC-USAID e durante muito tempo sofreram discriminação na universidade, principalmente o Instituto de Educação. Isso fez com que a educação demorasse bastante tempo para se consolidar na UFRRJ, a ponto do primeiro mestrado por ela criado ter sido localizado no Instituto de Agronomia e não no Instituto de Educação, como era de se esperar. No entanto, nos dias atuais os cursos da área de ciências humanas e sociais, incluindo aí a educação e suas licenciaturas estão em número bem maior que os tradicionais cursos agronômicos que deram origem à instituição.

A transferência da Rural da alçada do Ministério da Agricultura para o Ministério da Educação, em 1967, também teve um grande impacto sobre a instituição, não?

Desde sua criação, em 1910, como Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária, que deu origem à Universidade Rural, a instituição esteve vinculada ao Ministério da Agricultura. Esta vinculação permaneceu até 1967, quando todos os órgãos de ensino do Ministério da Agricultura foram transferidos para o MEC. Enquanto esteve vinculada ao Ministério da Agricultura, era a instituição de educação superior mais importante e não tinha problemas para financiar seus cursos e programas nem a excursão de final de curso dos alunos, pelo Brasil, para conhecer de perto a realidade agronômica brasileira. Com a vinculação ao MEC, passou a ser somente mais uma universidade e uma das menores. Isso acarretou a redução de 50% das verbas a ela destinadas. Perdeu o status de instituição mais importante e foi obrigada a sobreviver com muito menos recursos do que estava acostumada. O fato repercutiu na queda da qualidade do restaurante universitário, na dificuldade de construção de novos alojamentos de alunos e, até na construção de novos prédios. A redução nos recursos foi sentida na época e traz consequências até os dias atuais. Os prédios antigos carecem de reformas que, quase sempre são mais dispendiosas em virtude do tombamento pelo patrimônio histórico de grande parte do campus universitário. Como a manutenção não foi feita ao longo do tempo por carência de recursos, as dificuldades se avolumam a cada ano.

No seu livro “Uma viagem no túnel do tempo – A ditadura militar vista de dentro da universidade (Edur)”, a senhora relata casos de perseguição a alunos e professores da UFRRJ. É possível estimar o prejuízo intelectual e acadêmico da universidade por conta dos expurgos? Quantas pessoas foram atingidas pela repressão?

Começando a responder pela indagação final, digo que é muito difícil estimar o número de pessoas atingidas pela repressão. Eu diria que todas: estudantes, professores e dirigentes, incluindo aí os reitores. No entanto, cada um de uma maneira diferente. O reitor na época, Ydérzio Luiz Vianna foi “cassado” pela ditadura e esteve preso, por 40 dias, em uma unidade do exército, em Paracambi, conhecida como “Paiol”, por ser um depósito de armas e munições. Vários estudantes e alguns técnicos também ficaram presos no mesmo local. Estudantes e professores foram vigiados e perseguidos no interior da universidade. Dois estudantes foram retirados do campus encapuzados e sofreram toda sorte de torturas físicas e psicológicas, e foram abandonados, quase mortos, às margens da antiga Rodovia Rio-São Paulo, onde está localizada a UFRRJ. Não é difícil perceber que, diante do quadro de medo, houve prejuízo intelectual e acadêmico tanto de alunos quanto de professores. Outro tipo de prejuízo foi ocasionado pelos reitores que vieram depois do interventor nomeado pelos militares para substituir Vianna, que se alinharam à ditadura e entregaram aos militares tanto docentes como discentes e técnicos, esvaziando, no interior da instituição, as críticas e os questionamentos e, consequentemente, dificultando o crescimento intelectual, pelo medo da repressão. Também não posso deixar de destacar que esse alinhamento da maioria dos reitores na época da ditadura causou grande prejuízo à autonomia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Os militares tinham uma preocupação grande em modernizar a produção agrícola brasileira e mobilizaram esforços nesse sentido. A Rural não foi incluída neste projeto?

Os militares tinham, sim, proposta de modernizar a agricultura brasileira e até mobilizaram alguns esforços nesse sentido, como você afirmou. No entanto isso foi fora do campus da Universidade Rural. A preocupação dos militares em relação à universidade era outra: controlar o movimento estudantil que era muito forte na UFRRJ e se constituía em um dos mais fortes no Brasil. A Rural, na época, recebia muitos estudantes de fora do Rio de Janeiro e grande parte deles chegava com conhecimento amplo desse movimento. Até mesmo alguns professores relataram conhecer o movimento estudantil da Rural no final da década de 1950 e início da década de 1960, bem antes do golpe civil-militar de 1964. É importante destacar, também, que na década de 1960 todos os estudantes da UFRRJ eram internos e moravam nos alojamentos da universidade. No interior da instituição eram discutidos os principais problemas da sociedade brasileira, pelos maiores intelectuais da época, com participação total dos alunos. O local onde está localizada a universidade – Seropédica – era, na época um distrito de Itaguaí, uma localidade simples, sem opções de lazer, o que fazia da universidade, que contava com o único cinema da região, onde, além de filmes, eram desenvolvidos os debates com vários convidados especiais, o principal ponto de encontro e lazer dos estudantes. Era no interior da instituição que eles eram formados intelectual e politicamente, o que fazia com que esses estudantes fossem considerados um perigo para a ditadura. Outro agravante, na concepção dos militares, era a presença de um grupo comunista dentro da universidade, que contava com a presença constante de Luiz Carlos Prestes. Isso fez da UFRRJ um dos principais alvos dos militares, após o golpe, mas no sentido de calar, de conter, de intimidar, principalmente os alunos e professores que eram apontados como “comunistas”, mesmo sem comprovação desta opção político-ideológica. O simples fato de um dos docentes ter trabalhado, ainda como estudante, no projeto Paulo Freire de alfabetização de adultos, na cidade de Caxias (RJ), fez com que ele fosse “fichado” pelos militares e impediu-o de receber financiamento do Banco Nacional de Habitação (BNH) para a casa própria. Os projetos dos militares para modernização da agricultura brasileira passava, portanto, bem longe dos muros da UFRRJ.

A senhora já realizou um extenso trabalho sobre a história da Rural, com base em muitos arquivos da universidade. Qual era a situação desses arquivos? Eles estavam guardados na própria universidade?

Iniciei minha pesquisa com um documento datilografado de cinco páginas, que foi tudo o que eu consegui da história da universidade, antes de iniciar meu estudo. Mais tarde descobri que mesmo esse documento tinha muitas informações erradas. Decidi, então, buscar as informações corretas em diferentes fontes primárias, para escrever a história da UFRRJ. Li todas as atas do Conselho Universitário existentes na Sala dos Órgãos Colegiados, desde a primeira até a década de 1980. Consegui alguns documentos em uma antiga sala denominada Rômulo Cavina, localizada no Instituto de Ciências Humanas e Sociais, chamada na época de “museu”. Os documentos estavam todos soltos, desorganizados, sem nenhuma catalogação. Havia ainda muitas fotos não datadas. Atualmente, a UFRRJ conta um belíssimo Centro de Memória onde estão localizados esses documentos. Mas, na época, foi um trabalho de “garimpagem” e tentativa de datar documentos e fotos. Recorri a jornais e revistas do período da ditadura, que também são citadas nos livros publicados. Mas, o que me deixou mais emocionada e motivada a continuar a pesquisa foi, sem dúvida, a colaboração de moradores de Seropédica que tinham trabalhado na universidade e escondido alguns documentos na própria casa. Como a cidade é pequena, as pessoas se conhecem e a informação de que eu estava escrevendo a história da Rural correu rápido, de boca em boca. Aconteceu, por exemplo, de eu estar em um dos restaurantes e o rapaz que estava no caixa me perguntar se eu queria os documentos que o pai dele havia guardado em casa, para os militares não pegarem. Comecei a receber várias pessoas, algumas já bem idosas, que me levaram documentos preciosos para a pesquisa. Outro fato decisivo para o registro histórico foi a atitude de um antigo reitor que disponibilizou para a minha pesquisa vários “documentos confidenciais” que deveriam ter sido destruídos depois de lidos, e foram encontrados por ele em um dos cofres da casa da reitoria que não tinha sido descoberto pelos militares. Com os documentos escritos redigi o primeiro livro, “Autonomia Universitária: dádiva legal ou construção coletiva?”, que traz na capa uma foto da Universidade Rural montada em um quebra-cabeça, no qual faltam três peças, demonstrando que algumas questões não puderam ser respondidas levando em conta somente os documentos escritos. Dei, então, continuidade à pesquisa, complementando os registros escritos com a história oral, que originou o livro ao qual você se refere “Uma viagem no Túnel do Tempo: a ditadura militar vista de dentro da Universidade”. Nele, a mesma foto da Rural está com o quebra-cabeça completo. As entrevistas são esclarecedoras e, algumas, emocionantes. Algumas vezes cheguei a chorar transcrevendo as falas dos entrevistados.

Fonte: http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2014/03/22/na-ditadura-rural-perdeu-verbas-sofreu-com-perseguicoes-internas-528435.asp

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