Mas como podemos comemorar uma data tão importante, sabendo que estamos perdendo um dos maiores rios do Brasil, pela contaminação de esgoto. O Rio Guandu, que abastece a maioria das cidades do Rio de Janeiro em breve será igual ao Rio Tietê de São Paulo. 

Na verdade, beber água no Rio de Janeiro daqui a alguns anos poderá se transformar numa aventura perigosa, se medidas urgentes não forem tomadas pelo Poder Público e pela sociedade, de forma geral, no sentido de preservar as nossas fontes de abastecimento. Aliás, os próprios técnicos da CEDAE admitem que chega um momento quando os rios morrem, em que é praticamente impossível utilizar a água deles para consumo humano, pois ela fica impossível de ser tratada.

Na Estação de Tratamento (ETA) do Sistema Guandu, a maior do mundo, os técnicos da CEDAE que operam a Estação se desdobram para tratar a água bruta captada nos Rios Paraíba do Sul e Guandu, cuja qualidade  a cada dia vem se tornando pior. Esta  água, segundo a ASEAC e o diretor da CEDAE vêm advertindo há mais de cinco anos, está caminhando para uma situação de “intratabilidade”, o que poderá inviabilizar a vida em diversas cidades do Estado (capital, municípios que integram a Baixada Fluminense e ribeirinhos), se providências urgentes não forem tomadas pelas autoridades estaduais e dos municípios que integram as bacias dos rios Paraíba do Sul e  Guandu, de forma a preservá-los.

A grave situação dos sistemas de abastecimento diante do quadro de contaminação da água, devido à degradação ambiental, aliás, não é privilégio da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Algumas capitais, como São Paulo, já se deparam com o problema da escassez da água, sistematicamente agravado pela poluição descontrolada.

No Rio de Janeiro, além do fenômeno da contaminação das águas do Rio Guandu por esgotos domésticos, industriais e lixo, estudos recentes da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais, divulgados pela mídia, revelaram também a existência de metais pesados na água de praticamente todos os rios do Estado, inclusive no Guandu. Isso demonstra que não há exageros nas denúncias e advertências que a ASEAC vem fazendo: a sociedade precisa se preocupar e cobrar providências urgentes das autoridades, se quiser sobreviver como cidade na área geográfica do Rio de Janeiro.

“Quem passeia pela beirada do Rio Guandu no km 39 entre Seropédica e Nova Iguaçu, encontra dezenas de despachos, animais em decomposição, como cavalos, cachorros, galinhas, além de esgoto de vários municípios que margeiam o Rio Guandu”.

Mas, como diz o ditado popular, “foi preciso a porta arrombada para que fosse colocada a tranca”. Não fosse o verdadeiro pânico que tomou conta da população do Rio, que reagiu assustada com a cor e o cheiro da água fornecida pelo Sistema Guandu, no início do mês de novembro, devido às fortes chuvas na região (que aumentaram a incidência de algas e sujeira na água bruta), provavelmente o problema iria continuar no campo das discussões teóricas. E até que o rio Paraíba do Sul e o próprio sistema Guandu perdessem completamente sua capacidade de depuração, como já ocorreu com os rios Guandu Mirim e Botas, provavelmente as denúncias dos técnicos não encontrariam eco e nenhuma solução prática e mais séria seria tomada.

A gravidade do atual quadro de degradação em que se encontra o rio Paraíba do Sul não pode ser constatado das janelas dos gabinetes dos tecnocratas do governo, instalados a cerca de 250 km de onde o rio ganha o território fluminense e a 60 km da ETA do Guandu.

Mas se eles se dispuserem a uma rápida visita, poderão ver de perto aparelhos de TV, garrafas de refrigerante (PET), sacos plásticos, lixo de toda sorte e qualidade boiando nas águas calmas do Paraíba. Isto sem falar nos lixões a céu aberto despejando chorume, dejetos em suas águas; manilhas despejando esgotos “in natura” de casas e hospitais; criações de animais; erosão pelo desmatamento, que vem acabando também com as matas ciliares do ecossistema; o assoreamento; a extração ilegal de areia, enfim todo tipo de agressão às águas que matam a sede da população de diversas cidades, inclusive da capital.

A rigor, cerca de 12 milhões de pessoas dependem das águas do Paraíba. E mesmo assim, 152 municípios, entre os estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, despejam um milhão de litros de esgotos sem qualquer tratamento em seus 1.100 km de extensão.

Isto é agravado, no trecho fluminense, por cerca de 700 indústrias localizadas às margens do rio, 47 delas potencialmente perigosas – que fazem do Paraíba do Sul um rio à beira da morte. Para completar o caos, o Guandu recebe contribuições também dos rios dos Poços e Queimados, que deságuam a cinco quilômetros do ponto de captação de água da ETA. Os dois rios, por sua vez, recebem, além de lixo e esgoto, todos os dejetos do Distrito Industrial de Queimados, com suas 26 indústrias, cadastradas em Queimados e Santa Cruz.

Ao todo, são cerca de 80 pontos de extração de areia, que agravam o problema do assoreamento. Como se não bastasse, a cerca de 500 metros da captação está instalado o “lixão” de Nova Iguaçu. E para agravar ainda mais a questão, via rio dos Poços, o Guandu, com suas margens desmatadas e ocupadas irregularmente, recebe também detritos de lixões de outros municípios, como Queimados, Japeri, Itaguai e Paracambi.  

O problema do rio Paraíba do Sul é que ele tem múltiplos usos – pesca, balneabilidade, esgotamento doméstico e industrial, geração de energia etc. E todo mundo usa e abusa do rio, mas não cuida – afirma o assessor da Comissão de Meio Ambiente da Assembléia Legislativa do Estado (ALERJ), José Roberto Araújo, responsável pelo acompanhamento do rio junto à Comissão. Segundo ele, o maior problema do Paraíba, hoje, não são os rejeitos industriais, mas o esgoto doméstico que é derramado em seu leito, sem controle e sem qualquer tratamento.

Agua com cheiro forte de esgoto e escura
A água com cor escura de esgoto

Alguma coisa tem de ser feito urgentemente.

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