Reservas encontradas no Nordeste podem reduzir o preço pela metade, mas exploração exige investimentos altos e obrigará Petrobras a buscar parceiros

A Petrobras tem uma grande oportunidade para reescrever seu nome na história. Abalada pelos escândalos de corrupção dos últimos anos, a estatal está prestes a desbravar uma nova fronteira – a mais promissora desde a descoberta do pré-sal, em 2006. São seis descobertas em águas profundas na Bacia de Sergipe-Alagoas que podem ser responsáveis por cerca de 20 milhões de m³ por dia de gás natural, correspondente a um terço da produção atual no País.

Cálculos da consultoria Gas Energy, considerando os valores de hoje, apontam que a descoberta deve gerar R$ 7 bilhões anuais para a  Petrobras e seus futuros sócios. Mais do que isso, significa um aval para o plano do ministro da economia, Paulo Guedes, de usar o gás como o propulsor de uma nova onda de desenvolvimento no País.

Na região, há ainda um volume não revelado de óleo leve de excelente qualidade. Para tirar essa riqueza do fundo do mar serão precisos investimentos robustos em navios-plataformas (FPSOs), uma nova infraestrutura de 128 km de gasoduto para o escoamento do gás e uma unidade de tratamento em terra.

Segundo o Ministério de Minas e Energia , apenas para delimitar o reservatório e construir um gasoduto até a costa, a estatal vai investir US$ 2 bilhões até o fim deste ano. Com quase todos os seus recursos comprometidos com a exploração do pré-sal no Sudeste, a estatal busca sócios e colocou à venda as participações que possui nestas seis áreas da Bacia de Sergipe-Alagoas: Cumbe, Barra, Farfan, Muriú, Moita Bonita e Poço Verde. A ideia é se capitalizar para conseguir manter a operação.

O Plano de Negócios e Gestão 2019-2023 da estatal já contempla a contratação de um navio-plataforma na região com capacidade para produzir 100 mil barris por dia. Em nota, a empresa informou que estudos sobre esse projeto estão em fase inicial e que, ainda este ano, iniciará um teste de longa duração na área de Farfan “com o objetivo de obter informações que subsidiarão os estudos para uma melhor caracterização da rocha-reservatório e dos fluidos”.

A licença que o Ibama concedeu para a instalação de um navio-plataforma na região termina no dia 31 de julho. O mercado observa atento a movimentação de petroleiras. A ExxonMobil tem demonstrado otimismo com o investimento em áreas adquiridas em leilão ao lado das concessões da Petrobras. Em fevereiro, a norte-americana iniciou o licenciamento de 11 poços exploratórios na região. O mais perto da costa está a 67 km da cidade de Brejo Grande, em Sergipe.

O presidente da Gas Energy, Rivaldo Moreira Neto, avalia que os investimentos podem mudar a história dos estados da região. “Sabemos que o gás não estará disponível amanhã, mas essas áreas têm sido alvo de outras petroleiras, que já demonstram interesses”, afirma Neto. “Isso é muito bom porque a Petrobras vai poder compartilhar os riscos e o custo de desenvolver essas áreas e, assim, potencializar o projeto sem comprometer seu caixa, até porque o foco da empresa continua sendo o pré-sal .”

Para ele, a região deve render mais do que os R$ 7 bilhões previstos, pois ainda não se conhece o potencial petrolífero da área recém-descoberta.

O pré-sal ainda é a prioridade. A descoberta elevou o patamar do Brasil na cena energética mundial e passou a ser usado politicamente como uma fonte promissora de riqueza. As áreas já confirmadas colocaram o Brasil na sexta posição de reservas de óleo e gás. “Não tem nada igual no mundo, é uma conquista da empresa e algo a ser louvado”, afirma Magda Chambriard, consultora da FGV Energia e ex-diretora-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

Segundo ela, a Petrobras já conseguiu alcançar um ganha de escala “fabuloso” na extração do pré-sal, com um custo de extração menor do que US$ 7 por barril, a mais de dois mil metros da lâmina d’água e a quase 300 km da costa. Com o esforço para levantar recursos com a venda de ativos , o investimento já realizado no navio-plataforma para a região Sergipe-Alagoas não deixa dúvidas de que a estatal encara a região como a próxima fronteira depois do pré-sal.

Gasodutos no interior

A preocupação agora é como desenvolver o mercado de gás que dê conta de tamanho volume que sairá da bacia. “O Brasil precisa pensar em como desenvolver este mercado. Temos o gasoduto Gasene, ligando as regiões Nordeste e Sudeste, gasodutos no Norte do País e um grande clarão no Centro-Oeste. É preciso interiorizar os gasodutos”, afirma Chambriard. “Queimar gás significa perder o valor de uma energia que o mundo está disputando. A sociedade brasileira está carecendo de combustível a preços aceitáveis e acessíveis.”

Para evitar esse cenário, o Ministério da Economia está finalizando um plano para aumentar a competição na distribuição do gás, unificar a regulação entre estados e União e ampliar a integração com a indústria e o setor elétrico.

Com um custo duas vezes superior ao do México, o gás hoje representa 12% da matriz brasileira. O plano do governo federal deve promover uma redução de 50% na tarifa e será capaz de destravar cerca de R$ 200 bilhões em investimentos, estima o ministério da Economia.

Em encontros com agentes do setor, o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque , sinalizou diversas vezes estar ciente da urgência do tema, disse esperar um mercado dinâmico, competitivo e integrado à matriz energética. Chegou ainda a prometer a expansão de cerca de 5.000 MW de usinas de energia a gás natural até o ano de 2027. A expectativa do mercado é que o ministro cumpra com o prometido e que a versão final do plano seja divulgada até o fim do mês.

Fonte: Economia – iG 

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