HISTÓRIA DE UMA ALMA
Manuscrito «A»
ALENÇON (1873 – 1877) Janeiro de 1895
História primaveril de uma Florzinha branca escrita por ela mesma e
dedicada à Reverenda Madre Inês de Jesus.
A vós, querida Madre, que sois duplamente minha mãe, quero confiar a
história de minha alma… No dia em que me pedistes para fazê-lo,
cheguei a pensar que isso dissiparia meu coração, ao ocupá-lo consigo
mesmo; mas depois Jesus me levou a compreender que, obedecendo
com toda simplicidade, eu o agradaria. Aliás, só quero uma coisa:
Começar a cantar o que repetirei por toda a eternidade: “As
Misericórdias do Senhor!!!”…
Antes de pegar a caneta, ajoelhei-me diante da imagem de Maria
(aquela mesma que tantas provas nos deu das maternas predileções da
Rainha do céu por nossa família), e lhe pedi que guiasse minha mão
para que eu não escrevesse uma linha sequer que não a agradasse. Em
seguida, abrindo o Evangelho, meus olhos pousaram sobre estas
palavras: «Jesus, tendo subido a uma montanha, chamou a si quem Ele
quis; e vieram a Ele” (são Marcos, cap. III, v. 13). Eis o mistério de
minha vocação, de minha vida inteira, e, sobretudo, o mistério dos
privilégios dispensados por Jesus à minha alma… Não chama os que são
dignos, mas quem Ele quer, ou, como diz São Paulo: “Farei misericórdia
a quem eu fizer misericórdia; terei compaixão de quem eu tiver
compaixão. Desta forma, a escolha não depende daquele que quer, nem
daquele que corre, mas da misericórdia de Deus” (Carta aos Romanos,
cap. IX, v. 15 e 16).
Durante muito tempo eu me perguntava por que Deus tinha
preferências, por todas as almas não recebiam a mesma medida de
graças. Estranhava ao vê-lo prodigalizar favores extraordinários aos
santos que o haviam ofendido, como são Paulo ou santo Agostinho, a
quem forçava, por assim dizer, a receber suas graças; e quando lia a
vida daqueles santos a quem o Senhor acariciou desde o berço até a
sepultura, retirando de seu caminho todos os obstáculos que os
impedisse de se elevar até Ele e provendo essas almas com tais
benefícios para que nada lhes ofuscasse o brilho imaculado de suas
vestes batismais, eu me perguntava por que tantos pobres selvagens,
por exemplo, morriam antes mesmo de ouvir ou sequer pronunciar o
nome de Deus…
Jesus quis instruir-me a respeito deste mistério. Pôs diante dos meus
olhos o livro da natureza e compreendi que todas as flores por ele
criadas são belas, e que o esplendor da rosa e a brancura do lírio não
tiram o perfume da humilde violeta nem a simplicidade encantadora da
margarida… Compreendi que se todas as flores quisessem ser rosas, a
natureza perderia sua pompa primaveril e os campos já não seriam
salpicados de florzinhas…
O mesmo ocorre no mundo das almas, o jardim de Jesus. Ele quis criar
grandes santos, que podem ser comparados aos lírios e às rosas; mas
criou também outros menores, e estes devem se conformar em ser
margaridas ou violetas destinadas a alegrar os olhos de Deus quando
contempla seus pés. A perfeição consiste em fazer sua vontade, em ser
aquilo que Ele quer que sejamos…
Compreendi também que o amor de Nosso Senhor se manifesta tanto
na alma mais simples, que não coloca nenhuma resistência a sua graça,
quanto na alma mais sublime. É próprio do amor abaixar-se. Se todas
as almas se parecessem às dos santos doutores que iluminaram a Igreja
com a luz de sua doutrina, parece que Deus não teria que se abaixar
bastante para vir a seus corações. Mas criou a criança, que nada sabe e
só balbucia fracos gemidos, criou o pobre selvagem, que só tem a lei
natural para guiá-lo. E também a seus corações ele se abaixa! São suas
flores campestres, cuja simplicidade o encanta…
Assim se abaixando, Deus mostra sua grandeza infinita. Assim como o
sol ilumina os cedros e cada florzinha, como se somente ela existisse
sobre a terra, da mesma forma Deus cuida pessoalmente de cada alma,
como se não existisse outra além dela. E assim como na natureza todas
as estações estão de tal modo organizadas que no momento certo se
abre até a mais humilde margarida, da mesma forma tudo concorre
para o bem de cada alma.
Certamente, querida Madre, estais vos perguntando onde quero chegar,
pois até agora nada disse que se pareça com a história de minha vida.
Mas pedistes-me que escrevesse tudo que viesse ao meu pensamento,
sem nenhum constrangimento. Assim sendo, o que vou escrever não é
propriamente minha vida, mas meus pensamentos sobre as graças que
Deus se dignou conceder-me.
Encontro-me num momento de minha existência em que posso lançar
um olhar sobre o passado; minha alma amadureceu no crisol das
provações exteriores e interiores. Agora, como a flor fortalecida pela
tempestade, levanto a cabeça e vejo que em mim se realizam as
palavras do salmo XXII: «O Senhor é meu pastor, nada me falta: em
verdes pastagens me faz repousar; ele me conduz para fontes tranqüilas
e restaura minhas forças… Ainda que eu ande pelo vale das sombras,
nenhum mal temerei, porque tu, vais comigo!” O Senhor sempre foi
compassivo e misericordioso para comigo… lento na ira e rico em
misericórdia… (Salmo CII, v. 8). Por isso, Madre, canto feliz ao vosso
lado as misericórdias do Senhor… Somente para vós vou escrever a
história da florzinha colhida por Jesus. Por isso, vou falar-vos com total
confiança, sem preocupar-me com estilo nem com as numerosas
digressões que possa fazer. Um coração de mãe sempre compreende
seu filho, mesmo quando só sabe balbuciar. Portanto, estou certa de
que serei compreendida e decifrada por vós, que formastes meu coração
e o oferecestes a Jesus!…
Parece-me que se uma florzinha pudesse falar, contaria simplesmente o
que Deus fez para ela, sem procurar esconder os presentes por ele
concedidos. Não diria, a pretexto de falsa humildade, que é feia e sem
perfume, que o sol roubou-lhe o esplendor e que as tempestades
quebraram-lhe o talo, quando está intimamente convencida do
contrário.
A flor que vai contar sua história se alegra em poder apregoar as
delicadezas totalmente gratuitas de Jesus. Reconhece que nada havia
nela capaz de atrair seus olhares divinos, e que somente sua
misericórdia fez tudo que de bom há nela…
Ele a fez nascer numa terra santa e toda impregnada por um perfume
virginal. Ele fez com que a precedessem oito lírios reluzentes de
brancura. Em seu amor, quis preservar sua florzinha do sopro
envenenado do mundo; e mal se entreabria sua corola, este divino
Salvador a transplantou para a montanha do Carmelo, onde os dois
lírios que a haviam cercado de carinho e embalado na primavera de sua
vida já exalavam seu suave perfume…
Já se passaram sete anos desde que a florzinha se enraizou no jardim
do Esposo das Virgens, e agora três lírios – a contar com ela – balançam
ali suas corolas perfumadas; um pouco mais longe, outro lírio está se
abrindo ante o olhar de Jesus. E os dois caules benditos dos quais
brotaram estas flores já estão reunidos na pátria celestial para
sempre… Aí se reencontraram com os outros quatro lírios que não
chegaram a abrir suas corolas na terra… Oh! Que Jesus se digne não
deixar por muito tempo nesta terra estranha as flores que ainda
permanecem no exílio! que em breve o ramo de lírios se complete no
céu!
Acabo, Madre, de resumir em poucas palavras o que Deus fez por mim.
Agora vou entrar nos detalhes de minha vida de criança. Sei que onde
qualquer outra pessoa só veria um relato cansativo, vosso coração de
mãe encontrará verdadeiras delícias… Além do mais, as lembranças que
vou evocar também vos pertencem, pois ao vosso lado passei minha
infância e tenho a felicidade de pertencer a pais inigualáveis que nos
cercaram dos mesmos cuidados e do mesmo carinho. Que eles
abençoem a menor de suas filhas e a ajudem a cantar as misericórdias
do Senhor!
Na história de minha alma, até minha entrada no Carmelo, distingo três
períodos bem definidos: o primeiro, embora de curta duração, não é o
menos fecundo em recordações. Ele vai do despertar de minha razão
até a partida de nossa querida mãe para a pátria celeste.
Deus deu-me a graça de despertar minha inteligência muito cedo e de
gravar tão profundamente em minha memória as recordações de minha
infância, de modo que me parecem ter acontecido ontem. Sem dúvida,
Jesus, em seu amor, quis fazer-me conhecer a mãe incomparável que
me dera, mas que sua mão divina tinha pressa de coroar no céu!
Durante toda minha vida, Deus quis cercar-me de amor. Minhas
primeiras recordações estão repletas dos mas ternos sorrisos e
carícias… Mas, se ele colocara muito amor perto de mim, também o pôs
em meu coração, criando-o amoroso e sensível. Assim, eu amava muito
papai e mamãe, e lhes demonstrava meu carinho de mil maneiras, pois
eu era muito expansiva. Só que os meios que eu usava eram, às vezes,
estranhos, como o prova este trecho de uma carta de mamãe:
“A menina é um verdadeiro diabinho, que vem me acariciar desejandome
a morte: ´Como eu gostaria que morresses, minha pobre
mãezinha…!´censuram-na e ela responde: ´Mas é para ires para o céu!
Não dizes que precisamos morrer para ir para lá?´ Em seus excessos de
amor, deseja também a morte de seu pai”.
No dia 25 de junho de 1874, quando eu tinha apenas 18 meses, eis o
que mamãe dizia de mim:
«Vosso pai acaba de instalar um balanço. Celina está deslumbrada, mas
é preciso ver a pequena balançar-se! É de rir; segura-se como uma
moça, não há perigo de que se solte a corda e quando a balançam mais
devagar, grita. Nós a amarramos na frente com outra corda, mas apesar
de tudo não fico tranqüila quando a vejo lá em cima.
“Recentemente aconteceu uma aventura engraçada com a pequena.
Tenho costume de ir à missa das cinco e meia. Nos primeiros dias, não
ousava deixá-la sozinha; mas ao ver que ela nunca acordava, decidi
deixá-la. Deitava-a na minha cama e puxava o berço de modo que seria
impossível que ela caísse. Mas um dia me esqueci de puxar o berço.
Quando cheguei, vi que a pequena não estava na cama. Neste momento
escutei um grito; olhei e a vi sentada numa cadeira que estava de frente
à cabeceira de minha cama, com a cabecinha deitada no travesseiro e
dormindo mal, pois estava mal acomodada. Não entendi como pôde cair
sentada naquela cadeira, pois ela estava deitada. Dei graças a Deus por
que nenhum mal lhe aconteceu; foi realmente providencial, pois poderia
ter rolado no chão. Seu anjo de guarda cuidou dela, como também as
almas do purgatório, a quem diariamente faço uma oração para que
protejam a pequena. Assim vejo a coisa… vejam como quiserem…”
No final da carta, mamãe acrescentava:«Eis que o bebezinho acaba de
passar a mãozinha sobre o meu rosto e me beijar. Esta pobre pequena
não quer me deixar nem por um instante e não sai de perto de mim.
Gosta muito de ir ao jardim, mas se eu também não for, ela não quer
ficar. Começa a chorar e só pára quando a trazem a mim”.
(Aqui a passagem de uma outra carta): “Teresinha perguntou-me outro
dia se iria para o céu. Disse-lhe que sim, se se comportar direito.
Respondeu-me: “Sim, mas se eu não for ajuizada irei para o inferno…
mas sei o que farei: voaria contigo, que estarás no céu. Mas como Deus
faria para me pegar? Tu me segurarias bem forte em teus braços?” Vi
em seus olhos que acreditava piamente que o Bom Deus nada poderia
fazer-lhe ainda que estivesse nos braços de sua mãe…
«Maria gosta muito de sua irmãzinha e a acha muito mimosa. Isto não é
de se estranhar, pois esta pobre pequena tem receio de desagradá-la
nas mínimas coisas. Ontem, sabendo que ela tanto gosta de rosas, quis
dar-lhe uma, mas suplicou-me que não a colhesse, porque Maria
proibira. Estava rubra de emoção. Assim mesmo, dei-lhe duas e ela não
queria entrar em casa. Embora eu lhe dissesse que as rosas eram
minhas, ela afirmava: “Não, as rosas são de Maria…”
«A menina se emociona facilmente. Quando faz alguma traquinagem,
todos precisam saber. Ontem, tendo rasgado, sem querer, um canto do
papel de parede, ficou em estado lastimável, e quis logo contar ao pai.
Quando este chegou, quatro horas depois, ninguém se lembrava mais
do acontecido e ela foi correndo dizer a Maria: “Diga logo para o papai
que eu rasguei o papel”. E ficou esperando sua condenação como um
criminoso; mas tem em sua pequena idéia que obterá mais facilmente o
perdão se confessar a falta”
[continuação] Eu gostava muito de minha querida madrinha. Sem deixar
perceber, prestava muita atenção em tudo que se fazia e se dizia ao
meu redor. Tenho a impressão de que julgava as coisas como agora.
Escutava atentamente o que Maria ensinava a Celina, para fazer como
ela. Depois de sua saída da Visitação, para receber licença para entrar
em seu quarto durante as aulas que Celina lhe dava, comportava-me
muito bem e fazia tudo que ela mandava. Por isso, me enchiam de
presentes que, apesar do pouco valor, muito me alegravam.
Eu tinha muito orgulho de minhas duas irmãs maiores, mas meu ideal
de criança era Paulina… Quando comecei a falar e mamãe me
perguntava: “Em quem estás pensando?”, a resposta era sempre a
mesma: “Em Paulina…!” Outras vezes, passava meu dedinho na vidraça
e dizia: “Estou escrevendo: Paulina!…”
Freqüentemente ouvia dizer que Paulina seria religiosa, e, então, sem
saber o que significava isso, pensava: Eu também serei religiosa. Esta é
uma de minhas primeiras recordações e, desde então, nunca mudei de
intenção… Fostes vós, querida Madre, a pessoa que Jesus escolheu para
me fazer noiva dele; não estavas na ocasião perto de mim, mas já se
havia formado um laço entre nossas almas… Éreis meu ideal, eu queria
parecer-me convosco, e foi o vosso exemplo que me atraiu, desde os
dois anos de idade, ao Esposo das virgens. Quantos doces pensamentos
quisera confiar-vos! Mas preciso prosseguir a história da florzinha, com
sua história completa e geral, pois se eu quisesse falar detalhadamente
de suas relações com “Paulina”, teria que abandonar todo o restante…!
Minha querida Leoninha também tinha um lugar importante no meu
coração. Amava-me muito. Quando toda a família saía para passear, à
tarde, ela cuidava de mim… Parece-me ainda ouvir suas agradáveis
cantigas para embalar meu sono… Procurava sempre me agradar e eu
sofreria muito se lhe desse algum desgosto. Lembro-me muito bem de
sua primeira comunhão, especialmente do momento em que me pôs no
colo para entrarmos na casa paroquial. Achei tão bonito ser carregada
por uma irmã maior, toda vestida de branco como eu…! À noite,
colocaram-me para dormir cedo, pois eu era muito pequena para ficar
para o jantar festivo; mas ainda vejo papai trazendo, no momento da
sobremesa, pedaços do bolo para sua rainhazinha.
No dia seguinte, ou alguns dias depois, fomos com mamãe à casa da
coleguinha de Leônia. No dia seguinte, ou poucos dias depois, fomos
com mamãe à casa da companheirinha de Leônia. Acredito que foi
naquele dia que nossa boa mamãezinha nos levou atrás de uma parede
para nos dar vinho depois do jantar (que nos servira a pobre senhora
Dagorau), pois não queria desagradar à boa mulher e tampouco queria
que nos faltasse algo… Como é delicado o coração de uma mãe! Sabe
manifestar sua ternura com mil cuidados antecipados nos quais ninguém
pensaria…!
Agora, resta-me falar da minha querida Celina, a companheirinha de
minha infância, mas as recordações são tantas, que não sei quais
escolherei. Vou extrair algumas passagens das cartas que mamãe vos
mandava para a Visitação, mas não copiarei tudo, porque me alongaria
demais.
No dia 10 de julho de 1873 (ano de meu nascimento), eis o que vos
dizia: «A ama trouxe Teresinha na quinta-feira. Passou rindo o tempo
todo. Foi a Celininha de quem mais gostou. Ria às gargalhadas com ela.
Parece que já quer brincar e não demorará a fazê-lo. Fica em pé sobre
as perninhas duras como estacas. Creio que em breve começará a andar
e terá bom caráter. Parece muito inteligente e tem um aspecto de
predestinada…”
Mas foi sobretudo depois de desmamada que demonstrei meu afeto por
minha querida Celininha. Nós nos compreendíamos muito bem; só que
eu era muito mais esperta e menos ingênua que ela. Mesmo sendo três
anos e meio mais nova, parecíamos ter a mesma idade. Eis o trecho de
uma carta de mamãe, no qual vereis o quanto Celina era boa e eu má:
«Minha Celininha é totalmente inclinada à virtude. É uma inclinação
arraigada em seu íntimo. Tem alma pura e repugnância ao pecado.
Quanto ao pequeno furão ainda não sabemos como será. É tão pequeno
e atrapalhado! Tem inteligência superior à de Celina, mas é menos doce
e, sobretudo, de uma teimosia quase indomável. Quando diz “não”,
nada a faz ceder; ainda que a colocássemos o dia todo no porão, ainda
preferiria passar a noite aí a ter que dizer “sim”.
“Porém, tem um coração de ouro, é muito carinhosa e muito franca, é
estranho vê-Ia correr atrás de mim para confessar algo – Mamãe,
empurrei Celina uma vez, bati nela uma vez, mas não vou fazer mais –
(é assim em tudo o que faz). Quinta-feira à noite, fomos dar um passeio
nos arredores da estação ferroviária. Quis a todo custo entrar na sala de
espera para ir buscar Paulina. Corria à nossa frente com uma alegria
contagiante. Porém, quando percebeu que era preciso voltar para casa
sem embarcar para ir buscar Paulina, chorou durante todo o percurso”.
Esse último trecho da carta me faz lembrar a felicidade que sentia
vendo-vos voltar da Visitação, vós, querida Madre, me pegáveis no colo
e Maria carregava Celina. Então, fazia -vos mil carícias e inclinava-me
para trás, a fim de admirar vossa grande trança… e me dáveis um
tablete de chocolate que tínheis guardado durante três meses, imagineis
que relíquia era para mim!…
Lembro-me também da viagem que fiz a Le Mans. Era a primeira vez
que viajava de trem. Que alegria ver-me viajando sozinha com
mamãe!… Porém, não sei mais por quê, pus-me a chorar e essa pobre
mamãe só pôde apresentar à minha tia de Le Mans uma feiurinha rubra
pelas lágrimas vertidas a caminho… Não conservei lembrança alguma
do parlatório, só do momento em que minha tia me entregou um
camundongo branco e uma cestinha de papel bristol cheia de bombons
sobre os quais havia dois bonitos anéis de açúcar bem do tamanho do
meu dedo; logo gritei: “Que bom! tem um anel para Celina”. Mas que
tristeza! Peguei minha cestinha pela alça, dei a outra mão a mamãe e
partimos. Depois de alguns passos, olhei minha cestinha e vi que meus
bombons estavam quase todos esparramados pela rua, como as pedras
do pequeno polegar… Olhei com mais atenção e constatei que um dos
preciosos anéis sofrera a sorte fatal dos bombons… Não tinha mais
nada para dar a Celina!… nesse momento, minha dor explode, peço
para voltar, mamãe não parece me dar atenção. Era demais. Aos gritos
seguiram-se minhas lágrimas… Não conseguia compreender como ela
não compartilhava da minha tristeza e isso aumentava muito a minha
dor…
Agora volto às cartas nas quais mamãe vos fala de Celina e de mim. É o
melhor meio de que disponho para revelar-vos meu caráter. Eis um
trecho no qual meus defeitos despontam com intenso brilho.
“Eis que Celina brinca com a pequena de jogar cubos, brigam de vez em
quando. Celina cede para ter uma pérola na sua coroa. Vejo-me
obrigada a corrigir esse pobre bebê, que fica terrivelmente furioso
quando as coisas não andam como ela quer e rola por terra como uma
desesperada, acreditando que tudo está perdido. Há momentos em que
é mais forte que ela, fica sufocada. É uma criança muito agitada, porém
muito mimosa e muito inteligente, lembra-se de tudo”.
Estais vendo, Madre, como eu estava longe de ser uma menina sem
defeitos! nem se podia dizer de mim “Que era boazinha quando dormia”,
pois de noite era ainda mais agitada que de dia, mandava para os ares
todas as cobertas e (embora dormindo) dava cabeçadas na madeira da
minha caminha; a dor me despertava e então dizia: “Mãe, bati-me!…”
Essa pobre mãe era obrigada a levantar-se e constatava que,
realmente, tinha galos na testa, que eu me batera. Cobria-me e voltava
a deitar-se, mas depois de algum tempo eu recomeçava a me bater.
Tanto que foram obrigados a me amarrar na minha cama. Todas as
noites Celininha vinha amarrar as numerosas cordas destinadas a
impedir o duendinho de se chocar e acordar mamãe. Esta medida deu
bom resultado e passei a ficar boazinha enquanto dormia…-
Havia ainda outro defeito que tinha (quando acordada) e do qual
mamãe não fala em suas cartas. Era um grande amor-próprio. Disso vos
darei apenas dois exemplos a fim de não alongar demais minha
narração. – Mamãe disse-me um dia: – “Minha Teresinha, se te
prontificares a beijar o chão, dar-te-ei um cinco centavos”. Para mim
cinco centavos eram uma verdadeira fortuna. Para o ganhar, não me era
necessário diminuir minha altura, pois meu pequeno porte não
constituía grande distância entre mim e o chão. Minha altivez, no
entanto, se revoltou com a idéia de “beijar o chão”. Mantendo-me bem
empertigada, digo à mamãe: – “Oh! não, minha mãezinha, prefiro ficar
sem os cinco centavos…”
De outra feita tínhamos de ir até Grogny à casa da Sra. Monnier. Mamãe
falou à Maria me pusesse o lindo vestido tido azul celeste, com
guarnição de rendas, mas não me deixasse com os braços nus, para não
se queimarem ao sol. Deixei que me vestissem com aquela displicência
que deveria ser própria de crianças com a minha idade; mas,
interiormente, pensava que teria ficado muito mais graciosa com meus
bracinhos nus.
Com uma índole como a minha, se fosse criada por pais carentes de
virtude, ou até se fosse como Celina mimada por Luísa, ter-me-ia
tornado bem maldosa e talvez me tivesse perdido … Mas Jesus olhava
pela sua esposinha. Quis que tudo redundasse para o bem dela. Seus
próprios defeitos, refreados a tempo, serviram-lhe para crescer na
perfeição.. . Tendo amor-próprio e também amor do bem, tão logo
comecei a pensar com sisudez (o que fiz desde pequenina) bastava
dizerem-me que alguma cousa não ficava bem, para que não precisasse
ouvi-lo dizer duas vezes… Nas cartas de Mamãe vejo, com satisfação,
que na medida que ia ficando maior lhe proporcionava mais consolo.
Não tendo em redor de mim senão bons exemplos, era natural que os
quisesse seguir. Veja-se o que ela escrevia em 1876: – “A própria
Teresa que por vezes quer pôr-se a marcar suas práticas religiosas”… É
uma criança encantadora, sutil como a sombra, muito vivaz, mas seu
coração é sensível. Celina e ela querem-se muito, bastam as duas para
se entreterem. Todos os dias, depois de terem almoçado, Celina vai
buscar seu galinho, pega ao mesmo tempo a galinha para Teresa. Por
mim não o consigo, mas ela é tão ágil que lhe deita a mão no primeiro
bote. Depois cão as duas com as aves sentar-se no canto da lareira e
assim se distraem por muito tempo. (Foi Rosinha que me fizera
presente da galinha e do galo. Eu tinha dado o galo à Celina). Outro dia
Celina deitara comigo. Teresa deitara na cama de Celina no segundo
andar. Tinha instado com Luísa. a trouxesse para baixo, a fim de lhe
porem o vestido. Luísa sobe para a buscar, encontra a cama vazia.
Teresa tinha ouvido Celina e descera com ela. Luísa lhe diz: “- Não
queres, pois, descer para te vestires?” – “Oh! não, pobre de minha
Luísa, somos como as duas franguinhas, não podemos separar-nos!”
Enquanto assim diziam, abraçavam-se e aconchegavam-se uma a
outra… Depois, à noite, Luísa, Celina e Leônia foram ao círculo católico
e deixaram a pobre Teresa, que bem compreendia ser muito pequena
para ir junto. Dizia: – “Se pelo menos quisessem deitar-me na cama de
Celina!”… Mas, não, não o quiseram… Nada falou e sozinha ficou com
sua lamparina. Um quarto de hora depois dormia a sono solto… ”
Outro dia Mamãe ainda escreveu: “Celina e Teresa são inseparáveis.
Não é possível pôr os olhos em duas crianças que se queiram tanto uma
a outra. Quando Maria vem buscar Celina para a lição, a coitada da
Teresa se desfaz em pranto. Ai! que acontecerá com ela, sua amiguinha
vai deixá-la… Maria fica com dó, leva-a também e a pobre pequerrucha
permanece sentada numa cadeira duas ou três horas. Dão-lhe pérolas
para enfiar ou um retalho para coser. Tem receio de mexer-se e, de vez
em quando solta fortes suspiros. Quando a agulha se desenfia, tenta
enfiá-la de novo. É interessante observá-la como não o pode conseguir e
não quer dar trabalho a Maria. Sem demora, a gente vê duas grossas
lágrimas correrem-lhe pelas faces …Maria não tarda em consolá-la,
torna a enfiar a agulha, e o pobre anjinho sorri através de suas
lágrimas…”
Lembra-me, com efeito, que não podia ficar sem Celina. Preferia sair da
refeição antes de terminar a sobremesa, do que não lhe ir atrás, tão
logo se levantasse. Virava-me em minha cadeira alta, a pedir que me
descessem, e depois íamos brincar juntas. Íamos às vezes com a
pequena “prefeita”, o que muito me agradava por causa do parque e de
todos os lindos brinquedos que ela nos mostrava, mas era mais na
intenção de contentar Celina que ia para lá, preferindo quedar-me em
nosso pequeno jardim a esgaravatar os muros, pois extraíamos todas as
faiscantes palhetinhas que ali se achavam e íamos em seguida vendê-
las ao Papai que no-las comprava com toda a seriedade.
No domingo, sendo muito pequena para freqüentar os ofícios religiosos,
Mamãe ficava para tomar conta de mim. Comportava-me bem e só
andava na ponta dos pés durante o tempo da missa. Logo, porém, que
visse a porta abrir-se, era sem igual a explosão de alegria. Precipitavame
ao encontro de minha linda irmãzinha que estava então “enfeitada
como um oratório” . . . e dizia-lhe: “Oh! minha Celininha, dá-me
depressa pão bento!” Algumas vezes não o tinha, porque havia chegado
atrasada… Que fazer então? Era-me impossível ficar sem ele. Nisso
consistia “fuinha missa”… Encontrou-se um meio com muita rapidez. –
“Se não tens pão bento, pois então benze-o!” Dito e feito. Celina toma
uma cadeira, abre o armário da parede, pega o pão, corta um bocado,
sobre o qual, muito compenetrada, recita uma Ave-Maria, e apresentamo
em seguida. E eu, depois de [ter] feito com ele o sinal da Cruz,
como-o com grande devoção, achando-lhe, absolutamente, o gosto de
pão bento…
De vez em quando fazíamos juntas conferências espirituais: Aqui está
um exemplo que tiro das cartas de Mamãe: – “Nossas queridas
pequenas Celina e Teresa são anjos abençoados, naturezas angélicas
em miniatura. Teresa constitui a alegria, a felicidade de Maria e sua
glória; é incrível como se orgulha disso. Verdade é que tem saídas bem
singulares para sua idade. De longe ultrapassa Celina, que tem o dobro
da idade dela. Dizia Celina outro dia: – “Como pode Deus caber em
hóstia tão pequena?” Falou a pequena: “Não é tanto de admirar, uma
vez que Deus é todo-poderoso”. – “Que quer dizer Todo-poderoso?” – “É
fazer tudo o que Ele quer!.”
Um dia, julgando-se muito crescida para brincar com boneca, Leônia
veio procurar-nos a nós duas com uma cesta cheia de vestidos e de
lindos retalhos para fazer outros; por cima estava colocada sua boneca.
– “Tomai lá, minhas irmãzinhas, diz-nos ela, escolhei, dou-vos tudo
isto”. Celina estendeu a mão e tomou um pacotinho de alamares que lhe
agradava. Após um instante de reflexão, estendi a mão por minha vez e
declarei: – “Escolho tudo!” e apoderei-me da cesta sem outra
formalidade. As testemunhas da cena acharam o caso muito justo, a
própria Celina nem pensou em reclamar. (Aliás; brinquedos não lhe
faltavam, seu padrinho cumulava-a de presentes e Luísa descobria
meios de arrumar-lhe tudo quanto desejasse).
Este pequeno episódio de minha infância é o apanhado de toda a minha
vida. Mais tarde, quando se me tornou evidente o que era perfeição,
compreendi que para se tornar santa era preciso sofrer muito, ir sempre
atrás do mais perfeito e esquecer-se a si mesmo. Compreendi que na
perfeição havia muitos graus e que cada alma era livre no responder às
solicitações de Nosso Senhor, no fazer muito ou pouco por Ele, numa
palavra, no escolher entre os sacrifícios que exige. Então, como nos dias
de minha primeira infância, exclamei: “Meu Deus, escolho tudo”. Não
quero ser santa pela metade. Não me faz medo sofrer por vós, a única
cousa que me dá receio é a de ficar com minha vontade. Tomai-a vós,
pois “escolho tudo” o que vós quiserdes!. . . ”
É forçoso que pare, pois não devo ainda falar-vos de minha juventude,
mas da estouvadinha aos quatro anos de idade. Lembro-me de um
sonho que devo ter tido por volta dessa idade e que me calou
profundamente na imaginação. Sonhei uma noite que saía a passear
sozinha pelo jardim. Chegando ao pé dos degraus que precisava subir
para ali chegar, estaquei tomada de pavor. Diante de mim, rente ao
caramanchão, havia uma barrica de cal e sobre a barrica dançavam,
com espantosa agilidade, dois medonhos diabinhos, não obstante os
ferros de engomar que tinham nos pés. De chofre lançaram sobre mim
seus olhares chamejantes, mas ao mesmo instante, parecendo muito
mais assustados do que eu, precipitaram-se da barrica abaixo e foram
esconder-se na rouparia que ficava defronte. Ao vê-los tão pouco
valorosos, quis saber o que iriam fazer e acerquei-me da janela. Lá
estavam os míseros diabinhos a correr por sobre as mesas, não sabendo
o que fazer para se esquivarem do meu olhar. De vez em quando
chegavam até a janela, e olhavam com um ar inquieto, se eu ainda
estava lá e como sempre me avistassem, começavam a correr de novo
como desatinados. – Sem dúvida, este sonho nada tem de
extraordinário, acredito, no entanto, que o Bom Deus permitiu que
guarde sua lembrança, a fim de me provar que uma alma em estado de
graça nada deve temer dos demônios, que são uns poltrões, capazes de
fugir diante do olhar de uma criança…
Eis aí mais uma passagem que deparo nas cartas de mamãe. Minha
pobre Mãezinha já pressentia o fim do seu desterro: “As duas meninas
não me preocupam, estão tão bem todas as duas, são temperamentos
primorosos, serão por certo boas criaturas. Maria e tu estareis em
perfeitas condições de educá-las. Celina não comete jamais a mínima
falta voluntária. A pequerrucha será boa também. Por todo o ouro do
mundo não diria uma mentira; é de uma finura de espírito como jamais
a observei em nenhuma de vós”.
“Estava ela outro dia na mercearia com Celina e Luísa. Falava de suas
práticas e discutia fortemente com Celina. A senhora disse à Luísa: “Mas
então o que quer ela dizer? quando brinca no jardim não se ouve falar
senão de práticas. A Sra. Gaucherin mete a cabeça para fora da janela
num esforço de entender o que significa essa altercação sobre
práticas…” A coitada da pequena faz a nossa felicidade, vai ser boa, já
se vê pelo indício. Só fala do Bom Deus, por nada no mundo deixaria de
fazer suas orações. Gostaria que a visses recitar pequenas fábulas,
nunca presenciei algo de tão gentil. Encontra por si mesma a
interpretação e a tonalidade que é preciso dar, mas isto é sobretudo
quando diz: – “Criancinha de cabeça loura, onde imaginas que está o
Bom Deus?” Quando ela chega às palavras: – “Ele está lá no alto do Céu
azul”, volve o olhar para ‘cima com uma expressão angélica. Tão belo é
que a gente não se cansa de fazê-la recitar. Há em seu olhar algo de tão
celestial que nos deixa encantados! . . .”
Ó minha Mãe! Quão feliz era eu nessa idade! Já começava a desfrutar a
vida. A virtude tinha encantos para mim, e eu estava, parece-me, nas
mesmas disposições em que me acho agora, já dispondo de grande
domínio sobre meus atos. – Ah! como se foram rapidamente os
ensolarados dias de minha meninice, mas que doce impressão me
deixaram na alma! Com prazer recordo os dias em que Papai nos levava
consigo ao Pavilhão. As mínimas particularidades gravaram-se em meu
coração… Lembra-me, antes de tudo, os passeios de Domingo, nos
quais Mamãe sempre nos acompanhava. .. Sinto ainda as profundas e
poéticas impressões ‘que me nasciam na alma à vista dos trigais
esmaltados de centáureas e flores campestres. Já era aficionada pelos
longes. . . O espaço e os agigantados abetos, cuja ramagem chegava
até ao chão, deixavam-me na alma impressão semelhante à que ainda
hoje sinto quando contemplo a natureza… Muitas vezes nestes longos
passeios encontrávamos com pobres e era sempre a Teresinha
incumbida de dar-lhes a esmola, o que a deixava toda venturosa. Mas,
também outras vezes, achando Papai que a caminhada ficava longa
demais para sua rainhazinha, levava-a mais cedo de volta para casa
(com grande desgosto dela). Para a consolar Celma enchia então de
margaridas seu lindo cestinho e dava-lho, quando chegava em casa. A
boa da vovó-“, ainda mal, achava que a netinha tinha flores demais,
tomava-lhe grande parte para sua imagem da Santa Virgem… Isso não
agradava à Teresinha, mas ela muito se precavia para que nada
dissesse. Tinha adquirido o bom hábito de nunca se queixar, mesmo
quando lhe tiravam o que era seu, ou então quando era acusada
injustamente. Preferia calar e não escusar-se. Não era mérito seu, mas
virtude natural… Que pena que esta boa disposição se tenha
desvanecido! …
Oh! realmente, tudo me sorria na terra. Deparava com flores a cada
passo que desse, e minha boa índole contribuía também para me tornar
a vida agradável. Ia, porém, começar um novo período para minha
alma. Devia passar pelo cadinho da provação e sofrer desde a minha
infância, a fim de que pudesse ser oferecida mais cedo a Jesus. Assim
como as flores da primavera começam a germinar debaixo da neve e
desabrocham nos primeiros raios do Sol, assim também a florinha, cujas
reminiscências estou a escrever, teve que passar pelo inverno da
provação…
Todos os pormenores da doença de nossa querida Mãe estão ainda vivos
em meu coração. Lembro-me, principalmente, das últimas semanas que
passou na terra. Celina e eu vivíamos como pequeninas exiladas. Todas
as manhãs, a Sra. Leriche vinha buscar-nos, e passávamos o dia em
casa dela. Um dia não tivemos tempo de fazer nossa oração antes de
sair, e no caminho disse-me Celina bem baixinho: “Convém dizer-lhe
que não fizemos nossa oração?…” – “Oh! sim”, respondi-lhe. Então, com
bastante timidez, disse-o à Sra. Leriche. Respondeu-nos ela: – “Está
certo, minhas filhinhas, ireis fazê-la”. E depois, largando-nos ambas
num quarto grande, foi-se embora… Então Celina olhou para mim, e
dissemos: “Ah! não é como a Mamãe… Sempre nos fazia recitar nossa
oração!” … Quando brincávamos com as crianças, o pensamento de
nossa querida Mãe sempre nos acompanhava. Certa vez, tendo ganhado
um lindo damasco, Celina abaixou-se e cochichou-me: “Não vamos
comê-lo, da-lo-ei à Mamãe”. Que lástima! a coitada de nossa Mãezinha
já estava doente demais para comer as frutas da terra. Já não se
saciaria senão no Céu com a glória de Deus e não beberia senão com
Jesus o misterioso vinho, do qual Ele falara em sua última Ceia, quando
disse que o tomaria conosco no reino de seu Pai’.
A comovente cerimônia da Extrema-Unção também me ficou gravada na
alma. Vejo ainda o lugar onde me achava ao lado de Celina. Todas as
cinco estávamos pela ordem de idade, e nosso pobre Paizinho estava ali
também e soluçava…
No próprio dia ou no dia imediato à partida da Mamãe, tomou-me nos
braços, dizendo-me: “Vem beijar pela última vez tua pobre Mãezinha”. E
sem dizer nada cheguei os lábios à fronte de minha Mãe querida… Não
me lembra ter chorado muito. Não dizia a ninguém os profundos
sentimentos que experimentava… Olhava e escutava em silêncio…
Ninguém tinha tempo de ocupar-se comigo. Por causa disso via muitas
cousas que teriam a intenção de ocultar-me. Primeiramente, dei comigo
diante da tampa do esquife… Fiquei longo tempo parada a contemplá-
lo. Nunca tinha visto nenhum, e, no entanto, compreendia… Era tão
pequena que, apesar de estar pouco alto o corpo da Mamãe, precisava
erguer a cabeça para o avistar de cima, e parecia-me muito grande…
muito triste… Quinze anos mais tarde, estive diante de outro esquife, o
da Madre Genoveva 4. Tinha a mesma medida que o da Mamãe, e
julguei estar ainda nos dias de minha infância! … Todas ás minhas
reminiscências retornaram a tropel. Era por certo a mesma Teresinha
que estava a olhar, mas havia crescido e o esquife parecia-lhe pequeno.
Já não precisava erguer a cabeça para o enxergar. Já não a erguia
senão para contemplar o Céu que lhe parecia bem alegre, pois todas as
suas provações tinham tomado um fim e o inverno de sua alma passara
para sempre…
No dia que a Igreja lançou a bênção sobre os despojos mortais de nossa
Mãezinha do Céu, nosso Deus quis dar-me outra na terra, e quis que a
escolhesse livremente. Está vamos juntas, todas as cinco, a olhar umas
às outras, Luísa também estava ali. Quando viu Celina e a mim disse:
“Pobres pequenas, já não tendes Mãe!…” Então Celina lançou-se aos
braços de Maria e disse: “Pois bem! Mamãe serás tu”. Eu, habituada a
fazer igual a ela, voltei-me, no entanto, para vós, minha Mãe, e como se
o porvir já tivesse rompido seu véu, atirei-me aos vossos braços,
exclamando “Pois, sim, para mim Paulina será Mamãe!”
Como o disse mais acima, foi a partir dessa época de minha vida que
tive de iniciar o segundo período de minha existência, o mais doloroso
dos três, mormente desde a entrada no Carmelo daquela que tinha
escolhido como minha segunda “Mamãe”. Este período vai da idade de
quatro anos e meio até a data de catorze anos, época em que recuperei
minha índole de criança, bem justamente quando entrava no lado sério
da vida.
Devo dizer-vos, minha Mãe, que depois da morte da Mamãe minha boa
índole mudou por completo. Tão viva; tão expansiva, que era, fiquei
tímida e frouxa, sensível a mais não poder. Bastava um olhar para me
desfazer em lágrimas. Era preciso que ninguém me desse maior atenção
para me sentir contente. Não podia tolerar a companhia de pessoas
estranhas, e só recuperava minha alegre disposição na intimidade da
família… Continuava, entretanto, a ser cercada do mais sensível
carinho. Ao amor que já possuía, o tão meigo coração do Papai teve por
acréscimo um amor verdadeiramente maternal! … Minha Mãe, vós e
Maria não éreis para mim as mais carinhosas e mais abnegadas das
mães?… Ah! se o Bom Deus não tivesse prodigalizado à sua florzinha
seus raios benfazejos, ela nunca teria podido aclimar-se na terra. Era
ainda débil demais para suportar chuvas e tempestades. Precisava de
calor, de um orvalho suave, de um bafejo primaveril. Nunca careceu de
todos estes benefícios. Jesus lhos fez encontrar até debaixo da neve da
provação!
Não senti nenhum desgosto por deixar Alençon. Crianças gostam de
mudança e com prazer vim para Lisieux. Tenho lembrança da viagem,
da chegada pela tarde à casa de minha tia. Vejo ainda Joana e Maria
que nos aguardavam à porta… Estava muito satisfeita de ter umas
priminhas tão amáveis. Gostava tanto delas como de minha tia, e
sobretudo de meu tio; somente que ele me fazia medo e não me sentia
tão à vontade em sua casa como nos Buissonnets, onde minha vida era
realmente feliz… Logo de manhã vínheis para junto de mim a
perguntar-me se já entregara meu coração ao Bom Deus. Em seguida
me púnheis a roupa, enquanto me faláveis Dele e depois ao vosso lado
fazia minha oração. Depois, vinha a lição de leitura. A primeira palavra
que consegui soletrar sozinha foi esta: “Céus”. Minha querida madrinha
encarregava-se das aulas de caligrafia, e vós, minha Mãe, de todas as
outras. Não tinha muita facilidade de aprender, mas dispunha de
bastante memória. O catecismo e antes de tudo a história sagrada eram
as minhas preferências, estudava-os com alegria. Mas a gramática
fazia-me às vezes derramar lágrimas… Estais lembrada do masculino e
do feminino?
Logo que terminava a aula, subia ao mirante e levava a papai minha
caderneta e minha classificação. Como ficava radiante, quando lhe podia
dizer: “Tenho 5 com louvor, foi Paulina a primeira que o declarou!…”
Pois, quando vos perguntava se tinha 5 com louvor e vós me dizíeis que
sim, aos meus olhos era uma nota a menos. Vós também me dáveis
bons pontos, e quando tinha alcançado certo número deles, ganhava um
prêmio e uma folga. Lembro-me de 14 que os dias de folga se me
afiguravam mais longos do que os demais, o que vos dava prazer, por
demonstrar que não apreciava ficar sem nenhuma ocupação.
Todas as tardes ia a pequeno passeio com papai. Fazíamos juntos nossa
visita ao Santíssimo Sacramento, e cada dia visitávamos uma nova
igreja. Assim entrei pela primeira vez na capela do Carmelo. Papai
mostrou-me as grades do coro, dizendo-me que atrás delas havia
religiosas. Muito longe estava de pensar que, nove anos mais adiante,
me encontraria entre elas! …
Depois do passeio (durante o qual papai me comprava sempre um
presentinho de um ou dois soldos), recolhia-me em casa. Fazia então
minhas lições. A seguir, ficava todo o resto do tempo a saltitar no jardim
em volta do papai, pois não sabia brincar com boneca. Para mim era
grande alegria preparar chás com grãozinhos e com cascas de árvores
que encontrava pelo chão. Levava-os depois ao papai numa linda xícara
pequena. O coitado do paizinho largava sua ocupação e depois
sorridente fazia de conta que tomava. Antes de me devolver a xícara
perguntava-me (como que em segredo) se era para jogar fora o
conteúdo. As vezes, dizia que sim, mas o mais freqüente era levar de
volta meu precioso chá, com a intenção de tornar a servi-lo várias
vezes… Gostava de cultivar minhas florzinhas no jardim que papai me
tinha dado. Entretinha-me em armar altarzinhos no vão que havia ao
centro do muro. Quando terminava a obra, corria a papai e, levando-o
comigo, dizia-lhe que fechasse bem os olhos e só os abrisse no
momento que lho mandasse. Fazia tudo o que eu queria, e deixava-se
conduzir até a frente do meu jardinzinho. Então eu gritava: “Papai, abre
os olhos!” Ele abria-os e extasiava-se para me dar prazer, admirando o
que eu julgava ser uma obra-prima! … Seria um nunca acabar se
quisera contar mil pequenos episódios desse gênero, que me acodem
profusamente à memória… Ah! como poderia enumerar todos os
carinhos que “Papai” prodigalizava à sua rainhazinha? Há cousas que o
coração sente, mas que a palavra e a própria idéia não conseguem
formular…
Bonitos para mim eram os dias em que meu “rei querido” me levava à
pescaria consigo. Tinha tanto amor ao campo, às flores e às aves!
Tentava às vezes pescar com minha varinha, mas de preferência ia
sentar sozinha na relva florida. Meus pensamentos aprofundavam-se
bastante e, sem saber o que era meditar, minha alma mergulhava em
autêntica oração… Ouvia ruídos ao longe… O murmúrio do vento e até
a música indecisa de soldados, cuja sonoridade me chegavam aos
ouvidos, melancolizavam suavemente meu coração… A terra pareciame
lugar de degredo, e eu sonhava com o Céu… A tarde passava
rápida, e dentro em pouco era hora de regressar aos Buissonnets, Antes
de partir, porém, tomava o lanche trazido no meu cestinho. Mudara de
aspecto, a linda merenda com geléia de fruta que me tínheis preparado.
Em lugar da cor ativa, já não via senão uma ligeira mancha cor de rosa,
toda ressequida e amarfanhada… Então a terra se me apresentava mais
tristonha ainda, e compenetrava-me de que só no Céu haverá alegria
sem anuviamento. . .
A propósito de nuvens, lembro-me de que um dia o formoso Céu azul
campestre se anuviou e logo começou a zunir a tempestade. Os coriscos
sulcavam as nuvens carregadas, e vi cair um raio a pouca distância.
Longe de ficar com medo, extasiava-me, tendo a impressão de que o
Bom Deus estava tão perto de mim! …
Papai não estava, de modo algum, tão contente como sua rainhazinha.
Não que a tempestade lhe incutisse medo, mas porque o capim e os
malmequeres (mais altos do que eu) brilhavam como pedrarias
preciosas, tendo nós de atravessar vários vergéis antes de chegar a um
caminho. E meu querido paizinho, temeroso que os aljôfares molhassem
sua filhinha, tomou-a às costas, apesar da carga dos apetrechos de
pesca.
Nos passeios que fazia com ele, o papai gostava de me mandar entregar
a esmola aos pobres que encontrássemos. Certo dia vimos um que se
arrastava com dificuldade em muletas. Acerquei-me para lhe dar um
óbolo. Mas, não se julgando bastante pobre a ponto de aceitar esmola,
ele olhou-me com triste sorriso e não quis pegar o que lhe oferecia. Não
consigo descrever o que se passou em meu coração. Quisera consolá-lo
e reconfortá-lo. Em lugar disso, porém, julguei que o tinha magoado. O
pobre doente adivinhou por certo meu pensamento, pois que o vi virarse
para trás e envolver-me num sorriso. Papai acabava de comprar um
doce para mim. Bem me veio a vontade de lho dar, mas não tive
coragem. Ainda assim queria dar-lhe alguma cousa que não me pudesse
refugar, pois sentia por ele uma simpatia muito grande. Ocorreu-me
então ter ouvido falar que, no dia da primeira comunhão, a gente
obteria tudo o que pedisse. Este pensamento foi um consolo para mim,
e disse comigo mesma, embora só tivesse seis anos ainda: “Rezarei pelo
meu pobre no dia da minha primeira comunhão”. Cumpri a promessa
cinco anos mais tarde, e espero que o Bom Deus tenha atendido a
oração que me inspirara a fazer-lhe por um de seus membros
sofredores…
Tinha muito amor ao Bom Deus, e amiúde lhe oferecia meu coração,
valendo-me da breve fórmula que mamãe me ensinara. No entanto,
certo dia, ou melhor, certa noite do lindo mês de Maio, cometi uma falta
que bem merece referência. Deu-me grande motivo de humilhar-me, e
a respeito dela creio ter tido contrição perfeita. Sendo muito pequena
para freqüentar o mês de Maria, ficava com Vitória’ e fazia com ela
minhas devoções diante do meu altarzinho do mês de Maria, adornado
de acordo com minha capacidade.-Tudo era tão miudinho: castiçais e
vasos de flores, de sorte que dois fósforos, à guisa de velas, clareavam
tudo perfeitamente. As vezes, Vitória fazia-me a surpresa de dar-me
uns pedacinhos de torcida, mas era caso raro. Uma noite, estando tudo
prestes para nos pormos em oração, digo-lhe: “Vitória, queres começar
com o “Lembrai-vos”, que vou acender”. Ela fez menção de começar,
mas não disse palavra, e olhava-me rindo. Eu que via meus preciosos
fósforos consumirem-se rapidamente, supliquei-lhe fizesse a oração, e
ela continuou calada. Levantei-me então e pus-me a dizer-lhe, com voz
gritada, que era maldosa, e, abandonando minha habitual brandura
batia o pé com toda a minha força… A pobre da Vitória já não tinha
vontade de rir. Olhou para mim com estranheza, e mostrou-me as
torcidas que me havia trazido… Depois de verter lágrimas coléricas,
derramei lágrimas de sincero arrependimento, com o firme propósito de
não tornar a fazê-lo!…
Aconteceu-me, mais uma vez, outra peripécia com Vitória, mas não tive
nenhum arrependimento, pois conservei perfeitamente minha
serenidade. – Desejava ter um tinteiro que se encontrava em cima da
chaminé da cozinha. Sendo muito pequena para o tomar, pedi à Vitória
muito delicadamente mo entregasse, mas ela o recusou e mandou-me
subir numa cadeira. Sem dizer nada, tomei, a cadeira, mas a pensar que
não era atenciosa. Querendo fazer que o sentisse, busquei em minha
cabecinha o que mais me ofendia. Quando se aborrecia comigo, ela
chamava-me de “pirralhinho”, o que muito me humilhava. Então, antes
de pular da minha cadeira abaixo, virei-me com dignidade e disse-lhe:
“Vitória, sois um pirralho!” Depois escapei dali, deixando que meditasse
a profunda declaração que eu acabava de fazer-lhe… A reação não se
fez esperar. Logo a escutei, que esbravejava: “Senhorita Maria… a
Teresa acaba de dizer-me que não passo de um pirralho!” Veio Maria e
obrigou-me a pedir perdão, o que, porém, fiz sem contrição, por achar
merecido o título de pirralho, uma vez que não quis estender seu grande
braço para me prestar um pequeno serviço… Entanto, ela me queria
muito, e também eu gostava muito dela. Um dia, tirou-me de grande
risco em que caíra por culpa minha. Estava Vitória a passar roupa, e
tinha ao lado um balde com água dentro. Eu, porém, olhava para ela a
balouçar-me numa cadeira (e era hábito meu), e de repente me escapa
a cadeira e caio, não no chão, mas no fundo o balde!!!… Os pés
tocavam na cabeça, e eu abarrotava o balde como o pintinho abarrota o
ovo! … A pobre da Vitória contemplava-me com um extremo de
surpresa, pois nunca tinha visto situação igual. Tinha todo o empenho
de safar-me quanto antes do meu balde, cousa que resultava
impossível. Minha prisão era tão ajustada que eu não lograva fazer
nenhum movimento. Com um pouco de dificuldade, ela salvou-me do
meu grande perigo, mas não salvou minha roupa e tudo o mais, de
sorte que tive de trocar a roupa, pois estava molhada que nem um
pinto.
Outra ocasião caí dentro da lareira. Felizmente o fogo não estava aceso.
Vitória não teve senão o incômodo de levantar-me e sacudir a cinza de
que ficara coberta. Foi numa quarta-feira, quando estáveis no ensaio de
canto com Maria, que todos esses reveses me aconteceram. Foi também
numa quarta-feira que o Pe. Ducellier veio visitar-nos. Como Vitória lhe
dissesse que não havia ninguém em casa senão Teresinha, ele entrou na
cozinha para me visitar e olhou minhas lições. Muito desvanecida fiquei
em receber meu confessor, porque pouco tempo antes me tinha
confessado pela primeira vez. Que suave lembrança para mim!…
Ó minha Mãe querida! com que solicitude me preparastes, quando me
explicastes que não era a um homem, mas ao Bom Deus que iria contar
meus pecados. Disto estava tão convicta, que fiz minha confissão com
grande espírito de fé, e cheguei até a perguntar-vos, se não seria mister
referir ao Padre Ducellier que o amava de todo o meu coração, pois que
em sua pessoa era ao Bom Deus que ia falar…
Bem instruída a respeito de tudo quanto devia fazer e dizer, entrei no
confessionário e pus-me de joelhos. Quando, porém, abriu o postigo,
Padre Ducellier não enxergou ninguém. Era tão pequena, que a cabeça
não alcançava o parapeito, onde se apóiam as mãos. Então mandou-me
ficar de pé. Obedecendo imediatamente, levantei-me e postei-me bem
na frente dele para o ver melhor. Fiz minha confissão como se fosse
uma menina grande e recebi sua bênção com grande devoção, porque
me havíeis explicado que, nesse momento, as lágrimas do Menino Jesus
purificariam minha alma. Lembro-me de que a primeira exortação que
me foi feita, incitava-me principalmente a ter devoção à Santíssima
Virgem, e prometi a mim mesma redobrar minha ternura para com ela.
Ao sair do confessionário estava tão contente e lépida, como jamais
sentira tamanha alegria na alma. Depois, tornava a confessar-me em
todas as grandes festas litúrgicas, e para mim era cada vez um
verdadeiro gozo, quando o fazia.
Os dias santos!… Ah! quantas recordações não desperta esta
palavra! … Os dias santos, como os amava! … Vós, minha querida Mãe,
sabíeis explicar-me tão bem todos os mistérios ocultos em cada um
deles, que para mim eram verdadeiramente dias do Céu. Gostava
mormente das procissões do Santíssimo Sacramento. Que alegria
esparzir flores aos pés do Bom Deus! … Antes, porém, de deixá-las cair,
atirava-as o mais alto que podia, e nunca me dava por tão feliz como na
ocasião que via minhas rosas desfolhadas tocarem no sagrado
Ostensório…
Os dias santos! Ah! se os grandes eram raros, cada semana trazia de
novo um muito chegado ao meu coração: “o Domingo!” Que dia grande,
o Domingo!…
Era o dia santo do Bom Deus, o dia santo do repouso. Primeiro ficava
nanando mais tempo do que nos outros dias, e depois mamãe Paulina
mimava sua filhinha, quando lhe servia o chocolate em sua dormida, e
ato contínuo a vestia como uma rainhazinha… Vinha a madrinha fazer o
penteado da afilhada. Esta nem sempre ficava quietinha, quando lhe
assentavam o cabelo, mas depois tinha toda a satisfação de ir pegar a
mão de seu Rei que, em tal dia, lhe dava um abraço mais afetuoso do
que de ordinário, pois toda a família se movimentava para a Missa. Em
todo o trajeto do caminho, e mesmo dentro da igreja, a “Rainhazinha do
Papai” dava-lhe a mão. Tomava lugar ao lado dele, e quando nos
víamos obrigados a chegar mais adiante para o sermão, era preciso
ainda encontrar dois assentos, um ao lado do outro. Não se tornava
muito difícil. Toda a gente parecia achar tão amorável ver um ancião tão
imponente com uma filha tão pequenina, que as pessoas não se
incomodavam em ceder seus lugares. Meu tio que ficava nos bancos dos
fabriqueiros, alegrava-se quando nos via chegar. Dizia ser eu seu
mimoso raio de Sol… Por mim, não me inquietava de ser alvo de
olhares. Ouvia muito atenta os sermões, dos quais, aliás, não alcançava
muita cousa. O primeiro que entendi, e que me comoveu profundamente
foi um sermão sobre a Paixão, pregado pelo Padre Ducellier. Dali por
diante entendi todos os outros sermões. Quando o pregador falava de
Santa Teresa, papai curvava-se para me dizer baixinho: “Escuta bem,
minha rainhazinha, ele fala de tua Santa Padroeira”. Realmente, estava
escutando bem, mas olhava mais vezes para o papai do que para o
pregador. Seu belo semblante dizia-me tantas cousas! … Por vezes,
seus olhos marejavam-se de lágrimas. Em vão procurava sopitá-las.
Parecia estar já desligado da terra, tanto sua alma gostava de imergir
nas verdades eternas … Sua carreira, porém, estava longe do termo
final. Longos anos deviam passar, antes que o belo Céu se abrisse a
seus olhos embevecidos, e o Senhor enxugasse as lágrimas do seu bom
e fiel servidor! …
Mas, novamente torno ao meu dia de Domingo. Esse dia de gozo que
passava tão depressa, tinha seu toque de melancolia. Lembra-me que,
até a hora de Completas, minha felicidade era sem travo algum.
Durante essa hora canônica, vinha-me o pensamento de que o dia de
repouso ia terminar… que no dia seguinte seria necessário recomeçar a
vida, trabalhando, aprendendo lições, e o coração sentia o exílio da
terra… Suspirava pelo eterno repouso do Céu, pelo Domingo sem ocaso
da Pátria! …
Acontecia que até os próprios passeios, feitos antes de recolher-nos aos
Buissonnets, me deixavam na alma um sentimento de tristeza. A
família, então, já não se reunia toda, porque Papai, querendo agradar a
Titio, deixava-lhe Maria ou Paulina todas as tardes de Domingo. Havia a
única circunstância de que, para mim, era grande alegria poder ficar
também. Gostava que assim acontecesse, mais do que ser convidada
exclusivamente, porque então se ocupavam menos comigo. Meu
máximo prazer era escutar tudo quanto meu Tio falava. Não apreciava,
porém, que me fizesse perguntas, e sentia bastante medo, quando me
punha sobre um joelho só, enquanto cantava o Barba-Azul com voz
formidável… Era, pois, com satisfação que aguardava a chegada do
Papai para nos buscar.
Na volta, olhava para as estrelas que cintilavam docemente, e esta vista
me enlevava… Havia, sobretudo, uma constelação de pérolas de ouro
que notava com alegria, por achar que tinha a forma de um T (aqui
ponho mais ou menos sua forma). Fazia com que Papai a visse, dizendolhe
que meu nome estava inscrito no Céu. Depois, não querendo ver
nada desta terra mesquinha, pedia-lhe que me guiasse. Então, sem
olhar onde punha os pés, erguia a cabecinha bem alto para o ar, e não
me cansava de contemplar o azul do Céu estrelado! …
Que direi de nossos serões de inverno, mormente dos de Domingo? Ah!
como me era agradável, depois do jogo de damas, sentar-me com
Celina nos joelhos de Papai… Como sua bela voz, entoava canções que
enchiam a alma de pensamentos elevados… ou então, embalando-nos
de mansinho, recitava poesias inspiradas nas verdades eternas…
Depois, subíamos para fazer a oração em comum, e a rainhazinha ficava
só ao pé do seu Rei, não precisando senão olhar para ele para saber
como rezam os Santos… Afinal, íamos por ordem de idade dar boa-noite
a Papai e receber um beijo. A rainha vinha naturalmente por última.
Para a beijar, o rei tomava-a pelos cotovelos, e ela exclamava bem alto:
“Boa noite, Papai, boa noite, dorme bem”. Todas as noites era a mesma
repetição…
Em seguida, minha mãezinha tomava-me nos braços e levava-me à
cama de Celina. Então eu dizia: “Paulina, fui boazinha hoje?… Será que
os anjinhos voarão em redor de mim?” A resposta era sempre que sim.
Do contrário, passaria a noite toda a chorar. .. Depois de me beijar,
como também o fazia minha querida madrinha, Paulina tornava a
descer, e a coitada da Teresinha ficava completamente só na escuridão.
Por mais que imaginasse os anjinhos a voarem em derredor, o pavor
logo a dominava, as trevas faziam-lhe medo, porque da cama não
divisava as estrelas que fulgiam levemente…
Considero verdadeira graça que vós, minha querida Mãe, me
acostumastes a vencer meus temores. De vez em quando, mandáveisme
de noite ir buscar sozinha algum objeto num cômodo distante. Se
não fora tão bem orientada, teria ficado muito medrosa, ao passo que
agora é realmente difícil assustar-me… Ocasiões há em que indago a
mim mesma como pudestes educar-me com tanto amor e delicadeza
sem me deixar baldosa; pois, a verdade é que não me deixáveis passar
nenhuma imperfeição. Nunca me censuráveis sem razão de ser, como
também nunca voltáveis atrás numa coisa já decidida. Sabia-o tão bem
que eu não teria podido nem desejado dar um passo se mo proibistes.
Até papai era obrigado a conformar-se com vossa vontade. Sem o
consentimento de Paulina, não ia a passeio e quando papai dizia para eu
ir eu respondia: “Paulina não quer”. Então, ele ia pedir por mim. Para
agradar-lhe, algumas vezes Paulina dizia sim, mas Teresinha percebia
pela sua fisionomia que contra sua vontade. Punha-se a chorar sem
aceitar consolo até que Paulina dissesse sim e a beijasse cordialmente.
Quando Teresinha adoecia, o que acontecia todos os invernos, não é
possível dizer com que ternura era tratada. Paulina fazia-a dormir em
sua cama (favor indizível) e lhe dava tudo o que ela queria. Um dia,
Paulina pegou debaixo do travesseiro uma linda faquinha que lhe
pertencia e, dando-a à sua filhinha, deixou-a mergulhada num
deslumbramento indescritível: “Ah! Paulina”, exclamou ela, “tu me amas
muito para te desfazeres por mim da tua linda faquinha que tem uma
estrela de madrepérola… Mas, sendo que me amas tanto, farias o
sacrifício do teu relógio para eu não morrer?…” “Não só para tu não
morreres, daria meu relógio; mas faria logo o sacrifício dele para ficares
boa logo”. Ao ouvir essas palavras de Paulina, meu espanto e minha
gratidão foram tantos que não sei expressá-los… No verão, às vezes, eu
tinha náuseas; Paulina tratava-me ainda com ternura. Para distrair-me,
o que era o melhor remédio, carregava-me num carrinho de mão em
volta do jardim e, fazendo-me descer, colocava no lugar um bonito pé
de margaridas que ela carregava com muita precaução até meu jardim,
para onde ele era transplantado com grande solenidade…
Paulina recebia todas as minhas confidências íntimas, dissipava todas as
minhas dúvidas… Uma vez, estranhei que Deus não desse glória igual
no Céu a todos os eleitos e receava que não fossem todos felizes, Então,
Paulina fez-me buscar o copo grande de papai e colocá-lo ao lado do
meu pequeno dedal e disse para encher os dois. A seguir, perguntou-me
qual dos dois estava mais cheio. Respondi que os dois estavam cheios e
não podiam conter mais. Minha mãe querida fez-me então compreender
que o Céu Deus dá a seus eleitos tanta glória quanto podem conter e
que, assim, o último nada tem a cobiçar ou invejar do primeiro. Assim é
que, pondo ao meu alcance os mais sublimes segredos, sabíeis, Madre,
dar à minha alma o alimento que lhe era necessário…
Com quanta alegria via, a cada ano, chegar a premiação pelo estudo!…
Aí, como sempre, a justiça reinava e só recebia as recompensas
merecidas. Sozinha, de pé no meio da nobre assembléia, ouvia minha
sentença, lida pelo Rei França e de Navarra. Meu coração batia forte ao
receber os prêmios e a coroa… para mim, era como uma representação
do juízo final!… Logo após a distribuição dos prêmios, a rainhazinha
tirava o vestido branco e apressavam-se em fantasiá-la para tomar
parte na grande peça teatral!…
Como eram alegres essas festas familiares… Como eu estava longe,
então, ao ver meu rei querido e radiante, de prever as provações que
iriam visitá-lo!…
Um dia, porém, Deus mostrou-me, numa visão verdadeiramente
extraordinária”, a imagem viva da provação que Ele estava preparando
para nós, seu cálice já enchia”.
Papai estava viajando há vários dias e ainda faltavam dois para seu
regresso. Era duas ou três horas da tarde, o sol brilhava e a natureza
parecia em festa. Eu estava sozinha na janela de uma água-furtada que
dava para o grande jardim; olhava diante de mim, a mente ocupada por
pensamentos alegres, quando avistei frente à lavanderia que se
encontrava logo adiante um homem vestido exatamente como papai,
mesma estatura e mesmo modo de andar, apenas muito mais curvado…
Sua cabeça estava coberta por uma espécie de avental de cor
indefinida, de sorte que eu não podia ver-lhe o rosto. Estava com
chapéu igual ao de papai. Vi-o andar em passos regulares, beirando
meu jardinzinho… Logo, um sentimento de pavor sobrenatural invadiu
minha alma. Num instante, imaginei que papai tivesse voltado e que se
escondesse a fim de surpreender-me. Então, chamei-o em voz bem alta,
com voz trêmula de emoção: “Papai, Papai!…” Mas o estranho
personagem não parecia ouvir-me. Continuou sua caminhada regular
sem olhar para trás. Seguindo-o com os olhos, vi-o dirigir-se para o
pequeno bosque que cortava ao meio a grande alameda. Esperava vê-lo
aparecer do outro lado das grandes árvores, mas a visão profética
esvaíra-se!… Tudo isso só durou um instante, mas gravou-se tão
profundamente em meu coração que hoje, depois de quinze anos… a
lembrança me é tão presente como se a visão estivesse ainda diante
dos meus olhos…
Maria estava convosco, Madre, num quarto que se comunicava com
aquele onde eu me encontrava. Ouvindo-me chamar por papai, sentiu
impressão de pavor, percebendo que, contou-me depois, devia estar
acontecendo algo extraordinário. Sem externar sua emoção, correu
junto a mim e me perguntou por que eu estava chamando papai, que
fora a Alençon. Contei, então, o que acabara de ver. Para me acalmar,
Maria disse que, sem dúvida, Vitória quisera pregar-me uma peça e
escondera a cabeça com seu avental. Interrogada, essa afirmou não ter
saído da cozinha. Aliás, eu tinha certeza de ter visto um homem que se
parecia com papai. Então fomos as três ao bosque, mas como não
achamos sinal nenhum da passagem de alguém dissestes-me para não
mais pensar nisso…
Não mais pensar estava além do meu poder. Muitas vezes minha
imaginação representou-me a cena misteriosa que eu presenciara…
Muitas vezes procurei levantar o véu que me escondia o sentido, pois no
fundo do meu coração conservava a convicção íntima de que essa visão
possuía um sentido que havia de ser-me revelado um dia… Esse dia
demorou a chegar, mas após catorze anos Deus rasgou o véu
misterioso. Estando de licença com Irmã Maria do Sagrado Coração,
falávamos, como sempre, das coisas da outra vida e das nossas
recordações de infância, quando lembrei-lhe a visão que eu tivera na
idade de 6 para 7 anos. De repente, relatando os pormenores dessa
cena estranha, ambas compreendemos o que significava… Era papai,
sim, que eu vira andando, curvado pela idade… Era ele carregando no
seu rosto venerável, na sua cabeça branca, a marca da sua gloriosa
provação… Como a Face Adorável de Jesus, velada durante sua Paixão,
assim a face do seu fiel servo devia ficar velada nos dias dos seus
sofrimentos, a fim de poder resplandecer na Pátria Celeste junto a seu
Senhor, o Verbo Eterno!… Foi do seio dessa glória inefável onde reina
no céu que nosso pai querido obteve para nós a graça de compreender a
visão que sua rainhazinha tivera numa idade em que não é necessário
temer a ilusão! Foi desde o seio da glória que obteve para nós esse doce
consolo de podermos compreender que, dez anos antes da nossa grande
provação, Deus no-la mostrou como um pai deixa seus filhos
entreverem o futuro que lhes prepara e se compraz em considerar por
antecipação as riquezas incalculáveis que lhes são destinadas…
Ah! por que foi a mim que Deus deu essa luz? Por que mostrou a uma
criança tão nova unia coisa que ela não podia compreender, uma coisa
que, se a tivesse compreendido, a teria matado de dor, por quê?… Sem
dúvida, esse é mais um daqueles mistérios que só compreenderemos no
céu e que nos causará uma admiração eterna!…
Como o Bom Deus é bom! … Como põe as provações em exata equação
com a forças que nos confere. Nunca, como acabo de afirmá-lo, poderia
aturar a própria idéia dos amargos sofrimentos que o futuro me
reservava… Sem frêmito não conseguia sequer pensar em que o Papai
podia morrer… Certa vez trepara ele ao topo de uma escada de mão.
Como me encontrava justamente por debaixo, gritou-me: “Arreda-te,
pobre bichinho, se despencar, esmago-te”. Ao ouvir isso, tive uma
reação interior. Em vez de afastar-me, apoiei-me contra a escada,
pensando comigo: “Pelo menos, se o Papai cair, não terei a dor de vê-lo
morrer, pois morrerei com ele”. Não consigo externar quanto amava
Papai. Tudo nele me causava admiração. Quando me explicava suas
idéias (como se fora menina crescida), dizia-lhe com sinceridade que,
por certo, se falasse tudo isso aos grandes homens do governo, tomalo-iam
para o constituir Rei, e que então a França seria feliz como nunca
o fora antes… No fundo, porém, alegrava-me (e disso me inculpava
como de um pensamento egoísta) por não haver ninguém senão eu que
conhecia bem Papai. Pois, se viesse a ser Rei de França e de Navarra,
sabia que se daria por infeliz, porque tal é a sorte de todos os
monarcas, e sobretudo porque já não seria o meu Rei, só para mim!…
Tinha eu seis ou sete anos, quando Papai nos levou a Trouville. Jamais
esquecerei a impressão que o mar me causou. Não podia coibir-me de
contemplá-lo sem interrupção. Sua majestade, o bramir das ondas, tudo
me falava à alma a respeito da Grandeza e do Poder do Bom Deus.
Recordo-me de que, no passeio que fazíamos pela praia, um senhor e
uma senhora, como me vissem a correr alegre em redor do Papai,
aproximaram-se e perguntaram-lhe se eu era dele, dizendo que era
uma menininha muito graciosa. Respondeu-lhes Papai que sim, mas
notei que lhes deu sinal para não me elogiar… Era a primeira vez que
ouvia dizer que eu era graciosa. Isto me deixou bem contente, pois não
supunha que o fosse. Vós tomáveis, minha querida Mãe, tanta
precaução em não permitir, junto a mim, nada que pudesse
comprometer minha inocência, principalmente em não me deixar ouvir
alguma palavra que insinuasse vaidade em meu coração. Como só dava
atenção às vossas palavras e às de Maria (e de vossa parte nunca me
dirigistes uma única lisonja), não liguei muita importância às palavras e
aos olhares admirados da senhora.
Ao entardecer, à hora que o sol parece banhar-se na imensidão das
ondas, deixando atrás de si um sulco luminoso, ia sentar-me sozinha
com Paulina no rochedo … Então, acudia-me à lembrança a comovente
história do “Sulco de ouro” Fiquei a contemplar longamente a esteira
luminosa, imagem da graça a clarear a rota do barquinho de graciosa
vela branca… Junto a Paulina, tomei a resolução de nunca distanciar
minha alma do olhar de Jesus, a fim de que navegue tranqüila em
direção da Pátria dos Céus! …
Minha vida deslizava tranqüila e feliz. A afeição de que era cercada nos
Buissonnets, fazia-me crescer, por assim dizer, mas não havia dúvida de
que já era bem desenvolvida, para começar a conhecer o mundo e as
misérias de que anda cheio…
Tinha meus oito anos e meio, quando Leônia deixou o internato, e tomei
o lugar dela na Abadia. Ouvi dizer, muitas vezes, que o tempo passado
em colégio é o melhor e o mais doce da vida. Para mim, não foi assim.
Os cinco anos que ali passei foram os mais tristonhos da minha vida.
Não tivesse comigo minha querida Celina, ali não poderia ter ficado um
mês sequer, sem cair doente… A pobre florzinha estava habituada a
lançar suas débeis raízes em terra de escol, feita sob medida para ela.
Parecia-lhe, também, muito desagradável viver entre flores de toda
espécie, com raízes freqüentemente pouco delicadas, e ver-se na
obrigação de procurar em terra comum a seiva necessária para sua
subsistência! …
Vós, porém, me instruístes tão bem, minha querida Mãe, que chegando
ao internato era a mais adiantada das crianças de minha idade. Entrei
em classe de alunas todas superiores a mim em tamanho. Uma delas,
com seus 13 a 14 anos, era pouco inteligente, mas sabia, contudo,
impor-se às colegas e às próprias mestras. Vendo-me tão nova, quase
sempre a primeira da classe e estimada de todas as religiosas, sentiu
por certo inveja, cousa muito perdoável em aluna interna, e fez-me
pagar de mil modos os meus pequenos bons êxitos…
Com minha índole tímida e delicada, não sabia como defender-me e
limitava-me a chorar sem dizer nada, não me queixando, nem sequer a
vós, daquilo que padecia. Não tinha, contudo, bastante virtude para me
sobrepor a tais misérias da vida, e meu pobre coraçãozinho sofria
deveras. … Por sorte minha, todas as tardes retornava ao lar paterno, e
então meu coração expandia-se. Pulava aos joelhos do meu Rei, a quem
dizia as notas que tinha recebido, e o seu beijo fazia-me esquecer todas
as minhas mágoas… Com que alvoroço não anunciei o resultado de
minha primeira composição (composição de História Sagrada). Faltoume
um só ponto para a nota máxima, pois não soubera o nome do pai
de Moisés. Era, portanto, a primeira e tirei uma bela condecoração de
prata. Papai deu-me em recompensa uma linda moedinha de quatro
soldos. Coloquei-a num estojo que ficou destinado a receber nova
moeda, sempre da mesma importância, quase todas as quinta-feiras…
(Do mesmo estojo ia tirar, quando em algumas festas queria contribuir
do meu bolso na coleta de esmolas, quer para a propagação da fé, quer
para outras obras congêneres). Encantada com o bom êxito de sua
pupila, Paulina deu-lhe de presente um lindo arco de brincar, com o fito
de encorajá-la a continuar bem estudiosa. A pobrezinha tinha real
necessidade das alegrias de família, sem as quais a vida de colégio lhe
seria árdua demais.
Quinta-feira de tarde, não havia aulas. Não era, porém, como as folgas
dadas por Paulina. Não ficava no mirante com Papai. Tinha que brincar,
não com minha Celina, o que me agradava, quando sozinha com ela,
mas em companhia de minhas priminhas e das meninas Maudelonde.
Era para mim verdadeira mortificação, pois não sabia brincar, como as
demais crianças. Não era companheira agradável. No entanto, sem o
conseguir, fazia todo o meu possível para imitar as outras. Sentia muito
tédio, principalmente quando tinha que passar toda a tarde a dançar
quadrilhas. A única cousa do meu gosto era ir ao Jardim da Estrela.
Então, eu era a primeira em tudo, colhendo muitas flores, e, por saber
encontrar as mais bonitas, , provocava a inveja de minhas
coleguinhas…
O que também me agradava, era ficar por acaso a sós com Mariazinha.
Por já não contar com Celina Maudelonde que a levava a jogos comuns,
deixava-me livre escolha, e eu escolhia então um jogo inteiramente
novo. Maria e Teresa passam a ser duas solitárias, que não dispunham
senão de uma mísera choupana, de um pequeno trigal, e de alguns
legumes para cultivar. A vida delas corria numa contemplação contínua;
quer dizer, uma das solitárias substituía a outra na oração quando era
preciso cuidar da vida ativa. Tudo se fazia num acordo, num silêncio, em
moldes tão religiosos, que raiava à perfeição. Quando titia vinha buscarnos
a passeio, nosso jogo continuava até na rua. As duas solitárias
rezavam juntas o terço, valendo-se dos dedos, a fim de não exibir sua
devoção ao público indiscreto. Um dia, entretanto, a mais jovem
solitária distraiu-se. Tendo recebido um bolo para o lanche, antes de
comer fez um grande sinal-da-cruz, o que provocou o riso de todos os
profanos do século…
Maria e eu tínhamos sempre os mesmos palpites. Os próprios gostos
afinavam-se tão harmoniosamente que, certa vez, nossa união de
vontades passou da conta. Ao voltarmos uma tarde da Abadia, disse à
Maria: “Conduze-me, que vou fechar os olhos”. – “Eu também quero
fechá-los”, respondeu-me. Dito e feito. Sem discutir, cada qual pôs em
obra sua vontade… Estávamos na calçada, não havíamos de temer os
carros. Depois de passear assim por alguns minutos, tendo apreciado as
delícias de andar sem ver, as duas tontinhas caíram juntas sobre umas
caixas colocadas à porta de uma loja. Melhor, derrubaram-nas. Muito
encolerizado, saiu o negociante para pegar sua mercadoria. As duas
ceguinhas voluntárias se levantaram por si mesmas em boas condições,
e corriam a passos largos, com olhos esbugalhados, enquanto ouviam
as justas reprimendas de Joana, que ficara tão zangada quanto o
negociante!… Por isso, para nos punir, resolveu separar-nos uma da
outra. E daquele dia em diante Maria e Celina iam juntas, enquanto eu
caminhava com Joana. Isto pôs fim à nossa grande união de vontade.
Não foi um mal para as mais velhas, que nunca entravam em acordo e
discutiam durante todo o trajeto do caminho. Desta forma a paz foi
completa.
Nada disse ainda a respeito do meu relacionamento íntimo com Celina.
Oh! se fosse preciso narrar tudo, não acabaria nunca…
Em Lisieux, inverteram-se os papéis. Celina tornara-se uma criança
terrivelmente arteira e buliçosa, enquanto Teresa já não passava de
uma menininha muito tratável, mas choramingas a mais não poder…
Isto não impedia que Celina e Teresa crescessem cada vez mais em sua
mútua afeição. De vez em quando, havia algumas pequenas discussões,
sem maiores conseqüências, e no fundo elas sempre se entendiam.
Posso afiançar que minha querida maninha jamais me causou desgosto,
mas foi para comigo como que um raio de sol, sempre a alegrar-me e a
consolar-me… Quem descreveria a intrepidez com que tomava minha
defesa na Abadia, quando me acusavam?… Tão grande era seu cuidado
pela minha saúde, que por vezes me importunava. O que não me
enfadava era observá-la, quando brincava. Punha em certa ordem todo
o magote de nossas bonequinhas, e dava-lhes aula como uma mestra
competente. Só que dava um jeito de serem suas filhas sempre bem
comportadas, enquanto que as minhas eram, muitas vezes, expulsas da
classe, por mau comportamento… Falava-me de todas as cousas novas
que vinha aprendendo na classe, o que muito me entretinha,
considerando-a um poço de ciência.
Haviam-me apelidado “filhinha de Celina”. Por isso, quando ela estava
descontente comigo, seu maior sinal de aborrecimento era declarar-me:
“Já não és minha filhinha. Acabou-se. Disso nunca esquecerei. . . ”
Então só me restava chorar como Madalena, suplicando-lhe ainda me
considerasse sua filhinha. Logo me abraçava e prometia-me de já não
se lembrar de nada… Para me consolar, tomava uma de suas bonecas e
dizia-lhe: “Minha querida, dá um abraço em tua tia”. Certa ocasião, a
boneca foi tão ardorosa em abraçar-me com carinho, que me enfiou os
dois bracinhos pelo nariz… Celina, que não o fizera de caso pensado,
olhava espantada… para mim com a boneca suspensa ao nariz. A tia
não levou muito tempo em se desfazer dos abraços por demais
carinhosos de sua sobrinha, e desatou a rir, gostosamente, de tão
singular aventura.
O mais divertido era ver-nos comprar juntas nossos presentes de boasfestas
no bazar. Cuidávamos de ficar escondidas uma da outra.
Dispondo de 10 soldos para gastar, precisávamos pelo menos de 5 ou 6
objetos diferentes, e tratava-se de ver quem compraria as cousas mais
bonitas. Encantadas com nossas aquisições, aguardávamos com
impaciência o primeiro dia do ano, a fim de oferecermos, uma à outra,
nossos grandiosos presentes. Quem acordasse antes da outra,
apressava-se em lhe desejar feliz ano novo, e logo nos dávamos uma à
outra os presentes de boas-festas. Cada qual de nós ficava extasiada
com as preciosidades, que se vendiam por 10 soldos! …
Estes mimos nos causavam quase tanto prazer quanto os lindos
presentes de boas-festas que vinham de Titio. Isto, aliás, era apenas o
começo das alegrias.. Naquele dia, vestíamo-nos num instante, e cada
qual se punha à espreita para saltar ao pescoço de Papai. Logo que ele
saísse do quarto, eram gritos de alegria por toda a casa, e nosso bom
Paizinho mostrava-se feliz por nos ver tão contentes … Os presentes de
boas festas que Maria e Paulina davam às suas filhinhas, não eram de
grande valor, mas também lhes proporcionavam grande alegria… Oh!
naquela idade não éramos enfaradas. Nossa alma expandia-se em toda
a sua frescura, como uma flor que é feliz por receber o orvalho da
manhã… a mesma aragem balouçava nossas corolas, e o que para uma
fosse motivo de alegria ou de mágoa, sê-lo-ia ao mesmo tempo também
para a outra. Com efeito, nossas alegrias eram em comum. Bem o
percebi no belo dia da primeira Comunhão de minha querida Celina. Só
tendo sete anos, ainda não freqüentava a Abadia, mas conservei no
coração a gratíssima lembrança da preparação que vós, minha querida
Mãe, ministrastes à Celina. Todas as tardes, vós a tomáveis aos joelhos,
e com ela conversáveis sobre o grande ato que ia praticar. Eu cá
escutava, muito desejosa de preparar-me também, mas freqüentemente
me dizíeis que fosse embora, por ser ainda muito pequena. Sentia então
um desgosto muito grande, pensando comigo que quatro anos não eram
demais como preparação para receber o Bom Deus…
Uma noite, escutei-vos falar que, feita a primeira Comunhão, se devia
começar vida nova. Resolvi, imediatamente, a não esperar por esse dia,
mas começá-la ao mesmo tempo que Celina… Nunca sentira tanto que
a amava, como vim a senti-lo durante seu retiro de três dias. Pela
primeira vez na vida, estava longe dela e não dormia em sua cama… No
primeiro dia, esquecida de que não ia voltar, guardei uma mão-cheia de
cerejas para as comer com ela. Quando percebi que não chegava, fiquei
muito pesarosa. Papai consolou-me com a declaração de que no dia
seguinte me levaria até a Abadia para visitar minha Celina, e que eu lhe
daria outra mão-cheia de cerejas! … O dia da Primeira Comunhão de
Celina deixou-me uma impressão semelhante à que tive na minha
própria. Ao despertar de manhã, sozinha, na cama grande, senti-me
inundada de alegria. “É hoje! … Chegou o grande dia…” Não me
cansava de repetir estas palavras. Parecia-me que era eu quem ia fazer
minha Primeira Comunhão. Creio ter recebido grandes graças nesse dia,
e considero-o como um dos mais belos de minha vida…
Voltei um pouco a fim de recordar essa deliciosa e suave passagem.
Devo, agora, falar da dolorosa provação que veio partir o coração de
Teresinha, quando Jesus lhe arrebatou a querida mamãe, a sua Paulina,
tão afetuosamente amada! …
Um dia dissera à Paulina que queria ser solitária, partir com ela para um
deserto longínquo. Deu-me por resposta que meu desejo era também o
seu, e que esperaria até que eu fosse bastante grande para a partida.
Isto, sem dúvida, não fora dito seriamente, mas Teresinha tinha-o
levado a sério. Por conseguinte, qual não foi sua dor ao ouvir, um dia,
sua querida Paulina falar com Maria de sua próxima entrada no
Carmelo… Não sabia o que era Carmelo, mas entendia que Paulina me
deixaria para entrar em convento. Entendia que não esperaria por mim,
e que eu perderia minha segunda Mãe! … Oh! Como descrever a
angústia do meu coração? … Compreendi num instante o que era a
vida. Até ali não a tinha visto tão tristonha, mas então se me deparou
em toda a sua realidade. Vi que não era senão sofrimento e separação
contínua. Bem amargas as lágrimas que derramei, pois ainda não
compreendia o gozo do sacrifício. Era fraca, tão fraca, que tomo por
grande graça ter podido suportar uma provação que parecia colocar-se
muito acima de minhas forças… Se ficasse sabendo, aos poucos, da
partida de minha querida Paulina, talvez meu sofrimento não fora tanto.
Mas, tê-lo sabido de surpresa foi como se uma espada se me cravasse
no coração.
Sempre me lembrarei, minha querida Mãe, com que ternura me
consolastes. Depois, explicastes-me a vida do Carmelo, que me pareceu
muito bonita! Rememorando tudo o que me dissestes, senti dentro de
mim ser o Carmelo o deserto onde o Bom Deus queria que fosse
também esconder-me… Senti-o com tanta veemência que não tive a
mínima dúvida no coração. Não era um devaneio de criança que se
deixa levar, mas a certeza de um chamado divino. Queria eu ir para o
Carmelo, não por causa de Paulina, mas por Jesus tão somente… Pensei
muitas coisas que se não podem exprimir por palavras, mas que me
deixaram grande paz na alma…
No dia seguinte, confiei meu segredo à Paulina. Tomando meus desejos
como vontade do Céu, disse-me que eu iria logo com ela visitar a Madre
Priora do Carmelo, e precisava dizer-lhe o que o Bom Deus me fazia
sentir … Escolheu-se um domingo para a solene visita. Grande foi meu
acanhamento, ao saber que Maria G. ficaria junto a mim, por ser eu
muito pequena para visitar as Carmelitas. Entretanto, precisava
descobrir um meio de estar sozinha. Eis a idéia que me ocorreu. Disse à
Maria que, tendo o privilégio de visitar a Madre Priora, devíamos ser
muito atenciosas e delicadas. Por isso, tínhamos de confiar-lhe nossos
segredos. Portanto, cada qual, por sua vez, sairia um instante e deixaria
a outra sozinha. Maria acreditou no que eu dizia, e a despeito de sua
relutância em confiar segredos que não possuía, permanecemos, uma
após outra, sozinha junto à nossa Madre. Tendo ouvido minhas grandes
confidências, essa boa Madre acreditou em minha vocação. Declaroume,
todavia, que não eram recebidas postulantes de nove anos, e seria
preciso aguardar meus dezesseis anos… Resignei-me, não obstante
meu vivo desejo de entrar o mais cedo possível, e de fazer minha
Primeira Comunhão no dia que Paulina tomasse o hábito… No mesmo
dia, pela segunda vez, recebi louvores. Tinha vindo ver-me a Irmã
Teresa de Santo Agostinho e não cansava de repetir que eu era
engraçadinha… Minha intenção não era ir ao Carmelo para receber
elogios, por isso, depois de sair, não parava de repetir ao Bom Deus que
era única e exclusivamente por Ele que queria ser carmelita.
Procurei aproveitar bastante da minha Paulina querida durante as
poucas semanas que ainda ficou no mundo. Todos os dias, Celina e eu
comprávamos para ela bolo e bombons, pensando que dentro em pouco
já não os comeria. Estávamos sempre ao seu lado, e não lhe dávamos
um minuto de sossego. Chegou, afinal, o dia 2 de outubro, dia de
lágrimas e de bênçãos, quando Jesus colheu a primeira de suas flores,
que devia ser a mãe daquelas que poucos anos depois viriam unir-se de
novo a ela.
Vejo ainda o lugar, onde recebi o derradeiro beijo de Paulina. Em
seguida, Titia levou-nos todas para a missa, enquanto Papai subia a
montanha do Carmelo para oferecer seu primeiro sacrifício… Toda a
família se debulhava em lágrimas, de sorte que as pessoas, vendo-nos
entrar na igreja, olhavam-nos com espanto. Mas isto importava-me
pouco e não me impedia de chorar. Creio que, se tudo desmoronasse
em redor de mim, não teria tomado nenhum conhecimento.
Contemplava o belo céu azul, e ficava surpresa de que o Sol luzisse com
tanto esplendor, enquanto minha alma submergia em tristeza!…
Pensais, talvez, minha querida Madre, que exagero a aflição que estava
sentindo?… Levo em conta que não podia ser lá muito grande, pois
tinha a esperança de encontrar-vos novamente no Carmelo, mas é que
minha alma estava LONGE da maturidade. Por muitos crisóis devia eu
passar até atingir o termo que tanto almejava…
Dois de outubro era o dia fixado para a reabertura de aulas na Abadia.
Por isso precisei ir para lá, não obstante minha tristeza… Pela tarde veio
Titia buscar-nos para irmos ao Carmelo, e vi minha querida Paulina
atrás das grades… Oh! como sofri nessa visita ao Carmelo! Já que
escrevo a história de minha alma, tenho a obrigação de dizer tudo à
minha querida Mãe. Confesso que os sofrimentos anteriores à sua
entrada não eram nada em comparação com os que lhe sucederam…
Cada quinta-feira, íamos toda a família ao Carmelo, e eu, habituada que
era a entreter-me com Paulina, de coração a coração, conseguia a muito
custo dois ou três minutos ao terminar a visita. Entende-se que os
passasse a chorar, e me fosse embora como o coração em frangalhos…
Não percebia que, por atenção à Titia, preferíeis dirigir a palavra à Joana
e à Maria, em vez de falar com vossas filhinhas… Não o percebia, e no
fundo do coração punha-me a dizer: “Paulina está perdida para mim!!!”
Surpreende ver como meu espírito se abriu no meio do sofrimento.
Abriu-se a tal ponto que não tardei em cair doente.
A doença que me atingira, provinha certamente do demônio. Furioso
com vossa entrada no Carmelo, quis desforrar-se contra mim do grande
dano que nossa família lhe infligiria para o futuro, mas não sabia que a
carinhosa Rainha do Céu velava por sua débil florzinha e lhe sorria do
alto de seu trono, dispondo-se a deter a tempestade no momento que
sua flor poderia quebrar irremediavelmente…
Pelo fim do ano, fui acometida de contínua dor de cabeça, que quase
não me fazia sofrer. Estava em condições de continuar os estudos, e
ninguém se preocupava por minha causa. Assim ficou a situação até a
Páscoa de 1883. Tendo Papai ido a Paris com Maria e Leônia, Titia
levou-me com Celina para sua casa. Certa noite, Titio que ficara comigo,
falou-me de Mamãe, de recordações antigas, de uma maneira tão
bondosa, que profundamente me comoveu e fez chorar. Disse-me,
então, que eu tinha um coração demasiado sensível e necessitava de
muita distração. E, com Titia, resolveu proporcionar-nos folguedos nos
feriados de Páscoa. Naquela noite, devíamos ir ao Círculo Católico.
Achando, porém, que estava muito cansada, Titia fez-me deitar. Ao
trocar de roupa, fui sacudida por estranho tremor. Crendo que eu estava
com frio, Titia rodeou-me de cobertores e botijas com água quente.
Nada, entretanto, fazia reduzir minha agitação, que durou quase a noite
inteira. Ao regressar do Círculo Católico, com minhas primas e Celina,
Titio ficou muito surpreso de encontrar-me em tal estado. Tinha-o por
muito grave, mas não o quis declarar, para que Titia se não
sobressaltasse. No dia seguinte, mandou chamar o Dr. Notta que achou,
como Titio, estar eu com doença muito grave, da qual nunca fora
atingida criança tão nova. Todo o mundo ficou consternado. Minha Tia
viu-se obrigada a deixar-me na casa, e cuidou de mim com um desvelo
verdadeiramente maternal. Quando Papai voltou de Paris com minhas
irmãs maiores, Aimée recebeu-os com um ar tão desconsolado, que
Maria me supôs já morta… A doença, porém, não era ainda para
morrer. Era, antes, como a de Lázaro, para que Deus fosse glorificado..
De fato, Ele o foi, graças à admirável resignação do meu pobre Paizinho,
cuja idéia era que “sua filhinha ficaria louca, ou então morreria”. Ele o
foi, outrossim, graças à resignação de Maria! … Oh! quanto não sofreu
por minha causa… Como lhe sou reconhecida pelos cuidados que com
tão grande desprendimento me prodigalizou… O coração ditava-lhe o
que me era necessário. Na verdade, o coração de mãe é muito mais
sagaz do que o de um médico. Sabe adivinhar o que convém na doença
da filha…
A coitada da Maria teve de acomodar-se em casa do meu Tio, por não
haver então possibilidade de me transportarem aos Buissonnets.
Aproximava-se, entretanto, a tomada de hábito de Paulina. Diante de
mim, evitavam de falar a respeito, sabendo do desgosto que teria em
não poder assistir, mas era eu quem muitas vezes tocava no assunto,
quando dizia que estaria bastante melhor para visitar minha querida
Paulina. Realmente, o Bom Deus não quis privar-me dessa consolação.
Quis antes consolar sua querida Desposada, que tanto sofrera com a
doença de sua filhinha… Notei que, no dia do noivado, Jesus não quer
submeter suas filhas a provações. Deve a festa correr sem
contratempos, como antegozo das alegrias do Paraíso. Disso, não deu
Ele prova já cinco vezes?… Pude, por conseguinte, abraçar minha Mãe
querida, sentar-me em seus joelhos, e cobri-la de afagos… Pude
contemplá-la, tão encantadora, em seu branco ornato de noiva… Oh! foi
um dia radiante, de permeio em minha sombria provação, mas o dia
passou com presteza… Tive logo de tomar a carruagem que dali me
levou, bem longe de Paulina. . . bem longe do meu amado Carmelo.
Depois de chegarmos aos Buissonnets, fizeram-me deitar, a contragosto
meu, pois afiançava estar perfeitamente curada e já não precisar de
tratamento. Ainda mal, não me encontrava senão no começo de minha
provação!. .. No dia seguinte, tive uma recaída, e a doença agravou-se
de tal maneira, que, por cálculos humanos, eu já não podia sarar… Não
sei como descrever doença tão estranha. Persuadi-me agora de ser obra
do demônio. Mas, bastante tempo depois da cura, acreditava ter ficado
doente por acinte, o que constituía verdadeiro martírio para minha
alma…
Falei disso com Maria que me tranqüilizou o mais que podia, com sua
bondade de sempre. Falei disso também em confissão, e meu confessor
tentou acalmar-me, alegando que não era possível fingir estado de
doença ao ponto em que ficara. O Bom Deus que indubitavelmente
queria purificar-me, e antes de tudo humilhar-me, deixou comigo tal
martírio íntimo até minha entrada para o Carmelo, onde o Pai de nossas
almas me tirou, como que com a mão, todas as minhas dúvidas, e
desde então ando perfeitamente tranqüila.
Não é de surpreender que receasse ter-me fingido de doente, sem o ser
na realidade? Pois, dizia e fazia cousas em que nem pensava, quase
sempre parecia estar em delírio, a proferir palavras incoerentes. Apesar
disso, tenho a certeza de não ter ficado, um instante sequer, privada do
uso da razão… Muitas vezes parecia estar desfalecida, e não fazia o
mínimo movimento. Então, deixaria praticar comigo o que quisessem,
até que me matassem. Não obstante, escutava tudo o que se dizia em
redor de mim, e ainda estou lembrada de tudo… Certa vez, aconteceu-
me ficar sem poder abrir os olhos por mais tempo, nem abri-los por um
instante, quando estava sozinha…
Creio que o demônio recebera um poder exterior sobre mim, mas não
podia acercar-se de minha alma nem de meu espírito, senão para me
inspirar enormes receios de certas cousas, por exemplo, de remédios
muito simples, que em vão se esforçavam por me fazer tomar. No
entanto, se o Bom Deus permitia ao demônio achegar-se a mim,
também me enviava anjos visíveis … Maria ficava sempre junto à minha
cama, cuidava de mim e consolava-me com a afeição de mãe. Jamais
externou o menor enfado, e eu, todavia, lhe dava muito incômodo, não
admitindo que se arredasse de mim. No entanto, ela tinha a justa
necessidade de ir tomar refeição com Papai, mas eu não parava de
chamar por ela todo o tempo de sua ausência. Vitória que me fazia
guarda, era bastantes vezes obrigada a ir chamar minha querida
“Mamãe”, como eu lhe chamava. Quisesse Maria sair, havia de ser para
ir à missa, ou então para visitar Paulina. Então, eu não falava nada…
Meu Tio e minha Tia eram igualmente muito bons para comigo. Minha
boa querida Titia vinha visitar-me todos os dias, e trazia-me uma
infinidade de agrados. Vinham também visitar-me outras pessoas,
amigas da família. Eu, porém, suplicava à Maria lhes dissesse que não
queria receber visitas. Não me era agradável “ver, em redor de minha
cama, pessoas sentadas, ENFILEIRADAS, a olharem para mim como se
fosse um bicho raro”. A única visita que me dava prazer era a do Titio e
da Titia.
Depois da doença, não poderia precisar quanto minha afeição por eles
subiu de ponto. Mais do que nunca, compreendi melhor que, para nós,
não se tratava de parentes comuns. Oh! o pobre de nosso Paizinho tinha
muita razão em nos repetir, de vez em quando, as palavras que acabo
de escrever. Mais tarde, teve prova de que não se enganara, e agora
deve por certo proteger e bendizer os que lhe tributaram tão abnegadas
atenções … Quanto a mim, como estou ainda no exílio, e não posso
demonstrar meu reconhecimento, só disponho de um único meio para
aliviar meu coração: rezar pelos parentes que estremeço, e que foram e
ainda são tão bondosos para comigo!
Leônia também usava de muita bondade para comigo. Tentava distrairme
do melhor modo ao seu alcance. Eu é que algumas vezes a
magoava, pois ela bem se capacitava de que, junto a mim, Maria era
insubstituível… E que não fazia minha querida Celina por sua Teresa?…
Em dia de domingo, em vez de sair a passeio, vinha fechar-se horas
inteiras dentro de casa, ao pé de uma pobre menininha que tinha a
aparência de idiota. Realmente, precisava haver amor para que se não
esquivassem de mim… Ah! minhas queridas maninhas, quanto não vos
fiz padecer! … Ninguém, mais do que eu, vos causou tanto sofrimento,
e ninguém recebeu tanto amor, quanto vós me prodigalizastes… Por
sorte, terei o Céu para me desforrar. Muito rico é meu Esposo, e de seus
tesouros de amor tirarei para vos retribuir, ao cêntuplo, tudo quanto
sofrestes por minha causa…
Na doença, meu maior consolo, era receber carta de Paulina… Eu a lia,
tornava a ler, até sabê-la de cor… Certa vez, minha querida Mãe,
enviastes-me uma ampulheta e uma das minhas bonecas vestida de
carmelita. Dar uma idéia de minha alegria é algo de impossível… Titio
não ficou satisfeito, dizendo que, em vez de me fazerem lembrar do
Carmelo, seria preciso mantê-lo longe do meu espírito. Mas, eu sentia
pelo contrário, que a esperança de ser um dia carmelita, me alentava
viver… Meu gosto era trabalhar para Paulina. Fazia-lhe pequenos
artefatos de cartolina, e minha maior ocupação era tecer grinaldas de
boninas e miosótis para a Santíssima Virgem. Estávamos no belo mês
de maio. Toda a natureza se guarnecia de flores e trescalava de alegria.
Só a “florzinha” é que se finava, e parecia emurchecer para sempre…
Sem embargo, tinha junto a si um Sol. Esse Sol era a Estátua milagrosa
da Santíssima Virgem que, por duas vezes, tinha falado à Mamãe.
Amiúde, sim, bem amiúde, a florzinha pendia sua corola em direção do
Astro bendito… Certo dia, vi quando Papai entrou no quarto de Maria,
onde eu estava acamada. Deu-lhe, com expressão de grande tristeza,
várias moedas de ouro, dizendo-lhe escrevesse para Paris, mandando
celebrar missas em honra de Nossa Senhora das Vitórias, para curar sua
pobre filhinha. Oh! 3O como me comoveu ver a fé e o amor do meu
querido Rei! Queria poder dizer-lhe que estava curada, mas já eram
demais as falsas alegrias que lhe tinha preparado. Não eram, pois, meus
desejos que poderiam produzir milagre, e para minha cura se fazia
mister um milagre… Havia mister um milagre, e foi Nossa Senhora das
Vitórias que o praticou. Num domingo (durante a novena de missas),
Maria saiu para o jardim, e deixou-me com Leônia, que lia perto da
janela. Ao cabo de alguns minutos, pus-me a chamar quase que à
surdina: “Mamã… Mamã”. Habituada a ouvir-me sempre chamar assim,
Leônia não me deu atenção. Isso durou muito tempo. Então chamei
mais forte, e por fim Maria voltou. Vi perfeitamente quando entrou, mas
não conseguia dizer que a reconhecia, continuando a chamar cada vez
mais forte: “Mamã…” Padecia muito com a luta violenta e inexplicável, e
Maria talvez sofresse mais do que eu. Após baldados esforços para me
mostrar que estava junto a mim, pôs-se de joelhos perto de minha
cama, com Leônia e Celina. Voltando-se depois para a Santíssima
Virgem, e rezando-lhe com o fervor de uma mãe que pede pela vida de
sua filha, Maria alcançou o que desejava…
Por não encontrar nenhuma ajuda na terra, a coitada da Teresinha
também se voltara para sua Mãe do Céu, suplicando-lhe de todo o
coração, tivesse enfim piedade dela… De repente, a Santíssima Virgem
me pareceu bela, tão bela, como nunca tinha visto nada tão formoso. O
rosto irradiava inefável bondade e ternura, mas o que me calou no
fundo da alma foi o “empolgante sorriso da Santíssima Virgem”. Nesta
altura, desvaneceram-se todos os meus sofrimentos. Das pálpebras me
saltaram duas grossas lágrimas e deslizaram silenciosas sobre as faces.
Eram lágrimas de uma alegria sem inquietação… Oh! pensei comigo, a
Santíssima Virgem sorriu para mim, como sou feliz… Mas, nunca jamais
o contarei a ninguém, porque então desapareceria minha felicidade.
Sem nenhum esforço, baixei os olhos e enxerguei Maria que olhava para
mim com amor. Parecia emocionada e dava impressão de suspeitar o
valimento que a Santíssima Virgem me concedera… Oh! era exatamente
a ela, às suas edificantes orações que devia a graça do sorriso da
Rainha dos Céus. Quando viu meu olhar fito na Santíssima Virgem, disse
de si para si: “Teresa está curada!” Sim, a florzinha ia renascer para a
vida, o Raio luminoso que a reanimara, não pararia suas beneficências.
Não atuou de uma só vez, mas de modo manso e agradável foi
levantando e revigorando sua flor, de tal sorte que cinco anos depois ela
desabrocharia na montanha do Carmelo.
Como o disse, Maria adivinhara que a Santíssima Virgem me tinha
outorgado alguma graça oculta. Por isso, logo que fiquei a sós com ela,
como perguntasse o que vira, não pude resistir às suas indagações, tão
carinhosas e insistentes. Admirada de ver meu segredo descoberto, sem
que o tivesse revelado, confiei-o em toda a sua extensão à minha
querida Maria… Mas, infelizmente, como o tinha pressentido, minha
felicidade ia desaparecer e redundar em amargura. Por quatro anos, a
lembrança da inefável graça recebida foi para mim verdadeiro tormento
espiritual. Não recuperaria minha felicidade senão aos pés de Nossa
Senhora das Vitórias, quando então me foi devolvida em toda a sua
plenitude… Mais tarde, tornarei a falar desta segunda graça da
Santíssima Virgem.
Tenho agora que vos contar, minha Mãe querida, como minha alegria se
converteu em tristeza. Depois de ter ouvido o relato ingênuo e sincero
da “minha graça”, Maria pediu-me autorização de comunicá-la no
Carmelo, e por mim não podia dizer que não… Por ocasião de minha
primeira visita ao querido Carmelo, fiquei inundada de alegria, quando
vi minha Paulina com o hábito da Santíssima Virgem. Foi para nós duas,
um momento muito venturoso… Havia tanta cousa por dizer, que não
pude absolutamente falar nada. O coração estava cheio demais… A
bondosa Madre Maria de Gonzaga ali estava também, e dava-me mil
demonstrações de afeto.
Vi ainda outras freiras, diante das quais me inquiriram a respeito da
graça que recebera, e quiseram saber de mim, se a Santíssima Virgem
trazia ao colo o Menino Jesus, ou também se havia muita luminosidade
etc. Todas essas perguntas me conturbaram e atormentaram. Só podia
declarar uma cousa: “A Santíssima Virgem pareceu-me muito linda… e
eu a vi sorrir para mim”. Foi sua simples figura que me impressionara,
razão por que me parecia ter mentido (meus tormentos espirituais
acerca de minha doença já tinham começado), ao verificar que em seu
íntimo as carmelitas imaginavam cousa muito diferente…
Não padece dúvida, tivesse guardado meu segredo, teria também
guardado minha felicidade, mas a Santíssima Virgem permitiu tal
tormento para o bem de minha alma. Sem ele, teria talvez algum
pensamento de vaidade. Quando, pelo contrário, a humilhação se tornou
minha partilha, não podia considerar a mim mesma senão com
sentimento de profunda aversão… Oh! só no Céu poderei revelar o
quanto sofri! …
Por falar em visitas às carmelitas, lembro-me da primeira, pouco após a
entrada de Paulina. Esqueceu-me falar disto, mas trata-se de um
detalhe que não posso deixar de lado. Na manhã do dia em que devia
dirigir-me ao parlatório, estando a refletir sozinha na cama (pois ali
fazia minhas orações mais recolhidas, e sempre encontrava meu BemAmado,
ao contrário do que acontecia à esposa dos Cantares),
perguntava-me qual seria meu nome no Carmelo. Sabia que lá existia
uma Irmã Teresa de Jesus. Apesar disso, meu belo nome de Teresa não
me podia ser tirado. De repente, pensei no Menino Jesus a quem tanto
amava e disse para mim mesma: “Oh! Como seria feliz em ser chamada
de Teresa do Menino Jesus!” Nada disse no parlatório do sonho que
tivera acordada, mas essa boa Madre M. de Gonzaga, perguntando para
as irmãs qual o nome que deveria usar, veio-lhe à mente chamar-me
pelo nome que eu tinha sonhado… Minha alegria foi grande e esse feliz
encontro de pensamento pareceu-me uma delicadeza do meu BemAmado
Menino Jesus.
Esqueci mais alguns detalhes da minha infância antes do meu ingresso
no Carmelo. Não vos falei do meu gosto pelas estampas e pela leitura…
No entanto, minha querida Madre, às belas estampas que me
mostráveis, como recompensa, devo uma das mais doces alegrias e
uma das mais vivas impressões que me incitavam à prática da virtude…
Ficava horas esquecidas a contemplá-las. A Florzinha do Divino
Prisioneiro, por exemplo, falava-me de tantas cousas, que me deixavam
embevecida. Vendo o nome de Paulina escrito na parte de baixo da
florzinha, queria que o de Teresa também o fosse, e oferecia-me a Jesus
para ser sua florzinha…
Se não sabia brincar, gostava muito de ler, e nisso levaria minha vida.
Por sorte, para me guiarem, havia anjos da terra, que para mim
selecionavam livros que me distraíssem e ao mesmo tempo me
alimentassem o espírito e o coração. Depois só devia aplicar certo
tempo na leitura, o que me impunha grandes sacrifícios, interrompendo
às vezes minha leitura no meio do trecho mais empolgante… O atrativo
pela leitura durou até minha entrada para o Carmelo. Não poderia
indicar o número de livros que me passaram pelas mãos. Mas, o Bom
Deus nunca permitiu que lesse um só deles, capaz de me prejudicar.
Verdade é, na leitura de certas histórias de cavalaria, nem sempre
apanhava desde logo o lado autêntico da vida. O Bom Deus, porém, de
pronto me fazia intuir que a verdadeira glória é a que dura eternamente,
não havendo, para sua consecução, necessidade de realizar obras
aparatosas, mas de esconder-se e praticar a virtude, de molde a não
saber a mão esquerda o que faz a direitas… Foi assim que, lendo a
narração dos feitos patrióticos de heroínas francesas, mormente da
Venerável JOANA D’ARC, sentia grande desejo de imitá-las. Perecia
verificar em mim o mesmo ardor, de que estavam animadas, a mesma
inspiração celestial.
Recebi, então, uma graça que sempre tomei como uma das maiores de
minha vida, pois nessa idade não recebia, como agora, as luzes em que
estou imersa. Cuidava que nascera para a glória, e como procurasse um
meio de alcançá-la, o Bom Deus inspirou-me os sentimentos que acabo
de descrever. Fez-me, outrossim, compreender que minha glória
característica não apareceria aos olhos dos mortais, consistiria em
tornar-me grande Santa!!!… Poderia tal desejo parecer temeridade,
tomando-se em consideração quanto era fraca e imperfeita, e quanto
ainda o sou, depois de passar sete anos em religião. Muito embora,
sinto sempre a mesma audaciosa confiança de tornar-me grande Santa,
pois não conto com meus méritos, por não ter nenhum, mas espero em
Aquele que é a Virtude, a própria Santidade. Só Ele é que, cingindo-se
aos meus débeis esforços, me elevará a Si próprio, e, cobrindo-me com
seus méritos infinitos, fará de mim uma Santa. Não calculava, então,
que seria preciso sofrer muito para chegar à santidade. O Bom Deus não
tardou em mo demonstrar, quando enviou as provações que mais acima
relatei… Agora retomarei minha exposição, desde o ponto em que a
tinha largado. Três meses após minha cura, Papai levou-nos em viagem
a Alençon. Era a primeira vez que para lá voltava. Bem grande foi minha
alegria rever os lugares onde vivera minha infância, e de poder
principalmente rezar junto à sepultura de Mamãe, pedindo-lhe que
sempre me proteja…
O Bom Deus concedeu-me a graça de conhecer o mundo na medida
suficientemente exata para o desprezar, e dele me conservar afastada.
Poderia afirmar ter sido na minha permanência em Alençon que fiz
minha primeira entrada no mundo. Em redor de mim, tudo era gozo e
felicidade. Tornava-me alvo de festas, de mimos e admirações. Numa
palavra, dentro de quinze dias, tive uma vida semeada só de flores…
Não nego que tal vida tinha encantos para mim. Muita razão tem a
Sabedoria em ponderar: “Porque a fascinação das frivolidades seduz até
o espírito arredado do mal”‘. Na idade de dez anos, o coração deixa-se
facilmente embelezar. Por isso, considero como grande graça não ter
ficado em Alençon. Os amigos que ali tínhamos eram muito dados ao
mundo, sabiam aliar demais as alegrias da terra com o serviço de Deus.
Não pensavam bastante na morte, e no entanto veio a morte visitar
grande número de pessoas, minhas conhecidas, jovens, ricas e felizes!!!
Gosto de volver em pensamento aos lugares encantados, onde elas
viveram, e de perguntar a mim mesma onde estão, o que usufruem dos
castelos e dos parques, donde as vi gozarem as comodidades da vida?…
E vejo que debaixo do Sol tudo é vaidade e aflição de espírito. . . que o
único bem consiste em amar a Deus de todo o coração e ser pobre de
espírito aqui na terra…
Jesus quis, talvez, mostrar-me o mundo antes da primeira visita que
estava para me fazer, a fim de que eu com mais liberdade escolhesse o
caminho que lhe prometeria seguir. A época de minha Primeira
Comunhão ficou gravada no coração como uma lembrança sem
penumbras. Parece-me, não podia estar mais bem disposta do que
estava. Além do mais, meus sofrimentos espirituais deixaram-me em
sossego durante quase um ano. Queria Jesus fazer-me gozar de uma
alegria tão perfeita, quanto possível neste vale de lágrimas…
Lembrai-vos, minha querida Madre, do maravilhoso livrinho que fizestes
para mim, três meses antes da minha Primeira Comunhão?… Foi o que
me ajudou a preparar o coração de uma maneira contínua e rápida.
Pois, se desde muito já o vinha preparando, era bem necessário dar-lhe
novo impulso, enchê-lo de novas flores, para que nele pudesse Jesus
repousar com alegria… Praticava diariamente grande número de
piedosos exercícios, que constituíam outras tantas flores. Fazia número
maior ainda de jaculatórias, que escrevestes para cada dia em meu
livrinho, e tais atos de amor formavam os botões das flores…
Toda semana, escrevíeis-me uma linda cartinha, que me enchia a alma
de profundos pensamentos e me ajudava a praticar a virtude. Era um
consolo para vossa pobre filhinha, que fazia tão grande sacrifício em se
conformar com não ser, todas as tardes, preparada em vossos joelhos,
como o fora sua querida Celina… No meu caso, era Maria que fazia as
vezes de Paulina. Eu sentava nos joelhos dela, e nessa posição escutava
com avidez o que me dizia. Parecia-me que todo o seu coração, tão
grande, tão generoso, se transferia para dentro de mim. – Como
guerreiros famosos ensinam aos filhos o traquejo das armas, assim
também ela me falava dos combates da vida, do laurel outorgado aos
vitoriosos… Maria falava-me ainda das imorredouras riquezas que são
fáceis de juntar todos os dias, da infelicidade de passar ao largo, sem
querer dar-se ao trabalho de estender a mão para as agarrar. Depois,
mostrava-me o meio de ser santa pela fidelidade nas mínimas coisas.
Deu-me o folheto “Sobre a renúncia”, que eu meditava com toda a
delícia …
Oh! como era eloqüente minha querida madrinha! Quisera que não fosse
a única a ouvir-lhe os profundos ensinamentos. Sentia-me tão atingida,
que em minha ingenuidade acreditava que os maiores pecadores teriam
sido atingidos como eu, deixariam então suas riquezas caducas, e já não
quereriam ganhar outras senão as provenientes do Céu… Nessa época,
ninguém ainda me ensinara o modo de fazer oração, apesar da grande
vontade que tinha de aprendê-lo. Como, porém, me achasse bastante
piedosa, Maria só me deixava fazer minhas preces. Um dia, uma das
minhas mestras da Abadia me perguntou o que fazia nos dias de folga,
quando estava sozinha. Respondi-lhe que me punha atrás de minha
cama num vão que ali havia, fácil para mim de fechar com o cortinado,
e nesse lugar ficava a “pensar”. Mas, em que pensáveis? perguntou-me.
– Penso no Bom Deus, na vida… na ETERNIDADE, enfim, penso!… Muito
se divertiu a boa religiosa à minha custa. Mais tarde, gostava de
lembrar o tempo em que pensava, e perguntava-me se ainda me punha
a pensar… Compreendo agora que, sem o saber fazia oração, e que o
Bom Deus já me instruía em segredo.
Depressa se passaram os três meses de preparação. Tive logo de entrar
em retiro, e de ficar interna para esse fim, pernoitando na Abadia. Não
consigo externar em palavras a suave recordação que o retiro me
deixou. Francamente, se sofri muito como interna, fui amplamente
recompensada pela felicidade inefável desses poucos dias passados à
espera de Jesus… Não creio que se possa fruir tal alegria noutro lugar
senão em comunidades de religiosas. Sendo restrito o número de
crianças, fácil se tornava dar atenção a cada uma delas em particular, e
na ocasião tiveram, realmente, nossas mestras maternais cuidados para
conosco. De mim se ocupavam mais que de outras. Todas as noites,
vinha a mestra diretora, com a lanterninha, abraçar-me na cama,
dando-me sinais de grande afeição. Comovida com sua bondade, disselhe
uma noite que lhe confiaria um segredo. Depois de tirar, com ar
misterioso, meu precioso livrinho que estava debaixo do travesseiro,
mostrei-lho com olhos radiantes de alegria… De manhã, achava muito
bonito ver como as alunas se levantavam da cama, ao toque da
campainha, e queria fazer como elas, mas não estava habituada a
aprontar-me sozinha. Não estava ali Maria para me arrumar o cabelo.
Por isso, tive de apresentar, timidamente, meu pente à supervisora do
vestiário, a qual se riu ao ver uma menina crescida, de 11 anos, que
não sabia cuidar de si mesma. No entanto, ela penteava-me, não de
modo tão delicado, como Maria, mas nem por isso me atrevia a gritar,
segundo meu costume de todos os dias, quando me submetia à leve
mão da madrinha… No retiro, averiguei que era uma criança cercada de
mimos e atenções, como poucas o serão na terra, antes de tudo entre
crianças órfãs de mãe… Diariamente, vinham Maria e Leônia visitar-me,
em companhia de Papai que me cumulava de agradinhos de sorte que
não sofri com a privação de estar longe da família, e nada ofuscou o
lindo Céu azul do meu retiro.
Escutava com muita atenção as instruções que o Sr. Padre Domin nos
dava, e delas fiz até um resumo. Quanto aos meus próprios
pensamentos, não quis anotar nenhum, alegando que os conservaria
bem de memória, o que foi verdade … Para mim era grande satisfação
acompanhar as religiosas a todos os ofícios. No meio de minhas
companheiras, atraía a atenção por causa de um grande Crucifixo que
Leônia me tinha dado, e que eu metia na cintura à guisa dos
missionários. O Crucifixo despertava a inveja das religiosas. Cuidavam
que, andando com ele, queria imitar minha irmã carmelita… Oh!
realmente era para ela que se dirigiam meus pensamentos. Sabia que
minha Paulina estava em retiro como eu, não para que Jesus se desse a
ela, mas para ela se dar a Jesus. Por conseguinte, a solidão que passei
em expectativa, era-me duplamente querida…
Tenho recordação de que uma manhã me passaram para a enfermaria,
porque estava tossindo muito (desde minha doença, as mestras tinham
grande cuidado comigo; por ligeira dor de cabeça, ou quando me vissem
mais pálida do que de costume, mandavam-me respirar ao ar livre ou
repousar na enfermaria). Vi entrar minha querida Celina que, não
obstante o retiro, obtivera permissão de visitar-me, para me oferecer
um santinho que me causou grande prazer. Era a “Florzinha do Divino
Prisioneiro”. Oh! como me foi grato receber tal lembrança das mãos de
Celina!… Quantos pensamentos de amor não tive por causa dela!…
Na véspera do grande dia, recebi a absolvição sacramental pela segunda
vez. A confissão geral deixou-me grande paz na alma, e o Bom Deus
não permitiu que a mais leve dúvida a perturbasse. No correr da tarde,
pedi perdão a todos da família que vieram visitar-me, mas não
conseguia falar senão através de minhas lágrimas. Estava por demais
comovida… Paulina não estava presente, mas pelo coração senti que se
mantinha junto a mim. Enviara-me por Maria uma bela estampa, que
não me cansava de admirar e fazer admirar por toda a gente! …
Escrevera ao bom Padre Pichon para me recomendar às suas orações,
dissera-lhe também que logo me tornaria carmelita, e então seria ele
meu diretor. (Com efeito, foi o que aconteceu quatro anos mais tarde,
pois no Carmelo lhe abri minha alma…). Maria entregou-me uma carta
dele. Na verdade, senti-me sobremaneira feliz!… Chegavam-me,
simultaneamente, todas as felicidades. O que mais me regozijou na
carta dele, foi esta frase: “Amanhã, subirei ao Sagrado Altar, e a
intenção será por vós e por vossa Paulina!” No dia 8 de maio, Paulina e
Teresa se uniram cada vez mais, pois Jesus parecia tomá-las juntas,
quando as inundou de suas graças …
Raiou, enfim, o “mais belo de todos os dias”. Quão inefáveis não são as
recordações que na alma me deixaram as mínimas circunstâncias dessa
data do Céu! … A alegre alvorada, os respeitosos e afetuosos ósculos
das mestras e das colegas maiores … O salão nobre, repleto de flocos
de neve, com os quais cada criança se via adornada por sua vez…
Acima de tudo, a entrada na Capela e a entoação matinal do lindo
cântico: “Ó Santo Altar, que de Anjos sois rodeado!”
Não quero, contudo, descer a pormenores. Há coisas que perdem a
fragrância, quando expostas ao ar. Existem pensamentos da alma que
se não podem traduzir em linguagem terrena, sem perderem o sentido
autêntico e celestial. São como a “pedrinha branca que se dará ao
vencedor, sobre a qual está escrito um nome, que ninguém CONHECE,
senão QUEM a recebe”. Ah! como foi doce o primeiro beijo de Jesus à
minha alma! …
Foi um beijo de amor. Sentia-me amada, e de minha parte dizia: “Amovos,
entrego-me a Vós para sempre”. Não houve pedidos, nem lutas,
nem sacrifícios. Desde muito, Jesus e a pobre Teresinha se tinham
olhado e compreendido. Naquele dia, porém, já não era um olhar, era
uma fusão. Já não eram dois, Teresa desvanecera, como a gota de água
que se dilui no bojo do oceano. Ficava só Jesus, era Ele o Senhor, o Rei.
Teresa pedira-lhe tirasse sua liberdade, pois sua liberdade lhe fazia
medo., Sentia-se tão fraca, tão frágil, que desejava permanecer para
sempre unida à Força Divina! … Sua alegria era grande demais, era
profunda demais, para que a pudesse represar. Não tardou em
debulhar-se em deliciosas lágrimas, com grande espanto das colegas
que, mais tarde, diziam entre si: “Por que será que chorou? Sentiria
algo que a acabrunhasse?… Não será, antes, por não ver junto a si a
própria mãe ou a irmã, que é carmelita, a quem tanto ama?” – Não
compreendiam que, ao descer a um coração toda a alegria do Céu, não
a pode suportar um coração banido, sem derramar lágrimas… Oh! não!
A ausência de Mamãe não me contristava no dia de minha Primeira
Comunhão. Não estava o Céu dentro de mim, e nele não tinha Mamãe
desde muito tomado lugar? Desta forma, quando recebi a visita de
Jesus, recebi também a de minha querida Mãe, que me abençoava e se
regozijava com minha felicidade… Não chorava, outrossim, a ausência
de Paulina. Sem dúvida alguma, ficaria contente, se a visse ao meu
lado, mas desde muito meu sacrifício estava aceito. Nessa data, meu
coração se encheu só de alegria. Uni-me a ela, que irrevogavelmente se
dava Aquele que tão amorosamente se dava a mim! …
Na parte da tarde, fui eu quem pronunciou o ato de consagração à
Santíssima Virgem. Era muito justo que, em nome de minhas
companheiras, falasse à minha Mãe do Céu, eu que tão cedo me privara
de minha Mãe da terra… De todo o coração me pus a falar-lhe, a
consagrar-me a ela, como filha que se lança aos braços da Mãe, e lhe
pede olhe por ela. Parece-me que a Santíssima Virgem terá olhado para
sua florzinha e ter-lhe-á sorrido, pois não foi ela quem a curara com
visível sorriso?… Não foi ela que no cálice de sua florzinha depositara
seu Jesus, a Flor dos Campos, o Lírio do Vale?…
À tarde do belo dia, estive novamente com minha família terrena. Pela
manhã, já tinha abraçado Papai e todos os meus queridos parentes.
Agora, porém, se estabelecia a verdadeira reunião, quando Papai tomou
pela mão sua rainhazinha e se dirigiu ao Carmelo… Vi então minha
Paulina, que se tornara esposa de Jesus. Divisei-a com seu véu, branco,
como o meu, e com sua coroa de rosas… Oh! minha alegria não
comportava amargura. Esperava estar em breve novamente com ela, e
com ela esperar pelo Céu!
Não fiquei insensível à festa de família, que se realizou na tarde da
minha primeira Comunhão. Grande prazer me causou o lindo relógio que
o meu Rei me deu, mas minha alegria era tranqüila, e nada chegou a
perturbar minha paz interior.
Maria levou-me consigo na noite imediata ao grande dia, pois os dias
mais radiosos são seguidos de escuridões. Sem ocaso será só o dia da
primeira e única, da eterna Comunhão do Céu…
O dia que se seguiu à minha primeira Comunhão foi ainda um dia
bonito, mas repassado de melancolia. A roupa linda que Maria comprara
para mim, todos os presentes recebidos, não me enchiam o coração.
Não havia senão Jesus que pudesse contentar-me. Anelava pelo
momento em que me fosse dado recebê-lo pela segunda vez. Cerca de
um mês após minha primeira comunhão fui confessar-me para a festa
da Ascensão, e animei-me a pedir licença de fazer a Santa Comunhão.
Contra toda a expectativa, o senhor sacerdote mo permitiu, e coube-me
a felicidade de ajoelhar à Sagrada Mesa entre Papai e a Maria. Que doce
recordação não guardei da segunda visita de Jesus! Desta vez ainda,
corriam minhas lágrimas com inefável doçura. Sem cessar repetia a
mim mesma as palavras de São Paulo: “Já não sou eu que vivo, Jesus é
quem vive em mim! … ” A partir dessa Comunhão, meu desejo de
receber o Bom Deus tornou-se cada vez maior; obtive permissão de
fazê-lo em todas as festas principais. Na véspera desses ditosos dias,
Maria punha-me à noite sobre os joelhos e preparava-me, como o fizera
para minha primeira Comunhão. Tenho lembrança de que me falou,
certa vez, a respeito do sofrimento, dizendo-me que provavelmente não
andaria por tal caminho, mas que o Bom Deus sempre me guiaria, como
se faz com uma criança…
No dia seguinte, depois de ter comungado, as palavras de Maria
voltaram-me ao pensamento. Senti nascer no coração grande desejo de
sofrer e, ao mesmo tempo, a íntima segurança de que Jesus me
reservava grande número de cruzes. Senti-me inundada de tão grandes
consolações, que as considero como uma das maiores graças de minha
vida. O sofrer tornou-se-me um atrativo. Tinha encantos que me
arrebatavam, sem os conhecer com clareza. Até então, sofria sem amar
o sofrimento; desde aquele dia senti por ele verdadeiro amor. Sentia
também o desejo de amar só a Deus, de não encontrar alegria senão
Nele. Muitas vezes, repetia em minhas comunhões as palavras da
Imitação de Cristo: “Ó Jesus! doçura inefável, convertei-me em
amargura todas as consolações da terra!…” Esta oração me saía dos
lábios sem esforço, sem constrangimento. Vinha-me a impressão de que
a repetia, não por minha vontade, mas como criança que repete as
palavras que uma pessoa amiga lhe sugere… Mais adiante, minha
querida Mãe, dir-vos-ei como aprouve a Jesus realizar meu desejo,
como só Ele foi sempre minha inefável doçura. Se disso vos falasse
desde já, seria obrigada a antecipar-me ao tempo de minha
adolescência. Ainda me restam muitas particularidades de minha
infância que vos devo contar.
Pouco tempo depois da minha primeira Comunhão entrei em novo retiro
para a Crisma. Tinha-me preparado, com bastante empenho, para
receber a visita do Espírito Santo. Não conseguia compreender que se
não dê maior cuidado à recepção deste sacramento de Amor. De
ordinário, fazia-se um só dia de retiro para a Crisma. Como, porém, o
Senhor Bispo não podia vir no dia marcado, coube-me o consolo de ter
dois dias de solidão. Para nos distrair, nossa mestra levou-nos ao Monte
Cassino, onde colhi grandes margaridas para a festa do Corpo de Deus.
Oh! como estava exultante a minha alma! Igual aos apóstolos, eu
aguardava, venturosa, a visita do Espírito Santo … Folgava com a idéia
de que dentro em breve seria perfeita cristã, sobretudo que
eternamente teria na fronte a misteriosa cruz que o bispo traça, quando
faz a imposição do Sacramento … Chegou afinal o ditoso momento. Não
senti, quando desceu o Espírito Santo nenhum vento impetuoso, mas
antes aquela leve brisa, cujo murmúrio o profeta Elias ouviu no monte
Horeb… Nesse dia, recebi a força para sofrer, pois logo em seguida
devia começar o martírio de minha alma … Foi minha querida e gentil
Leônia que me serviu de madrinha. Estava tão comovida que não pôde
conter a efusão de lágrimas todo o tempo da cerimônia. Recebeu,
comigo, a Santa Comunhão, pois nesse belo dia tive ainda a felicidade
de unir-me a Jesus.
Terminadas as deliciosas e inolvidáveis festas, minha vida retornou ao
ritmo ordinário, isto é, tive de retomar a vida colegial, que tanto me
custava. Quando fiz minha Primeira Comunhão, apreciava a convivência
com crianças de minha idade, todas cheias de boa vontade, tendo
tomado, como eu, a resolução de praticar seriamente a virtude. Mas,
era preciso pôr-me em contato com alunas bem diferentes, dissipadas,
não desejosas de cumprir o regulamento, e isto me deixava muito
desconsolada. Tinha um gênio folgaz, mas não sabia entregar-me aos
brinquedos próprios de minha idade. No recreio, apoiava-me muitas
vezes contra uma árvore e contemplava o andamento do jogo, enquanto
me engolfava em sérias reflexões! Inventara um jogo que me agradava.
Era o de enterrar as pobres avezinhas que encontrávamos mortas
debaixo das árvores. Muitas alunas tiveram gosto em ajudar-me, de
sorte que nosso cemitério se tornou muito bonito, plantado de árvores e
flores, proporcionais ao tamanho de nossos pequenos emplumados.
Gostava, outrossim, de contar histórias. Inventava-as na medida que
me acudiam à imaginação. Minhas colegas rodeavam-me com
entusiasmo, e de vez em quando alunas maiores integravam-se ao
grupo de ouvintes. Ia continuando a mesma história por vários dias,
pois tinha prazer em torná-la cada vez mais interessante, na proporção
que via as impressões despertadas, marcadas na fisionomia de minhas
companheiras. Sem embargo, a mestra logo me proibiu continuar minha
atividade oratória, pois queria ver-nos brincar e correr, e não discorrer…
Apanhava com facilidade o sentido das matérias que aprendia, mas
tinha dificuldade em decorar os textos. Por isso, quanto ao catecismo,
no ano que precedeu minha Primeira Comunhão, pedia quase todos os
dias a permissão para decorá-lo no tempo dos recreios. Meus esforços
coroaram-se de bom êxito, e sempre fui a primeira. Perdendo
casualmente meu lugar, por causa de uma única palavra esquecida,
minha dor manifestava-se por lágrimas amargas, que o Padre Domin
não sabia como estancar… Estava muito satisfeito comigo (quando não
chorava), e chamava-me sua doutorazinha, por causa de meu nome
Teresa. Certa vez, a aluna que vinha depois de mim, não soube formular
a argüição de catecismo para sua colega. Depois de passar, em vão,
toda a roda das alunas, o Sr. Padre voltou-se novamente para mim,
declarando que ia verificar se eu merecia o lugar de primeira da classe.
Em minha profunda humildade, era só o que esperava. Levantei-me com
segurança, respondi as argüições, sem cometer erro nenhum, com
grande surpresa de todo o mundo… Feita minha Primeira Comunhão,
continuei meu zelo pelo catecismo até a saída do colégio. Dava boa
conta dos estudos. Era quase sempre a primeira. Meus maiores
sucessos eram em História e redação, Todas minhas mestras me tinham
como aluna muito inteligente. Outro tanto não acontecia em casa de
Titio, onde passava por ignorantinha, boa e meiga, dotada de juízo reto,
mas incapaz e desajeitada… Não me surpreende a opinião que Titio e
Titia tinham e certamente ainda terão a meu respeito. Por ser muito
tímida, quase não falava. Quando escrevia, meu rabisco e minha
ortografia – nada mais natural – não eram de feição que encantassem…
Verdade é que, em costurinhas, em bordados e noutras tarefas, me
desempenhava bem, a gosto de minhas mestras. Mas, o modo
desajeitado com que manejava meu trabalho de agulha justificava a
opinião pouco lisonjeira que tinham de mim. Considero tudo isso como
uma graça. Uma vez que o Bom Deus queria meu coração só para Si, já
atendia minha oração, quando “trocava em amargura as consolações da
terra”. Para mim, isso se tornava tanto mais necessário, quanto mais
não me conservaria insensível a louvores. Muitas vezes, gabavam diante
de mim a inteligência das outras, e jamais a minha. Daí concluí que a
não tinha, e resignei-me a carecer dela…
Meu coração, sensível e amoroso, facilmente ter-se-ia entregado, se
tivesse encontrado um coração capaz de compreendê-lo… Tentei ligarme
a meninas de minha idade, principalmente a duas dentre elas.
Tinha-lhes amor, e elas por sua vez me amavam tanto, quanto eram
capazes de fazê-lo. Mas, que lástima! Como é mesquinho e volúvel o
coração das criaturas!!! … Não demorei em perceber que meu amor era
incompreendido. Uma de minhas amigas precisou procurar a família, e
voltou alguns meses depois. Durante sua ausência, pensava nela e
guardava cuidadosamente um anelzinho que me dera. Quando tornei a
ver minha companheira, grande foi minha alegria, mas não obtive, ainda
mal, senão um olhar indiferente… Meu amor não fora compreendido.
Percebi-o, e não mendiguei uma afeição que me era negada. O Bom
Deus, porém, deu-me um coração tão leal que, amando com pureza,
ama para sempre. Por isso, continuei a rezar pela minha companheira, e
ainda lhe tenho afeição… Ao ver que Celina queria bem a uma de
nossas mestras, quis imitá-la, mas não pude consegui-lo, pois não sabia
conquistar as boas graças das criaturas. ó ditosa ignorância! Como me
livrou de grandes males!… Quanto não agradeço a Jesus de me fazer
encontrar só “amargura nas amizades da terra”! Com um coração como
o meu, deixar-me-ia prender e cercear as asas. Como pode ria, então,
“voar e repousar?” Como pode unir-se intimamente a Deus, um coração
entregue à afeição das criaturas?… Tenho, o sentimento de que não é
possível. Sem beber da taça envenenada do amor por demais ardente
das criaturas, sinto em mim que me não é possível estar equivocada. Vi
tantas almas que, seduzidas por essa luz falsa, esvoaçaram como
míseras mariposas e queimaram as asas. Depois, volveram-se à
verdadeira e meiga luz do amor. Esta lhes deu novas asas, mais
brilhantes e mais ligeiras, a fim de poderem voar para junto de Jesus,
Fogo Divino, “que arde sem se consumir”. Oh! eu o sinto, Jesus
conhecia-me como fraca demais para me expor à tentação. Quiçá,
deixar-me-ia queimar toda inteira pela enganadora luz, se a visse
fulgurar diante dos olhos … Não aconteceu assim. Só encontrei
amargura, onde almas mais robustas deparam com alegria, e desta se
desfazem por fidelidade. Não tenho, portanto, nenhum mérito em me
não ter entregue ao amor das criaturas, uma vez que só fui preservada
pela grande misericórdia do Bom Deus! … Reconheço que, sem Ele,
poderia cair tão baixo como Santa Madalena. E com grande doçura ecoa
em minha alma a profunda palavra de Nosso Senhor a Simão… Eu o sei,
“menos AMA aquele, a quem menos se perdoa”. Mas, não ignoro
também que a mim Jesus perdoou mais do que a Santa Madalena, pois
me perdoou por antecipação, porquanto me impediu que caísse. Oh!
pudera explicar o que sinto! … Dou aqui um exemplo que traduzirá um
pouco meu modo de pensar. – Suponho que o filho de um entendido
doutor depare no caminho com uma pedra, que o faz cair e fraturar um
membro. De pronto lhe acorre o pai, ergue-o com amor, pensa-lhe as
lesões, aplicando todos os recursos de sua arte. E o filho,
completamente curado, logo lhe testemunha sua gratidão. Não resta
dúvida, o filho tem todo o motivo de querer bem ao Pai! Farei, contudo,
outra suposição ainda. Sabendo que, no caminho do filho, se encontra
uma pedra, o pai apressa-se em tomar a dianteira, e remove-a, sem
que ninguém o veja. O filho, por certo, objeto de seu previdente
carinho, não TENDO CONHECIMENTO da desgraça, da qual o pai o
livrara, não lhe mostrará gratidão, e ter-lhe-á menos amor do que se
fora curado por ele… Entanto, se souber o perigo, do qual acaba de
escapar, não o amará ainda mais? Ora, tal filha sou eu, objeto do amor
previdente de um Pai, que enviou seu Verbo para resgatar não os
justos, mas os pecadores “. Quer que eu o ame, porque me perdoou,
não digo muito, mas TUDO. Não esperava que eu muito o amasse, como
Santa Madalena, mas quis que SOUBESSE como me amou com um
amor de inefável previdência, a fim de que agora o ame até a loucura!…
Ouvi dizer que se não encontra alma pura mais amorosa do que uma
alma arrependida. Oh! Quem me dera desmentir a afirmação!…
Percebo estar muito longe do meu assunto, motivo pelo qual me
apresso em retomá-lo. O ano seguinte à minha Primeira Comunhão
escoou-se quase todo sem provações interiores para minha alma. No
retiro para a segunda Comunhão é que fui assaltada pela terrível doença
de escrúpulos… É preciso passar por tal martírio, para o compreender.
Ser-me-ia impossível dizer quanto não sofri em ano e meio… Todos os
meus pensamentos e as minhas mais ações mais simples se tornavam
para mim motivo de perturbação. Só tinha sossego, quando os contava
à Maria, e isto me era muito penoso, por sentir a obrigação de lhe dizer
todas as idéias extravagantes que me vinham à mente a respeito dela
própria. Alijado meu fardo, desfrutava um instante de paz, mas a paz
desvanecia-se como um relâmpago, e logo começava novamente meu
martírio. De quanta paciência não precisava minha querida Maria, para
me ouvir, sem dar mostras de nenhum aborrecimento!… Mal chegava
eu da Abadia, punha-se ela a arrumar-me os cabelos para o dia seguinte
(pois, querendo agradar ao Papai, a rainhazinha andava todos os dias
com os cabelos em cachinhos, para grande admiração das colegas,
mormente das professoras que não não viam crianças tão mimadas
pelos pais). E durante a arrumação não parava de chorar, contando
todos os meus escrúpulos. Como tivesse terminado os estudos, Celina
voltou para casa no fim do ano, e a pobre Teresa, obrigada a ficar
sozinha, não demorou a ficar doente, pois o único interesse que a
mantinha interna consistia em estar com sua inseparável Celina, sem a
qual “sua filhinha” já não poderia ali continuar… Deixei, pois, a Abadia
na idade de 13 anos e continuei meus estudos, tomando várias aulas
semanais em casa da Sra. Papinau”. Era uma pessoa boníssima, muito
culta, com uns ares de solteirona. Vivia com a mãe, e encantava ver-se
o pequeno lar, que juntas constituíam a três (pois a gata fazia parte da
família e eu tinha de suportar suas sonecas em cima dos meus cadernos
e, inclusive, admirar seu porte). Tinha a vantagem de viver na
intimidade da família. Como os Buissonnets ficavam muito longe para as
pernas já um tanto envelhecidas de minha professora, pedira ela fosse
tomar as aulas em sua casa. Ao chegar, encontrava ordinariamente a
velha senhora Cochain. Fitava-me “com seus olhos grandes e límpidos”,
e depois chamava com voz descansada e sentenciosa: “Senhô rra
Papineau… a Se nho rrita Teresa já chegou!”. Sua filha respondia-lhe
prontamente, com voz acriançada: “Já vou, Mamã”. E logo começava a
aula. Essas lições tinham a vantagem (além dos conhecimentos que
adquiria) de fazer-me conhecer o mundo… Quem o diria?… Na sala,
mobiliada à moda antiga, rodeada de livros e cadernos, presenciava
muitas vezes visitas de todos os gêneros, de sacerdotes, senhoras,
moças, etc. Na medida do possível, a conversa ficava por conta da Sra.
Cochain, a fim de que a filha pudesse dar-me aula, mas, em tais dias,
não aprendia grande coisa. Com o nariz metido no livro, ouvia tudo o
que se falava, até o que para mim seria melhor não escutar. A vaidade
insinua-se tão facilmente no coração! … Dizia uma senhora que eu tinha
cabelos bonitos… Na saída, uma outra, julgando não ser ouvida,
indagava quem era essa menina tão bonita. E tais palavras, tanto mais
lisonjeiras, quanto não eram ditas diante de mim, deixavam-me na alma
uma impressão de gozo, que claramente me indicava como eu era cheia
de amor-próprio. Oh! quanta compaixão não sinto das almas que se
perdem!… É tão fácil perder-se nas sendas floridas do mundo … Não há
dúvida, para uma alma mais formada a doçura que ele oferece, vem
mesclada de amargura, e o imenso vácuo dos desejos não poderia
preencher-se com louvores momentâneos … No entanto, se meu
coração desde o seu despertar não se erguera até Deus, se o mundo me
tivera sorrido desde minha entrada na vida, que teria acontecido
comigo?… ó minha Mãe querida, com que gratidão canto as
misericórdias do Senhor! … De acordo com as palavras da Sabedoria,
não foi ele que “me retirou do mundo, antes que meu espírito se
pervertesse com sua malícia, e que suas enganosas aparências me
seduzissem a alma?” A Santíssima Virgem também velava sua florzinha.
Não querendo que perdesse o brilho ao contato com as coisas da terra,
retirou-a para o alto de sua montanha, antes que desabrochasse…
Enquanto aguardava o ditoso momento, Teresinha crescia no amor à
sua Mãe do Céu. Para lhe dar prova desse amor, praticou uma ação que
muito lhe custou, e que a despeito de sua extensão vou historiar em
poucas palavras… Quase logo depois de minha admissão na Abadia, fui
recebida na associação dos Santos Anjos. Apreciava muito as práticas de
devoção que se me impunham, pois sentia um atrativo todo particular
em rezar aos bem-aventurados espíritos celestiais, especialmente
àquele que o Bom Deus me dera para ser companheiro do meu exílio.
Algum tempo depois da minha Primeira Comunhão, a fita de aspirante a
Filha de Maria substituiu a dos Santos Anjos. Antes, porém, de ser
admitida na Associação da Santíssima Virgem, deixei a Abadia. Por ter
saído antes de concluir os estudos, não tinha o direito de ingressar como
antiga aluna. Considerando, contudo, que todas as minhas irmãs tinham
sido “Filhas de Maria”, tive receio de ser, menos do que elas, filha de
minha Mãe do Céu, e fui com toda a humildade (apesar do muito que
me custava) pedir a licença de ser recebida na Associação da Santíssima
Virgem na Abadia. A mestra diretora não quis recusar-me, mas pôs
como condição que, duas vezes por semana, me recolhesse uma tarde
na Abadia, para mostrar se era digna de ser admitida. Bem ao invés de
me causar prazer, a concessão foi-me custosa ao extremo. Não tinha,
como outras antigas alunas, uma professora amiga, com a qual pudesse
passar algumas horas. Contentava-me, por conseguinte, em
cumprimentar a mestra, e depois trabalhava em silêncio até ao final da
lição programada. Ninguém me dava atenção, e por isso subia à tribuna
do coro da capela, ficando diante do Santíssimo Sacramento até o
momento em que Papai ia buscar-me. Esta era minha exclusiva
consolação. Não era Jesus meu único amigo?… Não conseguia falar
senão com Ele. Fatigava-me a alma conversar com as criaturas, ainda
que se tratasse de conversas piedosas… Sentia que era maior vantagem
falar com Deus do que falar de Deus, pois em conversas espirituais se
intromete muito amor próprio! … Oh! bem era, única e exclusivamente,
pela Santíssima Virgem que me apresentava na Abadia… Por vezes,
sentia-me sozinha. muito sozinha. Como nos dias de minha vida de
semi-interna, quando triste e doente espairecia no grande pátio, repetia
as palavras que sempre me fizeram renascer paz e alento no coração:
“A vida é teu navio, não é tua morada!”… Quando ainda pequenina,
estas palavras me restituíam a coragem. Ainda agora, a despeito dos
anos que apagam tantas impressões da piedade infantil, a imagem da
embarcação enleva minha alma, ajudando-lhe a suportar o exílio em
paciência… Não nos diz também a Sabedoria que “a vida é como uma
nau que sulca as ondas agitadas, e de cuja rápida passagem não fica
nenhum vestígio?… ” Quando penso tais coisas, minha alma submerge
no infinito. Afigura-se-me que já abordo a praia da eternidade…
Afigura-se-me receber os amplexos de Jesus… Creio avistar minha Mãe
do Céu que me vem ao encontro na companhia do Papá… da Mamã…
dos quatro anjinhos… Creio, afinal, gozar para sempre da verdadeira
vida eterna em família…
Antes de ver a família congregada no pátrio lar dos Céus, devia
atravessar ainda muitas separações. No ano de minha admissão como
filha da Santíssima Virgem, ela me tirou minha querida Maria, único
sustento de minha alma… Era Maria quem me guiava, consolava,
ajudava a praticar a virtude. Era meu único oráculo. Sem dúvida,
Paulina tinha ficado bem firme em meu coração, mas estava longe,
muito longe de mim!… Sofri o martírio para me habituar a viver sem
ela, por ver entre nós muros intransponíveis. Mas enfim acabei
aceitando a triste realidade. Paulina estava perdida para mim, quase
como se estivesse morta. Continuava a me amar, rezava por mim, mas
aos meus olhos minha querida Paulina se tornara uma santa, que já não
poderia compreender as coisas da terra; e as misérias de sua pobre
Teresa, se as conhecesse, tê-la-iam espantado e impedido de amá-la
tanto… Por outro lado, ainda se quisera confidenciar-lhe meus
pensamentos, como o fazia nos Buissonnets, não teria possibilidade,
porque os atendimentos no locutório eram somente para Maria. Celina e
eu tínhamos permissão de chegar lá só no final, justamente o tempo
necessário para nos deixar com o coração apertado… Assim não tinha
na realidade senão Maria, que me era, por assim dizer, indispensável.
Só a ela contava meus escrúpulos e era tão obediente que meu
confessor nunca chegou a saber de minha desagradável doença. A ele
dizia exatamente o número de pecados que Maria me autorizava
confessar, nem um a mais. Por isso poderia ser tida como a alma menos
escrupulosa da terra, embora o fosse até ao último grau… Maria sabia,
por conseguinte, tudo o que se passava em minha alma. Sabia também
dos meus desejos a respeito do Carmelo, e eu lhe queria tanto, que não
podia viver sem ela. Titia convidava-nos todos os anos a irmos, uma por
vez, à sua casa em Trouville. Gostava muito de ir lá, mas em companhia
de Maria! Não a tendo comigo, ficava muito entediada. Uma vez,
entretanto, senti-me satisfeita em Trouville. Foi no ano da viagem de
Papai a Constantinopla. Para nos distrair um pouco, (pois estávamos
desgostosas por saber Papai a tão grande distância), Maria mandou-nos,
à Celina e a mim, passar quinze dias à beíra-mar. Tive ali muita
distração, porque minha Celina estava comigo. Titia arranjava-nos todos
os passatempos possíveis: montaria em jumentinho, pesca de
langueirões etc… Era ainda muito criança, apesar dos meus doze anos e
meio. Lembro-me de minha satisfação, quando punha as lindas fitas
azuis de anil, que Titia me dera para os cabelos. Lembra-me, também,
de ter confessado em Trouville até essa alegria infantil, que pareceu-me
pecado… Uma tarde, fiz uma experiência que me surpreendeu bastante.
– Maria (Guérin), que vivia quase sempre adoentada, choramingava de
vez em quando. Titia então fazia-lhe carícias, dizia-lhe os nomes mais
afetuosos, e minha querida priminha nem por isso parava de dizer, toda
lacrimosa, que estava com dor de cabeça. Ora, eu que quase todos os
dias também tinha dor de cabeça e nunca me queixava, quis uma tarde
imitar Maria. Senti, pois, a obrigação de choramingar numa poltrona ao
canto da sala. Joana e Titia logo se aproximaram de mim, perguntandome
o que tinha. Respondi, igual à Maria: “Estou com dor de cabeça”.
Parece que não me saí bem no modo de queixar-me, pois nunca pude
convencê-las de ter sido dor de cabeça que me fizera chorar. Em vez de
me afagarem, falaram comigo como se fala com gente grande. De sua
parte, Joana me censurou por não confiar bastante na Titia, por julgar
que eu estava às voltas com algum escrúpulo de consciência… Afinal,
aprendi à própria custa, tomand
o a firme resolução de não imitar mais os outros, e entendi a fábula de
“O asno e o cachorrinho””. Eu representava o asno que, vendo as
carícias que se faziam ao cachorrinho, ergueu a pesada pata sobre a
mesa, para receber seu quinhão de beijos. Mas, ai! se não levei
pancadas, como o pobre animal, recebi realmente a moeda de minha
paga, moeda que me curou, por toda a vida, do prurido de atrair a
atenção. Só o esforço que nisso apliquei, custou-me caro demais!…
No ano seguinte, que era o da partida de minha querida Madrinha, Titia
ainda me convidou, mas desta vez a mim sozinha, mas tão
desambientada fiquei que, ao cabo de dois ou três dias adoeci, e foi
preciso que me fizessem voltar para Lisieux. Minha doença, que temiam
como grave, não passava de uma nostalgia dos Buissonnets. Mal pus os
pés ali, voltou a saúde… E a essa criança, ia o Bom Deus arrebatar-lhe
o único apoio que a prendia à vida! …
Logo que soube da resolução de Maria, resolvi não mais procurar
nenhum prazer na terra… Depois que saí do pensionato, alojei-me no
antigo gabinete de pintura de Paulina, e arrumei-o a meu gosto. Era um
verdadeiro bazar, um aglomerado de coisas piedosas e curiosidades,
uma jardineira e um viveiro de passarinhos… Assim, também, na
parede do fundo, sobressaíam uma grande cruz de madeira preta, sem
o corpo de Cristo, e alguns desenhos que me agradavam. Na outra
parede, uma cesta guarnecida de musselina e fitas cor-de-rosa, cheia de
folhinhas picadas e de flores. Afinal, na última parede, salientava-se,
como peça única, o retrato de Paulina aos 1O anos de idade. Debaixo do
retrato, conservava eu uma mesa, onde se achava uma grande gaiola,
que comportava grande número de passarinhos, cujos melodiosos
trinados atordoava a cabeça dos visitantes, mas não a de sua jovem
proprietária, que lhes tinha grande afeição… Ali havia ainda o “pequeno
traste branco”, cheio de meus livros de estudo, de cadernos etc. Em
cima do traste estava colocada uma estátua da Santíssima Virgem, com
vasos sempre providos de flores naturais, com castiçais. Em derredor,
havia uma multidão de estatuetas de Santos e Santas, certinhos feitos
de conchas, caixa de cartolina, etc! Afinal, minha jardineira ficava
suspensa diante da janela, onde eu cultivava vasos de flores (os mais
raros que podia encontrar). No interior do “meu museu” havia ainda
uma jardineira, sobre a qual punha minha planta predileta… Diante da
janela, minha mesa coberta com um tapete verde, e sobre esse tapete
coloquei, no meio, uma ampulheta, uma estatueta de São José, um
porta-relógio, corbelhas para flores, um tinteiro etc… Algumas cadeiras
mancas e a fascinante caminha de boneca de Paulina completavam todo
o meu mobiliário. Realmente, esse pobre quarto de sótão era um mundo
para mim, e como o Sr. De Maistre poderia eu escrever um livro com o
título: “Passeio em torno do meu quarto”. Gostava de permanecer horas
inteiras nesse quarto, a estudar e a meditar diante do panorama que se
descortinava aos meus olhos … Quando eu soube da partida de Maria,
meu quarto perdeu para mim todo o encanto. Não queria abandonar um
só instante a querida irmã que dentro em breve se subtrairia à nossa
convivência … Quantos atos de paciência não a obriguei a praticar!
Todas as vezes que passava diante da porta de seu quarto, batia até
que ela abrisse, e abraçava-a de todo o coração. Queria fazer provisão
de beijos por todo o tempo que ficaria sem eles.
Um mês antes de sua entrada no Carmelo, Papai levou-nos a Alençon,
mas a viagem ficou longe de assemelhar-se à primeira, porque tudo se
me converteu em tristeza e amargura. Não poderia descrever as
lágrimas que derramei junto ao túmulo de Mamãe, por ter esquecido de
levar um ramalhete de centáureas, colhidas para ela. Na verdade,
acabrunhava-me com qualquer coisa! Era ao contrá- rio de agora, pois o
Bom Deus concedeu-me a graça de me não abater com nenhuma coisa
passageira. Quando recordo os tempos idos, minha alma transborda de
gratidão vendo os favores que recebi do Céu. Operou-se tal mudança
em mim que não sou reconhecível… Verdade é que eu desejava ter
“sobre minhas ações um domínio absoluto, ser a dona, não a escrava”‘.
Essas palavras da Imitação comoviam-me profundamente, mas devia,
por assim dizer, comprar essa graça inestimável pelos meus desejos;
ainda parecia uma criança que só quer o que os outros querem. O que
fazia as pessoas de Alençon dizerem que eu era fraca de caráter… Foi
durante essa viagem que Leônia fez experiência nas clarissas”. Fiquei
triste com sua entrada extraordinária, pois amava-a muito e não pude
beijá-la antes da partida.
Nunca me esquecerei da bondade e do embaraço desse pobre paizinho
quando veio anunciar-nos que Leônia já vestia o hábito das clarissas…
Como nós, achava isso muito engraçado, mas não queria dizer nada,
vendo quanto Maria estava descontente. Levou-nos ao convento, e lá
senti um aperto no coração como nunca tinha sentido ao ver um
mosteiro. Isso produziu em mim o efeito contrário do Carmelo, em que
tudo dilatava minha alma… A vista das religiosas tampouco me
encantou, e não fiquei tentada a permanecer no meio delas. A pobre
Leônia parecia muito gentil no novo traje; disse-nos para olhar bem os
olhos dela, porque não devíamos vê-los mais (as clarissas só se
mostram de olhos baixos). Mas Deus contentou-se com dois meses de
sacrifício, e Leônia voltou a nos mostrar seus olhos azuis,
freqüentemente molhados de lágrimas… Ao deixar Alençon, pensava
que ela ia ficar com as clarissas, por isso foi com muita tristeza que me
afastei da triste rua da meia-lua. Ficávamos apenas três e, logo, nossa
querida Maria ia nos deixar… 15 de outubro foi o dia da separação! Só
restavam as duas últimas da numerosa e alegre família dos
Buissonnets… As pombas haviam fugido do ninho paterno e as que
ficavam queriam também segui-las, mas suas asas eram ainda fracas
demais para poder alçar vôo… Deus, que queria chamar para si a menor
e a mais fraca de todas elas, apressou-se em desenvolver suas asas.
Ele, que se compraz em mostrar sua bondade e seu poder servindo-se
dos instrumentos menos dignos, quis chamar-me antes de Celina, que,
sem dúvida, merecia antes esse favor. Mas Jesus sabia como eu era
fraca e foi por isso que me escondeu antes no recôncavo do rochedo.
Quando Maria entrou para o Carmelo, era eu ainda muito escrupulosa.
Já não podendo confiar-me a ela, volvi-me para o lado dos Céus. Foi aos
quatro anjinhos, meus predecessores lá no alto, que me dirigi com a
idéia de que suas almas inocentes, por não terem jamais conhecido
inquietações nem temores, deviam compadecer-se de sua pobre
maninha que sofria aqui na terra. Falava-lhes com ingenuidade de
criança, e fazia-lhes ver que, sendo a caçula da família, tinha sido
sempre a mais amada, a mais contemplada com carinhos por parte de
minhas irmãs, e que eles, por certo também me teriam dado provas de
afeição, se tivessem continuado aqui na terra… Sua partida para o Céu
não me parecia motivo de me esquecerem. Pelo contrário, estando em
condições de haurir nos tesouros divinos, neles poderiam buscar a paz
para mim, e mostrar-me assim que no Céu a gente ainda sabe amar!…
A resposta não se fez esperar. A paz logo me inundou a alma com sua
deliciosa exuberância, e compreendi que, se era amada aqui na terra,
também o era lá no Céu… Desde aquele momento, cresceu minha
devoção para com meus irmãozinhos. Gosto de entreter-me muitas
vezes com eles, de falar-lhes das tristezas do exílio… do meu desejo de
logo juntar-me a eles brevemente na Pátria!…
Se o Céu me cobria de graças, não era porque as merecesse, era ainda
muito imperfeita; de fato, tinha um grande desejo de praticar a virtude,
mas agia de maneira estranha. Eis um exemplo: por ser a mais nova,
não estava acostumada a me servir. Celina arrumava o quarto em que
dormíamos e eu não fazia nenhum trabalho caseiro; depois da entrada
de Maria no Carmelo, acontecia-me, às vezes, para agradar a Deus, de
tentar arrumar a cama ou de, na ausência de Celina, guardar os vasos
de flores à noite. Como disse, era só por Deus que eu fazia essas coisas,
portanto não devia esperar o agradecimento das criaturas. Ai! era todo
o contrário. Se Celina não demonstrasse contentamento pelos meus
servicinhos, eu ficava contrariada e provava-o com minhas lágrimas…
Era verdadeiramente insuportável pela minha sensibilidade excessiva.
Se me acontecesse causar involuntariamente aflição a alguém a quem
amava, em vez de me controlar e não chorar, o que aumentava meu
erro em vez de diminuí-lo, chorava como uma Madalena, e quando
começava a consolar-me pela coisa que me levara a chorar chorava por
ter chorado… Todos os raciocínios eram inúteis e não conseguia corrigirme
desse desagradável defeito. Não sei como acalentava a doce idéia de
ingressar no Carmelo, estando ainda nos cueiros!…” Foi preciso Deus
fazer um pequeno milagre para eu crescer de repente, e esse milagre se
deu num dia inesquecível de Natal, nessa noite luminosa que ilumina as
delícias da Santíssima Trindade. Jesus, a doce criancinha recém-nascida,
transformou a noite da minha alma em torrentes de luz… nessa noite
em que se fez fraco e sofrido pelo meu amor, fez-me forte e corajosa,
equipou-me com suas armas e, desde essa noite abençoada, não saí
vencida em nenhum combate. Pelo contrário, andei de vitória em vitória
e iniciei, por assim dizer, “uma corrida de gigante!…” A fonte das
minhas lágrimas secou e só voltou a jorrar pouquíssimas vezes e com
dificuldade, o que justificou essa palavra que me fora dita: “Choras
tanto na infância que, mais tarde, não terás mais lágrimas para
derramar!…”
Foi em 25 de dezembro de 1886 que recebi a graça de sair da infância,
em suma, a graça da minha completa conversão. Estávamos voltando
da missa do galo, em que tinha tido a felicidade de receber o Deus forte
e poderoso. Ao chegar aos Buissonnets, alegrava-me por pegar meus
sapatos na lareira. Esse costume antigo causara-nos tanta alegria
durante a infância que Celina queria continuar a me tratar corno um
bebê, por ser a menor da família… Papai gostava de ver minha
felicidade, ouvir meus gritos de alegria ao tirar cada surpresa dos
sapatos encantados, e a alegria do meu Rei querido aumentava muito a
minha. Mas, querendo Jesus mostrar-me que devia me desfazer dos
defeitos da infância, tirou de mim também as inocentes alegrias;
permitiu que papai, cansado da missa do galo, sentisse tédio vendo
meus sapatos na lareira e dissesse essas palavras que me magoaram:
“Enfim, felizmente, é o último ano!…” Subi a escada para ir tirar meu
chapéu, Celina, conhecendo minha sensibilidade e vendo já as lágrimas
em meus olhos, ficou também com vontade de chorar, pois amava-me
muito e compreendia meu sofrimento: “Oh, Teresa!”, disse-me, “não
desce, te causará tristeza demais olhar já teus sapatos”. Mas Teresa não
era mais a mesma, Jesus havia mudado o coração dela! Reprimindo
minhas lágrimas, desci rapidamente e, comprimindo as batidas do
coração, peguei meus sapatos… então, colocando-os diante de papai,
tirei alegremente todos os objetos, parecendo feliz como uma rainha.
Papai ria também, voltara a ficar alegre e Celina pensava sonhar!…
Felizmente, era uma doce realidade. Teresinha reencontrar a força de
alma que perdera aos 4 anos e meio e ia conservar para sempre!…
Nessa noite de luz, começou o terceiro período da minha vida, o mais
bonito de todos, o mais cheio das graças do Céu… Num instante, a obra
que eu não pude cumprir em dez anos, Jesus a fez contentando-se com
a boa vontade que nunca me faltara. Como os apóstolos, podia dizerLhe:
“Senhor, pesquei a noite toda sem nada pegar”. Ainda mais
misericordioso comigo do que com os discípulos, Jesus pegou Ele
mesmo a rede, lançou-a e retirou-a cheia de peixes… Fez de mim um
pescador de alma, senti um desejo imenso de trabalhar pela conversão
dos pecadores, desejo que não sentira tanto antes… Em suma, senti a
caridade entrar em meu coração, a necessidade de me esquecer para
agradar e, desde então, fiquei feliz!… Num domingo, ao olhar uma foto
de Nosso Senhor na Cruz, fiquei impressionada com o sangue que caía
de uma das suas mãos divinas. Senti grande aflição pensando que esse
sangue caía no chão sem que ninguém se apressasse em recolhê-lo.
Resolvi ficar, em espírito, ao pé da Cruz para receber o divino orvalho
que se desprendia, compreendendo que precisaria, a seguir, espalhá-lo
sobre as almas… O grito de Jesus na Cruz ressoava continuamente em
meu coração: “Tenho sede!” Essas palavras despertavam em mim um
ardor desconhecido e muito vivo… Queria dar de beber a meu Bemamado
e sentia-me devorada pela sede das almas… Ainda não eram as
almas dos sacerdotes que me atraíam, mas as dos grandes pecadores.
Ardia do desejo de arrancá-los às chamas eternas…
Para estimular meu zelo, Deus mostrou-me que meus desejos eram-lhe
agradáveis. Ouvi falar de um grande criminoso que acabava de ser
condenado à morte por crimes horríveis. Tudo fazia crer que morreria
impenitente. Quis, a qualquer custo, impedi-lo de cair no inferno”‘. Para
conseguir, usei de todos os meios imagináveis: sentindo que, de mim
mesma, nada poderia, ofereci a Deus os méritos infinitos de Nosso
Senhor, os tesouros da santa Igreja, enfim, pedi a Celina para mandar
celebrar uma missa nas minhas intenções, não ousando pedi-la eu
mesma, temendo ser obrigada a dizer que era para Pranzini, o grande
criminoso. Não queria, tampouco, dizê-lo a Celina, mas insistiu com
tanta ternura que lhe confiei meu segredo; longe de zombar de mim,
pediu para ajudar a converter meu pecador. Aceitei com gratidão, pois
teria desejado que todas as criaturas se unissem a mim para implorar a
graça para o culpado. No fundo do meu coração, tinha certeza de que
nossos desejos seriam atendidos. Mas, a fim de ter coragem para
continuar a rezar pelos pecadores, disse a Deus estar segura de que Ele
perdoaria o pobre infeliz Pranzini, que acreditaria mesmo que não se
confessasse e não desse sinal nenhum, de arrependimento, enorme era
minha confiança na misericórdia infinita de Jesus, mas lhe pedia apenas
um sinal de arrependimento, para meu próprio consolo… Minha oração
foi atendida ao pé da letra! Apesar da proibição de papai de lermos
jornais, não pensava desobedecer lendo as passagens que falavam de
Pranzini. No dia seguinte à sua execução, cai-me às mãos o jornal La
Croix. Abro-o apressada e o que vejo?… Ah! minhas lágrimas traíram
minha emoção e fui obrigada a me esconder… Pranzini não se
confessou, subiu ao cadafalso e preparava-se para colocar a cabeça no
buraco lúgubre quando, numa inspiração repentina, virou-se, apanhou
um Crucifixo que lhe apresentava o sacerdote e beijou por três vezes
suas chagas sagradas!… Sua alma foi receber a sentença misericordiosa
Daquele que declarou que no Céu haverá mais alegria por um só
pecador arrependido do que por 99 justos que não precisam de
arrependimento!…
Obtive o “sinal” pedido, e esse sinal era a reprodução fiel de graças que
Jesus me fizera para atrair-me a rezar pelos pecadores. Não foi diante
das chagas de Jesus, vendo cair seu sangue divino, que a sede de almas
entrou em meu coração? Queria dar-lhes de beber esse sangue
imaculado que devia purificá-las das suas sujeiras, e os lábios do “meu
primeiro filho” foram colar-se às chagas sagradas!!!… Que resposta
indizivelmente doce!… Ah! desde essa graça única, meu desejo de
salvar as almas cresceu a cada dia. Parecia-me ouvir Jesus dizendo
como para a samaritana: “Dê-me de beber!” Era uma verdadeira troca
de amor; às almas, eu dava o sangue de Jesus; a Jesus, oferecia essas
mesmas almas refrescadas pelo seu divino orvalho. Dessa forma, eu
parecia desalterá-lo e mais lhe dava de beber, mais a sede da minha
pequena alma aumentava e era essa sede ardente que Ele me dava
como a mais deliciosa bebida do seu amor…
Em pouco tempo, Deus conseguira fazer-me sair do círculo apertado no
qual eu girava sem encontrar saída. Vendo o caminho que Ele me fizera
percorrer, minha gratidão é grande, mas preciso convir que, se o passo
maior fora dado, muitas coisas restavam ainda a abandonar. Livre dos
escrúpulos, da sua sensibilidade excessiva, meu espírito desenvolveuse.
Sempre gostara do grandioso, do belo, mas naquela época fui
tomada de um desejo extremo de saber. Não satisfeita com as lições e
as tarefas que minha mestra me dava, dedicava-me, sozinha, a estudos
especiais de história e de ciências. Os outros estudos deixavam-me
indiferente, mas essas duas áreas atraíam minha atenção. Em poucos
meses, adquiri mais conhecimentos que durante meus anos de estudos.
Ah! isso só era vaidade e aflição de espírito… O capítulo da Imitação em
que se fala das ciências voltava à minha mente, mas achava o meio de
prosseguir assim mesmo, dizendo-me que, estando na idade de estudar,
não havia mal nenhum em fazê-lo. Não creio ter ofendido a Deus
(embora reconheça ter passado nisso um tempo inútil), pois só ocupava
um certo número de horas que não queria ultrapassar a fim de
mortificar meu desejo excessivo de saber… Estava na mais perigosa
idade para as moças, mas Deus fez por mim o que relata Ezequiel em
suas profecias: “passando perto de mim, Jesus viu que havia chegado
para mim o tempo de ser amada, Ele fez aliança comigo e passei a ser
sua… Estendeu sobre mim seu manto, lavou-me em perfumes
preciosos, revestiu-me de roupas bordadas, dando-me colares e jóias
sem preço… Alimentou-me com a mais pura farinha, com mel e azeite
abundante… então passei a ficar bela aos olhos Dele e fez de mim uma
poderosa rainha!…”
Sim, Jesus fez tudo isso para mim, poderia retomar cada palavra do que
acabo de escrever e provar que se realizou em meu favor, mas as
graças que relatei acima são prova suficiente. Vou apenas falar da
alimentação que me prodigalizou “com abundância”. Havia muito que
me alimentava da “pura farinha” contida na Imitação, era o único livro
que me fazia bem, pois ainda não havia achado os tesouros escondidos
no Evangelho. Sabia de cor quase todos os capítulos da minha querida
Imitação, nunca me desfazia desse livrinho. No verão, levava-o no
bolso; no inverno, no meu regalo. O hábito tornou-se tradicional e, na
casa da minha tia, divertiam-se muito abrindo-o ao acaso e fazendo-me
recitar o capítulo que se apresentava aos olhos. Aos 14 anos, com meu
desejo de ciência, Deus achou necessário acrescentar “à pura farinha
mel e azeite em abundância”. Esse mel e esse azeite, fez-me encontrá-
los nas conferências do padre Arminjon, sobre o fim do mundo atual e
os mistérios do mundo futuro. Esse livro havia sido emprestado a papai
pelas minhas queridas carmelitas; por isso, contrariamente a meus
hábitos (pois eu não lia os livros de papai), pedi para lê-lo.
Essa leitura foi ainda uma das maiores graças da minha vida. Eu a fiz
janela do meu quarto de estudo e a impressão que tive é por demais
íntima e doce para que possa expressá-la…
Todas as grandes verdades da religião, os mistérios da eternidade,
mergulhavam minha alma numa felicidade que não era da terra… Já
pressentia o que Deus reserva a quem o ama (não com o olho do
homem, mas com o do coração) e, vendo que as recompensas eternas
não tinham proporção alguma com os leves sacrifícios da vida, quis
amar, amar Jesus com paixão, pedir-lhe mil marcas de amor, enquanto
ainda podia… Copiei muitas passagens sobre o amor perfeito e a
recepção que Deus deve fazer a seus eleitos no momento em que Ele
próprio se tornará sua grande e eterna recompensa. Repetia sem parar
as palavras de amor que haviam abrasado meu coração… Celina
tornara-se a confidente íntima dos meus pensamentos; desde o Natal,
podíamos nos compreender, a distância de idade não existia mais, pois
eu me tornara grande em tamanho e, sobretudo, em graça… Antes
dessa época, reclamava com freqüência por não conhecer os segredos
de Celina. Dizia-me que eu era pequena demais, que precisaria crescer
a altura de um banquinho para ela ter confiança em mim… Gostava de
subir nesse precioso banquinho quando estava ao lado dela, e lhe dizia
para falar-me intimamente, mas meu esforço era inútil, uma distância
nos separava ainda!…
Jesus queria fazer-nos avançar juntas e, por isso, formou em nossos
corações laços ainda mais fortes que os do sangue. Tornou-nos irmãs de
almas. Realizaram-se em nós essas palavras do Cântico de são João da
Cruz (falando com o Esposo, a esposa exclama): “Seguindo vossas
pegadas, as moças percorrem leves o caminho, o toque da centelha, o
vinho condimentado fazem-nas produzir aspirações divinamente
perfumadas”. Sim, era com leveza que seguíamos as pegadas de Jesus,
as centelhas do amor que semeava profusamente em nossas almas, o
vinho delicioso e forte que nos dava de beber faziam desaparecer a
nossos olhos as coisas passageiras e dos nossos lábios saíam aspirações
de amor inspiradas por Ele. Como eram doces as conversações que
tínhamos, toda noite, no mirante! O olhar fixo no horizonte,
observávamos a branca lua içando-se atrás das altas árvores… os
reflexos argênteos que se espalhavam sobre a natureza adormecida, as
brilhantes estrelas cintilando no azul profundo… o sopro ligeiro da brisa
noturna fazia flutuar as nuvens nevadas, tudo elevava nossas almas
para o Céu, o belo Céu do qual ainda só contemplávamos “o reverso
límpido” …
Não sei se estou enganada, mas parece-me que a efusão das nossas
almas assemelhava-se à de santa Mônica com seu filho quando, no
porto de Óstia, ficavam perdidos em êxtase à vista das maravilhas do
Criador!… Creio que recebíamos graças de uma categoria tão alta como
as concedidas aos grandes santos. Como diz a Imitação, às vezes Deus
se comunica em meio a um vivo esplendor, outras vezes “suavemente
velado, por sombras e figuras. Era dessa última maneira que se dignava
manifestar às nossas almas, mas como era transparente e leve o véu
que separava Jesus dos nossos olhares!… A dávida era impossível, já
não havia necessidade da Fé e da Esperança, o amor fazia-nos
encontrar na terra Aquele que buscávamos. “Tendo-o encontrado
sozinho, dava-nos seu beijo, a fim de que, no futuro, ninguém pudesse
nos desprezar.”
Graças tão grandes não haviam de ficar sem frutos. E foram
abundantes. A prática da virtude tornou-se para nós suave e natural; no
começo, meu rosto deixava transparecer a luta, mas aos poucos essa
impressão desapareceu e a renúncia passou a ser fácil para mim, quase
espontânea. Jesus disse: “A quem possui dar-se-á mais e ficará na
abundância”. Em troca de uma graça fielmente recebida, dava-me
muitas outras… Ele próprio se dava a mim na santa Comunhão mais
vezes que eu teria ousado esperar. Adotei como regra de conduta
comungar todas as vezes que fosse autorizada pelo meu confessor e
deixar a este resolver o número das minhas comunhões, sem nunca
interferir. Não tinha na época a audácia que tenho agora, pois teria
agido de outro modo. Tenho certeza de que uma alma deve dizer
claramente a seu confessor a atração que tem para receber seu Deus.
Não é para ficar no cibório de ouro que Ele desce do céu todos os dias'”,
mas para encontrar um outro céu, infinitamente mais querido que o
primeiro, o céu da nossa alma, feito à sua imagem, o templo vivo da
adorável Trindade!…
Jesus, que via meu desejo e a retidão do meu coração, permitiu que
durante o mês de maio meu confessor me dissesse para comungar
quatro vezes por semana e, findo esse belo mês, acrescentou mais um
dia toda vez que houvesse uma festa. Doces lágrimas caíram dos meus
olhos ao sair do confessionário, parecia-me que era o próprio Jesus
quem queria dar-se a mim, pois eu ficava muito pouco tempo em
confissão, nunca falava dos meus sentimentos interiores. O caminho
pelo qual andava era tão reto, tão claro, que não precisava de outro
guia que Jesus… Comparava os diretores a espelhos fiéis que refletiam
Jesus nas almas e dizia que para mim Deus não usava intermediário,
mas agia diretamente!…
Quando um jardineiro cerca de cuidados uma fruta que quer fazer
amadurecer prematuramente, nunca é para deixá-la na árvore, mas
para apresentá-la numa mesa brilhantemente servida. Era com uma
intenção semelhante que Jesus prodigalizava suas graças a sua
florzinha… Ele que, nos dias da sua vida mortal, exclamava: “Pai,
bendigo-vos por ter escondido essas coisas aos sábios e aos prudentes e
tê-las revelado aos humildes”, queria revelar em mim sua misericórdia,
porque eu era pequena e fraca, inclinava-se para mim, instruía-me em
segredo das coisas do seu amor. Ah! se sábios que passaram a vida
estudando tivessem vindo interrogar-me, teriam, sem dúvida, ficado
espantados ao ver uma criança de 14 anos compreender os segredos da
perfeição, segredos que toda a ciência não pudera lhes revelar, pois
para possuí-los é preciso ser pobre de espírito!…
Como diz são João da Cruz em seu cântico: “Não tinha guia nem luz,
fora aquela que brilhava em meu coração, essa luz guiava-me com mais
segurança que a do meio-dia para o lugar onde me aguardava Aquele
que me conhece perfeitamente”. Esse lugar era o Carmelo. Antes de
“descansar à sombra Daquele que eu desejava”, devia passar por
muitas provações, mas o chamamento divino era tão intenso que,
mesmo que tivesse de atravessar as chamas, o teria feito para ser fiel a
Jesus… Para encorajar-me em minha vocação, só encontrei uma alma,
foi a da minha Madre querida… meu coração encontrou no dela um eco
fiel e, sem ela, não teria, sem dúvida, chegado à praia abençoada onde
ela fora acolhida cinco anos antes sobre as margens impregnadas do
orvalho celeste… Sim, havia cinco anos que estava afastada de vós,
querida Madre, pensava vos ter perdido, mas no momento da provação
foi vossa mão que me indicou o caminho a seguir… Precisava desse
alívio, pois minhas visitas ao Carmelo haviam se tornado sempre mais
penosas, não podia falar do meu desejo de ingresso sem sentir-me
rejeitada. Achando-me jovem demais, Maria fazia tudo para impedir
meu ingresso; vós, Madre, para pôr-me à prova, procuráveis, algumas
vezes, diminuir meu ardor; enfim, se eu não tivesse tido
verdadeiramente a vocação, teria desistido logo no início, pois encontrei
obstáculos logo que comecei a responder ao chamamento de Jesus. Não
quis contar a Celina o meu desejo de entrar tão nova no Carmelo e isso
fez-me sofrer mais, pois era-me muito difícil esconder dela alguma
coisa… Esse sofrimento não durou muito tempo. Logo minha irmãzinha
querida soube da minha determinação e, longe de tentar desviar-me do
projeto, aceitou com coragem admirável o sacrifício que Deus lhe pedia.
Para compreender-lhe a amplitude, é preciso saber até que ponto
éramos unidas… era, por assim dizer, a mesma alma que nos fazia
viver; havia alguns meses que gozávamos juntas da mais doce vida que
moças pudessem almejar; tudo a nosso redor respondia aos nossos
gostos, usufruíamos da maior liberdade. Enfim, dizia que nossa vida era
o Ideal da felicidade na terra… Apenas havíamos tido tempo de gozar
desse ideal de felicidade, e devíamos, livremente, desviar-nos dele.
Minha Celina querida não se rebelou um instante. Como não era ela que
Jesus chamava em primeiro lugar, podia ter reclamado… tendo a
mesma vocação, era a vez de ela partir!… mas, como no tempo dos
mártires, os que ficavam nas prisões davam alegremente o ósculo da
paz a seus irmãos que partiam para combater na arena e consolavam-se
pensando que, talvez, fossem reservados para lutas ainda maiores.
Assim, Celina deixou sua Teresa afastar-se e ficou sozinha para o
glorioso e sangrento combate ao qual Jesus a destinava como a
privilegiada do seu amor!…
Celina passou a ser a grande confidente das minhas lutas e dos meus
sofrimentos. Tomou parte como se se tratasse da sua própria vocação.
Não receava oposição por parte dela, mas não sabia que meios adotar
para informar a papai… Como dizer-lhe para deixar sua rainha ir
embora depois de ter sacrificado as três mais velhas?… Ah! quantas
lutas íntimas sofri antes de sentir a coragem para lhe comunicar!…
Precisava decidir-me, ia fazer 14 anos e meio, apenas seis meses nos
separavam da bela noite de Natal em que resolvera ingressar, na
mesma hora em que, no ano anterior, tinha recebido “minha graça”.
Escolhi o dia de Pentecostes para fazer a minha grande confidência e, o
dia todo, supliquei aos santos Apóstolos que intercedessem por mim,
que me inspirassem as palavras… Não eram eles, afinal, que deviam
ajudar a criança tímida que Deus destinava a se tornar o apóstolo dos
apóstolos pela oração e pelo sacrifício?…
Fala com o Pai sobre sua entrada no Carmelo
Foi de tarde, na volta das Vésperas, que encontrei a ocasião para falar
com meu paizinho querido. Tinha ido sentar à beira da cisterna e ali, de
mãos juntas, contemplava as maravilhas da natureza. O sol, cujo fogo
tinha perdido o ardor, dourava a copa das altas árvores onde os
passarinhos cantavam alegremente sua oração vesperal. A bela figura
de papai tinha expressão celeste, sentia que a paz inundava seu
coração. Sem dizer uma única palavra, fui sentar-me a seu lado, já com
os olhos lacrimejantes, ele olhou-me com ternura e, pegando minha
cabeça, encostou-a no seu peito dizendo: “Que tens, minha
rainhazinha?… me conte…” Levantando-se, como para dissimular sua
própria emoção, andou lentamente, segurando sempre minha cabeça no
seu peito. Em meio às minhas lágrimas, confidenciei meu desejo de
ingressar no Carmelo. Então, as lágrimas dele vieram misturar-se às
minhas, mas não disse uma palavra para desviar-me da minha vocação,
contentando-se apenas em observar que eu era ainda muito nova para
tomar uma decisão tão séria. Defendi tão bem minha causa que, com
sua natureza simples e reta, convenceu-se de que meu desejo era o de
Deus e, na sua fé profunda, exclamou que Deus lhe fazia uma grande
honra pedindo-lhe assim suas filhas. Continuamos por longo tempo o
nosso passeio. Aliviado pela bondade com a qual meu incomparável pai
tinha acolhido as confidências, meu coração expandia-se no dele. Papai
parecia gozar dessa alegria tranqüila nascida do sacrifício aceito. Falou-
me como um santo e gostaria de lembrar-me das palavras dele a fim de
escrevê-las aqui, mas conservei-as tão sublimadas que se tornaram
intraduzíveis. O que recordo perfeitamente é da ação simbólica que meu
rei querido cumpriu sem o perceber. Aproximando-se de um muro
baixo, mostrou-me florzinhas brancas semelhantes a lírios em miniatura
e, colhendo uma dessas flores, entregou-a a mim, explicando o cuidado
com que Deus a fizera e a conservara até aquele momento; ouvindo-o
falar, pensava ouvir a minha história, tal era a semelhança entre o que
Jesus fizera a sua florzinha e a Teresinha… Recebi essa florzinha como
uma relíquia e vi que, ao colhê-la, papai arrancara as raízes todas sem
quebrar uma. Parecia destinada a viver ainda, numa outra terra, mais
fértil que o tenro limo onde vivera suas primeiras manhãs… Era essa
mesma ação que papai acabava de fazer para mim alguns instantes
antes, permitindo-me subir a montanha do Carmelo e deixar o manso
vale testemunho dos meus primeiros passos na vida.
Coloquei minha florzinha branca na minha Imitação, no capítulo
intitulado: “De que é preciso amar a Jesus acima de todas as coisas”.
Ainda está aí, mas o caule quebrou-se junto à raiz e Deus parece
demonstrar com isso que quebraria em breve os laços da sua florzinha e
não a deixaria murchar na terra!
Após obter o consentimento de papai, pensava poder voar sem temor
para o Carmelo, mas numerosos e dolorosos empecilhos iam ainda
provar a minha vocação. Tremendo, anunciei a meu tio a resolução
tomada. Ele me deu todas as mostras de ternura possíveis, mas não a
permissão de partir. Pelo contrário, proibiu-me de lhe falar da minha
vocação antes dos meus 17 anos. Era, dizia ele, contrário à prudência
humana deixar uma menina de 15 anos ingressar no Carmelo. Aos olhos
do mundo, essa vida de carmelita era vida de filósofo e seria grande
prejuízo para a religião deixar uma criança sem experiência abraçá-la…
Todos falariam disso etc, etc… Disse-me até que para decidi-lo a me
deixar partir seria preciso um milagre. Vi logo que todos os raciocínios
eram inúteis e retirei-me com o coração mergulhado na mais profunda
amargura. Meu único consolo era a oração. Pedi a Jesus para fazer o
milagre exigido, pois só por esse preço poderia responder ao pedido
Dele. Passou-se um tempo bastante longo antes que eu ousasse falar
novamente com meu tio. Custava-me muito ir à casa dele e ele parecia
não mais pensar na minha vocação. Soube, mais tarde, que minha
grande tristeza o influenciou muito a meu favor. Antes de fazer brilhar
em minha alma um raio de esperança, Deus quis mandar-me um
martírio muito doloroso que durou três dias. Oh! nunca compreendi tão
bem como durante essa provação a dor da Santíssima Virgem e de são
José procurando o divino Menino Jesus… Estava num triste deserto, ou
melhor, minha alma parecia uma frágil embarcação entregue sem piloto
à mercê de ondas tempestuosas… Sei, Jesus estava ali, dormindo na
minha barquinha, mas a noite estava tão escura que não podia vê-lo,
nada para iluminar, nem um relâmpago vinha rasgar as espessas
nuvens… Luz bem triste a dos relâmpagos, mas se uma tempestade
tivesse ocorrido eu teria conseguido ver Jesus por um instante… mas
era noite, noite profunda da alma… como Jesus no Jardim da Agonia,
sentia-me só, sem consolo, nem por parte da terra, nem do Céu. Deus
parecia ter-me abandonado!!!… A natureza parecia tomar parte na
minha amarga tristeza; durante esses três dias, o sol não liberou um
único raio e a chuva caiu torrencialmente. Notei que em todas as
circunstâncias graves da minha vida a natureza era imagem da minha
alma. Nos dias de lágrimas, o Céu chorava comigo; nos dias de alegria,
o Sol mandava com fartura seus alegres raios e o azul não comportava
nenhuma nuvem…
Enfim, no quarto dia, um sábado, dia consagrado à doce Rainha dos
Céus, fui visitar meu tio. Que surpresa, vendo-o olhar-me e fazer-me
entrar em seu escritório sem que eu lhe tivesse manifestado o desejo!…
Começou por me censurar brandamente por parecer ter medo dele e
disse-me não ser necessário pedir um milagre, que tinha apenas pedido
a Deus que lhe desse “uma simples inclinação de coração” e fora
atendido… Ah! não fui tentada a implorar por um milagre, para mim o
milagre havia sido concedido. Meu tio havia mudado. Sem fazer alusão
nenhuma à “prudência humana”, disse-me que eu era uma florzinha que
Deus queria colher e que não se oporia mais!…
Essa resposta definitiva era verdadeiramente digna dele. Pela terceira
vez, esse cristão de uma outra idade permitia que uma das filhas
adotivas do seu coração fosse sepultar-se longe do mundo. Minha tia
também foi admirável em ternura e prudência, não me lembro de,
durante minha provação, ela ter dito uma palavra sequer que pudesse
ter agravado minha tristeza. Via que tinha pena da sua pobre Teresinha.
Por isso, depois que obtive a autorização do meu querido tio, deu-me a
dela, mas não sem manifestar de mil maneiras que minha partida lhe
causaria muita aflição… Ai! nossos queridos familiares estavam longe de
pensar, então, que iriam renovar duas vezes ainda o mesmo sacrifício…
Mas, ao estender a mão para pedir sempre, Deus não a oferecia vazia,
seus mais queridos amigos puderam servir-se com fartura da força e da
coragem de que tanto precisaram… Meu coração está me levando muito
longe do meu assunto, volto quase a contragosto: depois da resposta de
meu tio, compreendeis, Madre, com que alegria voltei aos Buissonnets
debaixo do “belo céu, totalmente livre de nuvens!…” Na minha alma
também a noite tinha ido embora, Jesus acordara e me devolvia a
alegria, o ruído das ondas emudecera; no lugar da ventania da
provação, uma brisa leve enchia minha vela e pensei chegar logo à
margem abençoada que avistava perto de mim. De fato, parecia muito
perto da minha barquinha; porém, mais de uma tempestade se
levantaria e esconderia da minha vista o farol luminoso, fazendo minha
alma recear o afastamento sem volta da praia tão ardentemente
desejada…
Poucos dias após ter obtido o consentimento do meu tio, fui visitar-vos,
querida Madre, e vos falei da minha alegria por terem as provações
chegado ao fim. Mas qual não foi minha surpresa e minha aflição ao
ouvir de vós que o Superior não permitia meu ingresso antes de eu
atingir 21 anos…
Ninguém tinha pensado nessa oposição, a mais invencível de todas;
porém, sem perder a coragem, fui com papai e Celina encontrar nosso
padre a fim de tentar demovê-lo, mostrando a ele que eu tinha vocação
para o Carmelo. Ele nos recebeu muito friamente. Embora meu
incomparável paizinho tivesse juntado seus argumentos aos meus, nada
pôde alterar sua disposição. Disse que não havia perigo na demora, que
podia levar uma vida de carmelita em casa, que embora não tomasse a
disciplina nem tudo seria perdido etc… etc… Enfim, acrescentou ser
apenas o representante do senhor bispo e, se esse me autorizasse a
ingressar, não teria mais nada a dizer… Saí chorando. Felizmente,
estava escondida atrás da minha sombrinha, pois chovia muito. Papai
não sabia como me consolar… prometeu levar-me a Bayeux logo que eu
quisesse, pois estava resolvida a alcançar minha meta. Disse que iria
até o Santo Padre se o senhor bispo me negasse a entrada no Carmelo
aos 15 anos… Muita coisa ocorreu antes da minha ida a Bayeux. Por
fora, minha vida parecia a mesma, estudava, tomava lições de desenho
com Celina e minha hábil mestra achava em mim muito pendor por sua
arte. Crescia no amor a Deus, sentia em meu coração impulsos
desconhecidos até então, tinha, às vezes, verdadeiros êxtases de amor.
Uma tarde, não sabendo dizer a Jesus quanto o amava e como desejava
que Ele fosse amado e glorificado em todo lugar, pensei com amargura
que não poderia nunca receber no inferno um único ato de amor. Então,
disse a Deus que para agradar a Ele eu consentiria em ser mergulhada
nele a fim de que Ele fosse amado eternamente nesse lugar de
blasfêmia … Sabia que isso não podia glorificá-lo, sendo que Ele só
deseja nossa felicidade, mas quando se ama sente-se necessidade de
dizer mil bobagens; se eu falava assim, não é porque não desejasse o
Céu, mas, então, meu Céu consistia só no Amor e sentia, como são
Paulo, que nada poderia separar-me do objeto divino que me
seduzira!…
Antes de deixar o mundo, Deus concedeu-me a graça de contemplar de
perto almas de crianças; sendo a última da família, nunca tinha tido
essa felicidade. Eis as tristes circunstâncias que me levaram a isso: uma
pobre mulher, parente da nossa empregada, morreu jovem deixando
três criancinhas; durante sua doença, guardamos em casa as duas
meninas, tendo a mais velha apenas 6 anos. Cuidava delas o dia todo e
era uma grande satisfação para mim ver com quanta candura
acreditavam em tudo o que lhes dizia. É preciso que o santo batismo
deposite nas almas um germe muito profundo das virtudes teologais
para que se manifestem desde a infância e que a esperança dos bens
futuros baste para fazer aceitar sacrifícios. Quando queria ver minhas
duas meninas bem conciliadas, em vez de prometer brinquedos e
bombons àquela que cederia em favor da outra, falava-lhes das
recompensas eternas que o Menino Jesus daria no Céu às crianças bem
comportadas. A mais velha, cuja razão começava a se desenvolver,
olhava-me com olhos brilhantes de alegria, fazia-me mil perguntas
gentis sobre o menino Jesus e seu belo Céu e prometia-me com
entusiasmo ceder sempre em favor da irmã, dizendo que nunca na vida
esqueceria o que lhe havia dito “a grande senhorita”, pois era assim que
me chamava… Vendo de perto essas almas inocentes, compreendi ser
grande infelicidade não formá-las bem desde seu despertar, quando são
como uma cera mole sobre a qual se pode depositar tanto as
impressões das virtudes como do mal… compreendi o que Jesus disse
no Evangelho: que seria melhor ser lançado ao mar do que escandalizar
uma só dessas crianças. Ah! quantas almas chegariam à santidade se
fossem bem dirigidas!…
Sei que Deus não precisa de ninguém para realizar sua obra, mas assim
como permite a um hábil jardineiro cultivar plantas raras e delicadas e
lhe dá para isso a ciência necessária, reservando para si a tarefa de
fecundar, assim também Jesus quer ser ajudado na sua divina cultura
das almas.
Que aconteceria se um jardineiro desajeitado não enxertasse direito
suas plantas? Se não soubesse reconhecer a natureza de cada uma e
quisesse fazer brotar rosas num pessegueiro?… Faria morrer a planta
que, todavia, era boa e capaz de produzir frutos.
Assim é que se deve reconhecer desde a infância o que Deus pede às
almas e ajudar a ação da sua graça, sem nunca apressá-la nem retardá-
la.
Como os passarinhos aprendem a cantar escutando seus genitores,
assim as crianças aprendem a ciência das virtudes, o canto sublime do
Amor divino, junto às almas encarregadas de formá-las.
Recordo-me de que entre meus passarinhos eu tinha um canarinho que
cantava maravilhosamente; tinha também um pequeno pintassilgo ao
qual prodigalizava meus cuidados maternos, tendo-o adotado antes que
pudesse gozar da sua liberdade… Esse pobre prisioneirinho não tinha
pais para ensiná-lo a cantar, mas ouvindo o dia todo o seu companheiro
canarinho soltar alegres trinados quis imitá-lo… Esse empreendimento
era difícil para um pintassilgo, por isso sua voz delicada teve dificuldade
de se afinar à voz vibrante do seu mestre de música. Era lindo ver os
esforços do pequeno, mas foram coroados de êxito, pois seu canto,
embora conservando maior doçura, foi absolutamente o mesmo do
canarinho.
Oh! Madre querida, fostes vós quem me ensinastes a cantar… foi vossa
voz que encantou minha infância, e agora tenho o consolo de ouvir dizer
que ela se parece com a vossa!!! Bem sei que ainda estou longe disso,
mas espero, apesar da minha fraqueza, repetir eternamente o mesmo
cântico que vós!…
Antes do meu ingresso no Carmelo, fiz ainda muitas outras experiências
acerca da vida e das misérias do mundo, mas esses detalhes me
levariam longe demais. Vou retomar o relato da minha vocação. O dia
31 de outubro foi o dia fixado para minha viagem a Bayeux. Parti
sozinha com papai, o coração transbordando de esperança, mas
também muito comovida com a idéia de apresentar-me no bispado. Pela
primeira vez na vida ia fazer uma visita sem ser acompanhada das
minhas irmãs, e essa visita era a um bispo! Eu, que nunca precisava
falar, a não ser para responder às perguntas que me eram feitas, devia
explicar pessoalmente a finalidade da minha visita, expor os motivos
que me levavam a solicitar minha entrada no Carmelo, enfim, devia
mostrar a solidez da minha vocação. Ah! como me custou essa viagem!
Foi preciso Deus conceder-me uma graça toda especial para vencer
minha grande timidez… É também verdade que “Nunca o Amor depara
com o impossível, pois crê que tudo lhe é possível e permitido”.
Verdadeiramente, só o amor de Jesus podia fazer-me vencer esta e as
outras dificuldades que se seguiram, pois agradou-lhe fazer-me comprar
minha vocação por meio de muitas provações…
Agora que gozo da solidão do Carmelo, descansando à sombra da Cruz
que tão ardorosamente desejei, considero ter pagado pouco pela minha
felicidade e estaria disposta a suportar penas muito maiores para
adquiri-la se a não tivesse alcançado!
Chovia a cântaros quando chegamos a Bayeux. Papai não queria que
sua rainhazinha entrasse na residência episcopal com sua linda roupa
molhada. Subimos num ônibus e nos dirigimos à catedral. Aí começaram
novas dificuldades. Sua Excelência e todo o clero assistiam a um grande
funeral. A igreja estava repleta de senhoras de luto e eu, com meu
vestido claro e meu chapéu branco, era olhada por todos. Queria sair da
igreja, mas não podia pensar nisso por causa da chuva. Para humilharme
ainda mais, papai, com sua simplicidade patriarcal, fez-me subir na
torre da catedral. Não querendo desagradá-lo, subi com boa vontade e
propiciei esse divertimento aos bons habitantes de Bayeux, que teria
desejado nunca ter conhecido… Enfim, pude respirar sossegada numa
capela atrás do altar-mor e fiquei muito tempo lá, rezando com fervor,
aguardando que a chuva parasse e nos fosse permitido sair. Ao descer,
papai fez-me observar a beleza do edifício, que parecia muito maior
agora que estava deserto. Porém, um único pensamento ocupava meu
espírito e não podia me agradar com coisa alguma. Fomos logo procurar
pelo padre Révérony, que sabia da nossa chegada por ter sido ele quem
marcara o dia da viagem. Mas estava ausente. Fomos obrigados a vagar
pelas ruas, que me pareceram muito tristes. Enfim, voltamos para perto
da sede do bispado, e papai fez-me entrar num belo hotel onde não fiz
honra ao hábil cozinheiro. O pobre paizinho era para comigo de uma
ternura quase inacreditável, dizendo-me para não ficar triste, que logo o
senhor bispo iria atender a meu pedido. Após um descanso, voltamos a
procurar o padre Révérony; um senhor chegou ao mesmo tempo, mas o
vigário-geral pediu-lhe polidamente para esperar e nos fez entrar
primeiro no seu gabinete (o pobre senhor teve tempo de enfastiar-se,
pois a visita foi demorada). O padre Révérony mostrou-se muito
amável, mas creio que estranhou muito o motivo da nossa viagem.
Depois de ter-me olhado sorrindo, dirigiu-me algumas perguntas e
disse: “Vou apresentar-vos a Sua Excelência, tenhais a bondade de me
acompanhar”. Vendo as lágrimas brilharem nos meus olhos,
acrescentou: “Ah! vejo diamantes… não deveis mostrá-los a Sua
Excelência!”… Fez-nos atravessar muitos cômodos vastíssimos,
enfeitados de retratos de bispos. Vendo-me nesses salões enormes,
tinha impressão de ser uma formiguinha e me perguntava o que ia
ousar dizer a Sua Excelência. Ele anda, entre dois cômodos, num
corredor. Vi o padre Révérony dizer-lhe algumas palavras e voltar com
ele. Aguardávamos no gabinete dele. Ali, três enormes poltronas
estavam dispostas diante da lareira onde crepitava um fogo forte. Ao
ver entrar Sua Grandeza, papai pôs-se de joelhos a meu lado para
receber sua bênção. Indicou uma poltrona para papai sentar-se,
colocou-se na frente dele e o padre Révérony indicou-me a do meio.
Recusei polidamente, mas insistiu, dizendo que devia mostrar-me capaz
de obedecer. Sentei-me logo sem fazer comentário e senti-me
constrangida ao vê-lo pegar uma cadeira enquanto eu estava afundada
numa poltrona onde quatro pessoas como eu cabiam folgadamente
(mais à vontade do que eu, pois estava longe de me sentir folgada!…)
Esperava que papai fosse falar, mas disse-me para explicar
pessoalmente a Sua Excelência a finalidade da nossa visita; o que fiz o
mais eloqüentemente possível. Acostumado com a eloqüência, Sua
Grandeza não pareceu comovido com meu arrazoado. Uma palavra
favorável do padre superior teria servido melhor a minha causa,
infelizmente não dispunha dela e sua oposição não intercedia a meu
favor.
Sua Excelência perguntou-me se havia muito tempo que eu desejava
ingressar no Carmelo: “Oh, sim, Excelência! Muito tempo…” .
“Vejamos”, interveio, rindo, o padre Révérony, “podeis dizer que faz 15
anos que tendes esse desejo.” “É verdade”, respondi sorrindo também,
“mas não há muito que retirar, pois desejo fazer-me religiosa desde o
despertar da minha razão e desejei o Carmelo logo que o conheci bem,
pois nessa ordem achava que todas as aspirações da minha alma seriam
satisfeitas.” Não sei, Madre, se foram exatamente essas as minhas
palavras, creio que eram ditas de forma ainda pior, mas, enfim, o
sentido era este.
Pensando agradar a papai, Sua Excelência tentou fazer-me ficar ainda
alguns anos junto dele. Ficou um pouco surpreso e edificado vendo-o
tomar meu partido, intercedendo para eu obter a permissão de levantar
vôo aos 15 anos. Porém, tudo foi inútil. Disse que antes de decidir era
indispensável uma conversa com o Superior do Carmelo. Nada podia
ouvir que me causasse maior aflição, pois conhecia a oposição formal do
nosso padre. Sem levar em conta a recomendação do padre Révérony,
fiz mais do que mostrar diamantes a Sua Excelência, dei alguns a ele!…
Vi que ficou emocionado; pegando-me pelo pescoço, apoiava minha
cabeça no ombro dele e me fazia carícias como nunca, ao que parece,
alguém recebera dele. Disse-me que nem tudo estava perdido, que
ficava muito contente em eu fazer a viagem a Roma para firmar minha
vocação e que em vez de chorar devia alegrar-me. Acrescentou que, na
semana seguinte, devendo ir a Lisieux, falaria de mim com o pároco de
São Tiago e que, certamente, eu receberia resposta dele na Itália.
Compreendi ser inútil insistir mais, aliás nada mais tinha a dizer, tinha
esgotado todos os recursos da minha eloqüência.
Sua Excelência acompanhou-nos até o jardim. Papai o divertiu muito
quando lhe disse que, para parecer mais velha, eu tinha levantado meu
cabelo. Isso não foi esquecido, pois Sua Excelência não fala da sua
“filhinha” sem contar a história dos cabelos… O padre Révérony quis
acompanhar-nos até a extremidade do jardim do bispado; disse a papai
que nunca vira coisa igual: “Um pai tão disposto a dar sua filha a Deus
quanto esta em se oferecer!”
Papai fez-lhe diversas perguntas a respeito da peregrinação, inclusive
sobre a maneira de se vestir para o encontro com o Santo Padre. Vejo-o
ainda virando-se diante do padre Révérony, perguntando-lhe: “Estou
bem assim?…” Dissera também a Sua Excelência que se não me
permitisse ingressar no Carmelo eu pediria essa graça ao Soberano
Pontífice. Meu Rei querido era muito simples nas suas palavras e nas
suas maneiras, mas era tão bonito… tinha uma distinção natural que
deve ter agradado muito a Sua Excelência, acostumado a se ver cercado
de pessoas que conhecem todas as regras da etiqueta dos salões, mas
não o Rei da França e de Navarra com sua rainhazinha…
Uma vez na rua, minhas lágrimas brotaram de novo, não tanto por
causa da minha dor, mas por ver meu paizinho querido que acabava de
fazer uma viagem inútil… Planejara enviar uma resposta festiva ao
Carmelo para anunciar a resposta de Sua Excelência, via-se de volta
sem resposta… Ah! quanto sofri!… parecia-me que meu futuro estava
abalado para sempre. Mais o tempo passava, mais as coisas ficavam
confusas. Minha alma estava mergulhada na amargura, mas na paz,
também, pois só procurava a vontade de Deus.
Logo de volta a Lisieux, fui buscar consolo no Carmelo e o encontrei em
vós, querida Madre. Oh, não! Nunca esquecerei tudo o que sofrestes por
minha causa. Se não receasse profaná-las, servindo-me delas, repetiria
as palavras que Jesus dirigia a seus apóstolos, na tarde da sua Paixão:
“Vós sois aqueles que permanecestes ao meu lado nas minhas
provações”… Minhas bem-amadas irmãs ofereceram-me também doces
consolos…
Três dias após a viagem a Bayeux, fazia outra muito maior, à cidade
eterna… Ah! que viagem aquela!… Ela sozinha fez-me conhecer mais
coisas que longos anos de estudo, mostrou-me a vaidade de tudo o que
passa e que tudo é aflição de espírito sob o sol… Mas vi muitas coisas
bonitas, contemplei todas as maravilhas da arte e da religião, sobretudo
pisei a mesma terra que os santos apóstolos, a terra regada com o
sangue dos mártires, e minha alma cresceu em contato com coisas
santas…
Estou muito feliz por ter ido a Roma, mas compreendo as pessoas de
fora que pensaram que papai me levara a fazer essa grande viagem a
fim de mudar minhas idéias sobre a vida religiosa; de fato, havia com
que abalar uma vocação pouco firme.
Não tendo vivido na alta sociedade, Celina e eu nos encontramos no
meio da nobreza que compunha quase exclusivamente a romaria. Ah!
longe de nos deslumbrar, todos esses títulos e esses “de” pareceram-
nos mera fumaça… De longe, algumas vezes, aquilo me impressionara,
mas de perto vi que “nem tudo que reluz é ouro” e compreendi essa
palavra da Imitação: “Não ides atrás dessa sombra que chamam de
grande nome, não desejai numerosas relações, nem a amizade
particular de homem algum”.
Compreendi que a verdadeira grandeza se encontra na alma e não no
nome pois, como o disse Isaías: “O Senhor dará outro nome a seus
eleitos”, e são João diz também: “Ao vencedor darei maná escondido, e
dar-lhe-ei uma pedra branca, sobre a qual estará escrito um nome
novo, que ninguém conhece, exceto aquele que o recebe”. Portanto, é
no Céu que conheceremos nossos títulos de nobreza. Então, cada um
receberá de Deus o louvor que merece e quem na terra desejou ser o
mais pobre, o mais esquecido por amor a Jesus, será o primeiro, o mais
nobre e o mais rico!…
A segunda experiência que fiz diz respeito aos sacerdotes. Não tendo
vivido nunca na intimidade deles, não podia compreender a principal
finalidade da reforma do Carmelo. Rezar pelos pecadores me
empolgava, mas rezar pelas almas dos padres, que eu acreditava mais
puras que o cristal, parecia-me estranho!…
Ah! compreendi minha vocação na Itália, não era ir buscar longe demais
um conhecimento tão útil…
Durante um mês, vivi com muitos padres santos e vi que, se sua
sublime dignidade os eleva acima dos anjos, nem por isso deixam de ser
homens frágeis e fracos… Se padres santos, que Jesus denomina no seu
Evangelho “sal da terra”, mostram em sua conduta que precisam
extremamente de orações, o que dizer daqueles que são tíbios? Jesus
não disse também: “Se o sal se tornar insípido, com que há de se lhe
restituir o sabor”?
Oh Madre! como é bonita a vocação que tem por finalidade conservar o
sal destinado às almas! Essa vocação é a do Carmelo, pois a única
finalidade das nossas orações e dos nossos sacrifícios é ser apóstolo dos
apóstolos, rezando para eles enquanto evangelizam as almas por suas
palavras e, sobretudo, por seus exemplos… Preciso parar, se
continuasse a falar sobre este assunto, não acabaria nunca!…
Vou, querida Madre, relatar minha viagem com alguns pormenores.
Perdoai-me se me excedo em minúcias. Não penso antes de escrever e,
por causa do pouco tempo que tenho livre, recomeço tantas vezes que
meu relato poderá lhe parecer um pouco enfadonho… O que me consola
é pensar que, no Céu, vos falarei das graças que recebi e poderei fazê-
lo em termos agradáveis e encantadores… Nada mais haverá para
interromper nossas efusões íntimas e, num único olhar, tereis entendido
tudo… Sendo que ainda preciso usar a linguagem da triste terra, vou
tentar fazê-lo com a simplicidade de uma criança que conhece o amor
da sua mãe!…
A romaria saiu de Paris em 7 de novembro, mas papai nos levou a essa
cidade alguns dias antes para que pudéssemos visitá-la.
Às três horas de certa manhã, atravessei a cidade de Lisieux ainda
adormecida; muitas impressões atravessaram minha alma naquele
momento. Sentia estar me dirigindo para o desconhecido e que grandes
coisas me esperavam lá… Papai estava alegre; quando o trem se pôs a
andar, cantou este velho refrão: “Corre, corre, diligência minha; eis-nos
na estrada real”. Chegamos a Paris antes do meio-dia e começamos a
visitar logo. Nosso pobre paizinho cansou-se muito a fim de nos
agradar; mas logo tínhamos visto todas as maravilhas da capital. A
mim, só uma encantou, foi “Nossa Senhora das Vitórias”. Ah! o que
senti a seus pés é indescritível… As graças que me concedeu
emocionaram-me tão profundamente que minhas lágrimas expressaram
sozinhas a minha felicidade, como no dia da minha primeira
comunhão… Fez-me sentir que foi verdadeiramente ela quem me sorrira
e curara. Compreendi que velava por mim, que eu era sua filha,
portanto só podia atribuir-lhe o nome de “Mamãe”, pois parecia-me
ainda mais terno que o de mãe… Com que fervor lhe pedi para me
proteger sempre e realizar em breve o sonho de esconder-me à sombra
do seu manto virginal!… Ah! era um dos meus primeiros desejos de
criança… Ao crescer, compreendi que era no Carmelo que me seria
possível encontrar, de verdade, o manto de Nossa Senhora, e era para
essa montanha fértil que meus desejos todos tendiam…
Invoquei Nossa Senhora das Vitórias para que afastasse de mim tudo o
que poderia ter embaçado a minha purezal Não ignorava que, numa
viagem como essa à Itália, se encontrariam muitas coisas capazes de
me perturbar, sobretudo porque, desconhecendo o mal, temia descobrilo;
não tendo experimentado que tudo é puro para os puros e que a
alma simples e reta não enxerga o mal em lugar nenhum, pois, de fato,
o mal só existe nos corações impuros e não nos objetos sensíveis… Pedi
também a são José para velar por mim; desde a minha infância, tinha
por ele uma devoção que se confundia com meu amor pela Santíssima
Virgem. Todo dia rezava a oração: “Ó são José, pai e protetor das
virgens”; por isso, empreendi sem receio minha longa viagem, estava
tão bem protegida que me parecia impossível ter medo.
Depois de nos consagrarmos ao Sagrado Coração, na basílica de
Montmartre saímos de Paris na segunda-feira, dia 7, pela manhã; logo
travamos conhecimento com as pessoas da romaria. Eu,
costumeiramente tão tímida que nem ousava falar, vi-me
completamente livre desse defeito incômodo; surpreendi-me a
conversar livremente com todas as grandes damas, os padres e até o
bispo de Coutances. Parecia-me ter sempre vivido no meio dessa gente.
Creio que éramos queridos de todos, e papai parecia orgulhoso das suas
duas filhas. Mas, se ele estava satisfeito conosco, também estávamos
com ele, pois no grupo todo não havia senhor mais bonito e mais
distinto que meu Rei querido; gostava de ficar cercado por Celina e por
mim. Muitas vezes, quando não estávamos num carro e eu me afastava
dele, chamava-me para lhe dar o braço como em Lisieux… O padre de
Révérony prestava atenção a todas as nossas ações e, muitas vezes,
via-o nos observando de longe. Na mesa, quando eu não estava na
frente dele, ele encontrava um meio de se inclinar para me ver e ouvir o
que eu dizia. Sem dúvida queria conhecer-me a fim de saber se, de fato,
eu era capaz de ser carmelita. Creio que ficou satisfeito com o exame
pois, no final da viagem, pareceu bem disposto a meu favor. Em Roma,
porém, estava longe de me ser favorável, segundo vos contarei adiante.
Antes de chegar a essa cidade eterna, meta da nossa viagem, foi-nos
dado contemplar muitas maravilhas. Primeiro, foi a Suíça, com
montanhas cujos cumes se perdem nas nuvens, as cascatas caindo de
mil diferentes e graciosas maneiras, os vales profundos cheios de
samambaias gigantes e de urzes cor-de-rosa. Ah! Madre querida, como
as belezas da natureza distribuídas em profusão fizeram bem à minha
alma, como a elevaram para Aquele que se agradou em lançar
tamanhas obras-primas numa terra de exílio que deve durar apenas um
dia… Não tinha olhos suficientes para contemplar. Em pé na portinhola,
quase não respirava. Queria estar, ao mesmo tempo, dos dois lados do
vagão, pois ao virar-me via paisagens encantadoras e diferentes das
que estavam na minha frente.
Às vezes, estávamos no cume de uma montanha, a nossos pés,
precipícios de profundidade inalcançável pelo olhar pareciam querer nos
engolir… ou ainda um charmoso e pequeno lugarejo com seus graciosos
chalés e seu campanário, por cima do qual balançavam indolentes
algumas nuvens resplandecentes de brancura… mais longe, um vasto
lago, dourado pelos últimos raios do sol, com ondas calmas e puras a
mesclar o tom azulado do Céu aos fogos do crepúsculo, apresentava a
nossos olhares maravilhados o mais poético espetáculo que se pode
ver… Ao fundo do vasto horizonte, montanhas de formas indecisas, que
teriam escapado ao nosso olhar não fossem seus cumes nevados que o
sol tornava ofuscantes, acrescentavam um encanto suplementar ao belo
lago que nos encantava…
Vendo todas essas belezas, surgiam pensamentos muito profundos em
minha alma. Tinha a impressão de já estar compreendendo a grandeza
de Deus e as maravilhas do Céu… A vida religiosa apresentava-se a
mim tal como é, com suas submissões, seus pequenos sacrifícios feitos
às ocultas. Compreendia como é fácil ensimesmar-se, esquecer a
sublime finalidade da vocação e me dizia: mais tarde, no momento da
provação, quando, prisioneira no Carmelo, só puder contemplar um
pequeno canto do Céu estrelado, recordarei o que vejo hoje, esse
pensamento me dará coragem, esquecerei facilmente meus pobres e
pequenos interesses ao ver a grandeza e o poder de Deus a quem quero
amar unicamente. Não terei a infelicidade de apegar-me a palhas, agora
que “meu coração pressentiu o que Jesus reserva a quem o ama!…”
Após ter admirado o poder de Deus, pude ainda admirar o poder que
deu às suas criaturas. A primeira cidade da Itália que visitamos foi
Milão. Sua catedral, inteiramente de mármore branco, com estátuas
numerosas para formar um povo incontável, foi examinada por nós em
seus mínimos detalhes. Celina e eu éramos intrépidas, sempre as
primeiras e seguindo imediatamente Sua Excelência, a fim de ver tudo o
que se referia às relíquias dos santos e ouvir as explicações. Assim é
que, enquanto celebrava o santo sacrifício sobre o túmulo de são Carlos,
estávamos com papai atrás do altar, com a cabeça encostada na urna
que contém o corpo do santo revestido dos seus trajes pontificais. Era
assim em todo lugar… Exceto quando se tratava de subir onde a
dignidade de um bispo não permitia, pois naquelas ocasiões sabíamos
nos afastar de Sua Grandeza… Deixando as senhoras tímidas esconder
o rosto nas mãos logo após ter alcançado as primeiras campainhas que
coroam a catedral, seguíamos os mais destemidos romeiros e
chegávamos até o alto da última campainha de mármore, e tínhamos o
prazer de ver a nossos pés a cidade de Milão, cujos numerosos
habitantes pareciam formar um pequeno formigueiro… Uma vez tendo
descido do nosso pedestal, começamos nossos passeios de carro, que
deviam durar um mês e saciar-me para sempre do meu desejo de rodar
sem cansaço! O campo santo encantou-nos ainda mais que a catedral.
Todas essas estátuas de mármore branco, que um cinzel genial parece
ter animado, estão colocadas sobre o vasto campo dos mortos numa
espécie de displicência que, para mim, aumenta o encanto… Dá
vontade, quase, de consolar os personagens ideais que nos cercam. Sua
expressão é tão realista, sua dor, tão calma e resignada que não há
como deixar de reconhecer os pensamentos de imortalidade que devem
encher o coração dos artistas quando executam essas obras-primas.
Aqui, uma criança joga flores sobre o túmulo de seus pais, parece que o
mármore perdeu seu peso, que as pétalas delicadas deslizam entre os
dedos da criança, que o vento já começa a dispersá-las, a fazer flutuar o
véu leve das viúvas e as fitas que adornam os cabelos das moças. Papai
estava tão encantado quanto nós; na Suíça, sentiu cansaço, mas agora
sua alegria havia voltado, gozava do belo espetáculo que
contemplávamos, sua alma de artista manifestava-se nas expressões de
fé e admiração que se estampavam no seu belo rosto. Um velho senhor
(francês), que, sem dúvida, não tinha alma tão poética, olhava-nos de
soslaio e dizia mal-humorado, embora parecendo lastimar não ser capaz
de partilhar da nossa admiração: “Ah! como os franceses são
entusiastas!” Creio que esse pobre senhor teria feito melhor ficando em
casa, pois não pareceu gostar da viagem. Encontrava-se
freqüentemente perto de nós e sempre ficava resmungando. Reclamava
dos carros, dos hotéis, das pessoas, das cidades, enfim, de tudo… Com
sua habitual grandeza de alma, papai procurava animá-lo, oferecia seu
lugar etc… enfim, achava-se bem em qualquer lugar, sendo de um
caráter totalmente oposto ao do seu desagradável vizinho… Ah! quantas
pessoas diferentes vimos, como o estudo do mundo se faz interessante
quando estamos prestes a deixá-lo!…
Em Veneza, o cenário muda completamente. Em vez do ruído das
grandes cidades, só se ouvem, no meio do silêncio, os gritos dos
gondoleiros e o murmúrio da onda agitada pelos remos. Veneza não é
desprovida de encantos, mas acho essa cidade triste. O palácio dos
doges é esplêndido, porém também triste com seus vastos aposentos
onde reinam o ouro, a madeira, os mais preciosos mármores e as
pinturas dos maiores mestres. Há muito tempo que suas abóbadas
sonoras deixaram de ouvir as vozes dos governadores que
pronunciavam sentenças de vida e de morte nas salas que
atravessamos… Os infelizes prisioneiros que mantinham nas masmorras
e calabouços subterrâneos deixaram de sofrer… Ao visitar esses
horrendos cárceres, reportava-me ao tempo dos mártires e desejei
poder ficar, a fim de imitá-los!… Mas foi preciso sair logo e passar na
ponte dos suspiros, assim chamada por causa dos suspiros de alívio
dados pelos condenados por se verem livres do horror dos subterrâneos,
aos quais preferiam a morte…
Depois de Veneza, fomos a Pádua, onde veneramos a língua de santo
Antônio, e a Bolonha, onde vimos santa Catarina, que conserva a
impressão do beijo do Menino Jesus. Há muitos pormenores
interessantes que eu poderia dar sobre cada cidade e sobre as mil
pequenas circunstâncias particulares da nossa viagem, mas não teria
fim, por isso só vou relatar os principais.
Deixei Bolonha com satisfação. Essa cidade tornara-se insuportável para
mim, devido aos estudantes dos quais está repleta e que formavam uma
barreira quando tínhamos a infelicidade de sair a pé, e, sobretudo, por
causa de pequena aventura que me aconteceu com um deles. Foi com
alegria que rumei para Loreto. Não me surpreendeu que Nossa Senhora
tenha escolhido esse lugar para transportar sua casa abençoada. A paz,
a alegria, a pobreza reinam soberanamente; tudo é simples e primitivo,
as mulheres conservaram o gracioso traje italiano e não adotaram,
como em outras cidades, a moda parisiense. Enfim, Loreto encantoume!
Que direi da casa abençoada?… Ah! minha emoção foi profunda ao
me ver sob o mesmo teto que a Sagrada Família, a contemplar os
muros nos quais Jesus fixara seus divinos olhos, pisando a terra que são
José molhou com seus suores, onde Maria carregara Jesus em seus
braços depois de tê-lo carregado no seu seio virginal… Vi o quartinho
onde o anjo desceu para perto da Santíssima Virgem… Coloquei meu
terço na tigelinha do Menino Jesus… Como essas recordações são
maravilhosas!…
Nosso maior consolo foi receber Jesus em sua própria casa e ser seu
templo vivo no lugar que Ele honrou com sua presença. Segundo um
costume da Itália, o santo cibório só se conserva, em cada igreja, sobre
um altar, e somente aí se pode receber a santa comunhão. Esse altar
encontra-se na própria basílica onde está a casa abençoada, guardada
como um diamante precioso num estojo de mármore branco. Isso não
nos agradou, pois queríamos comungar no próprio diamante, não no
estojo… Com sua cordialidade habitual, papai fez como todos os outros,
mas Celina e eu fomos encontrar um sacerdote que nos acompanhava
em todo lugar e que, naquele momento e por um privilégio especial, se
preparava para celebrar missa na casa abençoada. Pediu duas pequenas
hóstias que colocou na patena junto à grande e compreendeis, Madre
querida, com que êxtase comungamos, as duas, nessa casa
abençoada!… Era uma felicidade toda celeste que as palavras não
podem expressar. Como será então quando recebermos a santa
comunhão na eterna morada do Rei dos Céus?… Não mais veremos
terminar a nossa felicidade, não haverá mais a tristeza da partida e,
para levar uma lembrança, não será mais necessário raspar
furtivamente as paredes santificadas pela presença divina, sendo que a
casa dele será nossa para a eternidade… Não quer nos dar a da terra,
contenta-se em mostrá-la a nós para nos fazer amar a pobreza e a vida
oculta. A morada que Ele nos reserva é seu palácio de glória onde não
mais o veremos oculto, sob a aparência de uma criança ou de uma
hóstia branca, mas tal como é, no seu esplendor infinito!!!…
É de Roma, agora, que me resta falar, Roma, meta da nossa viagem, lá
onde acreditava encontrar o consolo, mas onde encontrei a cruz!… À
nossa chegada, era noite e dormíamos. Fomos acordados pelos
funcionários da estação que gritavam: “Roma, Roma”. Não era um
sonho, estava em Roma!…
O primeiro dia passou-se fora dos muros e foi, talvez, o mais agradável,
pois todos os monumentos conservaram sua marca de antiguidade,
enquanto no centro poder-se-ia acreditar estar em Paris ao ver a
magnificência dos hotéis e das lojas. Esse passeio na campanha romana
deixou em mim urna doce recordação. Não falarei dos lugares que
visitamos, são muitos os livros que os descrevem nos pormenores,
falarei apenas das principais impressões que tive. Uma das mais
agradáveis foi a que me fez estremecer à vista do Coliseu. Estava
vendo, enfim, essa arena onde tantos mártires tinham derramado o
sangue por Jesus. Já ia apressar-me a beijar a terra que santificaram,
mas que decepção! O centro não passa de um montão de entulho que
os romeiros têm de se contentar em olhar, pois uma barreira impede a
entrada. Aliás, ninguém fica interessado em penetrar naquelas ruínas…
Seria possível ir a Roma sem visitar o Coliseu?… Não queria admitir,
não escutava mais as explicações do guia, só um pensamento me
atormentava: descer à arena… Vendo um operário que passava com
uma escada, estive prestes a pedir-lhe, felizmente não pus meu plano
em execução, porque me teriam considerado louca… Diz-se no
Evangelho que Madalena tinha ficado junto ao sepulcro e que,
inclinando-se por diversas vezes para ver dentro, acabou vendo dois
anjos. Como ela, depois de constatar a impossibilidade de realizar meus
desejos, continuei me inclinando sobre as ruínas onde queria descer; no
fim, não vi anjo nenhum, mas sim o que eu procurava. Soltei um grito
de alegria e disse a Celina: “Venha depressa, vamos poder passar!…”
Logo atravessamos a barreira de entulhos e eis-nos escalando as ruínas
que caíam sob nossos passos.
Papai olhava-nos espantado com nossa audácia. Logo nos disse para
voltar, mas as duas fugitivas não ouviam mais nada. Assim como os
guerreiros sentem a coragem aumentar no meio do perigo, nossa
alegria crescia na proporção da dificuldade que tínhamos para alcançar o
objeto dos nossos desejos. Mais precavida que eu, Celina tinha escutado
o guia e lembrou-se de que falara de uma certa lajinha cruzada como
sendo o lugar onde combatiam os mártires e pôs-se a procurá-la.
Achou-a e, ao ajoelharmos sobre essa terra sagrada, nossas almas
confundiram-se numa mesma oração… Meu coração batia fortemente
quando meus lábios se aproximaram do pó tingido do sangue dos
primeiros cristãos. Pedi a eles a graça de ser também mártir para Jesus
e senti no fundo do meu coração que minha oração seria atendida!…
Tudo isso foi feito em muito pouco tempo. Depois de pegar algumas
pedras, voltamos em direção aos muros em ruína a fim de refazer em
sentido inverso a nossa perigosa trajetória. Vendo-nos tão felizes, papai
não pôde chamar a nossa atenção e vi que estava feliz pela nossa
coragem… Deus protegeu-nos visivelmente, pois os romeiros não
tomaram conhecimento da nossa escapada, estando afastados de nós,
ocupados a olhar as magníficas arcadas onde o guia fazia observar “as
pequenas cornijas e os cupidos fixados em cima”. Portanto, nem ele
nem “os senhores padres” conheceram a alegria que enchia nossos
corações…
As catacumbas deixaram também em mim uma suave impressão: são
exatamente como eu as imaginava ao ler sua descrição na vida dos
mártires. Depois de ter passado parte da tarde ali, parecia-me ter
entrado poucos minutos antes, tão perfumada me parecia a atmosfera
que se respira… Era preciso levar algumas recordações das catacumbas.
Deixando a procissão se afastar um pouco, Celina e Teresa penetraram
juntas até o fundo do antigo túmulo de santa Cecília e pegaram terra
santificada pela sua presença. Antes da minha viagem a Roma, eu não
tinha por essa santa devoção especial, mas ao visitar sua casa
transformada em igreja, o lugar do seu martírio, informada que fora
proclamada rainha da Harmonia, não por causa da sua bela voz nem do
seu talento musical, mas em memória do canto virginal que fez ouvir a
seu Esposo Celeste escondido no fundo do seu coração, senti por ela
mais do que devoção: uma verdadeira ternura de amiga… Passou a ser
minha santa predileta, minha confidente íntima… Tudo nela me extasia,
sobretudo seu desprendimento, sua confiança ilimitada que a tornou
capaz de virginizar almas que nunca desejaram outras alegrias que as
da vida presente…
Santa Cecília é parecida com a esposa dos cânticos. Nela vejo “um coro
num campo de exército…”. Sua vida não foi senão um canto melodioso
em meio às maiores provações, e isso não me é estranho, sendo que “o
Evangelho sagrado repousava sobre seu coração!” e que em seu coração
repousava o Esposo das Virgens!…
A visita à igreja Santa Inês foi também muito doce para mim. Era uma
amiga de infância que ia visitar na própria casa. Falei-lhe muito tempo
de quem leva tão bem o nome e fiz tudo o que pude para obter uma
relíquia da angélica padroeira da minha Madre querida a fim de lhe
trazer, mas foi-nos impossível conseguir senão uma pedrinha vermelha
que se desprendeu de um rico mosaico cuja origem remonta ao tempo
de santa Inês e que ela deve ter olhado muitas vezes. Não era delicado
por parte da santa dar-nos, ela própria, o que procurávamos e que nos
era proibido pegar?… Sempre considerei o fato como uma delicadeza e
uma prova do amor com que a doce santa Inês olha e protege minha
querida Madre!…
Seis dias se foram em visitas às principais maravilhas de Roma e, no
sétimo, vi a maior de todas: “Leão XIII…” Desejava e temia esse dia,
dele dependia minha vocação, pois a resposta que eu devia receber de
Sua Excelência não tinha chegado e soubera por uma carta vossas,
Madre, que ele não estava mais muito bem disposto a meu favor.
Portanto, minha única tábua de salvação era o Santo Padre… Mas para
obter a permissão era preciso pedi-la, era preciso, na frente de todos,
ousar falar “ao Papa”. Essa idéia fazia-me tremer. Como sofri antes da
audiência, só Deus e minha querida Celina o sabem. Nunca me
esquecerei da parte que ela tomou em minhas provações. Minha
vocação parecia ser dela. (Nosso amor mútuo era notado pelos padres
da romaria: uma noite, numa reunião tão numerosa que faltavam
lugares, Celina fez-me sentar no seu colo e olhávamo-nos tão
gentilmente que um padre exclamou: “Como se amam, ah! nunca essas
duas irmãs poderão separar-se!” Sim, amávamo-nos, mas nosso afeto
era tão puro e tão forte que a idéia da separação não nos perturbava,
pois sentíamos que nada, nem o oceano, poderia afastar uma da
outra… Celina via com calma o meu barquinho acostar à margem do
Carmelo; resignava-se a ficar o tempo que Deus quisesse no mar
turbulento do mundo, certa de chegar um dia à margem desejada…)
Domingo, 20 de novembro, depois de nos vestir segundo o cerimonial
do Vaticano (isto é, de preto, com uma mantilha de renda na cabeça), e
ter-nos enfeitado com uma grande medalha de Leão XIII amarrada com
fita azul e branca, fizemos nossa entrada no Vaticano, na capela do
Soberano Pontífice. Às 8 horas, nossa emoção foi profunda ao vê-lo
entrar, para celebrar a santa Missa… Depois de dar a bênção aos
numerosos romeiros reunidos ao seu redor, subiu os degraus do santo
altar e mostrou-nos, pela sua piedade digna do Vigário de Jesus, que
era verdadeiramente “O Santo Padre”. Meu coração batia muito forte e
minhas orações eram muito fervorosas, quando Jesus descia nas mãos
do seu Pontífice, e eu estava muito confiante. O Evangelho desse dia
continha essas palavras animadoras: “Não tenhais receio, pequeno
rebanho, porque foi do agrado de vosso Pai dar-vos o seu reino”. Eu não
receava, esperava que o reino do Carmelo fosse meu em breve. Não
pensava então nessas outras palavras de Jesus: “Preparo para vós,
como o Pai preparou para ruim, um reino”. Isto é, reservo para vós
cruzes e provações; assim é que sereis dignos de possuir esse reino
pelo qual ansiais. Por ter sido necessário o Cristo sofrer para entrar na
sua glória, se desejais ter lugar ao lado Dele, bebei do cálice que Ele
bebeu!… Esse cálice foi-me apresentado pelo Santo Padre e minhas
lágrimas misturaram-se à bebida que me era oferecida. Depois da missa
de ação de graças que se seguiu à de Sua Santidade, a audiência
começou. Leão XIII estava sentado numa grande poltrona, vestido
simplesmente da batina branca, camalha da mesma cor e solidéu. Ao
redor dele estavam cardeais, arcebispos, bispos, mas só os vi
vagamente, estando ocupada com o Santo Padre. Desfilávamos diante
dele, cada romeiro se ajoelhava, beijava o pé e a mão de Leão XIII,
recebia sua bênção e dois guardas o tocavam para indicar-lhe que se
levantasse (o romeiro, pois explico-me tão mal que se poderia pensar
que fosse o Papa). Antes de subir ao apartamento pontifício, eu estava
muito resolvida a falar, mas senti minha coragem falhar vendo à direita
do Santo Padre “o padre Révérony!…” Quase no mesmo instante,
disseram-nos, da parte dele, que proibia falar com Leão XIII, pois a
audiência estava se prolongando demais… Virei para minha querida
Celina a fim de consultá-la: “Fala”, disse-me ela. Um instante depois, eu
estava aos pés do Santo Padre. Tendo eu beijado sua sandália, ele me
apresentou a mão. Em vez de beijá-la, pus as minhas e, levantando
para o rosto dele meus olhos banhados em lágrimas, exclamei:
“Santíssimo Padre, tenho um grande favor para pedir-vos!…” Então, o
Soberano Pontífice” inclinou a cabeça de maneira que meu rosto quase
encostou no dele e vi seus olhos pretos e profundos fixarem-se sobre
mim e parecer penetrar-me até o fundo da alma. “Santíssimo Padre”,
disse, “em honra do vosso jubileu, permitai que eu entre no Carmelo
aos 15 anos!…”
Sem dúvida, a emoção fez tremer a minha voz e, virando-se para o
padre Révérony, que me olhava surpreso e descontente, o Santo Padre
disse: “Não compreendo muito bem”. Se Deus tivesse permitido, teria
sido fácil para o padre Révérony obter para mim o que eu desejava, mas
era a cruz e não a consolação que Ele queria me dar. “Santíssimo
Padre”, respondeu o vigário-geral, “é uma criança que deseja ingressar
no Carmelo aos 15 anos, mas os superiores examinam a questão neste
momento.” “Então, minha filha”, respondeu o Santo Padre, olhando-me
com bondade, “fazei o que os superiores vos disserem.” Apoiando
minhas mãos sobre seus joelhos tentei um último esforço e disse com
voz suplicante: “Oh! Santíssimo Padre, se dissésseis sim, todos estariam
a favor!…” Ele olhou-me fixamente e pronunciou as seguintes palavras,
destacando cada sílaba: “Vamos… Vamos… Entrareis se Deus quiser…”
Sua acentuação tinha alguma coisa de tão penetrante e de tão
convincente que tenho impressão de ouvi-lo ainda. A bondade do Santo
Padre me animava e eu queria falar mais, mas os dois guardas tocaramme
polidamente para fazer-me levantar. Vendo que isso não era
suficiente, seguraram-me pelos braços e o padre Révérony os ajudou a
levantar-me, pois ainda estava com as mãos juntas, apoiadas nos
joelhos de Leão XIII, e foi pela força que me arrancaram dos seus pés…
No momento em que estava sendo retirada, o Santo Padre colocou sua
mão nos meus lábios e levantou-a para me benzer. Então, meus olhos
encheram-se de lágrimas e o padre Révérony pôde contemplar, pelo
menos, tantos diamantes como tinha visto em Bayeux… Os dois
guardas carregaram-me, pode-se dizer, até a porta e um terceiro me
deu uma medalha de Leão XIII. Celina, que me seguia e havia sido
testemunha da cena que acabava de acontecer, quase tão emocionada
quanto eu, ainda teve a coragem de pedir ao Santo Padre uma bênção
para o Carmelo. O padre Révérony, com voz descontente, respondeu:
“O Carmelo já foi abençoado”. O bondoso Santo Padre confirmou com
doçura: “Oh, sim! já foi abençoado”. Antes de nós, papai viera aos pés
de Leão XIII, com os homens. O padre Révérony foi gentil com ele,
apresentando-o como pai de duas carmelitas. Como sinal de
benevolência, o Soberano Pontífice pôs a mão sobre a cabeça venerável
do meu Rei querido, parecendo marcá-la com um selo misterioso, em
nome Daquele de quem é o verdadeiro representante… Ah! agora que
esse Pai de quatro carmelitas está no Céu, não é mais a mão do
pontífice que repousa sobre sua fronte, profetizando-lhe o martírio… É a
mão do Esposo das Virgens, do Rei de Glória, que faz resplandecer a
cabeça de seu Fiel Servo. E, mais do que nunca, essa mão adorada não
deixará de repousar na fronte que tem glorificado…
Meu papai querido ficou muito triste ao me encontrar chorando à saída
da audiência, fez tudo o que pôde para me consolar. Mas foi inútil… No
fundo do coração, sentia grande paz, pois tinha feito tudo o que me era
possível fazer para responder ao que Deus queria de mim; mas essa paz
estava no fundo e a amargura enchia minha alma, pois Jesus ficava
calado. Parecia-me ausente, nada revelava a presença Dele… Ainda
naquele dia, o sol não brilhou e o belo céu azul da Itália, carregado de
nuvens escuras, não parou de chorar comigo… Ah! para mim, a viagem
tinha acabado. Não comportava mais encantos, pois a finalidade não
fora alcançada. Todavia, as últimas palavras do Santo Padre deveriam
ter-me consolado: não eram, de fato, verdadeira profecia? Apesar de
todos os obstáculos, o que Deus quis cumpriu-se. Não permitiu que as
criaturas fizessem o que queriam, mas a vontade Dele… Havia algum
tempo oferecera-me ao Menino Jesus para ser seu brinquedinho. Tinhalhe
dito para não me usar como brinquedo caro que as crianças só
podem olhar sem ousar tocar, mas como uma bola sem valor que podia
jogar no chão, dar pontapés, furar, largar num cantinho ou apertar
contra seu coração conforme achasse melhor; numa palavra, queria
divertir o Menino Jesus, agradar-lhe, queria entregar-me a suas manhas
de criança… Ele aceitou minha oferta…
Em Roma, Jesus furou seu brinquedinho. Queria ver o que havia dentro
e, depois de ver, contente com sua descoberta, deixou cair sua pequena
bola e adormeceu… Que fez durante o sono e que foi feito da bola
deixada de lado?… Jesus sonhou que continuava brincando com sua
bola, deixando-a e retomando-a, e que, depois de deixá-la rolar muito
longe, a apertou no seu coração, não permitindo mais que se afastasse
de sua mãozinha…
Compreendeis, querida Madre, quanto a pequena bola ficou triste ao
ver-se largada… Mas eu não deixava de esperar contra toda a
esperança. Alguns dias após a audiência com o Santo Padre, papai foi
visitar o bom irmão Simião e lá encontrou o padre Révérony, que se
mostrou muito amável. Papai censurou-o, brincando, por não me ter
ajudado no meu difícil empreendimento e contou a história da sua
Rainha ao irmão Simião. O venerável ancião escutou o relato com muito
interesse, tomou notas até, e disse com emoção: “Isso não se vê na
Itália!” Creio que essa entrevista causou muito boa impressão no padre
Révérony. A partir dela, não deixou mais de me provar estar finalmente
convicto da minha vocação.
No dia seguinte ao dia memorável, tivemos de partir cedo para Nápoles
e Pompéia. Em nossa honra, o Vesúvio fez-se barulhento o dia todo,
trovejando e deixando escapar uma coluna de grossa fumaça. Os
vestígios que deixou sobre as ruínas de Pompéia são apavorantes,
mostram o poder de Deus: “Ele que com um olhar faz tremer a terra, e
a seu toque os montes fumegam…” Teria gostado de andar sozinha no
meio das ruínas, sonhar com a fragilidade das coisas humanas, mas o
número de visitantes tirava grande parte do encanto melancólico da
cidade destruída… Em Nápoles, foi o contrário. O grande número de
carros de dois cavalos tornou magnífico nosso passeio ao mosteiro San
Martino, situado numa alta colina que domina a cidade. Infelizmente, os
cavalos que nos levavam tomavam o freio nos dentes e, mais de uma
vez, pensei ver chegar minha última hora. Embora o cocheiro repetisse
constantemente a palavra mágica dos condutores italianos: “Appipau,
appipau…”, os cavalos queriam derrubar o carro. Enfim, graças à ajuda
dos nossos anjos da guarda, chegamos ao nosso hotel. Durante toda a
viagem fomos alojadas em hotéis principescos, nunca tinha estado
cercada de tanto luxo; vem ao caso dizer que a riqueza não traz a
felicidade. Pois teria sido mais feliz numa choupana, com a esperança do
Carmelo, do que no meio de lambris dourados, escadas de mármore
branco, tapetes de seda, e com amargura no coração… Ah! senti-o
muito bem: a felicidade não está nos objetos que nos cercam, está no
mais íntimo da alma. Pode ser gozada tanto numa prisão como num
palácio; a prova é que sou mais feliz no Carmelo, mesmo no meio de
provações interiores e exteriores, do que no mundo, cercada pelas
comodidades da vida e, sobretudo, pelas doçuras do lar paterno!…
Minha alma estava mergulhada na tristeza mas, por fora, permanecia a
mesma, pois pensava que não se sabia do pedido que eu tinha feito ao
Santo Padre. Logo, porém, constatei o contrário. Tendo ficado no vagão,
a sós com Celina (os outros romeiros tinham descido para um lanche
durante os poucos minutos de parada), vi o padre Legoux, vigário-geral
de Coutances, abrir a portinhola e, olhando-me sorridente, dizer: “Como
vai nossa pequena carmelita?…” Soube então que todas as pessoas da
romaria sabiam do meu segredo. Felizmente, ninguém comentou
comigo, mas vi, pela maneira simpática de me olhar, que meu pedido
não tinha produzido má impressão, pelo contrário… Na pequena cidade
de Assis, tive oportunidade de subir no mesmo carro que o padre
Révérony, favor que não foi concedido a nenhuma senhora durante a
viagem toda. Eis como obtive esse privilégio.
Após ter visitado os lugares perfumados pelas virtudes de são Francisco
e de santa Clara, terminamos pelo mosteiro de santa lnês, irmã de
santa Clara. Tinha contemplado à vontade a cabeça da santa quando,
uma das últimas a me retirar, percebi ter perdido meu cinto. Procurei-o
no meio do povo, um padre teve pena de mim e me ajudou. Mas, depois
de lê-lo achado, vi-o afastar-se e fiquei sozinha procurando, pois
embora tivesse encontrado o cinto não podia colocá-lo, porque faltava a
fivela… Enfim, vi-a brilhar num canto; não demorei em ajustá-la à fita.
Mas o trabalho anterior havia demorado mais e percebi estar sozinha ao
lado da igreja, todos os carros tinham ido embora, exceto o do padre
Révérony. Que fazer? Devia correr atrás dos carros que não via mais,
arriscar-me a perder o trem e colocar meu papai querido na inquietação,
ou pedir carona na caleça do padre Révérony? Optei pela última solução.
Com a cara mais graciosa e menos constrangida possível, apesar do
meu extremo embaraço, expus-lhe. minha situação crítica e o coloquei,
por sua vez, em situação difícil, pois seu carro estava lotado com os
mais distintos senhores da romaria, impossível encontrar um lugar;
porém, um cavalheiro apressou-se em descer, fez-me subir no seu lugar
e colocou-se modestamente perto do cocheiro. Parecia um esquilinho
pego numa armadilha e estava longe de me sentir à vontade, cercada
por todos esses personagens e, sobretudo, do mais temível, diante do
qual assentei-me… Todavia, ele foi muito amável comigo,
interrompendo, de vez em quando, sua conversação com os senhores
para falar-me do Carmelo. Antes de chegar à estação, todos os grandes
personagens sacaram suas grandes carteiras a fim de dar dinheiro ao
cocheiro (já pago). Fiz como eles e tirei minha diminuta carteira, mas o
padre Révérony não me deixou pegar bonitas moedinhas, preferiu dar
uma grande por nós dois.
Numa outra ocasião, encontrei-me ao lado dele num ônibus. Foi ainda
mais amável e prometeu fazer tudo o que pudesse para meu ingresso
no Carmelo… Mesmo com esse bálsamo todo sobre minhas feridas,
esses pequenos encontros não impediram que a volta fosse menos
agradável que a ida, pois não tinha mais a esperança “do Santo Padre”.
Não encontrava ajuda nenhuma na terra, que me parecia ser um
deserto árido e sem água. Toda a minha esperança estava unicamente
em Deus… Acabava de experimentar que é melhor recorrer a Ele que a
seus santos…
A tristeza da minha alma não me impedia de sentir grande interesse
pelos santos lugares que visitávamos. Em Florença, fiquei feliz em
contemplar santa Madalena de Pazzi no meio do coro das carmelitas,
que abriram a grande grade para nós. Como não sabíamos que teríamos
esse privilégio, muitas pessoas desejavam encostar seus terços no
túmulo da santa. Só eu conseguia passar a mão pela grade que nos
separava dele, portanto, todos me traziam seus terços e eu estava
muito contente com meu ofício… Eu precisava sempre encontrar o meio
de mexer em tudo. Assim também na igreja de Santa Cruz de Jerusalém
(em Roma), onde pudemos venerar diversos pedaços da verdadeira
Cruz, dois espinhos e um dos cravos sagrados mantidos num magnífico
relicário em ouro lavrado, mas sem vidro; foi-me possível, ao venerar a
preciosa relíquia, enfiar meu dedinho num dos orifícios do relicário e
tocar o cravo que fora banhado com o sangue de Jesus… Francamente,
era audaciosa demais!… Felizmente, Deus, que vê o fundo dos
corações, sabe que minha intenção era pura e que por nada neste
mundo teria querido desagradar-lhe. Comportava-me com Ele como
uma criança que acredita que tudo lhe é permitido e olha os tesouros de
seu pai como sendo dela. Ainda não consegui entender porque as
mulheres são tão facilmente excomungadas na Itália. A cada instante,
diziam-nos: “Não entrem aqui… Não entrem aí, seriam
excomungadas!…” Ah! pobres mulheres, como são desprezadas!…
Todavia, são muito mais numerosas em amar a Seus e, durante a
Paixão de Nosso Senhor, as mulheres tiveram mais coragem que os
apóstolos, pois enfrentaram os insultos dos soldados e atreveram-se a
enxugar a Face adorável de Jesus… É sem dúvida por isso que Ele
permite que o desprezo seja a herança delas na terra, sendo que Ele o
escolheu para Si mesmo….
No Céu, saberá mostrar que as idéias Dele não se confundem com as
dos homens, pois então as últimas serão as primeiras… Mais de uma
vez, durante a viagem, não tive a paciência de esperar pelo Céu para
ser a primeira… Num dia em que visitávamos um mosteiro de padres
carmelitas, não estando satisfeita em acompanhar os romeiros nos
corredores exteriores, adentrei os claustros internos… De repente, vi
um bom velho carmelita que me fazia sinal, de longe, para me afastar.
Em vez de voltar, aproximei-me dele mostrando os quadros do claustro
e dizendo, por sinal, que eram bonitos. Ele percebeu, sem dúvida pelos
meus cabelos soltos e meu ar jovem, que eu não passava de uma
criança; sorriu-me com bondade e se afastou, ciente de que não tinha
enfrentado uma inimiga. Se eu soubesse falar italiano, ter-lhe-ia dito ser
uma futura carmelita, mas por causa dos construtores da torre de Babel
isso não foi possível.
Depois de ter visitado Pisa e Gênova, voltamos à França. No percurso, a
vista era magnífica. Às vezes, íamos pela beira-mar e a ferrovia passava
tão perto que dava a impressão de que as ondas iam nos alcançar. Esse
espetáculo foi causado por uma tempestade. Era noite, o que tornava a
cena ainda mais imponente. Outras vezes, planícies cobertas de
laranjais com frutas maduras, verdes oliveiras com folhagem leve,
palmeiras graciosas… no fim da tarde, víamos numerosos pequenos
portos marítimos iluminar-se com milhares de luzes, enquanto no Céu
brilhavam as primeiras estrelas… Ah! que poesia enchia minha alma
vendo todas essas coisas pela primeira e última vez na minha vida!…
Era sem pena que as via esvair-se, meu coração aspirava a outras
maravilhas. Ele tinha contemplado suficientemente as belezas da terra,
as do Céu eram objeto dos seus desejos e para dá-las às almas queria
tornar-me prisioneira!… Antes de ver abrir-se diante de mim as portas
da prisão abençoada com a qual sonhava, precisava lutar e sofrer ainda
mais… sentia-o ao voltar à França. Todavia, minha confiança era tão
grande que não cessava de esperar que me seria permitido ingressar
em 25 de dezembro… De volta a Lisieux, nossa primeira visita foi ao
Carmelo. Que reencontro aquele!… Tínhamos tantas coisas para nos
contar após um mês de separação, mês que me pareceu mais longo e
durante o qual aprendi mais que durante muitos anos…
Oh, Madre querida! como foi doce para mim vos rever, abrir-vos minha
pobre pequena alma ferida. A vós que tão bem sabíeis me compreender,
a quem uma palavra, um olhar bastava para adivinhar tudo! Abandoneime
completamente, tinha feito tudo o que dependia de mim, tudo, até
falar com o Santo Padre. Não sabia mais o que tinha de fazer.
Dissestes-me para escrever a Sua Excelência e lembrar-lhe sua
promessa; eu o fiz logo, o melhor que me foi possível, mas em termos
que meu tio achou simples demais. Ele refez minha carta. No momento
em que ia enviá-la, recebi uma de vós, dizendo-me para não escrever,
para esperar alguns dias. Obedeci logo, pois estava certa de que era o
melhor meio de não errar. Enfim, dez dias antes do Natal, minha carta
partiu. Convicta de que a resposta não demoraria, ia todas as manhãs,
depois da missa, com papai à agência dos correios, acreditando
encontrar aí a permissão para levantar vôo. Cada manhã trazia nova
decepção que, porém, não abalava minha fé… Pedia a Jesus para
romper meus laços. Ele os rompeu, mas de maneira totalmente
diferente do que esperava… A bela festa de Natal chegou e Jesus não
acordou… Deixou no chão sua pequena bola sem ao menos olhar para
ela…
Foi de coração partido que assisti à missa do galo; esperava tanto
assistir atrás das grades do Carmelo!… Essa provação foi muito grande
para minha fé… Mas Aquele cujo coração vigia durante o sono fez-me
compreender que, para quem tem fé do tamanho de um grão de
mostarda, Ele opera milagres e transporta as montanhas para firmar
essa pequena fé, mas para seus íntimos, para sua Mãe, não opera
milagres antes de provar sua fé. Não deixou Lázaro morrer, embora
Marta e Maria o tivessem avisado que ele estava doente?… Nas bodas
de Caná, quando Nossa Senhora lhe pediu para socorrer os anfitriões,
não respondeu que sua hora não tinha chegado?… Mas, depois da
provação, que recompensa: a água se transforma em vinho… Lázaro
ressuscita… É assim que Jesus age com sua Teresinha; depois de a pôr
à prova durante muito tempo, satisfez todos os desejos do seu
coração…
Na tarde da radiosa festa que passei chorando, fui visitar as carmelitas;
foi grande a surpresa quando, ao abrir-se a grade, vi um lindo menino
Jesus segurando nas mãos uma bola com meu nome escrito nela. No
lugar de Jesus, pequeno demais para poder falar, as carmelitas
cantaram para mim um cântico composto pela minha querida Madre.
Cada palavra derramava em minha alma um doce consolo. Nunca me
esquecerei dessa delicadeza do coração materno que sempre me
cumulou das mais finas ternuras… Após ter agradecido no meio de
doces lágrimas, relatei a surpresa que minha Celina querida me fizera
ao voltar da missa do galo. Encontrei no meu quarto, dentro de uma
bela bacia, um barquinho carregando o menino Jesus dormindo com
uma pequena bola ao lado Dele. Na vela branca, Celina escrevera as
seguintes palavras: “Durmo, mas meu coração vela”, e, sobre o
barquinho, apenas essa palavra: “Abandono!” Ah! se Jesus ainda não
falava com sua noivinha, se seus divinos olhos continuavam sempre
fechados, pelo menos Ele se revelava a ela por meio de almas que
compreendiam todas as delicadezas e o amor do seu coração…
No primeiro dia do ano de 1888, Jesus ainda me presenteou com sua
cruz, mas dessa vez carreguei-a sozinha, pois era tanto mais dolorosa
quanto incompreendida… Uma carta de Paulina veio me informar que a
resposta de Sua Excelência tinha chegado dia 28, festa dos santos
Inocentes, mas que não a comunicou para mim por ter decidido que
meu ingresso só se daria depois da quaresma. Não pude segurar as
lágrimas com a idéia de tão longa espera. Essa provação teve para mim
um caráter muito peculiar: via meus laços com o mundo rompidos e a
arca santa recusando a entrada para sua pobre pombinha… Quero
acreditar que devo ter parecido manhosa por não aceitar alegremente
meus três meses de exílio, mas creio também que, sem deixar
transparecer, essa provação foi muito grande e me fez crescer muito no
abandono e nas outras virtudes.
Como passaram esses três meses tão ricos de graças para minha
alma?… Primeiro, ocorreu-me a idéia de não me constranger a levar
uma vida tão bem regrada como de costume; mas logo compreendi o
valor do tempo que me estava sendo oferecido e resolvi entregar-me,
mais do que nunca, a uma vida séria e mortificada. Quando digo
mortificada, não é para fazer crer que eu fazia penitências, ai! nunca fiz,
longe de parecer com as belas almas que desde a infância praticavam
toda espécie de mortificações, não sentia atrações por elas. Sem dúvida,
isto decorria da minha covardia, pois podia, com Celina, encontrar mil
pequenas invenções para me fazer sofrer; em vez disso, sempre me
deixei mimar e cevar como um passarinho que não precisa fazer
penitência… Minhas mortificações consistiam em refrear minha vontade,
sempre prestes a se impor, em reprimir uma palavra de réplica, em
prestar pequenos serviços sem retribuição, em não me encostar quando
sentada etc. etc… Foi pela prática desses nadas que me preparei para
ser a noiva de Jesus e não posso dizer o quanto essa espera deixou em
mim doces lembranças… Três meses passam muito depressa e, enfim,
chegou o momento tão desejado.
Escolheu-se para meu ingresso a segunda-feira, 9 de abril, dia em que o
Carmelo celebrava a festa da Anunciação, adiada por causa da
quaresma. Na véspera, a família toda reuniu-se em volta da mesa a que
me sentava pela última vez. Ah! como são dilacerantes essas reuniões
íntimas!… quando o que se quer é ser esquecido, prodigalizam-se
carícias, e as mais carinhosas palavras fazem sentir o sacrifício da
separação… Meu Rei querido quase não falava, mas seu olhar fixava-se
em mim com amor… Minha tia chorava de vez em quando e meu tio
fazia-me mil elogios afetuosos. Joana e Maria também se esmeravam
em delicadezas, sobretudo Maria, que puxando-me à parte, me pediu
mil perdões pelas penas que pensava ter-me causado. Enfim, minha
querida Leoninha, de volta da Visitação havia alguns meses, enchia-me
de beijos e carícias. Só de Celina eu não falei, mas adivinhais, querida
Madre, corno se passou a última noite em que dormimos juntas… Na
manhã do grande dia, depois de lançar um último olhar aos
Buissonnets, ninho gracioso da rainha infância que não devia nunca
mais rever, parti de braços dados com meu Rei querido para subir a
montanha do Carmelo… Como na véspera, a família toda se reuniu para
assistir à missa e comungar. Logo após Jesus ter descido ao coração dos
meus familiares queridos, só ouvi soluços ao meu redor. Só eu não
chorava, mas senti meu coração bater com tanta violência que me
pareceu impossível andar quando nos fizeram sinal para chegar até a
porta do convento. Andei, embora me perguntando se não ia morrer
devido à força das batidas do meu coração… Ah! que momento aquele.
É preciso tê-lo vivido para saber como é…
Minha emoção não se expressava externamente. Depois de ter abraçado
todos os membros da minha querida família, pus-me de joelhos diante
do meu incomparável pai e pedi-lhe a bênção. Ele mesmo ajoelhou-se e
me abençoou chorando… Era um espetáculo de fazer os anjos sorrir,
esse de um ancião apresentando ao Senhor sua criança ainda na
primavera da vida!… Alguns momentos depois, as portas da arca
sagrada fechavam-se sobre mim e passava a receber os abraços das
irmãs queridas que me haviam servido de mães e que ia, doravante,
tomar por modelo das minhas ações… Enfim, meus desejos estavam
realizados, minha alma gozava de uma PAZ tão suave e tão profunda
que me seria impossível expressar e, há sete anos e meio, essa paz
íntima continuou sendo meu quinhão. Não me abandonou em meio às
maiores provações.
Como todas as postulantes, fui levada ao coro logo após minha entrada;
estava escuro, por causa do Santíssimo exposto, e o que chamou minha
atenção foram os olhos da nossa santa Madre Genoveva, que se fixaram
sobre mim. Fiquei algum tempo de joelhos a seus pés, agradecendo a
Deus pela graça que me concedia de conhecer uma santa, e acompanhei
nossa Madre Maria de Gonzaga aos diversos recintos do convento. Tudo
me parecia bonito, tinha impressão de ter sido transportada para o
deserto. Nossa pequena cela me encantava especialmente, mas a
alegria que sentia era calma, nem a menor aragem fazia ondular as
águas tranqüilas em que navegava meu barquinho, nenhuma nuvem
escurecia meu céu azul… ah! estava plenamente recompensada por
todas as minhas provações… Com que alegria profunda repetia estas
palavras: “É para sempre, sempre, que estou aqui!…”
Não era uma felicidade efêmera; não iria embora com as ilusões dos
primeiros dias. Deus concedeu-me a graça de não ter ilusões, NENHUMA
ilusão ao entrar para o Carmelo. Encontrei a vida religiosa tal como a
imaginara, nenhum sacrifício me surpreendeu e, contudo, vós sabeis,
Madre querida, meus primeiros passos encontraram mais espinhos do
que rosas!… Sim, o sofrimento estendeu-me os braços e atirei-me a ele
com amor… O que eu vinha fazer no Carmelo, declarei-o aos pés de
Jesus-Hóstia, no exame que antecedeu minha profissão: “Vim para
salvar as almas e sobretudo, rezar elos sacerdotes”. Quando se quer
atingir um fim, é preciso tomar os meios, Jesus fez-me compreender
que era pela cruz que queria me dar almas e minha atração pelo
sofrimento crescia na medida em que o sofrimento aumentava. Durante
cinco anos, esse caminho foi o meu mas, por fora, nada exteriorizava
meu sofrimento, mais doloroso por ser eu a única a saber dele. Ah!
quantas surpresas teremos no juízo final, quando conhecermos a
história das almas!… haverá pessoas surpresas ao conhecer a via pela
qual fui conduzida!…
Isso é tão verdadeiro que, dois meses após meu ingresso, estando aqui
para a profissão de Irmã Maria do Sagrado Coração, o padre Pichon
ficou espantado ao constatar o que Deus operava em minha alma e
disse-me que, na véspera, tendo-me observado rezando no coro,
pensou ser meu fervor totalmente infantil e meu caminho muito manso.
Minha entrevista com o bom padre foi para mim um grande consolo,
mas coberto de lágrimas diante da dificuldade que sentia em abrir
minha alma. Fiz, porém, uma confissão geral tal como nunca tinha feito;
no final, o padre me disse as mais consoladoras palavras que já
ressoaram aos ouvidos da minha alma: “Na presença de Deus, da
Santíssima Virgem e de todos os santos, declaro nunca terdes cometido
um único pecado mortal”. E acrescentou: deis graças a Deus pelo que
Ele faz por vós, pois se Ele vos abandonasse, em vez de serdes um
anjinho, seríeis um diabinho. Ah! não tinha dificuldade em acreditar,
sentia o quanto era fraca e imperfeita, mas a gratidão enchia minha
alma. Tinha tanto receio de ter maculado meu vestido de batismo, que
tal certidão, oriunda da boca de um diretor conforme os desejos de
Nossa Santa Madre Teresa, isto é, que une ciência e virtude, parecia-me
ter saído da própria boca de Jesus… O bom padre disse-me ainda essas
palavras que se gravaram em meu coração: “Minha filha, que Nosso
Senhor seja sempre vosso Superior e vosso Mestre de noviças”. De fato
o foi, e foi também “meu diretor”. Não quero dizer com isso que minha
alma estivesse fechada para minhas superioras, ah! longe disso, sempre
procurei fazer dela um livro aberto; mas nossa Madre, freqüentemente
doente, tinha pouco tempo para cuidar de mim. Sei que me amava
muito e dizia de mim todo o bem possível, todavia Deus permitia que, à
sua revelia, ela fosse SEVERÍSSIMA; não podia encontrá-la sem beijar a
terra, era a mesma coisa por ocasião das escassas direções espirituais
que eu tinha com ela… Que graça inestimável!… Como Deus agia
visivelmenle naquela que o substituía!… Que teria sido de mim se, como
pensavam as pessoas de fora, tivesse sido “o brinquedinho” da
comunidade?… Quiçá, em vez de ver Nosso Senhor em minhas
Superioras, não teria considerado apenas as pessoas e meu coração, tão
bem preservado no mundo, ter-se-ia ligado humanamente no claustro…
Felizmente, fui protegida contra essa desgraça. Sem dúvida, gostava
muito da nossa Madre, mas de um afeto puro que me elevava para o
Esposo da minha alma…
Nossa mestra era uma verdadeira santa, o tipo acabado das primeiras
carmelitas. Eu ficava com ela o dia todo, pois ensinava-me a trabalhar.
Sua bondade para comigo era sem limites e, todavia, minha alma não
se dilatava… Só com esforço eu conseguia fazer direção espiritual, não
estando habituada a falar da minha alma não sabia expressar o que se
passava. Uma boa velha madre compreendeu o que ocorria comigo e
disse-me, rindo, num recreio: “Filhinha, creio que não tendes muita
coisa a dizer às vossas superioras”. “Por que, Madre, dizeis isso?…”
“Porque vossa alma é extremamente simples”, mas quando estiverdes
perfeita sereis ainda mais simples, mais nos aproximamos de Deus,
mais simples ficamos”. A boa Madre estava com a razão, porém, a
dificuldade que sentia para abrir minha alma, embora viesse da minha
simplicidade, era uma verdadeira provação. Reconheço-o agora, pois,
sem deixar de ser simples, exprimo meus pensamentos com muito
maior facilidade.
Disse que Jesus fora “meu Diretor”. Ao ingressar no Carmelo, conheci
aquele que devia servir-me de diretor, mas apenas me admitira como
sua filha partiu para o exílio… Portanto, só o conheci para ficar privada
dele… Reduzida a receber dele uma carta anual pelas doze que lhe
escrevia, meu coração dirigiu-se logo para o diretor dos diretores e foi
Ele quem me instruiu dessa ciência que esconde dos sábios e dos
pedantes e revela aos menores…
A florzinha transplantada sobre a montanha do Carmelo ia desabrochar
à sombra da Cruz; as lágrimas, o sangue de Jesus foram seu orvalho.
Seu sol foi a Face Adorável coberta de lágrimas… Até então, não tinha
imaginado a imensidade dos tesouros escondidos na Sagrada Face. Foi
por vosso intermédio, querida Madre, que aprendi a conhecê-los, assim
como, em outro momento, precedeu a todas nós no Carmelo, da mesma
forma sondastes primeiro os mistérios de amor escondidos no Rosto do
nosso Esposo. Chamastes-me então e compreendi… Compreendi em
que consiste a verdadeira glória. Aquele cujo reino não é deste mundo
ensinou-me que a verdadeira sabedoria consiste em “querer ser
ignorado e tido por nada, em colocar sua alegria no desprezo de si
mesmo…” Ah! como o de Jesus, queria que: “Meu rosto fosse
verdadeiramente escondido, que ninguém me reconhecesse nesta
terra”. Tinha sede de sofrer e ser esquecida…
Como é misteriosa a via pela qual Deus sempre me conduziu, nunca me
fez desejar alguma coisa sem dá-lo a mim, por isso seu amargo cálice
me pareceu delicioso…
Depois das lindas festas de maio, da profissão e tomada do véu da
nossa querida Maria, a mais velha da família que a mais jovem teve a
felicidade de coroar no dia das suas bodas, era necessário que a
provação viesse nos visitar… No ano anterior, no mês de maio, papai
fora vítima de um ataque de paralisia nas pernas; nossa inquietação foi
grande então, mas o temperamento forte do meu Rei querido superou
logo o mal, e nossos temores sumiram. Porém, mais de uma vez
durante a viagem a Roma, reparamos que ele se cansava facilmente,
que não estava tão alegre quanto de costume… O que eu mais reparei
eram os progressos que ele fazia rio aperfeiçoamento; a exemplo de são
Francisco de Sales, chegara a dominar a própria vivacidade natural até
parecer possuir a mais doce natureza do mundo… As coisas da terra
pareciam tocá-lo de leve apenas, vencia facilmente as contrariedades
desta vida, enfim, Deus o inundava de consolações. Durante suas visitas
diárias ao Santíssimo, seus olhos enchiam-se freqüentemente de
lágrimas e seu rosto deixava transparecer uma felicidade celeste…
Quando Leônia saiu da Visitação, não se perturbou, não reclamou junto
a Deus por não ter atendido às orações que tinha feito para obter a
vocação da querida filha. Foi até com certa alegria que foi buscá-la…
Eis a fé com que papai aceitou a separação da sua rainhazinha;
anunciou a seus amigos de Alençon: “Caros Amigos, Teresa, minha
rainhazinha, ingressou ontem no Carmelo!… Só Deus para exigir tal
sacrifício… Não lastimeis por mim, pois meu coração exulta de alegria”.
Chegara o momento de um tão bom e fiel servo receber o prêmio das
suas obras, era justo que seu salário se assemelhasse ao que Deus dera
ao Rei do Céu, seu Filho único… Papai acabava de oferecer um Altar a
Deus e foi ele a vítima escolhida para ser imolada com o Cordeiro
imaculado. Conheceis, Madre querida, nossas amarguras de junho e,
sobretudo, do 24 do ano de 1888, essas lembranças estão tão bem
gravadas no fundo dos nossos corações que não é necessário escrevê-
las… Oh, Madre! quanto sofremos!… e ainda era apenas o começo da
nossa provação… Todavia, o tempo da minha tomada do hábito havia
chegado; fui recebida pelo Capítulo, mas como pensar numa cerimônia?
Já se falava de me dar o santo hábito sem fazer-me sair, quando se
decidiu esperar. Contra qualquer esperança, nosso pai querido
restabeleceu-se uma segunda vez e Sua Excelência marcou a cerimônia
para 10 de janeiro. A espera havia sido longa, mas que bela festa!…
Nada faltava, nada, nem a neve… Não sei se já vos falei do meu amor
pela neve… Quando pequenina, sua brancura me encantava; um dos
meus maiores prazeres consistia em andar sob os flocos de neve caindo.
De onde me vinha esse gosto pela neve?… Talvez por ser uma florzinha
de inverno, o primeiro adorno da natureza que meus olhos de criança
viram tenha sido seu manto branco… Enfim, sempre sonhara com que
no dia da minha tomada de hábito a natureza se vestisse como eu, de
branco. Na véspera desse belo dia, olhava tristemente o céu cinzento de
onde caía de tempo em tempo um chuva fina, e a temperatura era tão
alta que não esperava neve. Na manhã seguinte, o céu não havia
mudado, mas a festa foi encantadora e a flor mais bela, a mais
encantadora, era meu Rei querido, nunca estivera tão bonito, mais
digno… Foi admirado por todos. Esse dia foi seu triunfo, sua última festa
na terra. Havia dado todas as suas filhas a Deus, pois quando Celina lhe
comunicou sua vocação chorou de alegria e foi com ela agradecer
Àquele que “lhe dava a honra de tomar todas as suas filhas”.
No final da cerimônia, Sua Excelência entoou o Te Deum. Um sacerdote
tentou lembrar-lhe que esse cântico só se canta nas profissões, mas a
partida fora dada e o hino de ação de graças prosseguiu até o final. Não
devia a festa ser completa, pois reunia todas as outras?… Depois de ter
beijado urna última vez meu Rei querido, voltei para a clausura. A
primeira coisa que vi foi “meu pequeno Jesus cor-de-rosa” sorrindo-me
no meio das flores e das luzes e logo vi os flocos de neve… o pátio
estava branco como eu. Que delicadeza de Jesus! Antecipando-se aos
desejos da sua noiva, mandava-lhe neve… Neve! que mortal, por mais
poderoso que seja, é capaz de fazer cair neve do céu para encantar sua
amada?… Talvez as pessoas do mundo se perguntem isso, mas o certo
é que a neve da minha tomada de hábito pareceu ser um pequeno
milagre e toda a cidade ficou surpresa. Achou-se que eu tinha um gosto
esquisito, gostar da neve… Tanto melhor, isso acentuou ainda mais a
incompreensível condescendência do Esposo das virgens… Daquele que
gosta dos Lírios brancos como a NEVE!… Sua Excelência entrou depois
da cerimônia, e foi de uma bondade muito paterna para comigo. Creio
que ele estava satisfeito em ver que eu tinha conseguido; dizia a todos
que eu era “sua filhinha”. Todas as vezes que voltou, depois, foi sempre
muito bom comigo; recordo-me especialmente de sua visita por ocasião
do centenário de N. P. são João da Cruz. Pegou minha cabeça em suas
mãos, fez-me mil carícias de todas as espécies, nunca eu tinha sido tão
honrada! enquanto isso, Deus fazia-me pensar nas carícias que me
prodigalizará diante dos anjos e dos santos e das quais me dava uma
fraca imagem desde então; por isso, a consolação que senti foi muito
grande.
Como acabo de dizer, 10 de janeiro foi o triunfo para meu Rei. Comparo
esse dia ao da entrada de Jesus em Jerusalém no dia dos Ramos. Como
a do Nosso Divino Mestre, a glória dele foi de um dia e seguida por uma
paixão dolorosa. Mas essa paixão não foi só dele; assim como as dores
de Jesus traspassaram como um punhal o coração da sua divina Mãe,
também os nossos corações sentiram os sofrimentos daquele a quem
queríamos com a maior ternura nesta terra… Recordo que no mês de
junho de 1888, quando das primeiras provações, eu dizia: “Sofro muito,
mas sinto que posso suportar provações ainda maiores”. Não pensava
então naquelas que me estavam reservadas… Não sabia que em 12 de
fevereiro, um mês depois da minha tomada de hábito, nosso Pai querido
beberia na mais amarga e mais humilhante de todas as taças…
Ah! naquele dia eu não disse que podia sofrer ainda mais!!!… As
palavras não conseguem expressar nossas angústias, por isso não vou
procurar descrevê-las. Um dia, no Céu, gostaremos de nos recordar das
nossas gloriosas provações. Não estamos felizes, no presente momento,
por tê-las sofrido?… Sim, os três anos do martírio de Papai pareceramme
os mais amáveis, os mais rendosos de toda a nossa vida, não os
doaria em troca de todos os êxtases e revelações dos santos. Meu
coração transborda de gratidão ao pensar nesse tesouro inestimável que
deve causar santa inveja aos anjos da Corte celeste…
Meu desejo de sofrimento estava repleto, mas minha atração por ele
não diminuía, por isso minha alma compartilhou logo do sofrimento do
meu coração. A aridez passou a ser meu pão de cada dia; privada de
qualquer consolação, não deixava de ser a mais feliz das criaturas,
sendo que todos os meus desejos estavam satisfeitos…
Oh, Madre querida! como foi doce a nossa grande provação, sendo que
do coração de todas nós só saíram suspiros de amor e de gratidão!…
Não mais andávamos nas sendas da perfeição, voávamos, as cinco. As
duas pobres pequenas exiladas de Caen, embora estivessem ainda no
mundo, não eram mais do mundo… Ah! que maravilhas a provação
operou na alma da minha Celina querida!… Todas as cartas que
escreveu na época têm o selo da resignação e do amor… E quem
poderia relatar as conversações que tínhamos?… Ah! longe de nos
separar, as grades do Carmelo uniam mais fortemente nossas almas,
tínhamos os mesmos pensamentos, os mesmos desejos, o mesmo amor
de Jesus e das almas… Quando Celina e Teresa falavam uma com a
outra, nunca uma palavra das coisas da terra entrava na conversação,
que já era do Céu. Como outrora no mirante, elas sonhavam com as
coisas da eternidade, e para gozar logo dessa felicidade sem fim
escolhiam, na terra, por única partilha “o sofrimento e o desprezo”.
Assim decorreu o tempo do meu noivado… foi muito demorado para a
pobre Teresinha! No final do meu ano, nossa Madre disse-me para não
sonhar com a profissão, que certamente o padre superior recusaria meu
pedido. Fui obrigada a esperar mais oito meses… Naquele momento,
foi-me muito difícil aceitar esse grande sacrifício, mas logo fez-se luz em
minha alma. Meditava então “os fundamentos da vida espiritual” do
padre Surin. Um dia, durante a oração, compreendi que meu tão vivo
desejo de fazer profissão estava mesclado de um grande amor-próprio;
sendo que me dera a Jesus para agradar a Ele, consolá-lo, não devia
obrigá-lo a fazer minha vontade de preferência à Dele, compreendi
também que uma noiva devia estar preparada para o dia do enlace, e
eu nada tinha feito para isso… disse então a Jesus: “Oh, meu Deus! não
peço para fazer os santos votos, esperarei o tempo que Vós quiserdes,
só não quero que, por culpa minha, nossa união seja adiada, mas vou
fazer o maior esforço para confeccionar para mim um vestido bonito,
enriquecido de pedras. Quando Vós o achardes bastante bonito, estou
certa de que nenhuma criatura Vos impedirá de descerdes a mim, a fim
de me unir para sempre a Vós, ó meu amado!…”
Desde minha tomada de hábito, eu recebera luz abundante a respeito
da perfeição religiosa, principalmente do voto de pobreza. Durante meu
postulado, gostava de possuir coisas boas para meu uso e de encontrar
à mão tudo o que me era necessário. “Meu Diretor” tolerava isso com
paciência, pois Ele não gosta de revelar tudo ao mesmo tempo às
almas. Geralmente, dá sua luz pouco a pouco. No início da minha vida
espiritual, pelos 13 ou 14 anos, perguntava a mim mesma o que eu
aprenderia mais tarde, pois parecia-me impossível entender melhor a
perfeição. Não demorei em compreender que mais se avança nesse
caminho, mais se acredita estar afastado da meta; agora, resigno-me
em ser sempre imperfeita e fico contente… . Volto às lições que “meu
Diretor” me deu. Uma noite, depois das Completas, procurei em vão
nossa lampadinha sobre as tábuas reservadas para esse uso, era
silêncio total, impossível perguntar… entendi que uma irmã, acreditando
ter pegado sua lâmpada, pegou a nossa, da qual eu estava muito
necessitada; em vez de desgostar-me, fiquei feliz, sentindo que a
pobreza consiste em se ver privado não só das coisas agradáveis, mas
ainda das indispensáveis. Portanto, no meio das trevas exteriores, fui
iluminada interiormente… Naquela época, empolguei-me pelos mais
feios e mais desajeitados objetos e foi com alegria que vi terem tirado a
moringa bonitinha da nossa cela, substituindo-a por uma grande toda
desbicada… Fazia também muitos esforços para não me desculpar,
sobretudo com a nossa Mestra, a quem não queria ocultar coisa alguma;
eis minha primeira vitória. Não é grande, mas custou-me muito. Um
pequeno vaso colocado atrás de uma janela foi encontrado quebrado.
Pensando que fosse eu quem o largara ali, mostrou-o para mim dizendo
que eu deveria ter mais cuidado. Sem dizer uma só palavra, beijei a
terra e prometi ter mais ordem no futuro. Devido à minha falta de
virtude, essas pequenas práticas custavam-me muito e precisava pensar
que, no juízo final, tudo seria conhecido, pois pensava: quando se
cumpre com sua obrigação, sem se desculpar nunca, ninguém toma
conhecimento; pelo contrário, as imperfeições aparecem logo…
Cultivava sobretudo a prática das pequenas virtudes, não tendo
facilidade para praticar as grandes; gostava de dobrar os mantos
esquecidos pelas irmãs e prestar-lhes todos os pequenos serviços que
podia.
Foi-me dado também o amor pela mortificação, foi grande na medida
em que nada me era permitido para satisfazê-lo… A única pequena
mortificação que eu fazia no mundo, a de não me encostar quando
sentada, foi-me proibida devido à minha tendência a ficar curvada.
Aliás, meu entusiasmo não teria durado muito se me fosse permitido
praticar muitas mortificações… Aquelas que me eram concedidas, sem
eu pedir, tinham por finalidade mortificar meu amor-próprio, o que me
causava um bem maior do que as penitências corporais…
O refeitório onde fui prestar serviço logo após minha tomada de hábito
propiciou-me diversas ocasiões para colocar meu amor-próprio no seu
devido lugar, debaixo dos pés… Verdade é que tinha a grande
consolação de estar no mesmo serviço que vós, Madre querida, de poder
contemplar de perto vossas virtudes; mas essa aproximação era motivo
de sofrimento, não me sentia como outrora, livre para vos dizer tudo;
tinha de observar a regra, não podia abrir para vós a minha alma,
enfim, estava no Carmelo e não nos Buissonnets, no lar paterno!…
Porém, Nossa Senhora ajudava-me a preparar o vestido da minha alma.
Logo que foi terminado, os obstáculos sumiram. Sua Excelência
expediu-me a permissão solicitada, a comunidade aceitou receber-me, e
minha profissão foi marcada para 8 de setembro…
O que acabo de escrever em resumo precisaria de muitas páginas para
os pormenores, mas essas páginas nunca serão lidas na terra. Em
breve, querida Madre, falar-vos-ei de todas essas coisas em nossa casa
paterna, no belo Céu para o qual sobem os suspiros dos nossos
corações!…
Meu vestido de noiva estava pronto; mesmo enriquecido com as antigas
jóias que meu Noivo me havia dado, ainda não era suficiente para sua
generosidade. Queria dar-me um novo brilhante de inúmeros reflexos. A
provação de Papai, com todas as circunstâncias que a cercaram,
constituía as antigas jóias, a nova foi uma provação aparentemente
muito pequena, mas que me fez sofrer muito. Desde algum tempo,
nosso pobre paizinho estava melhor, faziam-no sair de carro, cogitavase
até fazê-lo viajar de trem para vir nos visitar. Naturalmente, Celina
pensou logo no dia da minha tomada de véu. Para não cansá-lo, dizia
ela, não deixarei que assista à cerimônia inteira, só no final irei buscá-lo
e o levarei devagar até a grade para que Teresa receba sua bênção. Ah!
como vejo bem aí o coração da minha Celina querida… como é verdade
que “o amor não vê impossibilidade porque pensa que tudo lhe é
possível e permitido”… A prudência humana, ao contrário, treme a cada
passo e não ousa, por assim dizer, dar um passo. Querendo provar-me,
Deus serviu-se dela como de um instrumento dócil e, no dia das minhas
núpcias, fiquei verdadeiramente órfã, não tendo mais Pai na terra, mas
podendo olhar para o Céu confiante e dizer com toda a verdade: “Pai
Nosso que estais no Céu”.
Antes de falar-vos dessa provação, Madre querida, deveria ter-vos
falado do retiro que antecedeu minha profissão; não me trouxe
consolações, mas a mais absoluta aridez, quase o abandono. Jesus
dormia como sempre no meu barquinho; ah! vejo que raramente as
almas o deixam dormir sossegado nelas. Jesus fica tão cansado de
sempre dar os primeiros passos e pagar as contas, que se apressa em
aproveitar o descanso que eu lhe propicio. Provavelmente não acordará
antes do meu grande retiro de eternidade, mas, em vez de causar-me
tristeza, isso me alegra extremamente…
Verdadeiramente, estou longe de ser santa, só isso o prova bem; em
vez de me regozijar com a minha aridez, deveria atribuí-la a minha falta
de fervor e de fidelidade, deveria ficar aflita por dormir (há sete anos)
durante minhas orações e minhas ações de graças, mas não, não me
aflijo… penso que as criancinhas agradam tanto seus pais quando
dormem como quando estão acordadas, penso que para fazer cirurgias
os médicos adormecem seus pacientes. Enfim, penso que: “O Senhor vê
nossa fragilidade, que Ele não perde de vista que só somos pó”.
Meu retiro de profissão foi, portanto, igual a todos os que fiz depois, um
retiro de grande aridez. Mas Deus mostrava-me, claramente, sem eu o
perceber, o meio de Lhe agradar e de praticar as mais sublimes
virtudes. Notei muitas vezes que Deus não quer dar-me provisões,
alimenta-me a cada momento com alimento novo, encontro-o em mim,
sem saber como chegou… Creio simplesmente que é o próprio Jesus,
oculto no fundo do meu coraçãozinho que me faz a graça de agir em
mim e me leva a pensar tudo o que Ele quer que eu faça no presente
momento.
Alguns dias antes da minha profissão, tive a felicidade de obter a bênção
do Soberano Pontífice; tinha-a solicitado por intermédio do bom irmão
Simião para Papai e para mim. Foi um grande consolo poder propiciar a
meu Paizinho querido a graça que ele me tinha dado levando-me a
Roma.
Enfim, chegou o belo dia das minhas núpcias. Foi sem nuvem, mas na
véspera levantou-se em minha alma uma tempestade como nunca tinha
visto… Nenhuma dúvida quanto à minha vocação tinha surgido antes,
precisava passar por essa provação. De noite, ao fazer minha via-sacra
após matinas, minha vocação apareceu-me como um sonho, uma
quimera… achava a vida do Carmelo muito bonita, mas o
demônio me assegurava que não era para mim, que eu enganaria meus
superiores prosseguindo num caminho que não era para mim… Minhas
trevas eram tão grandes, que não via e só compreendia uma coisa: não
tinha essa vocação!… Ah! como descrever a angústia da minha alma?…
Tinha impressão (coisa absurda que mostra bem que essa tentação
vinha do demônio) de que se falasse dos meus temores para minha
mestra ela me impediria de fazer meus santos votos; mas eu queria
fazer a vontade de Deus e voltar para o mundo de preferência a ficar no
Carmelo fazendo a minha. Fiz minha mestra sair e, cheia de confusão,
contei-lhe o estado da minha alma… Felizmente, ela enxergou melhor
que eu e me tranqüilizou completamente. Aliás, o ato de humildade que
eu tinha feito acabava de afugentar o demônio, que talvez pensasse que
eu não ia ousar confessar a minha tentação; logo que acabei de falar,
minhas dúvidas se foram. Mas, para tornar meu ato de humildade mais
completo, quis confiar minha estranha tentação à nossa Madre, que se
contentou em rir de mim.
Na manhã de 8 de setembro senti-me inundada por um rio de paz e foi
nessa paz, “ultrapassando qualquer sentimento”, que pronunciei meus
santos votos… Minha união com Jesus fez-se, não em meio a trovões e
relâmpagos, isto é, a graças extraordinárias, mas no meio de uma leve
brisa parecida àquela que nosso Pai santo Elias ouviu na montanha…
Quantas graças pedi naquele dia!… Sentia-me verdadeiramente Rainha,
e aproveitei do meu título para liberar cativos, obter favores do meu Rei
para com seus súditos ingratos, enfim, queria libertar todas as almas do
purgatório e converter os pecadores… Rezei muito por minha Madre,
minhas irmãs queridas… pela família toda, mas sobretudo por pneu
paizinho tão provado e tão santo … Ofereci-me a Jesus, a fim de que
cumprisse perfeitamente em mim a sua vontade sem que nunca as
criaturas impusessem obstáculos…
Esse belo dia, à semelhança dos mais tristes, passou, sendo que os mais
radiantes também têm o dia seguinte. Mas foi sem tristeza que depositei
minha coroa aos pés de Nossa Senhora, sentia que o tempo não levaria
embora a minha felicidade… Que festa bonita foi a da Natividade de
Maria para vir a ser a esposa de Jesus! Era a pequena Santíssima
Virgem que apresentava sua pequena flor ao menino Jesus… Naquele
dia, tudo era pequeno, fora as graças e a paz que recebi, fora a alegria
calma que senti de noite ao olhar as estrelas brilharem no firmamento,
pensando que em breve o belo Céu iria se abrir para meus olhos
maravilhados e poderia unir-me a meu Esposo no seio de uma alegria
eterna…
No dia 24, houve a cerimônia da minha tomada de véu. Foi inteiramente
coberta de lágrimas… Papai não estava para abençoar sua rainha… O
padre estava no Canadá… Sua Excelência, que devia vir e almoçar na
casa do meu tio, ficou doente e não veio, enfim, tudo foi tristeza e
amargura… Porém, a paz, sempre a paz encontrava-se no fundo do
cálice … Naquele dia, Jesus permitiu que eu não pudesse segurar as
lágrimas, que não foram compreendidas … de fato, eu tinha suportado
sem chorar provações muito maiores, mas então era ajudada por uma
graça poderosa. No dia 24, pelo contrário, Jesus deixou-me entregue às
minhas próprias forças e mostrei como eram pequenas.
Oito dias depois da minha tomada de véu, houve o casamento de Joana.
Dizer-vos, querida Madre, como seu exemplo me instruiu a respeito das
delicadezas que uma esposa deve prodigalizar ao esposo ser-me-ia
impossível. Escutava ávida tudo o que eu podia aprender, pois não podia
fazer menos por meu Jesus amador” do que Joana por Francis, criatura
sem dúvida muito perfeita, mas criatura!…
Brinquei de compor um convite para compará-lo ao dela. Eis como era:
Convite para o Casamento de irmã Teresa do Menino Jesus e da
Sagrada Face
O Deus todo-poderoso, Criador do
céu e da terra, soberano
Dominador do mundo, e a
Gloriosíssima Virgem Maria,
Rainha da Corte Celeste, têm o
prazer de vos participar o
casamento do seu Augusto Filho
Jesus, Reis dos Reis e Senhor dos
Senhores, com a Senhorita Teresa
Martin, agora Senhora Princesa
dos reinos trazidos em dote pelo
seu divino Esposo, a saber: a
Infância de Jesus e sua Paixão,
sendo seus títulos: do Menino
Jesus e da Sagrada Face.
O senhor Louis Martin, Proprietário e
Dono dos Senhorios do Sofrimento e
da Humilhação, e a Senhora Martin,
Princesa e Dama de Honra da Corte
Celeste, querem vos anunciar o
casamento de sua Filha, Teresa, com
Jesus, o Verbo de Deus, segunda
Pessoa da Adorável Trindade, que, por
obra do Espírito Santo, se fez Homem
e Filho de Maria, a Rainha dos Céus.
Não podendo ter-vos convidado para a bênção nupcial que lhe foi dada
sobre a montanha do Carmelo, em 8 de setembro de 189O (só a corte
celeste foi admitida), estais convidados, porém, a participar da festa que
será dada amanhã, Dia da Eternidade, Dia em que Jesus, Filho de Deus,
virá sobre as nuvens do Céu no esplendor da sua Majestade, a fim de
julgar os Vivos e os Mortos.
Devido à incerteza da hora, sois convidados a permanecer de prontidão
e aguardar.
Agora, Madre querida, o que resta para vos dizer? Ah! pensava ter
concluído, mas nada vos disse ainda da minha felicidade por ter
conhecido nossa Santa Madre Genoveva… É uma graça sem preço essa;
Deus, que me dera tantas graças, ainda quis que eu vivesse com uma
santa, não inimitável, mas uma Santa santificada por virtudes ocultas e
comuns… Mais de uma vez recebi dela grandes consolações, sobretudo
num domingo. Indo, como de costume, fazer-lhe uma pequena visita,
encontrei duas irmãs com Madre Genoveva. Olhei sorrindo para ela e
preparava-me para sair, por não podermos ficar três perto de uma
doente, olhou-me com ar inspirado e me disse: “Aguardai, filhinha, vou
dizer-vos apenas uma palavrinha. Cada vez que vindes, pedistes-me
para vos dar um buquê espiritual, bem, hoje, vou dar-vos o seguinte:
servi a Deus na paz e na alegria, lembrai-vos, boa filha, que nosso Deus
é o Deus da Paz”. Depois de simplesmente agradecer-lhe, saí
emocionada até as lágrimas e, convicta de que Deus lhe revelara o
fundo da minha alma, pois naquele dia eu estava extremamente
provada, quase triste, numa noite tal que não sabia mais se eu era
amada de Deus, mas a alegria e a consolação que sentia, as adivinhais,
querida Madre!…
No domingo seguinte, quis saber que revelação Madre Genoveva tivera,
assegurou-me não ter recebido nenhuma. Então, minha admiração foi
ainda maior, vendo em que eminente grau Jesus vivia nela e a fazia agir
e falar. Ah! essa santidade parece-me a mais verdadeira, a mais santa e
é essa que eu desejo, pois nela não há ilusão …
No dia da minha profissão, consolou-me saber dela que também passara
pela mesma provação que eu antes de fazer seus votos… No momento
das nossas grandes penas, recordai, Madre querida, as consolações que
encontramos junto dela? Enfim, a lembrança de Madre Genoveva deixou
em meu coração uma recordação perfumada… No dia da sua partida
para o Céu, senti-me particularmente emocionada. Era a primeira vez
que eu assistia a uma morte. Verdadeiramente, esse espetáculo era
encantador… Fiquei ao pé da cama da santa moribunda, via
perfeitamente seus mais leves movimentos. Pareceu-me, durante as
duas horas que ali passei, que minha alma deveria ter sentido muito
fervor. Pelo contrário, uma espécie de insensibilidade apoderara-se de
mim. Mas no exato momento do nascimento da nossa Santa Madre
Genoveva no Céu, minha disposição interior mudou. Num piscar de
olhos, senti-me repleta de uma alegria e de um fervor indizíveis, era
como se Madre Genoveva me desse uma parte da felicidade que ela
gozava, pois estou certa de que foi diretamente para o Céu… Durante
sua vida, disse a ela uma vez: “Oh -Madre! não passareis pelo
purgatório!…” “Também espero”, respondeu-me com doçura… Ali!
certamente Deus não ludibriou uma esperança tão cheia de humildade;
todos os favores que recebemos são a prova… Cada irmã se apressou
em pedir alguma relíquia; sabeis, querida Madre, a que tenho a
felicidade de possuir… Durante a agonia de Madre Genoveva, vi uma
lágrima brilhar na sua pálpebra, como um diamante, essa lágrima, a
última de todas aquelas que derramou, não caiu, via-a brilhar ainda no
coro, sem que ninguém pensasse em recolhê-la. Então, peguei um
pequeno pano fino, atrevi-me em me aproximar, de noite, sem ser vista
e para retirar uma relíquia, a última lágrima de uma Santa… Desde
então, sempre a carrego no saquinho onde guardo meus votos.
Não dou importância aos meus sonhos, aliás, tenho poucos significativos
e até me pergunto como é que, pensando em Deus o dia todo, não
penso mais Nele durante meu sono… de costume, sonho com matas,
flores, riachos, o mar e quase sempre vejo lindas criancinhas, pego
borboletas e passarinhos tais como nunca vi. Estais vendo, Madre, que
meus sonhos têm jeito poético, mas estão longe,de ser místicos…
Uma noite, após a morte de Madre Genoveva, tive um mais consolador.
Sonhei que fazia seu testamento, dando a cada irmã uma coisa que lhe
pertencera; quando chegou minha vez, pensava nada receber, pois não
lhe sobrava nada, mas, erguendo-se, disse-me três vezes, num tom
penetrante: “A vós, deixo meu coração”.
Um mês depois da partida da nossa santa Madre, começou uma
epidemia de gripe na comunidade. Só eu e mais duas irmãs ficamos de
pé. Naquela época, eu estava sozinha para cuidar da sacristia, a
primeira encarregada estava gravemente doente. Eu devia preparar os
enterros, abrir as grades do coro durante as missas etc. Naquele
momento, Deus me deu muitas graças de força; pergunto-me agora
como pude fazer tudo o que fiz sem temor, a morte reinava em todo
lugar, as mais doentes eram tratadas pelas que apenas conseguiam se
arrastar. Logo que uma irmã soltava o último suspiro, éramos obrigadas
a deixá-la sozinha. Numa manhã, ao me levantar, tive o pressentimento
de que Irmã Madalena estava morta, o dormitório estava escuro,
ninguém saía das celas. Por fim, decidi-me a entrar na de Irmã
Madalena, cuja porta estava aberta; de fato, vendo-a vestida e deitada
numa enxerga, não tive o menor medo. Vendo que ela não tinha vela,
fui buscar uma e a coroa de rosas.
Na noite da morte da Madre Vice-Priora, eu estava sozinha com a
enfermeira; é impossível imaginar o triste estado da comunidade
naquele momento, só as que estavam de pé podem ter idéia, mas no
meio daquele abandono sentia que Deus velava por nós. As moribundas
passavam sem esforço para a eternidade. Logo depois da morte, uma
expressão de alegria e de paz espalhava-se em seus traços, parecia um
sono repousante. De fato o era, pois após o cenário deste mundo que
passa acordarão para usufruir eternamente das delícias reservadas aos
eleitos…
Durante todo o tempo em que a comunidade foi provada dessa forma,
pude ter a inefável consolação de comungar todos os dias… Ah! como
era bom!… Jesus me mimou muito tempo, mais tempo que suas fiéis
esposas, pois permitiu que me fosse dado sem as outras terem a
felicidade de recebê-Lo. Estava também muito feliz por poder tocar nos
vasos sagrados, por preparar os paninhos destinados a receber Jesus.
Sentia que precisava ser muito fervorosa e lembrava-me com freqüência
esta palavra dirigida a um santo diácono: “Sede santo, vós que levais os
vasos do Senhor”.
Não posso dizer que recebi freqüentes consolações durante minhas
ações de graças; talvez seja o momento em que tenho menos… Acho
isso muito natural, pois ofereci-me a Jesus não como uma pessoa que
deseja receber a visita Dele para a própria consolação mas, pelo
contrário, para o prazer de Quem se dá a mim. Vejo minha alma como
território livre e peço a Nossa Senhora que tire o entulho que poderia
impedi-la de ser livre, depois suplico-lhe que erga uma ampla tenda
digna do Céu, enfeite-a com seus próprios adornos e convido todos os
santos e anjos para vir dar um concerto magnífico”.
Quando Jesus desce ao meu coração, tenho a impressão de que Ele fica
contente por ser tão bem recebido e eu também fico contente… Tudo
isso não impede as distrações e o sono de vir visitar-me. Mas ao
terminar a ação de graças, vendo que a fiz tão mal, tomo a resolução de
passar o resto do dia em ação de graças… Estais vendo, Madre querida,
que estou muito longe de ser levada pelo temor, sempre encontro o
meio de ser feliz e tirar proveito das minhas misérias … Sem dúvida,
isso não desagrada a Jesus, pois parece encorajar-me nessa via. Um
dia, contrariamente a meu hábito, estava um pouco perturbada ao ir
comungar, tinha impressão de que Deus não estava contente comigo e
pensava: “Ah! se hoje eu receber só metade de uma hóstia, vou ficar
muito aflita, vou crer que Jesus vem forçado ao meu coração”.
Aproximo-me… oh felicidade! pela primeira vez na minha vida, vejo o
padre pegar duas hóstias, bem separadas, e dá-Ias a mim!…
Compreendeis minha alegria e as doces lágrimas que derramei vendo
tão grande misericórdia…
No ano seguinte à minha profissão, isto é, dois meses antes da morte de
Madre Genoveva, recebi grandes graças durante o retiro.
Ordinariamente, os retiros pregados são-me mais dolorosos que os que
faço sozinha, mas naquele ano foi diferente. Tinha feito uma novena
preparatória com muito fervor, apesar do sentimento íntimo que me
animava, pois tinha a impressão de que o pregador não saberia
compreender-me, por ser destinado sobretudo aos grandes pecadores,
mas não às almas religiosas. Querendo Deus mostrar-me que só Ele era
o diretor da minha alma, serviu-se justamente desse padre que não foi
apreciado por mim… Tinha então grandes provações interiores de
diversos tipos (até me perguntar, às vezes, se o Céu existe). Sentia-me
disposta a nada dizer sobre minhas disposições interiores, não sabendo
como expressá-las; logo que entrei no confessionário, senti minha alma
dilatar-se. Depois de falar poucas palavras, fui compreendida de modo
maravilhoso e até adivinhada… minha alma parecia um livro no qual o
padre lia melhor do que eu mesma… Lançou-me de velas desfraldadas
nas ondas da confiança e do amor que me atraíam com muita força,
mas nas quais não ousava avançar… Disse-me que minhas faltas não
entristeciam a Deus, que, estando no lugar Dele, me dizia em nome
Dele que estava muito satisfeito comigo…
Oh! como fiquei feliz ao ouvir essas palavras consoladoras!… Nunca
tinha ouvido dizer que as faltas podiam não entristecer a Deus. Essa
segurança encheu-me de alegria, fez-me suportar com paciência o exílio
da vida… No fundo do meu coração, sentia muito bem que era verdade,
pois Deus é mais terno que uma mãe. Vós, Madre querida, não estais
sempre disposta a me perdoar pelas pequenas indelicadezas que vos
faço involuntariamente?… Quantas vezes fiz a doce experiência!…
Nenhuma censura me teria atingido melhor que uma das vossas
carícias. Sou de tal natureza que o temor me faz recuar; com o amor,
não só avanço, mas vôo…
Oh Madre! foi sobretudo a partir do dia abençoado da vossa eleição que
voei nas vias do amor..,. Naquele dia, Paulina passou a ser meu Deus
vivo… pela segunda vez, passou a ser: “Mamãe!…”
Já faz quase três anos que tenho a felicidade de contemplar as
maravilhas que Jesus opera por meio da minha Madre querida… Vejo
que só o sofrimento pode gerar as almas e que, mais do que nunca,
essas sublimes palavras de Jesus me revelam sua profundeza: “Em
verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, lançado na terra, não
morrer, fica só, como é; mas, se morrer, produz abundante fruto”. Que
safra abundante não tendes colhido!… Semeastes nas lágrimas, mas
logo vereis o fruto dos vossos trabalhos, voltareis cheia de alegria
carregando feixes… Oh Madre, entre esses feixes floridos, a florzinha
branca mantém-se oculta, mas no Céu terá voz para cantar a doçura e
as virtudes que vos vê praticar cada dia, na sombra e no silêncio da vida
de exílio… Sim, há três anos compreendi os mistérios até então ocultos
a mim. Deus teve para comigo a mesma misericórdia que teve para com
o rei Salomão: Não quis que eu tivesse um único desejo realizado, não
só meus desejos de perfeição, mas ainda todos aqueles cuja vaidade
compreendia sem a ter experimentado.
Tendo-vos considerado sempre como meu ideal, querida Madre,
desejava ser semelhante a vós em tudo. Vendo-vos executar belas
pinturas e maravilhosas poesias, dizia comigo mesma: “Ah! como seria
feliz em poder pintar, em saber expressar meus pensamentos em versos
e também fazer bem às almas…” Eu não teria desejado pedir esses
dons naturais e meus desejos permaneciam ocultos no fundo do meu
coração. Jesus oculto também nesse pobre coraçãozinho quis mostrar-
lhe que tudo é vaidade e aflição de espírito sob o sol… Para grande
espanto das irmãs, fizeram-me pintar e Deus permitiu que eu soubesse
aproveitar as lições que minha Madre querida me deu… Quis ainda que,
a exemplo dela, eu pudesse compor poesias, peças teatrais que foram
consideradas bonitas… Assim como Salomão, refleti em todas as obras
realizadas por minhas mãos e em todas as fadigas a que me submeti
para levá-las a cabo, e vi que tudo era vaidade e afã de espírito e que
não há proveito algum sob o sol. Percebi também, por EXPERIÊNCIA,
que a felicidade consiste em esconder-se, em ignorar as coisas criadas.
Compreendi que sem o amor todas as obras são nada, mesmo as mais
brilhantes, como ressuscitar os mortos ou converter os povos…
Em vez de me causar mal, levar-me à vaidade, os dons que Deus me
prodigalizou (sem que Lhe tenha pedido) me levam para Ele. Vejo que
só Ele é imutável, que só Ele pode satisfazer meus enormes desejos…
Há ainda outros desejos, de outro tipo, que Jesus se agradou em me
atender, desejos infantis, semelhantes aos da neve da minha tomada de
hábito.
Sabeis, querida Madre, o quanto gosto de flores; fazendo-me prisioneira
aos 15 anos, renunciei para sempre à alegria de correr pelos campos
salpicados dos tesouros da primavera: pois bem! nunca tive tantas
flores antes do meu ingresso no Carmelo… É costume os noivos
oferecerem com freqüência ramalhetes às suas noivas. Jesus não o
esqueceu, mandou-me em profusão centáureas, grandes margaridas,
papoulas etc., todas as flores que mais me agradam. Havia até uma
florzinha chamada nigelo dos trigos, que não havia visto desde nosso
tempo de Lisieux; desejava muito rever essa flor da minha infância, que
eu colhia nos campos de Alençon; foi no Carmelo que veio me sorrir e
mostrar-me que, nas menores como nas maiores coisas, Deus dá o
cêntuplo desde aqui na terra para as almas que deixaram tudo por seu
amor.
Mas o mais íntimo dos meus desejos, o maior de todos, que pensava
nunca ver realizado, era o ingresso da minha querida Celina no mesmo
Carmelo que nós… Esse sonho parecia-me inverossímil; viver sob o
mesmo teto, partilhar das mesmas alegrias e das mesmas penas da
minha companheira de infância, já tinha feito o sacrifício disso, tinha
entregue a Jesus o futuro da minha querida irmã, resolvida a vê-la partir
para o fim do mundo se fosse preciso. A única coisa que eu não podia
aceitar era que não fosse Esposa de Jesus, pois, amando-a tanto quanto
a mim mesma, era-me impossível vê-la entregar o coração a um mortal.
Já sofrera bastante por sabê-la exposta no mundo a perigos que me
haviam sido desconhecidos. Posso dizer que, depois da minha entrada
no Carmelo, meu amor por Celina era tanto de mãe como de irmã… Um
dia em que ela devia ir a uma festa, isso me causou tantos dissabores
que suplicava Deus de impedi-la de dançar e até (contra meu hábito)
derramei torrentes de lágrimas. Jesus me atendeu, não permitiu que
sua noivinha dançasse naquela noite (embora não tivesse qualquer
constrangimento em fazê-lo graciosamente quando necessário). Tendo
sido convidada sem poder recusar, seu par ficou totalmente
impossibilitado de dançar; muito confuso, foi condenado a simplesmente
andar para levá-la a seu lugar e saiu sem reaparecer. Esse caso, único
no gênero, fez aumentar minha confiança e meu amor Naquele que,
pondo seu sinal na minha testa, o tinha também impresso na da minha
querida Celina…
Em 29 de julho do ano passado, rompendo os laços do seu incomparável
servo e chamando-o para a recompensa eterna, rompeu ao mesmo
tempo os que retinham no mundo sua querida noiva. Tinha cumprido
sua primeira missão; encarregada de representar a nós todas junto a
nosso Pai tão ternamente amado. Essa missão, cumpriu-a como um
anjo… e os anjos não ficam na terra depois de cumprida a vontade de
Deus; voltam logo para junto Dele, é para isso que têm asas… Nosso
anjo também sacudiu suas asas brancas, estava disposto a voar muito
longe para encontrar Jesus, mas Jesus o fez voar muito perto…
Contentou-se com a aceitação do grande sacrifício que foi muito
doloroso para Teresinha… Durante dois anos, sua Celina escondera-lhe
um segredo… Ah! como sofreu também!… Enfim, do Céu, meu Rei
querido, que na terra não gostava das lerdezas, apressou-se em ajeitar
as coisas tão confusas da sua Celina e, em 14 de setembro, reunia a
todas nós!…
Num dia em que as dificuldades pareciam insuperáveis, disse a Jesus
durante minha ação de graças: “Sabeis, meu Deus, como desejo saber
se Papai foi direto para o Céu, não vos peço para me falar, mas dai-me
um sinal. Se minha Irmã A. de J. consentir na entrada de Celina ou não
opuser obstáculo, essa será a resposta de que Papai foi direto para
junto de vós”. Essa irmã, como o sabeis, querida Madre, achava que já
era demais três de nós e, conseqüentemente, não queria mais uma. Mas
Deus, que segura em sua mão o coração das criaturas e o dirige como
quer, mudou as disposições da irmã; depois da ação de graças, a
primeira pessoa que encontrei foi ela, que me chamou com ar amável,
disse-me para ir vos encontrar e falou-me de Celina com lágrimas nos
olhos…
Ah! quantos motivos tenho para agradecer a Jesus, que soube satisfazer
todos os meus desejos!…
Agora, não tenho mais desejos, a não ser o de amar Jesus loucamente…
meus desejos infantis se foram; ainda gosto de enfeitar de flores o altar
do Menino Jesus, mas depois que me deu a Flor que eu desejava, minha
querida Celina, não desejo outra, é ela que Lhe ofereço como meu mais
encantador ramalhete…
Tampouco desejo o sofrimento nem a morte embora ame os dois, mas é
só o amor que me atrai… Durante muito tempo os desejei; tive o
sofrimento e pensei ter tocado as margens do Céu; pensei que a
florzinha seria colhida na sua primavera… agora, só o abandono me
guia, não tenho outra bússola!… Não posso pedir mais nada com ardor,
exceto o cumprimento perfeito da vontade de Deus para minha alma,
sem que as criaturas possam opor obstáculo. Posso dizer essas palavras
do cântico espiritual do Nosso Pai são João da Cruz: “No celeiro interior,
do meu Amado, bebi e quando saí, em toda essa planície, não conhecia
mais nada e perdi o rebanho que eu seguia antes… Minha alma pôs-se
com todos os seus recursos a seu serviço. Não guarda mais rebanho
algum, não tenho outro ofício, porque agora meu exercício todo consiste
em amar! Ou ainda: “Desde que o experimentei, o AMOR é tão poderoso
em obras que sabe tirar proveito de tudo, do bem e do mal que
encontra em mim e transformar minha alma em si. Ó Madre querida!
Como é doce o caminho do amor. Sem dúvida, pode-se cair, podem-se
cometer infidelidades, mas sabendo o amor tirar proveito de tudo tem
consumido logo tudo o que possa desagradar a Jesus, deixando apenas
uma humilde e profunda paz no fundo do coração…
Ah! quantas luzes encontrei nas obras do Nosso Pai são João da Cruz!…
Aos 17 e 18 anos não tinha outro alimento espiritual, depois, todos os
livros deixaram-me na aridez. Ainda estou nesse estado. Quando abro
um livro composto por um autor espiritual (até o mais bonito, o mais
emocionante), sinto logo meu coração apertar-se e leio-o sem, por
assim dizer, compreender ou, se compreendo, meu espírito pára sem
poder meditar… Nesses momentos, a Sagrada Escritura e a lmitação
vêm socorrer-me; nelas encontro um alimento sólido e totalmente puro.
Mas é sobretudo o Evangelho que me sustenta nas minhas orações; nele
encontro tudo o que é necessário para minha pobre alminha. Sempre
descubro novas luzes, sentidos ocultos e misteriosos…
Compreendo e sei por experiência “Que o reino de Deus está dentro de
nós”. Jesus não precisa de livros nem de doutores para instruir as
almas, Ele é o Doutor dos doutores, ensina sem o ruído de palavras…
Nunca o ouvi falar, mas, a cada momento, sinto que está em mim.
Guia-me, inspira o que devo dizer ou fazer. Bem no momento em que
preciso, descubro luzes que nunca tinha visto antes, na maioria das
vezes, não é durante as minhas orações que elas surgem mais
abundantes, é no meio das ocupações diárias…
Oh Madre querida! depois de tantas graças, posso cantar com o
salmista: “O Senhor é bom, eterna é sua misericórdia”. Parece-me que,
se todas as criaturas tivessem as mesmas graças que tenho, Deus não
seria temido por ninguém, mas amado loucamente, e por amor, não
tremendo, as almas recusariam causar-lhe tristeza… Compreendo que
as almas não podem ser todas iguais, é preciso que existam de diversas
famílias a fim de honrar especificamente cada uma das perfeições de
Deus. A mim, Ele deu sua infinita Misericórdia e é por meio dela que
contemplo e adoro as demais perfeições divinas!… Então, todas me
parecem radiantes de amor, a própria Justiça (e talvez mais que as
outras) me parece revestida de amor…
Que doce alegria essa de pensar que Deus é justo, que leva em conta as
nossas fraquezas, que conhece perfeitamente a fragilidade da nossa
natureza. Portanto, de que teria eu medo? Ah! o Deus tão justo que se
dignou perdoar com tanta bondade todas as faltas do filho pródigo não
deve ser justo também para comigo que “sou sempre com Ele?
Neste ano, em 9 de junho, festa da Santíssima Trindade, recebi a graça
de compreender mais do que nunca o quanto Jesus deseja ser amado.
Pensava nas almas que se oferecem como vítimas à Justiça divina, a fim
de desviar e atrair sobre si os castigos reservados aos culpados. Esse
oferecimento parecia-me grande e generoso, mas estava longe de
sentir-me inclinada a fazê-lo. “Oh, meu Deus!”, exclamei no fundo do
meu coração, “só vossa Justiça recebe almas que se imolam como
vítimas?… Vosso Amor Misericordioso não precisa também? Em todo
lugar é desconhecido, rejeitado; os corações aos quais quereis
prodigalizá-lo inclinam-se para as criaturas, pedindo a elas a felicidade
com sua miserável afeição, em vez de lançar-se em vossos braços e
aceitar vosso infinito Amor… Oh, meu Deus! vosso Amor desprezado vai
ficar em vosso Coração? Parece-me que, se encontrásseis almas que se
oferecessem como vítimas de holocausto ao vosso Amor, as
consumiríeis rapidamente. Parece-me que estaríeis feliz em não conter
as ondas de infinitas ternuras que estão. em vós… Se vossa justiça
gosta de descarregar-se, embora só se exerça na terra, quanto mais
vosso Amor Misericordioso que se eleva até os Céus deseja abrasar as
almas… Oh, meu Jesus! que seja eu essa feliz vítima, consumais vosso
holocausto pelo fogo do vosso divino Amor!…”
Madre querida, vós que permitistes que eu me oferecesse assim a Deus,
conheceis os rios, ou melhor, os oceanos de graças que vieram inundar
minha alma… Ah! desde esse feliz dia, parece-me que o Amor me
penetra, me cerca; que a cada instante esse Amor Misericordioso me
renova, purifica minha alma e não deixa vestígio algum de pecado.
Portanto, não posso temer o purgatório… Sei que por mim mesma não
mereço entrar nesse lugar de expiação, pois só as almas santas podem
ter acesso a ele, mas sei também que o Fogo do Amor é mais
santificante que o do purgatório, sei que Jesus não pode desejar
sofrimentos inúteis para nós e que Ele não me inspira desejos que não
quer satisfazer.
Oh! como é doce o caminho do Amor!… Como quero me esforçar para
fazer sempre, com o maior desprendimento, a vontade de Deus!…
Eis, querida Madre, tudo o que posso dizer-vos da vida da vossa
Teresinha, conheceis melhor, por vós mesma, o que ela é e o que Jesus
fez por ela; portanto, perdoar-me-eis por ter abreviado a história da sua
vida religiosa…
Como terminará essa “história de uma florzinha branca”? Talvez a
florzinha seja colhida no seu frescor ou transplantada a outras praias…
ignoro-o, mas tenho certeza de que a Misericórdia de Deus a
acompanhará sempre, porque nunca deixará de abençoar a Madre
querida que a deu a Jesus; regozijar-se-á eternamente por ser uma das
flores da sua coroa… Eternamente cantará com essa Madre querida o
cântico sempre novo do Amor…
EXPLICAÇÃO DAS ARMAS
O brasão JHS é o que Jesus se dignou trazer como dote para sua pobre
esposinha. A órfã da Beresina tornou-se Teresa do MENINO JESUS E DA
SAGRADA FACE, são esses seus títulos de nobreza, sua riqueza e sua
esperança. A videira que separa o brasão é a figura Daquele que nos
disse: “Eu sou a vide, vós os sarmentos. Aquele que permanece em
mim e eu nele produz muito fruto”. Os dois ramos ao redor, a Sagrada
Face e o menino Jesus, são a imagem de Teresa que só tem um desejo
cá na terra, oferecer-se como um cachinho de uvas’ para refrescar Jesus
Menino, diverti-lo, deixar-se apertar por Ele ao sabor dos seus caprichos
e poder estancar a sede ardente que teve durante sua paixão’. A harpa
também representa Teresa que quer cantar sem cessar melodias de
amor para Jesus’.
O brasão FMT é o de Maria Francisca Teresa, a florzinha da Santíssima
Virgem, por isso essa florzinha é representada recebendo os raios
benéficos da Doce Estrela da manhã. A terra verdejante representa a
família abençoada no seio da qual a florzinha cresceu; mais ao longe,
vê-se uma montanha que representa o Carmelo. É esse lugar abençoado
que Teresa escolheu para representar, nessas armas, o dardo abrasado’
do amor que deve merecer-lhe a palma do martírio’ à espera de poder
verdadeiramente dar seu sangue por Aquele que ama. Pois para
retribuir todo o amor de Jesus gostaria de fazer por Ele o que Ele fez por
ela… mas Teresa não esquece que é um caniço fraco, por isso o colocou
no brasão.
O triângulo luminoso representa a Adorável Trindade que não cessa de
distribuir seus dons inestimáveis na alma da pobre Teresinha, por isso,
na sua gratidão, nunca se esquecerá desse lema: “O Amor só se paga
com o Amor”.
HISTÓRIA DE UMA ALMA
Manuscrito «B»
CARTA A IRMÃ MARIA DO SAGRADO CORAÇÃO
J.M.J.T.
Jesus +
Ó querida Irmã! pedis para eu vos dar uma recordação do meu retiro,
retiro que, talvez, seja ó último… Com a autorização da nossa Madre, é-
me agradável vir entreter-me convosco, que sois duas vezes minha
irmã, convosco que me emprestastes a voz, quando não me era possível
falar, para prometer, em meu nome, só querer servir a Jesus… Querida
madrinha, quem vos fala esta noite é a criança que ofertastes ao
Senhor, que vos ama como uma filha sabe amar a mãe … Só no céu
sabereis da gratidão que transborda do meu coração… Ó querida irmã!
quereis ouvir os segredos que Jesus confia à vossa filhinha, sei que Ele
os confia a vós, pois fostes vós quem me ensinastes a recolher os
ensinamentos divinos. Contudo, vou tentar balbuciar algumas palavras,
embora sinta que é impossível à palavra humana expressar coisas que o
coração humano apenas consegue pressentir…
Não penseis que nado em consolações, oh não! meu consolo é não ter
consolações na terra. Sem mostrar-se, sem se fazer ouvir, Jesus ensina-
me em segredo, não é por meio dos livros, pois não entendo o que leio,
às vezes, porém, uma palavra como esta que destaquei no final da
oração (após ter ficado no silêncio-e na aridez) vem consolar-me: “Eis o
mestre que te dou, ensinar-te-á o que deves fazer. Quero levar-te a ler
no livro da vida onde está a ciência do amor”. A ciência do Amor, oh
sim! esta palavra soa doce ao ouvido da minha alma, só desejo essa
ciência. Tendo dado por ela todas as minhas riquezas, calculo, como a
esposa dos cânticos sagrados, nada ter dado… Entendo tão bem que só
o amor possa nos tornar agradáveis a Deus, que fiz dele o único objeto
dos meus desejos. Jesus sente prazer em mostrar-me o único caminho
que leva para essa fornalha divina, e esse caminho é a entrega da
criancinha que adormece sem receio no colo do pai… “Quem for criança,
venha cá”, disse o Espírito pela boca de Salomão, e esse mesmo Espírito
de Amor disse também que “A misericórdia é dada aos pequenos”. Em
nome dele, o profeta Isaías revela que, no último dia, “o Senhor leva à
pastagem o seu rebanho, com o seu braço conserva-o reunido; traz no
seu regaço os cordeirinhos, e tange cuidadosamente as ovelhas que
aleitam”. E, como se todas essas promessas não fossem suficientes, o
mesmo profeta, cujo olhar inspirado mergulhava nas profundezas
eternas, exclama em nome do Senhor: “Como alguém que é consolado
pela própria mãe, assim eu vos consolarei, sereis levado ao colo, e
acariciados sobre os joelhos”. Ó madrinha querida! depois de tal
linguagem, só resta calar, chorar de gratidão e de amor… Ah! se todas
as almas fracas e imperfeitas sentissem o que sente a menor de todas
as almas, a alma da vossa Teresinha, nenhuma perderia a esperança de
atingir o cimo da montanha do amor, pois Jesus não pede ações
grandiosas, apenas o abandono e a gratidão, pois disse no Salmo XLIX:
“Não tomarei o novilho de tua casa, nem os cabritos de teu rebanho;
pois a mim pertence todo animal da floresta, as alimárias dos montes
aos milhares. Lembro-me de todas as aves do céu, e tenho ao meu
alcance os animais do campo. Se tivesse fome, não o diria a ti, porque
minha é a terra e tudo o que encerra. Porventura como carne de touros,
ou bebo o sangue dos cabritos?…”
“Oferece a Deus sacrifício de louvor e cumpre os votos que fizeste ao
Altíssimo.” Eis, portanto, tudo o que Jesus quer de nós, Ele não precisa
das nossas obras, só do nosso amor; esse mesmo Deus que declara não
precisar pedir comida a nós não receou mendigar um pouco de água
junto à samaritana. Ele estava com sede… Mas ao dizer “dê-me de
beber”, o Criador do universo estava pedindo o amor da sua pobre
criatura. Tinha sede de amor … Ah! sinto-o mais do que nunca, Jesus
está sedento, só encontra ingratos e indiferentes entre os discípulos do
mundo enquanto, nos seus próprios discípulos, encontra poucos
corações que se entregam a Ele sem reserva, que compreendem toda a
ternura do seu Amor infinito.
Irmã querida, como somos felizes por compreender os íntimos segredos
do nosso Esposo. Ah! se quisestes escrever tudo o que sabeis a
respeito, teríamos belas paginas para ler, tenho certeza, mas preferis
conservar no fundo do vosso coração “os segredos do Rei”, e a mim
dizeis que “é bom guardar o segredo do rei, mas apregoar as obras de
Deus é honroso”. Considero que tendes razão em permanecerdes no
silêncio e é unicamente para vos agradar que escrevo estas linhas, pois
sinto minha incapacidade de expressar com palavras da terra os
segredos do Céu e, depois de escrever páginas e mais páginas, ainda
parecia não ter começado… Há horizontes tão numerosos e tão
diversos, tantos matizes no infinito, que só a paleta do Pintor celeste
poderá, depois da noite desta vida, fornecer-me as cores capazes de
pintar as maravilhas que Ele põe diante do olho da minha alma.
Minha irmã querida, pedistes para eu vos descrever meu sonho e
“minha pequena doutrina”, como a chamastes… Foi o que fiz nas
páginas a seguir, mas tão mal que me parece impossível que
compreendais. Achareis, talvez, minhas expressões exagera as… Ah!
perdoai-me, isso deve ser atribuído a meu estilo pouco agradável.
Asseguro-vos não haver exagero nenhum na minha alminha, que está
tudo calmo e descansado…
(Ao escrever, é a Jesus que falo, assim me é mais fácil expressar meus
pensamentos… O que, ai! não impede que estejam mal expressos!)
J.M.J.T. 8 de setembro de 1896
(A minha querida Irmã Maria do Sagrado Coração.)
Ó Jesus, meu Bem-Amado! quem poderá descrever a ternura, a doçura
com que conduzis minha alminha? Que agrado tendes em fazer brilhar o
raio da vossa graça bem no meio da mais forte tempestade? … Jesus, a
tempestade rugia forte em minha alma desde a bonita festa do vosso
triunfo, a radiosa Páscoa, quando, num sábado do mês de maio,
pensando nos sonhos misteriosos que, às vezes, são concedidos a certas
almas, estimava serem eles um consolo bem agradável, mas não os
pedia. De noite, observando as nuvens que lhe encobriam o céu, minha
alminha repetia que os belos sonhos não lhe eram destinados e, na
tempestade, adormeceu… No dia seguinte, 10 de maio, segundo
domingo do mês de Maria, talvez fosse aniversário do dia em que à
Santíssima Virgem se dignou sorrir para sua florzinha…
Nos primeiros clarões da aurora, encontrava-me, em sonho, numa
espécie de galeria. Havia muitas outras pessoas, mas afastadas. Só
nossa Madre estava perto de mim. De repente, sem ter percebido como
tinham entrado, vi três carmelitas cobertas com suas capas e grandes
véus. Pareceu-me que vinham encontrar nossa Madre; mas compreendi
claramente que elas vinham do céu. Do fundo do meu coração, gritei:
Ah! como ficaria feliz de ver, o rosto de uma dessas carmelitas. Nesse
momento, como se minha oração tivesse sido ouvida por ela, a mais
alta das santas aproximou-se de mim; caí de joelhos. Oh! felicidade. A
carmelita levantou seu véu, ou melhor, o tirou e pôs sobre mim…
Reconheci, sem a menor hesitação, a venerável Madre Ana de Jesus,
fundadora do Carmelo na França. Tinha rosto bonito, de uma beleza
imaterial, nenhum raio de luz saía dele. Contudo, apesar do véu que nos
envolvia, via esse rosto celeste iluminado por uma luz incrivelmente
suave, luz que não recebia, mas produzia por si mesmo…
Não saberia expressar a alegria da minha alma. Essas coisas são
sentidas e não exprimíveis… Muitos meses já se passaram desde esse
doce sonho, mas a recordação que deixa em minha alma nada perdeu
do seu frescor, dos seus celestes encantos… Ainda vejo o olhar e o
sorriso cheios de amor da Venerável Madre. Parece-me sentir ainda as
carícias que ela me fez.
… Vendo-me amada com tanta ternura, atrevi-me a dizer: “Ó Madre!
suplico-vos, dizei-me se Deus me deixará ainda por muito tempo na
terra… Virá Ele buscar-me logo?…” Sorrindo com ternura, a santa
murmurou: “Sim, em breve, em breve… prometo-vos”. “Madre”,
acrescentei, “dizei-me se Deus quer mais alguma coisa de mim além das
minhas pobres pequenas ações e dos meus desejos. Ele está contente
comigo?” O rosto da santa revestiu-se de uma expressão
incomparavelmente mais terna do que na primeira vez que me falou.
Seu olhar e suas carícias eram a mais doce das respostas. Disse-me,
porém: “Deus não pede mais nada a vós, Ele está contente,
contentíssimo!…” Após ter-me acariciado com amor maior do que o da
mãe mais terna para um filho, vi-a afastar-se… Meu coração estava
alegre, lembrei-me das minhas irmãs e quis pedir algumas graças para
elas; aí… acordei!…
Ó Jesus! a tempestade não rugia então. O céu estava calmo e sereno…
acreditava, sentia haver um Céu e que esse Céu é povoado de almas
que me querem bem, que me olham como filha delas… Essa impressão
permanece em meu coração, tanto mais que a Venerável Madre Ana de
Jesus era-me, até então, absolutamente indiferente. Nunca a tinha
invocado e só pensava nela quando falavam dela, o que era raro.
Quando compreendi até que ponto ela me amava, que eu não lhe era
indiferente, meu coração se desfez em amor e gratidão, não apenas
para com a santa que me visitara, mas ainda para com todos os bemaventurados
do Céu…
Ó Bem-Amado meu! essa graça era apenas o prelúdio de graças maiores
que Tu querias me dar. Deixa, único amor meu, que eu as recorde
hoje… hoje, sexto aniversário da nossa união… Ah! perdoa-me Jesus se
disparo querendo relatar novamente meus desejos, minhas esperanças
que alcançam o infinito. Perdoa-me e cura minha alma dando a ela o
que espera!!! …
Ser tua esposa, ó Jesus; ser carmelita; ser, pela minha união a Ti, a
mãe das almas, deveria ser-me suficiente… mas não é… Sem dúvida,
esses três privilégios formam minha vocação: carmelita. esposa e mãe.
Todavia, sinto em mim outras vocações, a de Guerreiro, a de Sacerdote,
a de Apóstolo. a de Doutor, a de Mártir, enfim, sinto a necessidade, o
desejo de realizar, para Ti, Jesus, as mais heróicas obras… Sinto na
minha alma a coragem de um cruzado, _de um zuavo pontifício. Queria
morrer num campo de batalha pela defesa da Igreja…
Sinto em mim a vocação de Sacerdote. Com que amor, ó Jesus, levarte-ia
em minhas mãos quando, pela minha voz, descesses do Céu…
Com que amor eu Te daria às almas!… Mas ai! embora desejando ser
sacerdote, admiro e tenho inveja da humildade de são Francisco de
Assis e sinto em mim a vocação de imitá-lo, recusando a sublime
dignidade do Sacerdócio.
Ó Jesus! meu amor, minha vida… como conciliar esses contrastes?
Como realizar os desejos da minha pobre alminha?…
Ah! apesar da minha pequenez, queria iluminar as almas como os
profetas, os doutores. Tenho a vocação de apóstolo… Gostaria de correr
a terra, propagar teu nome e fincar tua Cruz gloriosa no solo infiel. Ó
meu amor, uma missão só não seria suficiente. Gostaria também de
pregar o Evangelho nas cinco partes do mundo, até nas mais longínquas
ilhas… Queria ser missionária, não só durante alguns anos, mas
gostaria que fosse desde a criação do mundo e até o final dos séculos…
Mas, sobretudo, meu Bem-Amado Salvador, quero derramar meu
sangue para Ti até a última gota…
O martírio, eis o sonho da minha juventude. Esse sonho cresceu comigo
no claustro do Carmelo… Mas, ainda aí, sinto que meu sonho é uma
loucura, pois não conseguiria satisfazer-me com uma forma de
martírio… Para satisfazer-me, preciso de todas… Como Tu, esposo
adorado, queria ser flagelada e crucificada… Queria morrer despojada
como são Bartolomeu… Como são João, queria ser mergulhada no óleo
fervente, queria sofrer todos os suplícios infligidos aos mártires… A
exemplo de santa Inês e santa Cecília, gostaria de oferecer meu pescoço
ao gládio e, como Joana d’Arc, minha irmã querida, queria murmurar
teu nome na fogueira, ó Jesus… Ao pensar nos tormentos reservados
aos cristãos no tempo do Anticristo, sinto meu coração estremecer e
queria que esses sofrimentos me fossem reservados… Jesus, Jesus, se
eu pudesse escrever todos os meus desejos, teria de pedir que me
emprestasses teu livro de vida, aí estão relatadas as ações de todos os
santos e essas ações, gostaria de tê-las realizado por Ti…
Ó meu Jesus! o que vais responder a todas essas loucuras?… Há alma
menor, mais impotente que a minha?… Porém, por causa da minha
fraqueza, achaste prazer, Senhor, em atender aos meus pequenos
desejos infantis e queres, hoje, realizar outros desejos, maiores que o
universo…
Como meus desejos me faziam sofrer um verdadeiro martírio na oração,
abri as epístolas de são Paulo a fim de procurar alguma resposta. Meus
olhos caíram sobre os capítulos 12 e 13 da primeira epístola aos
Coríntios… No primeiro, li que nem todos podem ser apóstolos,
profetas, doutores etc… que a igreja é composta de diferentes membros
e que o olho não poderia ser, ao mesmo tempo, a mão.
…A resposta estava clara, mas não satisfazia aos meus desejos, não me
propiciava paz… Como Madalena se inclinando sempre junto ao túmulo
vazio acabou por encontrar o que desejava, também me abaixei até as
profundezas do meu nada e elevei-me tão alto que consegui atingir
minha meta… Sem desanimar, prossegui com minha leitura e esta frase
aliviou-me: “Aspirai, também, aos carismas mais elevados. Mas vou
mostrar-vos ainda uma via sobre todas sublime”. E o apóstolo explica
como todos os mais perfeitos dons não valem nada sem o Amor… Que a
caridade é a via excelente para levar seguramente a Deus. Enfim, tinha
encontrado repouso… Considerando o corpo místico da Igreja, não me
reconheci em nenhum dos membros descritos por são Paulo, melhor,
queria reconhecer-me em todos… A Caridade deu-me a chave da minha
vocação. Compreendi que se a Igreja tem um corpo, composto de
diversos membros, o mais necessário, o mais nobre de todos não lhe
falta. Compreendi que a Igreja tem um coração e que esse coração arde
de amor. Compreendi que só o Amor leva os membros da Igreja a agir,
que se o Amor viesse a extinguir-se os apóstolos não anunciariam mais
o Evangelho, os mártires negar-se-iam a derramar o sangue…
Compreendi que o Amor abrangia todas as vocações, que o Amor era
tudo, que abrangia todos os tempos e todos os lugares… numa palavra,
que ele é Eterno!…
Então, na minha alegria delirante, exclamei: ó Jesus, meu Amor…
enfim, encontrei minha vocação, é o Amor!…
Sim, achei meu lugar na Igreja e esse lugar, meu Deus, fostes vós
quem o destes a mim… no Coração da Igreja, minha Mãe, serei o
Amor… serei tudo, portanto… desta forma, meu sonho será
realizado!!!…
Por que falar de uma alegria delirante? Não, essa expressão não está
adequada. Era antes a paz calma e serena do navegante avistando o
farol que deve guiá-lo ao porto… ó Farol luminoso do Amor, sei como
chegar a Ti, encontrei o segredo para apropriar-me da tua chama.
Sou apenas uma criança, impotente e fraca, mas é minha própria
fraqueza que me dá a audácia para me oferecer coma Vítima ao teu
Amor, ó Jesus! Outrora, só as hóstias puras e sem manchas eram
aceitas pelo Deus forte e poderoso. Para satisfazer a justiça divina,
havia necessidade de vítimas perfeitas. Mas à lei do temor sucedeu a do
Amor e o Amor escolheu-me para holocausto, eu, fraca e imperfeita
criatura… Não é escolha digna do Amor?… Sim, a fim de que o Amor
seja plenamente satisfeito é preciso que se abaixe, que se abaixe até o
nada e que transforme esse nada em fogo…
Ó Jesus, sei, o amor só se paga com o amor; por isso, procurei, achei o
meio de aliviar meu coração retribuindo Amor com Amor. “Granjeai
amigos com a vil riqueza, para que quando esta vier a faltar eles vos
recebam nas tendas eternas”. Eis, Senhor, o conselho que dás a teus
discípulos depois de teres dito a eles que “os filhos deste mundo são
mais atilados que os filhos da luz, no trato com os seus semelhantes”.
Filha da luz, compreendi que meus desejos de ser tudo, de abraçar
todas as vocações, eram riquezas que bem poderiam tornar-me injusta,
servi-me delas para granjear amigos… Lembrando-me do pedido de
Eliseu a seu Pai Elias quando se atreveu a pedir-lhe dupla porção do seu
espírito, apresentei-me diante dos anjos e dos santos e lhes disse: “Sou
a menor das criaturas, conheço minha miséria e minha fraqueza, mas
sei também como os corações nobres e generosos gostam de fazer o
bem, suplico-vos, portanto, ó bem-aventurados habitantes dó Céu, que
me adoteis por filha, a glória que me fizerem adquirir será só para vós,
mas dignai-vos atender o meu pedido; sei que é temerário, mas atrevome
a pedir que obtenhais para mim vosso duplo Amor.
Não posso, Jesus, aprofundar o meu pedido, recearia ver-me
acabrunhada sob o peso dos meus desejos audaciosos…. Minha
desculpa é ser uma criança e as crianças não medem o alcance das suas
palavras. Quando colocados no trono e donos de imensos tesouros, seus
pais não hesitam em contentar os desejos dos pequenos seres que
amam tanto quanto a si mesmos; para agradar a eles, fazem loucuras,
chegam até a fraqueza… Bem! eu sou a CRIANÇA da Igreja e a Igreja é
Rainha, pois é tua esposa, o divino Rei dos Reis… Não são as as
riquezas e a Glória, nem a Glória do Céu, que o coração da criança
deseja… Compreendo que a Glória pertence por direito a seus irmãos,
os anjos e os santos… A glória dele será o reflexo daquela que brotará
da fronte de sua Mãe. O que pede é o Amor… Só quer uma coisa, te
amar, ó Jesus… As obras de grande repercussão lhe são interditadas,
ele não pode anunciar o Evangelho, derramar o próprio sangue… mas
não importa, seus irmãos trabalham no lugar dele e ele, criancinha, fica
junto do trono do Rei e da Rainha. Ama pelos seus irmãos que
combatem… Como irá testemunhar seu amor se o Amor se prova pelas
obras? A criancinha lançará flores, perfumará o trono real, com sua voz
argêntea, cantará o cântico do Amor…
Eis, meu Bem-Amado, como se consumará minha vida… Não tenho
outros meios para te provar meu amor, a não ser lançar flores, isto é,
não deixar escapar nenhum pequeno sacrifício, nenhum olhar, nenhuma
palavra, aproveitar as menores coisas e fazê-las por amor… Quero
sofrer e mesmo gozar por amor, dessa forma lançarei flores diante do
teu trono, não encontrarei uma só sem desfolhá-la para Ti… e, ao jogar
minhas flores, cantarei. Caberia chorar fazendo uma ação tão alegre?
Cantarei, até mesmo quando for preciso colher minhas flores no meio
dos espinhos e meu canto será mais melodioso na medida em que os
espinhos forem longos e pungentes.
Em que minhas flores e meus cantos irão te servir, Jesus?… Ah! sei.
Essa chuva perfumada, essas pétalas frágeis e sem valor, esses cantos
de amor do menor dos corações te encantarão. Sim, esses nadas te
agradarão, farão sorrir a Igreja triunfante que recolherá minhas flores
desfolhadas por amor e, fazendo-as passar por tuas mãos divinas, ó
Jesus, essa Igreja do Céu, querendo brincar com sua criança, lançará
essas flores que, pelo teu toque divino, terão adquirido um valor infinito.
Lançá-las-á sobre a Igreja padecente, a fim de apagar as chamas;
lançá-las-á sobre a Igreja combatente, a fim de lhe propiciar a
vitória! …
Ó meu Jesus! amo-Te, amo a Igreja, minha Mãe, lembro-me de que: “O
menor movimento de puro amor lhe é mais útil que todas as outras
obras reunidas”. Mas será que o puro amor está em meu coração?…
Meus desejos imensos não seriam sonho, loucura?… Ah! se assim for,
Jesus, esclarece-me, tu sabes que procuro a verdade…” se meus
desejos são temerários, faze-os sumir pois são para mim o maior dos
martírios… Mas sinto, ó Jesus, que depois de ter aspirado às regiões
mais elevadas do Amor, se eu não puder alcançá-las, terei
experimentado mais doçura no meu martírio, na minha loucura, do que
haverei de experimentar no seio das alegrias da pátria, a menos que,
por um milagre, Tu me tires a lembrança das minhas esperanças
terrestres. Então, deixa-me gozar, durante meu exílio, das delícias do
amor. Deixa-me saborear as doces amarguras do meu martírio…
Jesus, Jesus, se o desejo de Te amar é tão delicioso, como será o de
possuir, de gozar o Amor?…
Como pode uma alma tão imperfeita como a minha aspirar à plenitude
do Amor?… Ó Jesus! meu primeiro, meu único Amigo, Tu que amo
UNICAMENTE, dize-me que mistério é esse. Por que não reservas essas
imensas aspirações para as grandes almas, para as águias que planam
nas alturas?… Considero-me apenas um mero passarinho coberto de
leve penugem, não sou uma águia, só tenho dela os olhos e o coração,
pois apesar da minha extrema pequenez ouso fixar o Sol Divino, o Sol
do Amor, e meu coração sente em si todas as aspirações da águia… O
passarinho quer voar para esse Sol brilhante que encanta seus olhos,
quer imitar as águias, suas irmãs, que vê chegar ao lar divino da
Trindade Santíssima… ai! o que pode fazer é bater as asinhas, voar,
porém, não está em seu pequeno alcance! O que será dele? Morrer de
tristeza por se ver tão impotente?… Oh não! o passarinho nem vai ficar
aflito. Com total abandono, quer ficar olhando seu divino Sol; nada
poderá assustá-lo, nem o vento nem a chuva, e se nuvens escuras
vierem esconder o Astro de Amor o passarinho não trocará de lugar.
Sabe que, além das nuvens, seu Sol continua brilhando, que seu brilho
não cessará. Às vezes, o coração do passarinho é vítima de tempestade,
parece não acreditar que existem outras coisas além das nuvens que o
envolvem. Esse é o momento da felicidade perfeita para o pobre
serzinho frágil. Que felicidade ficar aí, assim mesmo; fixar a luz invisível
que escapa à sua fé!!!… Jesus, até agora, compreendo teu amor para
com o passarinho, pois ele não se afasta de Ti… mas sei e Tu sabes
também, muitas vezes a criaturinha imperfeita, embora permaneça a
postos, isto é, debaixo dos raios do Sol; distrai-se um pouco da sua
única ocupação, cata um grãozinho aqui, outro acolá, corre atrás de um
inseto… e, encontrando uma pocinha d’água, banha suas peninhas.
Quando, vê uma flor que lhe agrada, sua mente se prende a ela…
enfim, não podendo planar como as águias, o passarinho ocupa-se com
as bagatelas da terra. Após todas essas indelicadezas, em vez de
esconder-se num cantinho para chorar sua miséria e morrer de
arrependimento, o passarinho volta-se para seu bem-amado Sol, expõe
suas asinhas molhadas aos seus raios, geme como a andorinha e no seu
canto suave confidencia, relata detalhadamente suas infidelidades,
pensando, no seu temerário abandono, adquirir mais poder, atrair mais
fortemente o amor Daquele que não veio chamar os justos, mas os
pecadores… Se o Astro Adorado permanece surdo aos chilreios
plangentes da sua criaturinha, se continua encoberto… pois bem! a
criaturinha permanece molhada, aceita ficar gelada e alegra-se por esse
sofrimento que não deixa de merecer… Jesus! como teu passarinho está
feliz por ser fraco e pequeno, o que seria dele se fosse grande?… Nunca
se atreveria a ficar na tua presença, em dormitar diante de Ti… sim, é
mais uma fraqueza do passarinho quando quer fixar o Sol divino e as
nuvens o impedem de ver um raio sequer. Contra sua vontade, seus
olhinhos se cerram, sua cabecinha se esconde sob sua asinha e o pobre
serzinho adormece, crente ainda de que está fixando seu Astro querido.
Com o despertar, não se perturba, seu coraçãozinho fica em paz,
recomeça seu ofício de amor. Invoca os anjos e os santos que se elevam
como águias para o foco devorador, objeto de seus anseios. Com pena
do irmãozinho, as águias o protegem, o defendem e afugentam os
abutres que querem devorá-lo. O passarinho não tem medo dos
abutres, imagens dos demônios, não se destina a ser presa deles, mas
sim da Águia que ele contempla no centro do Sol de Amor. Ó Verbo
divino, és tu a Águia adorada que amo e que me atrai, és tu que
correndo para a terra do exílio tens querido sofrer e morrer para lançar
as almas no seio do Eterno Lar da Santíssima Trindade. És tu que,
subindo para a inacessível Luz que de agora em diante será tua morada,
ainda permaneces no vale de lágrimas, oculto sob a aparência de uma
hóstia branca… Águia Eterna, queres alimentar-me com tua divina
substância, eu, ser pobre e pequeno, que voltaria ao nada se teu divino
olhar deixasse de me dar vida a cada instante… Ó Jesus! deixa-me no
extremo da minha gratidão, deixa-me te dizer que teu amor vai até a
loucura… Como queres que diante dessa loucura, meu coração deixe de
se jogar em teus braços? Como pode minha confiança ter limites?… Ah!
sei, para Ti, os santos cometeram loucuras também, fizeram grandes
coisas, pois eram águias…
Jesus sou pequena demais para fazer grandes coisas… e minha loucura
pessoal é esperar que teu amor me aceite como vítima… Minha loucura
consiste em suplicar às Águias, minhas irmãs, que consigam para mim o
favor de voar para o Sol do Amor com as próprias asas da Águia
divina…
Enquanto quiseres, ó meu Bem-amado, teu passarinho ficará sem forças
e sem asas, com os olhos sempre fixos em Ti. Quer ser fascinado pelo
teu olhar divino, quer tornar-se a presa do teu Amor… Um dia, espero,
Águia adorada, virás buscar teu passarinho e, subindo com ele ao Lar do
Amor, mergulharás para sempre no ardente Abismo desse Amor a quem
se ofereceu como vítima…
—————————————————————————
Ó Jesus! como posso dizer a todas as almas pequeninas o quanto é
inefável a tua condescendência… sinto que, embora seja impossível, se
tu encontrasses uma alma mais fraca, menor que a minha, terias prazer
em cumulá-la de favores ainda maiores, caso ela se abandonasse com
inteira confiança à tua misericórdia infinita. Mas por que desejar
comunicar teus segredos de amor, ó Jesus. Não foste tu quem os
ensinaste a mim e não podes revelá-los aos outros?… Sim, sei, e te
suplico para fazê-lo, te suplico que abaixes teu olhar divino sobre um
grande número de almas pequeninas… Suplico-te escolher uma legião
de pequenas vítimas dignas do teu AMOR!
A pequenina Irmã Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face
religiosa carmelita ind.
História de uma Alma
MANUSCRITO ENDEREÇADO A MADRE MARIA DE GONZAGA
Manuscrito C
J.M.J.T.
Madre bem-amada, manifestastes-me o desejo de que eu termine de
cantar convosco as Misericórdias do Senhor. Comecei este doce canto
com vossa filha querida, Inês de Jesus, que foi a mãe encarregada por
Deus de guiar-me na minha infância. Portanto, era com ela que eu devia
cantar as graças concedidas à florzinha da Santíssima Virgem, quando
na primavera da vida. É convosco que devo cantar a felicidade desta
florzinha, agora que os tímidos raios da aurora deram lugar aos ardores
do meio-dia. Sim, é convosco, Madre querida, é para atender ao vosso
desejo que vou tentar redizer os sentimentos da minha alma, minha
gratidão para com Deus e para convosco, que o representais
visivelmente. Não foi nas vossas mãos maternas que me entreguei
inteiramente a Ele? Oh, Madre! tendes lembrança daquele dia?… Sim,
sinto que vosso coração não poderia esquecê-lo… Devo esperar o belo
Céu, pois não encontro palavras capazes de expressar o que aconteceu
em meu coração naquele dia bendito.
Madre querida, há um outro dia em que minha alma se uniu ainda mais
à vossa, se isso fosse possível, foi o dia em que Jesus vos impôs
novamente o fardo do superiorado. Naquele dia, Madre querida,
semeastes em lágrimas, mas no Céu sereis cumulada de alegria ao vos
apresentardes carregada de feixes preciosos. Ó Madre, perdoai minha
simplicidade infantil, sinto que me permitis falar-vos sem procurar
distinguir o que é ou não é permitido a uma jovem religiosa dizer à sua
priora. Talvez não me contenha sempre nos limites prescritos aos
subalternos, mas, querida Madre, ouso dizê-lo, é por culpa vossa, tenho
convosco atitudes de criança porque não agis comigo como priora, mas
como mãe… Ah! sinto perfeitamente, querida Madre, é Deus que me
fala por vosso intermédio. Muitas irmãs pensam que me tendes mimado.
Que desde minha chegada à arca santa só recebi de vós carícias e
agrados. Mas não é bem assim. Vereis, Madre, no caderno em que
relato minhas lembranças de infância, o que penso da educação forte e
materna que recebi de vós. Do mais profundo do meu coração, vos
agradeço por não me terdes poupado. Jesus sabia muito bem que sua
florzinha precisava da água vivificante da humilhação, era fraca demais
para criar raiz sem essa ajuda, e foi por vós, Madre, que esse benefício
lhe foi dado.
Há um ano e meio, Jesus quis mudar a maneira de cultivar sua
florzinha. Achou-a, sem dúvida, bastante regada; resolveu que ela
precisava de sol para crescer. Doravante, Jesus só quer dar a ela o seu
sorriso e o dá por vós, Madre querida. Esse sol suave, longe de fazer
murchar a florzinha, a faz crescer maravilhosamente. No fundo do seu
cálice, ela conserva as preciosas gotas de orvalho que já recebeu e
essas gotas recordam-lhe sempre que é pequena e fraca… Todas as
criaturas podem inclinar-se para ela, admirá-la, cobri-la de elogios; sem
saber por quê, tudo isso não acrescenta uma única gota de falsa alegria
à alegria verdadeira que saboreia em seu coração, por se ver o que é
aos olhos de Deus: apenas um pobre nadinha, nada mais… Digo não
entender por quê, mas não seria por ter sido preservada da água dos
elogios enquanto seu pequeno cálice não fosse repleto do orvalho da
humilhação? Agora, o perigo passou. A florzinha acha tão delicioso o
orvalho do qual está repleta que não o trocaria de forma alguma pela
água insípida dos elogios.
Não quero falar, Madre querida, do amor e da confiança que me
manifestais. Não pensai que o coração da vossa filha esteja insensível a
eles, mas sinto não ter nada a temer agora, pelo contrário, posso gozar
deles, atribuindo a Deus o que Ele se dignou pôr de bom em mim. Se
lhe agrada fazer-me parecer melhor do que sou, isso não me diz
respeito. Ele é livre para agir como quer… Oh, Madre! como são
diferentes os caminhos pelos quais o Senhor conduz as almas! Na vida
dos santos, vimos que muitos não quiseram deixar nada de si depois da
morte, nem o mínimo escrito, nem a mínima lembrança. Outros, pelo
contrário, como nossa Madre santa Teresa, enriqueceram a Igreja com
suas sublimes revelações, sem receio de contar os segredos do Rei, para
que seja mais conhecido, mais amado pelas almas. Qual desses dois
gêneros de santos agrada mais a Deus? Parece-me, Madre, que os dois
lhe são igualmente agradáveis, pois todos seguiram o impulso do
Espírito Santo, e que o Senhor disse: Dizei ao Justo que está Tudo bem.
Sim, tudo está bem quando se procura apenas a -vontade de Jesus. Eis
por que eu, pobre florzinha, obedeço a Jesus procurando agradar a
minha Madre querida.
Sabíeis, Madre, que sempre desejei ser santa, mas ai! sempre constatei,
quando me comparei com os santos, haver entre eles e mim a mesma
diferença que existe entre uma montanha cujos cimos se perdem nos
céus, e o obscuro grão de, areia pisado pelos transeuntes. Em vez de
desanimar, disse a mim mesma: Deus não poderia inspirar desejos
irrealizáveis, portanto posso, apesar da minha pequenez, aspirar à
santidade; não consigo crescer, devo suportar-me como sou, com todas
as minhas imperfeições; mas quero encontrar o meio de ir para o Céu
por uma via muito direta, muito curta, uma pequena via, totalmente
nova. Estamos num século de invenções. Agora, não é mais preciso
subir os degraus de uma escada, nas casas dos ricos, um elevador a
substitui com vantagens. Eu também gostaria de encontrar um elevador
para elevar-me até Jesus, pois sou pequena demais para subir a
íngreme escada da perfeição. Procurei então, na Sagrada Escritura a
indicação do elevador, objeto do meu desejo, e li estas palavras da
eterna sabedoria: Quem for pequenino, venha cá; ao que falta
entendimento vou falar. Vim, então, adivinhando ter encontrado o que
procurava e querendo saber, ó Deus, o que faríeis ao pequenino que
respondesse ao vosso chamado. Continuei minhas pesquisas e eis o que
achei: Como alguém que é consolado pela própria mãe, assim eu vos
consolarei. Sereis amamentados, levados ao colo, e acariciados sobre os
joelhos! Ah! nunca palavras mais suaves, mais melodiosas, vieram
alegrar minha alma. Vossos braços são o elevador que deve elevar-me
até o Céu, ó Jesus! Para isso, eu não preciso crescer, pelo contrário,
preciso permanecer pequena, que o venha a ser sempre mais. Ó meu
Deus, superastes minha expectativa e quero cantar as vossas
misericórdias. “Vós me instruístes, ó Deus, desde a minha juventude, e
até agora proclamo as vossas maravilhas; e também até a velhice, até à
canície continuarei a publicá-las. Qual será para mim essa idade
avançada? Parece-me que poderia ser agora, pois dois mil anos não são
mais que vinte aos olhos do Senhor… que um dia… Ah! não creiais,
Madre querida, que vossa filha deseja vos deixar… não creiais que
considera como graça maior a de morrer na aurora em vez de no
crepúsculo. O que aprecia, o que deseja unicamente é agradar a Jesus…
Agora que Ele parece aproximar-se dela, a fim de atraí-Ia para a sua
glória,, vossa filha se alegra. Há muito compreendeu que Deus não
precisa de ninguém (menos ainda dela que dós outros) para realizar o
bem.na terra.
Perdoai-me, Madre, se vos entristeço… ah! gostaria tanto de vos
alegrar… mas credes que se vossas orações não são atendidas na terra,
se Jesus separa por alguns dias a criança da mãe, essas orações não
serão atendidas no Céu?…
Vosso desejo, sei, é que eu cumpra junto a vós uma missão muito
suave, muito fácil; mas não poderia eu terminá-la do alto do Céu?…
Como Jesus disse um dia a são Pedro, vós dissestes à vossa filha:
“Apascenta meus cordeirinhos”. Espantei-me e vos disse “ser eu
pequena demais”… supliquei para que vós mesma apascentásseis
vossos pequenos cordeiros e me guardásseis, me apascentásseis, por
favor, com eles. E vós, Madre querida, atendendo um pouco ao meu
justo desejo, guardastes os cordeirinhos com as ovelhas, mas
ordenando-me que fosse muitas vezes fazê-las pastar na sombra, que
lhes indicasse as melhores ervas e as mais fortificantes, que lhes
mostrasse as flores brilhantes que nunca devem tocar a não ser para
esmagá-las com os pés… Não receastes, Madre querida, que eu
extraviasse vosso cordeirinhos; minha inexperiência, minha juventude
não vos atemorizaram. Talvez tenhais recordado que, muitas vezes, o
Senhor se compraz em conceder a sabedoria aos pequenos e que, um
dia, num impulso de alegria, bendisse a seu Pai por ter ocultado seus
segredos aos sábios e tê-los revelado aos pequenos. Sabeis, Madre
querida, pouco raras são as almas que não medem o poder de Deus
segundo seus próprios pensamentos, aceitam que em todo lugar na
terra haja exceções, mas recusam a Deus o direito da fazê-las. Sei que
essa maneira de [medir] a experiência aos anos vividos se pratica há
muito tempo entre os humanos, pois na sua adolescência o santo rei
Davi cantava ao Senhor: “Sou jovem e desprezado”. No mesmo salmo
118, não receia dizer: “Tornei-me mais prudente que os ancião porque
busquei vossa vontade… Vossa palavra é a lâmpada que ilumina meus
passos… Estou pronto para cumprir vossa ordens; nada me perturba…”
Madre querida, não receastes dizer-me, um dia, que Deus iluminava a
minha alma, que até me dava a experiência dos anos… ó Madre! sou
pequena demais para ter vaidade agora; sou ainda pequena demais
para elaborar belas frases para vos fazer crer que tenho muita
humildade, prefiro acreditar, simplesmente, que o Todo-Poderoso fez
grandes coisas na alma da filha de sua divina Mãe e a maior é ter-lhe
mostrado a sua pequenez, sua impotência. Madre querida, sabeis muito
bem, Deus se dignou fazer minha alma passar por provações de
diversas espécies, sofri muito desde que estou na terra mas se, na
minha infância, sofri com tristeza, não é mais assim que sofro
atualmente, é na alegria e na paz. Sou verdadeiramente feliz em sofrer.
Ó Madre, é preciso que conheçais todos os segredos da minha alma para
não sorrirdes ao lerdes estas linhas, pois será que existe uma alma
menos provada que a minha, se julgarmos pelas aparências? Ah! se a
provação que sofro há um ano aparecesse aos olhares, que surpresa!..
Madre querida, sabeis qual é essa provação, mas vou falar-vos dela
ainda, pois considero-a uma grande graça recebida sob vosso priorado
abençoado.
No ano passado, Deus permitiu-me o consolo de observar o jejum da
quaresma em todo o seu rigor. Nunca me sentira tão forte e essa força
manteve-se até a Páscoa. Porém, na Sexta-Feira santa, Jesus deu-me a
esperança de ir vê-lo em breve, no Céu… Oh! como me é suave essa
lembrança! Após ter ficado junto ao túmulo até a meia-noite, regressei à
nossa cela, mas apenas coloquei a cabeça no travesseiro senti um fluxo
subir, subir borbulhando até meus lábios. Não sabia de que se tratava,
mas pensei que, talvez, fosse morrer e minha alma estava inundada de
alegria… Mas, como nossa lâmpada estava apagada, disse a mim
mesma que era preciso esperar o amanhecer para ter certeza da minha
felicidade, pois parecia-me ser sangue que eu tinha vomitado. O
amanhecer chegou logo. Ao acordar, pensei imediatamente ter alguma
coisa alegre a constatar. Perto da janela, pude verificar meu
pressentimento… Ah! minha alma ficou repleta de uma grande
consolação; estava intimamente persuadida de que Jesus, no dia do
aniversário da sua morte, queria me deixar perceber um primeiro
chamado. Era como um suave e longínquo murmúrio que me anunciava
a chegada do Esposo…
Assisti com grande fervor à Prima e ao capítulo dos perdões. Estava
ansiosa para que chegasse a minha vez, a fim de poder, pedindo
perdão, confidenciar a vós, querida Madre, minha esperança e minha
felicidade. Acrescentei que não tinha dor nenhuma (o que era verdade)
e pedi-vos, Madre, que nada me désseis de particular. De fato, tive o
consolo de passar a Sexta-feira Santa como eu queria. Nunca as
austeridades do Carmelo pareceram-me tão deliciosas. A esperança de
chegar ao Céu arrebatava-me de alegria. À noite desse feliz dia, foi
preciso repousar, mas Jesus deu-me o mesmo sinal de que meu
ingresso na vida eterna estava próximo… Gozava então de uma fé tão
viva, tão clara, que o pensamento do Céu era toda a minha felicidade,
não podia crer na existência de ímpios desprovidos de fé. Acreditava
que falavam contra o próprio pensamento ao negar a existência do Céu,
do belo Céu onde o próprio Deus quer ser a recompensa eterna. Nos
dias tão alegres do tempo pascal, Jesus fez-me sentir haver almas sem
fé que, por abuso das graças, perdem esse precioso tesouro, fonte das
únicas alegrias puras e verdadeiras. Permitiu que minha alma fosse
invadida pelas mais densas trevas e que a idéia do Céu, tão suave para
mim, não passasse de tema de combate e tortura… Essa provação não
devia durar apenas alguns dias, algumas semanas, só devia desaparecer
na hora marcada por Deus e… essa hora não chegou ainda… Gostaria
de poder expressar o que sinto, mas creio ser impossível. É preciso ter
andado por esse túnel escuro para compreender a escuridão. Mas vou
tentar explicar por meio de uma comparação.
Imagino ter nascido num país envolvido por um denso nevoeiro. Nunca
contemplei o risonho aspecto da natureza, inundada, transfigurada pelo
sol brilhante; desde minha infância, ouço falar dessas maravilhas, sei
que o país em que estou não é a minha pátria, que existe outro com o
qual devo sonhar sempre. Não se trata de uma história inventada por
um habitante do triste país em que estou, mas é uma realidade
comprovada, pois o Rei da pátria do sol brilhante veio viver trinta e três
anos no país das trevas. Ai! as trevas não entenderam que esse Rei
divino era a luz do mundo… Mas, Senhor, vossa filha entendeu vossa
divina luz, pede-vos perdão pelos seus irmãos, aceita comer, pelo tempo
que quiserdes, o pão da dor e não quer levantar-se desta mesa coberta
de amargura onde comem os pobres pecadores antes do dia marcado
por vós… Mas não pode ela dizer em seu nome e em nome dos seus
irmãos: Tendes piedade de nós, Senhor, pois somos pobres
pecadores!?… Oh! Senhor, mandai-nos justificados para casa… Que
todos aqueles que não estão iluminados pela luz resplandecente da fé a
vejam finalmente luzir… Ó Jesus, se for preciso que a mesa por eles
maculada seja purificada por uma alma que vos ama, aceito comer
sozinha o pão da provação até o momento que vos agradar introduzirme
em vosso reino luminoso. A única graça que vos peço é a de nunca
vos ofender!…
Madre querida, o que vos escrevo não tem seqüência lógica. Minha
historiazinha que se assemelhava a um conto de fadas transformou-se
de repente em oração. Não sei do interesse que teríeis em ler todos
estes pensamentos confusos e mal expressos. Enfim, Madre, não
escrevo uma obra literária, mas por obediência. Se vos aborreço, vereis,
pelo menos, que vossa filha mostrou boa vontade. Portanto, e sem
desanimar vou prosseguir com minha comparaçãozinha, a partir do
ponto em que a deixei. Dizia que a certeza de, um dia, ir longe do país
triste e tenebroso me fora dada na infância; não acreditava apenas no
que ouvia dizer por pessoas mais instruídas que eu, mas sentia no fundo
do meu coração aspirações por uma região mais bonita. Assim como o
gênio de Cristóvão Colombo levou-o a pressentir a existência de um
novo mundo quando ninguém tinha pensado nisso, também eu sentia
que outra terra me serviria de morada estável, um dia. Mas, de repente,
o nevoeiro que me envolve torna-se mais denso, invade minha alma, e
a envolve de tal maneira que não me é mais possível ver nela a imagem
da minha pátria. Tudo se evaporou! Quando quero que meu coração,
cansado das trevas que o envolvem, repouse com a lembrança do país
luminoso ao qual aspiro, meu tormento aumenta. Parece-me que as
trevas, pela voz dos pecadores, me dizem zombeteiras: “Sonhas com a
luz, com uma pátria perfumada pelos mais suaves olores, sonhas com a
eterna posse do Criador de todas essas maravilhas, acreditas um dia
poder sair do nevoeiro que te envolve, avança, avança, alegra-te com a
morte que não te dará o que esperas, mas uma noite ainda mais
profunda, a noite do nada”.
Madre querida, a imagem que quis vos dar das trevas que envolvem
minha alma é tão imperfeita quanto um esboço comparado com o
modelo. Porém, não quero escrever mais, receio blasfemar… receio até
ter falado demais…
Ah! que Jesus me perdoe se o magoei, mas ele sabe que, embora sem o
gozo da Fé, procuro, pelo menos, realizar as obras. Creio ter feito mais
atos de fé, neste último ano, do que em toda a minha vida`. A cada
nova ocasião de luta, quando meus inimigos vêm me provocar,
comporto-me com bravura; por saber que é covardia bater-se em duelo,
viro as costas para meus adversários”, sem dignar-me olhá-los de
frente, mas corro para meu Jesus, digo-lhe que estou pronta para
derramar até a última gota do meu sangue” para confessar que o Céu
existe. Digo-lhe que estou feliz por não gozar desse belo Céu na terra, a
fim de que Ele o abra para a eternidade aos pobres incrédulos. Assim,
apesar dessa provação que aparta de mim todo o gozo, posso clamar:
“Senhor, vós me cumulais de alegria” por tudo o que fazeis” (SL XCI).
Pois existe alegria maior que a de sofrer pelo vosso amor?… Mais
interior é o sofrimento, menos aparece aos olhos das criaturas, mais ele
vos alegra, ó meu Deus; mas se, por impossível que fosse, devêsseis
ignorar meu sofrimento, ainda seria feliz de suportá-lo se, por meio
dele, eu pudesse impedir ou reparar uma única falta cometida contra a
Fé…
Madre querida, talvez vos pareça que exagero minha provação; de fato,
se julgais a partir dos sentimentos expressos nas pequenas poesias que
escrevi durante este ano, sou uma alma repleta de consolações e para
quem o véu da fé está quase rasgado. Mas… não é mais um véu para
mim, é um muro levantado até os céus e que encobre o firmamento
estrelado… Quando canto a felicidade do Céu, a eterna posse de Deus,
não sinto alegria alguma, pois só canto o que quero crer. Às vezes, é
verdade, um raiozinho de sol vem iluminar minhas trevas; então, a
provação cessa por um instante, mas depois a recordação desse raio,
em vez de causar-me alegria, torna minhas trevas ainda mais densas.
Oh Madre! nunca senti tão bem como o Senhor é compassivo e
misericordioso, só me mandou essa provação no momento em que tive
a força para suportá-la, creio que, mais cedo, ela me teria mergulhado
no desânimo… Agora, subtrai-me tudo o que poderia se encontrar de
satisfação natural no desejo que tinha do Céu… Madre querida pareceme
que agora nada me impede de levantar vôo, pois não tenho mais
grandes desejos a não ser o de amar até morrer de amor… (9 de junho)
Madre querida, estou muito assustada vendo o que vos escrevi ontem.
Que garranchos!… minha mão tremia tanto que me foi impossível
prosseguir e agora até me arrependo por ter tentado escrever, espero
hoje escrever de forma mais legível, pois não estou mais na cama, mas
numa bonita poltrona branquinha.
Oh Madre! sinto que tudo o que vos digo não tem ordem, mas sinto
também a necessidade de, antes de vos falar do passado, falar-vos dos
meus atuais sentimentos. Se adiar, perderei, talvez, a lembrança deles.
Quero dizer-vos, inicialmente, o quanto estou comovida por vossas
delicadezas maternas. Ah! acreditai, Madre querida, o coração da vossa
filha está repleto de gratidão, nunca esquecerá o que vos deve…
Madre, o que mais me comove é a novena que estais fazendo para
Nossa Senhora das Vitórias, as missas que mandais celebrar para minha
cura. Sinto que todos esses tesouros espirituais fazem um bem imenso
à minha alma. No início da novena, dizia-vos, Madre, que era preciso a
Santíssima Virgem curar-me ou me levar para os Céus, pois achava
muito triste para vós e para a comunidade ter o encargo de uma jovem
religiosa doente; agora, aceito ficar doente a vida toda se isso for
agradável a Deus e consinto, até, em que minha vida seja muito longa.
A única graça que desejo é que ela seja interrompida pelo amor.
Não! não receio um vida longa, não recuso a luta, pois o Senhor é a
rocha na qual estou erigida, ele é quem adestra minhas mãos para a liça
e meus dedos para a guerra. Nunca pedi a Deus para morrer jovem,
mas é verdade que sempre esperei que seja essa a vontade Dele.
Muitas vezes, o Senhor contenta-se com o desejo de trabalhar para sua
glória e sabeis, Madre, que meus desejos são muito grandes. Sabeis
também que Jesus me ofereceu mais de um cálice amargo, que afastou
dos meus lábios antes de eu bebê-lo, não sem antes me fazer provar
seu amargor. Madre querida, o santo rei Davi tinha razão quando
cantava: “Oh! como é belo, como é prazeroso o convívio de muitos
irmãos juntos!” Senti isso muitas vezes, mas é no meio dos sacrifícios
que essa união deve acontecer na terra. Não foi para viver com minhas
irmãs que vim para o Carmelo, foi unicamente para atender ao cham