Na realidade digital, adolescentes que ainda estão formando suas identidades se comparam o tempo todo e os filtros de imagem ditam um ideal de perfeição

Por Eduardo Graça, O Globo

Depressão entre jovens não terminou com o isolamento da pandemia — Foto: Pexels
Depressão entre jovens não terminou com o isolamento da pandemia — Foto: Pexels

A diminuição da intensidade da pandemia de Covid-19 no país não se refletiu na redução de casos de depressão e ansiedade entre crianças e adolescentes. É o que indica tanto o monitoramento nacional feito pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com quase seis mil jovens país afora, quanto a percepção de especialistas que alertam para uma crise de saúde mental nesta faixa etária. Entre as razões apontadas por médicos e famílias estão as tensões geradas pelo retorno híbrido e presencial às aulas após até um ano e meio letivo de ensino remoto, as sequelas do longo período forçado de isolamento social, a retenção de casos não tratados nos últimos dois anos e uma imersão ainda maior no mundo digital, com o tribalismo acentuado por redes sociais e jogos online.

Coordenado pelo psiquiatra Guilherme Polanczyk, o monitoramento acaba de ser publicado na European Child and Adolescent Psychiatry. Os 5.795 jovens foram monitorados on-line desde junho de 2020. No segundo semestre daquele ano, 36% apresentaram sintomas de depressão e ansiedade, que flutuaram desde então, mas se mantendo nos mesmos níveis. Os “problemas emocionais”, por exemplo, diminuíram entre dezembro de 2020 e fevereiro de 2021, mas tornaram a aumentar em maio do ano passado, se comparados com o mesmo período no ano anterior.

 

Dentre os fatores associados ao aumento de ansiedade e depressão estão a chegada da puberdade durante a pandemia, a sensação de solidão, a rotina de sono inferior a oito horas diárias, a queda de renda familiar e o desenvolvimento de doenças associadas à Covid-19 por pessoas próximas. O universo da pesquisa incluiu jovens com acesso digital, portanto há subnotificação, aumentando a dimensão da crise.

Polanczyk destaca que não há como se comparar dados atuais com os de períodos anteriores à pandemia, por conta da escassez de pesquisas no Brasil. Ao mesmo tempo, o número insuficiente de consultórios e ambulatórios dificulta comparação empírica básica: eles estiveram e seguem lotados.

— Mas, com os novos dados e o relato de clínicos, sabemos que há aumento expressivo de crianças e adolescentes com questões sérias nos consultórios. E não houve diminuição com a distensão da pandemia — atesta.

Na pandemia, jovens em tratamento por depressão e ansiedade relataram nos consultórios não só o aumento da sensação — não mais subjetiva — de isolamento, como também sintomas similares apresentados pelos pais e os reflexos da transformação radical da vida escolar. A relação com amigos, estímulos acadêmicos, a maneira como são testados seus conhecimentos e o bullying são fatores centrais na saúde mental dos mais jovens. São significativos os casos de violência entre alunos e com professores relatados após o retorno presencial às aulas, de dificuldade de concentração e de bloqueio nas provas.

— Vivemos um momento de reaprendizado. Crianças são dinâmicas e flexíveis, com enorme capacidade de adaptação a novas realidades, mesmo as que nasceram durante a pandemia e as que estavam sendo alfabetizadas à época. É possível sair deste momento crítico — diz Polanczyk.

Lorenzo Deos, 18 anos, procurou por conta própria o consultório de um psiquiatra. Carismático, ele fazia da escola, na zona oeste de São Paulo, uma “segunda casa”, com amigos próximos e confidentes. A pandemia virou sua vida de cabeça pra baixo: os amigos foram para trás das telas, a mãe e a irmã se mudaram da capital paulista para uma casa em Santa Catarina a fim de cuidarem da avó, e ele ficou na capital paulista, sem ir ao colégio, com o pai, que terminou uma relação duradoura. A mãe, a empresária Cynthia Sperandio, viu, por sua vez, seu relacionamento com o companheiro, neo-zelandês, se tornar, em tempos pandêmicos, uma relação 100% à distância.

— O mundo digital nunca me bastou e a ausência do olho no olho foi barra pesada pra mim. Senti que havia algo errado comigo, quase não saía do quarto, mas não quis dividir isso inicialmente com meus pais, pois eles também estavam passando por momentos difíceis — conta o jovem, que tentará este ano passar no Enem para Direito.

Lorenzo é direto: por mais que o colégio privado e dos mais conceituados em São Paulo buscasse maneiras de incrementar o ensino à distância, na prática, diz, “não aprendi nada”. Além do tratamento médico, central para combater depressão e ansiedade, ele clama por maneiras outras de avaliação escolar que não sejam focadas apenas em provas escritas, mas também na formação de “seres humanos melhores, mais solidários”, necessidade, argumenta, escancarada durante a pandemia.

Nos consultórios, o inevitável e desejável retorno presencial às aulas tem sido citado como fonte recorrente de estresse para os jovens.

— Eles contam que muitas vezes colavam nas provas e as escolas estão sendo muito cobradas pelos pais. A pressão, especialmente nos que irão fazer o Enem, é enorme, e ela está tendo seu impacto, com muitos jovens se desestruturando na transição para a universidade — diz Polanczyk.

Especialista em terapia cognitiva comportamental e neuropsicologia da infância e adolescência, Angela Alfano, catedrática da Universidade Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) que hoje clinica nos EUA, também não mede palavras: há sim, lá e cá, uma crise de saúde mental entre crianças e adolescentes, potencializada pela pandemia. E que não dá sinais de arrefecer.

O psiquiatra Guilherme Polanczyk: monitoramento com quase 6 mil jovens — Foto: Maria Isabel Oliveira
O psiquiatra Guilherme Polanczyk: monitoramento com quase 6 mil jovens — Foto: Maria Isabel Oliveira

— Durante a pandemia, houve um momento em que os psicólogos não davam mais conta da demanda, especialmente nos casos de depressão e ansiedade. E a vida voltada para a realidade digital tem efeito central neste aumento persistente — diz a especialista.

Nos EUA, a multiplicação de casos, detectada desde a segunda metade da década passada, se acentuou durante a pandemia. Há seis meses, a principal autoridade médica do país pediu atenção para “uma devastadora crise de saúde mental entre os jovens”. E diretores de hospitais americanos alertam para a escassez de profissionais e de pesquisa. Situação, apontam os especialistas ouvidos pelo GLOBO, similar à do Brasil.

 

—Na realidade digital, jovens e crianças que ainda estão formando suas identidades se comparam o tempo todo, mas com o palco dos outros, sem ver os bastidores. Os filtros de imagem ditam um ideal de perfeição dissociado da realidade. A pandemia mexeu com um tabuleiro já bem complicado — diz Angela Alfano.

A literatura sobre o tema é vasta, mas não há conclusões definitivas sobre de que modo a onipresença digital afeta a saúde mental dos mais novos. Ângela Alfano não nega, por exemplo, a importância que as relações digitais tiveram durante a pandemia. E Polanczyk pontua que meta-análises apontaram que o tempo de tela tem um impacto negativo pequeno sobre a saúde mental dos jovens, quando detectado. A crise, afinal, atingiu também quem não via no universo digital um refúgio tentador, como Lorenzo. Há, no entanto, cada vez mais discussão na academia sobre a qualidade deste conteúdo cada vez mais consumido.

— Alguns pacientes potencializaram suas habilidades com as telas durante a pandemia, até empreenderam. Mas outros buscam nas redes pessoas que também estão deprimidas, e, com o tribalismo, há uma potencialização muito danosa. E há os que abdicaram de vez da vida real, passando o dia jogando videogame, sem sair do quarto a não ser para ir ao banheiro, interagindo socialmente apenas com os parceiros virtuais de game — diz o catedrático da USP.

Mas a pandemia, por outro lado, aponta Polanczyk, também fez com que a depressão fosse “normalizada”. Perdeu boa parte do estigma que carregava.

Fonte: O Globo