Dom Eugênio era um guardião das tradições católicas e também um pioneiro nas ações sociais.

Por Mônica Teixeira, Jornal O Globo

Dom Eugenio foi um dos nomes mais importantes da Igreja no Brasil
Dom Eugenio foi um dos nomes mais importantes da Igreja no Brasil

Dom Eugenio Sales foi um dos nomes mais importantes da história da Igreja Católica no Brasil.

Uma vida longa voltada ao sacerdócio. Dos 91 anos de idade, 69 foram dedicados à Igreja. Quem conviveu com dom Eugenio Sales se lembra do cardeal, mas também do homem.

“Era um homem austero, me lembro do primeiro encontro que tive com ele. Me impressionou a integridade dele, honestidade dele”, lembra o jornalista e acadêmico Luiz Paulo Horta.

Nascido em Acari, no Rio Grande do Norte, Eugenio de Araújo Sales pensou em ser engenheiro agrônomo, mas muito cedo acabou se interessando pela vida religiosa. Com 16 anos, entrou para o seminário. Aos 23, foi ordenado sacerdote. Depois, arcebispo de Salvador e do Rio de Janeiro, onde comandou a Igreja Católica por 30 anos.

Foi nomeado cardeal pelo papa Paulo VI, de quem se tornou amigo pessoal. A amizade se estendeu aos sucessores na liderança da Igreja Católica.

Dom Eugenio era tão próximo de João Paulo II que, quando ele ficou doente, o aconselhou a não renunciar ao papado.

“Havia uma corrente que ele devia renunciar. Eu disse a ele: não renuncie. Dizendo de uma maneira muito autoritária que eu até ri depois”, disse dom Eugenio, em entrevista à Globo News.

Enquanto estava à frente da Arquidiocese do Rio, recebeu João Paulo II duas vezes no Brasil, em 1980 e em 1997.

Dom Eugenio também foi o anfitrião da visita ao Rio, em 1990, do cardeal Joseph Ratzinger, hoje Papa Bento XVI. Na época, eles tentavam conter a corrente que pregava reformas na Igreja, a chamada Teologia da Libertação, defendida pelo frei Leonardo Boff.

Dom Eugênio era um guardião das tradições católicas e também um pioneiro nas ações sociais. Criou várias pastorais, como a das favelas. No Rio, impediu que moradores da comunidade do Vidigal fossem removidos de suas casas.

“Era um homem de conversa fácil, muito fascinante. Eu não diria que ele fosse um intelectual, não exatamente um intelectual. Era um homem de ação. Eu acho que ele era um homem de ação”, acrescenta Luiz Paulo Horta.

Durante a ditadura militar, dom Eugênio chegou a abrigar no Palácio São Joaquim, onde morava, pessoas perseguidas pelos regimes autoritários da América do Sul. Foram cerca cinco mil refugiados, que também se esconderam em hotéis e imóveis alugados com autorização de dom Eugênio.

Em entrevista ao jornalista Geneton Moraes Neto, em 2010, para a Globo News, dom Eugenio relembrou aquele período.

“Eles estavam contra a lei aqui do Brasil, pela lei do país eu não podia agir. Eles estavam infringindo a legislação, mas como bispo eu tinha o dever”, disse.

Com 75 anos, cumprindo as regras da Igreja, o arcebispo do Rio apresentou a renúncia ao então papa João Paulo II. Mas o papa pediu que ele permanecesse. Dom Eugênio só deixou o cargo quando fez 80 anos. Mas continuou a ser uma autoridade católica. O tempo nunca abalou a sua fé.

“Nunca foi abalada. Nunca tive dúvidas. Eu vivo contente”, concluiu.

Fonte: O Globo