“Nada temais!”, ele disse. “O Senhor me enviou para que eu vos libertasse das desgraças causadas por esse dragão. Crede em Cristo e recebei o Batismo, que eu matarei o dragão.”

Neste dia 23 de abril, a Igreja Católica faz memória de São Jorge, um soldado que morreu como mártir durante as perseguições do Império Romano aos primeiros cristãos.

Embora sua principal glória esteja nesse fato histórico praticamente inconteste, o episódio mais conhecido de sua biografia é a vitória que ele alcançou sobre um “dragão” — e sobre a qual o mais completo registro que temos é o que vai abaixo transcrito.

Por trás desta história fantástica, encontra-se, como deve ser, uma lição espiritual. São Jorge libertou o povo de um “dragão” não simplesmente para livrá-lo da agonia e da morte físicas, senão para conduzi-lo à verdadeira fé. Por causa de sua vitória — diz a tradicional história contida na Legenda Áurea —, “20 mil homens foram batizados, sem contar mulheres e crianças”.

Por isso, ao invocarmos a proteção deste santo mártir, devemos fazê-lo da maneira correta, desprezando superstições que nada têm a ver com a doutrina católica e pedindo, além disso, o único bem que verdadeiramente importa: nossa salvação eterna.

Agora, se São Jorge derrotou mesmo um animal grande e aterrorizante, como um “dragão”, não é possível dizer com segurança. A origem da história a seguir é obscura e é praticamente impossível comprovar-lhe a veracidade. De qualquer modo, Enciclopédia Católica garante: não há motivos para duvidar da existência deste santo, tão cheio de devotos desde os primeiros séculos da Igreja; sejam quais forem as batalhas que travou em vida, bem-aventurado Jorge é um desses tantos santos antigos “cujos nomes são reverenciados com justiça pelos homens, mas cujas ações só por Deus são conhecidas”.


Jorge, soldado nascido na Capadócia, foi certa vez a Silena, cidade da província da Líbia. Ali perto havia um lago, grande como um mar, no qual se escondia um pestífero e enorme dragão, que muitas vezes afugentou o povo armado que tentara atacá-lo.

Para acalmá-lo e impedir que se aproximasse das muralhas da cidade, incapazes de afugentar seu hálito empesteado, que matava muita gente, os habitantes davam-lhe todos os dias duas ovelhas. Quando começou a não haver ovelhas em quantidade suficiente, o conselho municipal decidiu que se daria uma ovelha e um humano, sorteando-se para tanto rapazes e moças, sem excetuar ninguém. Depois de algum tempo também faltou gente, e o sorteio designou a filha única do rei para ser entregue ao dragão.

São Jorge, retratado por Johann Koenig.

Contristado, o rei propôs: “Tomai todo meu ouro e prata, a metade de meu reino, mas não deixeis minha filha morrer assim.” Furioso, o povo respondeu: “Foste tu, ó rei, quem promulgaste este edito, e agora que todos os nossos filhos estão mortos, queres salvar a tua filha? Se não fizeres com tua filha o que ordenaste para os outros, queimaremos a ti e a tua casa.”

Ao ouvir essas palavras, o rei pôs-se a chorar a própria filha, dizendo: “Ai, infeliz de mim! Ó minha meiga filha, o que posso fazer por ti? O que te posso dizer? Nunca poderei ver-te casada?” E, voltando-se para o povo, disse: “Eu vos imploro, dai-me ao menos oito dias para chorar minha filha.”

O povo aceitou, mas ao cabo de oito dias dirigiu-se, furioso, ao rei: “Preferes perder teu povo que tua filha? Estamos todos morrendo por causa do sopro do dragão.” Então o rei, vendo que não podia livrar a filha, fez com que ela vestisse trajes reais e beijou-a entre lágrimas, dizendo: “Ai, infeliz de mim! Minha doce filha, de teu ventre eu esperava netos de estirpe real, e agora estás prestes a ser devorada pelo dragão.” Ele a beijou e a deixou partir, dizendo: “Ó minha filha, queria antes ter morrido do que perder-te assim!” Ela então se jogou aos pés de seu pai para pedir a bênção, e depois de abençoada em lágrimas dirigiu-se para o lago.

O bem-aventurado Jorge passava casualmente por lá e, vendo-a chorar, perguntou-lhe a razão. Ela respondeu: “Meu bom rapaz, monta depressa em teu cavalo e foge, se não quiseres morrer como eu.” Jorge replicou: “Não tenhas medo, minha filha, e dize-me o que toda aquela gente procura ver.”

Ela respondeu: “Vejo que és um bom rapaz, de coração generoso, mas queres morrer comigo? Foge! Depressa!” Jorge então disse: “Não irei embora antes que me contes o que está acontecendo.” Depois que a moça explicou tudo, Jorge disse: “Não temas nada, minha filha, porque em nome de Cristo vou ajudar-te.” Ela replicou: “És um bom cavaleiro, mas salva-te imediatamente, não pereças comigo! Basta que eu morra sozinha, porque tu não me poderias livrar e pereceríamos juntos.”

Enquanto conversavam, o dragão pôs a cabeça para fora do lago e foi se aproximando. Toda trêmula, a moça falou: “Foge, meu bom senhor, foge depressa.” Jorge montou imediatamente em seu cavalo, protegeu-se com o sinal da cruz e com audácia atacou o dragão que avançava em sua direção. Brandindo a lança com vigor, recomendou-se a Deus, atingiu o monstro com força, jogando-o ao chão, e disse à moça: “Coloca sem medo teu cinto no pescoço do dragão, minha filha.” Ela assim o fez, e o dragão seguiu-a como um cãozinho muito manso.

Quando ela chegou à cidade, à sua vista todo o povo pôs-se a fugir gritando: “Ai de nós, logo todos vamos morrer!” Mas o beato Jorge disse-lhes: “Nada temais! O Senhor me enviou para que eu vos libertasse das desgraças causadas por esse dragão. Crede em Cristo e recebei o Batismo, que eu matarei o dragão.”

Então o rei e todo o povo foram batizados, e o bem-aventurado Jorge desembainhou a espada e matou o dragão, ordenando depois que o levassem para fora da cidade. Quatro pares de bois arrastaram-no para campo aberto.

Neste dia, 20 mil homens foram batizados, sem contar mulheres e crianças.

Referências

  • Transcrito e adaptado de: Jacopo de Varazze, Legenda áurea: vidas de santos. Trad. de Hilário Franco Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, pp. 366-367.

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