Governo anunciou corte de 43% no orçamento do Ministério do Meio Ambiente, ao qual o Ibama está vinculado

MANAUS — Seis dias antes do previsto, Benedito de Souza removeu a areia, em busca do ninho de tartarugas-da-amazônia que escondeu semanas atrás dos predadores. Estava tão escondido que demorou a encontrá-lo e, quando conseguiu, se surpreendeu com as dezenas de filhotes em debandada.

Durante a seca, o sinuoso rio Purus, ao sul da Amazônia brasileira, recua, deixando em descoberto vastas praias onde milhares de tartarugas desovam a cada ano. Das embarcações são visíveis as pegadas, um rastro que os caçadores aproveitam, o que deixa Benedito obcecado.

— São como meus filhos — diz, à beira das lágrimas, improvisando um saco com sua camiseta para recolher rapidamente os velozes répteis, os primeiros a nascer na temporada.

O líder comunitário fez seu primeiro curso ambiental em 2007 e, com outros vizinhos, cuida das margens na reserva protegida Médio Purus durante a desova, entre junho e novembro.

As tartarugas-da-amazônia, que chegam a medir um metro, ainda não são consideradas ameaçadas, mas “de fato estão”, esclarece Roberto Lacava, diretor do Programa Quelônios da Amazônia, vinculado ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama), que visa a proteger as espécies amazônicas de tartarugas em seus habitats de forma sustentável.

Com apenas vinte funcionários para oito estados, o programa depende de voluntários no Amazonas que, com uma superfície maior que a do vizinho Peru, representa um desafio em particular.

Ali se inserem os moradores do Médio Purus que desde 2014 perderam apoio econômico do Ibama. Vendo a atividade ilícita como mais rentável, voluntários treinados aproveitaram seus conhecimentos para virar traficantes.

— Muitos esperavam ser remunerados e como não foram, se tornaram predadores — explica Benedito, acomodando os filhotes em um tanque para levá-los a um lago, aumentando suas chances de sobrevivência.

Este ano, o governo anunciou um corte de 43% no orçamento do Ministério do Meio Ambiente, ao qual o Ibama está vinculado, e o presidente Michel Temer vem colecionando críticas sobre seu posicionamento no tema ambiental.

— De fato é uma preocupação bem grande. Houve uma redução bem drástica, teremos que enviar menos servidores a campo e isso pode se mostrar, ter algum impacto grande nos resultados que a gente vem obtendo — avalia Lacava.

‘SEM PERNAS PARA CUIDAR DA REGIÃO’

O cacique Zé Bajaga é coordenador técnico da Fundação do Índio (Funai) em Lábrea, cidade situada no Médio Purus. “Aqui é difícil. Estamos sem recursos, sem pessoal e sem pernas para cuidar da região”, diz, pouco após retornar da primeira operação de fiscalização ambiental na área desde 2015.

— O ideal seria realizar três por ano, mas por falta de recursos, terminamos fazendo uma a cada dois anos — lamenta.

Após quase um mês rio acima, em um trajeto que remete a imagens de “Fitzcarraldo”, de Werner Herzog, Bajaga constatou que as populações de quelônios e peixes não haviam aumentado em vários locais, devido à captura ilegal.

— O comércio ilegal cresce na ausência do Estado — afirma Ana Torres, coordenadora do Programa de Manejo de Pesca do Instituto Mamirauá, baseado em Tefé, Amazonas.

O programa de proteção iniciado em 1997 tem entre seus protagonistas o pirarucu, ameaçado desde 1975, segundo a lista de espécies ameaçadas da convenção Cites. Com dezenas de dentes e escamas tão grandes e duras que são usadas pelos ribeirinhos como lixa de unhas, o pirarucu, que chega a pesar 220 quilos e medir quase três metros, é um dos maiores peixes de água doce do mundo.

— Se consideramos os números em termos de estoque, poderíamos dizer no estado do Amazonas que recuperamos a população — afirma Torres.

No Médio Purus, o pirarucu é encontrado em 200 lagos, mas só 16 têm programas de manejo, explica José de Oliveira, gestor local do Instituto Chico Mendes para a Conservação da Biodiversidade (ICMBio). No lago da Sacada, o primeiro a adotar o programa de manejo na reserva, Ednildo de Souza — filho de Benedito — e Cristóvão de Breto pescam.

— Melhorou quando se legalizou — afirma Ednildo, enquanto ergue um peixe que se revira na rede. — Só 50 quilos, é pequeno — avalia, antes de soltá-lo. O manejo só permite pescar exemplares com mais de 1,5 metro.

RISCO DE ‘DESASTRE ECOLÓGICO’

Durante a seca, o acesso aos lagos é estreito, limitando a passagem de grandes embarcações. No entanto, Zé Bajaga afirma que o tráfego está aumentando.

— Sem vigilância, o programa de manejo perde força. Aqui precisamos, pra ontem, de uma força-tarefa — diz.

Para as tartarugas-da-amazônia, o panorama não é diferente.

— Apenas um ano sem vigilância pode ser suficiente para que a espécie seja extinta localmente — diz Lacava.

— O Estado sempre esteve ausente e nunca houve uma política de investimento ambiental de fato (…) Nosso enfoque é o que a gente pode fazer para mudar isso — explica Ana Torres.

Além do tráfico, fatores climáticos e a construção de hidroelétricas na Amazônia ameaçam os animais, diz Lacava. No sul do município também avança o desmatamento.

— A situação aqui é muito perigosa — alerta Zé Bajaga. — Estamos à beira de um desastre ecológico.

Fonte: O GLOBO

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