Uma parte desta história é contada no Jornal Informativo Boa Esperança nº 004 in memoriam de Jose Gabriel Martins Vale conhecido por Biel que morava no Bairro Jardim Maracanã. Biel infelizmente veio a falecer em 23 de outubro de 2008 depois de ter publicado a 5º edição de seu informativo que relatava várias histórias de Seropédica.

Entre suas histórias ele relatou a morte de uma Princesa filha ilegítima de Dom Pedro II, Maria Angélica de Almada, que nasceu no ano de 1846 e faleceu em 1869, e foi sepultada em um Cemitério que hoje está abandonado próximo a Igreja Imaculada Conceição no bairro Jardim Maracanã.

Em sua lapide está escrito “Aqui Jaz Maria Angélica de Almada, nascida em 6 de maio de 1846 e falecida em 25 de agosto de 1869. “Tributo de Amor Conjugal”. Moradores mais antigos relatam que Maria Angélica morreu de amor por um homem casado. Na parte do fundo deste cemitério eram enterrados os escravos, onde dizem ser mal-assombrado.

Biel relata em seu jornal que as pessoas enterradas ali eram pessoas de posses com condições de naquele tempo de fazer túmulos de mármore de Carrara importados da Itália, com muitos enfeites, inclusive com adorno em ouro. Por este motivo os túmulos foram todos saqueados e destruídos.

Aquele local era conhecido como Feitoria do Bananal ou Fazenda do Peri Peri, também chamada Feitoria Imperial do Peri Peri, era uma das três feitorias (sub-sedes) da Fazenda Imperial de Santa Cruz. Sendo as outras, as feitorias de Santarém e do Bom Jardim.

A Feitoria do Peri Peri foi frequentada pela família imperial, em especial Dom Pedro I e se localizava na antiga Freguesia de N. S. da Conceição do Bananal no Jardim Maracanã, estabelecida onde hoje é a divisa do município de Seropédica com Japeri. Toda esta região fazia parde de “Itaguahy” e se localizava em terras da Fazenda Imperial de Santa Cruz. 

Na época que a Fazenda de Santa Cruz ainda pertencia aos jesuítas, isto é, até meados do século XVIII, houve no posterior Peri Peri um quilombo, chamado Quilombo do Valão da Areia, que foi aniquilado após a expulsão dos jesuítas.

Nas proximidades se estabeleceu uma fábrica de farinha, de propriedade do poderoso Ignácio de Andrade Souto Maior Rondon, o comandante geral das milícias do litoral. Nesta mesma região, surgiu depois, por volta de 1860, o Quilombo do Garcia, apelidado jocosamente assim, por ter sido criado pelo escravizado Fernandes e outros companheiros que lutavam contra os desmandos e mau tratos de José Ignácio Garcia, então superintendente da Fazenda de Santa Cruz.

A administração de Garcia foi um desastre em todos os sentidos, desde os maus tratos aos escravos, falta de manutenção nas benfeitorias da fazenda, desvio de verbas, além de outra medidas arbitrárias, como proibição da venda de produtos da roça própria dos escravos, que só podiam vender para Garcia, por preços irrisórios, pois o mesmo possuía uma taverna na região. Ele era a personificação da corrupção e algumas fontes afirmam que foi assassinado.

A feitoria também foi chamada de Piripiry, Peripery, Piri piri, Peri-Peri e de tantas outras formas parecidas. A origem do nome é o tupi “piri”, que significa junco, planta que nasce em terrenos aladadiços, também chamada táboa.
 
Em alguns mapas antigos a feitoria é assinalada ao norte da Freguesia do Bananal e em outros ao sul. Isso se deve por compreender uma grande área. Analisando registros antigos, tudo indica que a Feitoria do Peri Peri se localizava onde hoje é o Jardim Maracanã e seu limites iam desde o Valão da Areia (fundos do DCMUN Paracambi), Jardim Marajoara, em Japeri, até o Incra, em Seropédica. Registros também dão como vizinhos os Engenhos do Campo Alegre (atual bairro Campo Alegre) e do Morgado de Marapicu, ambos em Nova Iguaçu. Próximo a feitoria passava a importante Estrada do Mato Grosso.
 

Foi nesse local esquecido pela história, que no início do século XIX, Dom Pedro I teve seus primeiros encontros com sua amante, Domitila de Castro, a futura Marquesa de Santos. Depois os encontros ocorreram na Fazenda de Santa Cruz, e com o tempo, mais descaradamente em São Cristóvão.

Pouco antes das aventuras com o imperador, Domitila havia sofrido, em 1819, um atentado a facadas de seu primeiro marido, o alferes do regimento de cavalaria de Minas, Felicio Pinto Coelho de Mendonça, por suspeita de traição, com D. Francisco de Lorena, colega de farda.

Após 1822, ao enveredar no relacionamento com o imperador, deu entrada no pedido de divórcio, que costumava ser bem demorado. Foi em 1824 e em menos de 48 horas tomou-se a justificação preparatória e menos de uma semana depois, já havia sentença contra Felicio Pinto Coelho de Mendonça. Por motivos inexplicáveis, seu ex-marido deixa o processo correr a revelia, em favor de Domitila, que consegue o divórcio rapidamente.

Curiosamente, na mesma semana, Felicio Coelho recebe o cargo de administrador da Feitoria do Peri Peri. Tudo indica que se tratava de um “cala boca”. Este cargo lhe dava uma renda de 20$000 mensais! O reverendo José Caetano de Aguiar, vigário colado que deu a sentença favorável, depois chegou a senador do império.

Domitila deu a luz a uma filha de Dom Pedro I, a futura Duquesa de Goiás, apenas dois dias após a sentença do divórcio. Enquanto se proclamava sua boa conduta no processo, talvez já estivesse a sentir as primeiras dores do parto da filha de seu amante imperial. Sem entrar no mérito da traição, o divórcio foi justo, pois Felicio Coelho era um “traste”.

Nos anos seguintes Felicio Coelho tenta, através de uma carta, a intercessão de Domitila junto ao imperador, a fim de ser nomeado sargento-mór da Freguesia do Pilar e Serro. Não tendo sido atendido, escreveu outra carta a difamando.

A carta chega as mãos do seu imperial amante. Foi quando num ato impulsivo, numa noite chuvosa, Dom Pedro I cavalga por incríveis 12 léguas que separam São Cristovão da Feitoria do Peri Peri, para então esbofetear seu antecessor, obrigando também a assinar um documento onde se compromete a não difamar mais a Domitila, sob pena de levar uma surra completa. Após a agressão, o imperador tratou de retornar debaixo de chuva para São Cristovão. Nada menos que 162 kilometros (ida e volta) em menos de 24 horas! Parece lenda? Mas não é. Diversas fontes antigas confirmam esse ocorrido.

“Sua Ex. o Tutor de S. magestade Imperial, e de suas Augustas Irmães, tem-me authorizado para annunciar, que as Feitorias de Santarem, Bom Jardim, e Peripiry annexas á Fazenda Nacional e Imperial de Santa Cruz, sob minha Superintendencia vão a ser arrendadas: por tanto todas as pessoas que pertenderem taes arrendamentos, pódem dirigir-se ao Escriptorio da mesma Fazenda, ou á Secretaria da Casa Imperial para verem as condições. Rio de Janeiro 13 de Novembro de 1832. Francisco Manoel de Moraes.” (Diário do Rio de Janeiro)
 

Após o primeiro contrato, o arrendatário é despejado, conforme registro de 1835:

“S. Ex. informa ainda que os arrendatários das feitorias de Bom-Jardim e de Santarém vão cumprindo os seus engajamentos, e que pela razão contraria fôra despejado judicialmente o arrendatario de Peripery; que se trata de liquidar as contas apresentadas com notavel exageração pelo administrador…” (Annaes do Parlamento Brasileiro)

Talvez o despejado era o Coronel Ornellas, que em 1835 foi o arrendatário. Mas a notícia não cita o nome. Ainda em 1835, a feitoria é anunciada novamente:

“Arrenda-se a quem maiores vantagens offerecer, a Fazenda denominada Peripery, em terras de Santa Cruz, com escravatura, boiada, engenho de cana, etcs. Quem quizer ver as condições. dirija-se á Secretaria da Casa Imperial, todos os dias uteis, das 10 horas da manhã às 2 da tarde.” (Jornal do Commercio).

 
Recorte de mapa do início do século XIX, onde aparece a Feitoria do Peri Peri vizinha a Ignácio de Andrade Souto Maior Rondon, Barão (depois Marquês) de Itanhaém e Morgado de Marapicu. Nesta época ainda não havia sido criada a Freguesia do Bananal. Fonte: Biblioteca Nacional.
 
Após o arrendamento do Coronel Ornellas, a feitoria é arrendada para o Padre Francisco Moreira Corrêa da Silva em 1836. Não se sabe o motivo, mas ainda no mesmo ano a feitoria é novamente arrendada, conforme outra notícia:

“Arrendamentos – Diz-se que a Feitoria do Piri-Piri com 72 escravos, pertencente á Fazenda de Santa Cruz, fôra arrendada pelo filho do Sr. Marquês de Itanhaem por 1:200$000 réis. Só os jornaes dos escravos sáem a 46 réis por dia!!! A caridade bem ordenada principia por casa.” (Jornal O Sete d’Abril)

O Marquês de Itanhaem foi um grande fazendeiro de Marapicu, localidade vizinha. A notícia em tom de protesto sugere que havia algo errado no contrato de arrendamento, que foi feito a seu filho, pois nesta época, após a prisão de José Bonifácio, o Marquês de Itanhaém era o tutor de Dom Pedro de Alcântara, então com 8 anos, e suas irmãs. Ele que tinha o poder de decisão, arrendou para seu próprio filho.

Na fim da década seguinte, até 1849, a feitoria do Peri Peri foi administrada por Ladisláo José dos Reis e a partir de 1850, por Ignacio Rodrigues Pinheiro da Silva. Em 1862 a Feitoria do Peri Peri estava arrendada para Manoel Antonio de Araujo. Nesta época ocorre um fato curioso no local, que foi utilizado para falsificação de notas falsas:

“Partirão ante-hontem para Itaguahy, onde vão ser julgados, varios individuos indiciados no crime de falsificação de moeda-papel, que havião estabelecido sua fabrica na fazenda do Piripiri. Entre elles ha um tenente da guarda nacional (…) Entre os compromettidos no crime de tentariva de moeda falsa, descoberto na fazenda do Piripiri foi comprehendido Manoel Antonio de Araujo que foi também condemnado em galés por 10 annos, na Ilha de Fernando…” (Correio Mercantil)

 
Recorte de mapa do início do século XIX, onde aparece a Feitoria do Peri Peri vizinha a Ignácio de Andrade Souto Maior Rondon, Barão (depois Marquês) de Itanhaém e Morgado de Marapicu. Nesta época ainda não havia sido criada a Freguesia do Bananal. Fonte: Biblioteca Nacional.

 

Sobre esse mesmo fato, segue outro relato:

“…o Chefe de Policia recebeu denuncia de que alguns indivíduos tratavam de montar, na fazenda de Periperi, na freguezia do Bananal, termo de Itaguahy, uma fabrica de notas falsas, estando já compradas as respectivas machinas e abertas as competentes chapas. Era verdadeira a denuncia; para lá se dirigiram as autoridades, encontrando a fabrica em franco fnccionamento, sendo presos os hespanhoes Pedro Martinez e Manoel Garcia Noboa e os brasileiros Antonio Dias da Silva, conhecido por “Pazão”, Manoel Antonio de Araujo, arrendatario da fazenda, Antonio da Silva Rangel, Manoel Antonio Pereira Junior, José Alvares, Francisco Antonio de Mendonça, Manoel Pinto Ferreira Vianna e Jeronmo Pires da Silva.” (Vida Policial)

Infelizmente não se tem a localização exata da sede da Feitoria do Peri Peri e dela não restou pedra sobre pedra!

Em anexo segue recorte de mapas da primeira metade do século XIX onde localizam as terras da feitoria. As imagens das ruínas são do início do século XX, últimos vestígios que testemunharam a existência desse local cheio de história!

Texto e pesquisa de Hugo Delphim, publicados originalmente na Página O belo e Histórico Rio de Janeiro

Fontes: Informativo Boa Esperança e Saiba História

Abaixo fotos onde ficava o Camitério da Feitoria do Bananal do Peri Peri

En memoriam de Jose Gabriel Martins Vale conhecido por Biel, falecido em 13 de outubro de 2008.