Vinte e cinco anos de uma história que se entrelaça com o início e a evolução das pesquisas sobre agroecologia e agricultura orgânica no Brasil. Implantado em 1993 e com uma área de 70 hectares, o Sistema Integrado de Produção Agroecológica (SIPA), mais conhecido como Fazendinha Agroecológica Km 47, situa-se em Seropédica, na baixada fluminense, e integra atividades de produção animal e vegetal.

O manejo prioriza a reciclagem de nutrientes e o uso de desenhos de diferentes sistemas agrícolas, que envolvem rotações e consórcios de culturas, além da presença de espécies arbustivas e arbóreas como elementos de diversificação da paisagem. A pecuária leiteira é manejada com o emprego da homeopatia veterinária e de princípios de bem-estar animal, e todo o espaço é mantido de forma a conviver, em níveis toleráveis, com as populações de fitoparasitas e de ervas espontâneas, sem o emprego de técnicas que representem impactos negativos de natureza ecotoxicológica.

Ciência e tecnologia aplicadas no campo: conheça nossas pesquisas

Em 25 anos de história, a presença de uma equipe multidisciplinar viabilizou, a partir de muita pesquisa e dedicação, a geração de mais de 40 tecnologias, além do resgate de espécies vegetais tradicionais e da introdução e adaptação de inúmeras plantas ao manejo orgânico, especialmente hortaliças. Conheça as principais linhas de pesquisa trabalhadas na Fazendinha Agroecológica.

Hortaliças orgânicas

Na Fazendinha, um módulo destinado ao cultivo orgânico de hortaliças busca gerar bases tecnológicas para agricultores que não têm acesso ao emprego de estercos para fertilização das culturas. São monitorados aspectos sobre as características do solo, as técnicas de cultivo das hortaliças, os custos monetários da produção e o ingresso e a saída de nutrientes. O sistema tem como princípio o cultivo de espécies destinadas à produção de biomassa – tanto para obtenção de material vegetal para formação de cobertura morta quanto para a adubação verde e o emprego de adubos orgânicos vegetais. O banco de produção de biomassa é desenhado em faixas, intercalando-se a leguminosa arbórea gliricídia e a gramínea capim-elefante. A adubação verde feita com leguminosas anuais, como a mucuna, o feijão-de-porco e a crotalária, é introduzida no período de primavera-verão, na forma de consórcio, principalmente junto ao milho, ou em áreas mantidas sob pousio. O sistema de produção é diversificado e compreende o cultivo de cerca de 20 espécies de hortaliças ao longo do ano, sobretudo o grupo das folhosas.

Bovinocultura leiteira

Um dos principais pilares da Fazendinha é a integração entre lavoura e pecuária, visando à otimização de recursos. No módulo de bovinocultura é produzido leite orgânico de acordo com as exigências da legislação brasileira. O sistema de manejo sanitário é baseado no bem-estar animal, no controle estratégico de parasitas e na terapêutica homeopática. Esse programa, baseado em práticas não convencionais para a manutenção da saúde do rebanho, é capaz de manter os animais em nível seguro de infecção, situação na qual a carga parasitária não é capaz de causar doença clínica nos bovinos. Além da manutenção da saúde, esse sistema possibilita a inexistência de resíduos de produtos veterinários no leite, na carne, no esterco e na urina dos animais, uma vez que não utiliza qualquer medicamento alopático (como antibióticos ou promotores de crescimento) nem produto veterinário destinado ao controle parasitário. Isso viabiliza o uso do esterco na produção orgânica de vegetais.

Manejo da paisagem

A Fazendinha possui um conjunto de estratégias de cultivo que leva em consideração o padrão de trocas existentes entre as áreas produtivas e naturais, de forma a garantir a sustentabilidade do sistema. O uso de espécies arbóreas em sistemas agroflorestais ou como cerca-viva, a existência de cultivos de cobertura do solo e a diversificação dos cultivos no espaço e no tempo são técnicas que criam áreas de abrigo e amenizam o microclima dos agroecossistemas, permitindo que diversas espécies de animais silvestres saiam dos fragmentos de vegetação nativa que habitam e, através do sistema produtivo, alcancem outros fragmentos, o que garante a diversidade genética dessas populações e sua busca por novas áreas de sobrevivência. O manejo da paisagem a partir da rotação de culturas e da presença de árvores na propriedade é um dos fatores de sucesso da Fazedinha, tanto do ponto de vista econômico como do aspecto ecológico.

Adubação verde

A adubação verde é utilizada na Fazendinha como uma estratégia para a produção de biomassa, auxiliando na proteção, na conservação dos níveis de umidade, na ciclagem de nutrientes e na manutenção da atividade biológica dos solos. Os adubos verdes, principalmente os da família das leguminosas, são capazes de adicionar ao solo nitrogênio proveniente da atmosfera, por meio do processo de fixação biológica. Assim, a presença dessas plantas amplia a diversidade funcional dos sistemas de produção e exerce importante papel na manutenção em níveis toleráveis de ervas espontâneas competidoras e no favorecimento de populações de insetos polinizadores e de inimigos naturais de pragas agrícolas. Foram desenvolvidos diversos arranjos populacionais de plantio dos adubos verdes consorciados com hortaliças folhosas, brássicas, raízes e de frutos. Os estudos também permitiram a inserção de novas espécies de leguminosas na adubação verde, como a Flemingia sp e a Crotalaria grahamiana.

Manejo fitossanitário

O manejo de pragas e doenças na Fazendinha é preventivo, tendo como base a adoção de um conjunto de estratégias, como diversificação de plantas, utilização de sementes ou materiais de propagação vegetativa sadios, uso de espécies ou variedades adaptadas às condições locais e uso de cultivares resistentes. Além disso, os fatores que acarretam estresse nas plantas, como falta de água e nutrientes, são constantemente avaliados. Quando a integração dessas práticas culturais não é capaz de evitar e conter doenças ou pragas em nível tolerável, são recomendadas medidas emergenciais, nas quais incluem-se a introdução de inimigos naturais para o controle biológico – entre eles predadores, parasitoides e patógenos (fungos, bactérias ou vírus) – e o uso de preparados caseiros como as caldas bordalesa e sulfocálcica e os biofertilizantes, como o Agrobio. Esse manejo e essas soluções emergenciais têm sido considerados um importante fator de sucesso nesse sistema de produção.

Reciclagem de resíduos

O aproveitamento de resíduos é uma estratégia muito utilizada na Fazendinha Agroecológica com o objetivo de elevar a sustentabilidade do sistema de produção, pois reduz as perdas de nutrientes, diminuindo a dependência por insumos externos à propriedade. A reciclagem evita que os nutrientes se acumulem em determinado compartimento enquanto são demandados em outros. O esterco bovino, a urina e o chorume produzidos no curral, por exemplo, são coletados e utilizados na produção vegetal. Resíduos da produção de hortaliças são utilizados para a alimentação de animais. A utilização do elemento arbóreo contribui para o aporte de nitrogênio ao sistema e promove a ciclagem de nutrientes presentes nas camadas mais profundas do solo. A compostagem, por sua vez, é utilizada para transformar resíduos vegetais em fertilizantes orgânicos. Todo esse conjunto é a base para o sucesso desse modelo de produção.

Fruticultura orgânica

O manejo orgânico de fruteiras tropicais engloba uma combinação de práticas culturais que prioriza a entrada de biomassa vegetal nos pomares, por meio de consorciação com espécies de plantas leguminosas arbustivas e cultivo de adubos verdes anuais de forma simultânea, juntamente com a avaliação de genótipos em cada espécie frutífera, com melhor desempenho em sistema orgânico de produção. Na Fazendinha são realizados estudos com ênfase em cultivares ou híbridos de fruteiras com tolerância ou resistência às principais pragas e doenças de cada espécie, bem como adaptações específicas para as condições das baixadas e encostas litorâneas do Estado do Rio de Janeiro. Avaliações físico-químicas que estabelecem os parâmetros de qualidade das frutas são realizadas por meio de cooperação com o Instituto de Engenharia de Alimentos da UFRRJ e a Embrapa Agroindústria de Alimentos. As áreas experimentais também são utilizadas para realização de práticas em diversos cursos de transferência de tecnologia.

Um espaço para educação agroecológica e formação de profissionais

 

 

No que concerne ao ensino, a formação de recursos humanos na Fazendinha é voltada ao atendimento de estudantes de nível técnico agropecuário, graduação – principalmente em Ciências Agrárias – e pós-graduação, sendo que diversos trabalhos de dissertações e teses são conduzidos nesse espaço. O local abriga, inclusive, o Centro de Formação em Agroecologia e Agricultura Orgânica (CFAAO), onde são ministradas as aulas do primeiro programa de mestrado profissional em agricultura orgânica do País.

Educação agroecológica

Uma das estratégias para fortalecer a agroecologia é a educação. A Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e o Colégio Técnico da UFRRJ (CTUR) são instituições de ensino que viabilizam a presença de estudantes em programas de estágio de ensino médio e graduação e em aulas-passeio, além de contribuírem com inúmeras dissertações de mestrado e teses de doutorado, possibilitando a difusão e a consolidação de conhecimentos.

Ao longo de 25 anos de história, milhares de estudantes passaram pela Fazendinha Agroecológica Km 47 em atividades educacionais. Hoje, muitos desses estudantes já são professores, pesquisadores e extensionistas, que têm esse espaço como referência, retornando a ele frequentemente para que as boas práticas agrícolas ali desenvolvidas possam ser replicadas em suas regiões de atuação.

Tanto o Colégio Técnico, com o curso técnico em agroecologia, quanto a UFRRJ, com o mestrado profissional em agricultura orgânica, têm utilizado esse espaço como campo experimental. Mais do que uma vitrine de tecnologias, a Fazendinha é um espaço de troca de saberes.

Galeria de fotos
 
I Seminário de integração do PPGAO, 2017 – Foto: Liliane Bello
Dia de Campo com estudantes da UFRRJ, 2014 – Foto: Liliane Bello
Capacitação de alunos do CTUR para atuação na Rio+20, 2012 – Foto: Liliane Bello
Estudantes do PPGAO em caravana para SP, na atividade Vivências em agricultura orgânica, 2015 – Foto: Arquivo pessoal

Troca de conhecimentos, transferência de tecnologias e extensão

 

 

 

Por ser um caso de sucesso na pesquisa no que se refere à transição agroecológica e ao manejo de agroecossistemas, a Fazendinha cumpre frequentemente a função de sensibilizar diversos atores envolvidos com a agroecologia e a produção orgânica. Esses momentos são muito importantes para o fortalecimento desse espaço, no qual agricultores, técnicos e outros pesquisadores trocam experiências e vida, somando-as ao conhecimento aqui gerado. Esse intercâmbio permite que a Fazendinha seja percebida como um campo experimental diferenciado, sendo um espaço de interação ensino-pesquisa-extensão agroecológica.

A Fazendinha é a âncora de uma série de projetos de transferência de tecnologias e extensão que possibilitam o intercâmbio de conhecimentso em relação à adoção e à adaptação de tecnologias, produtos, processos e serviços. Neste espaço são realizados cursos, dias de campo, palestras, visitas e reuniões técnicas, científicas e educativas para os mais diversos públicos. Em média, cerca de 1,8 mil visitantes são recebidos anualmente. São técnicos, pesquisadores, extensionistas, agricultores e estudantes, que buscam conhecer e aprender com os exemplos bem-sucedidos.

A Fazendinha também representa um espaço em que crianças em idade escolar têm seu primeiro contato com a ciência, em ações que compõem um dos roteiros do programa Embrapa & Escola.

Os resultados obtidos pela Fazendinha não estão restritos apenas a quem a conhece presencialmente, podendo ser observados nas ações de divulgação do conhecimento técnico e científico para o público em geral. Essas ações envolvem a participação em programas de rádio e televisão de emissoras como Rede Globo, Canal Rural e TV Futura, bem como de artigos publicados na grande mídia. Essa divulgação influencia diretamente no intercâmbio com vários Estados e até com outros países.

Visite a Fazendinha
As visitas à Fazendinha Agroecológica são realizadas, geralmente, entre os meses de maio e setembro, considerando que ela está localizada na Baixada Fluminense, cujas condições climáticas impõem uma série de limitações para o cutivo de hortaliças, em função das altas temperaturas e das chuvas de verão. Essa situação compromete o aspecto didático do sistema de produção, que nesse período entra em fase de manejo. A solicitação de agendamento das visitas deve ser feita por meio do Serviço de Atendimento ao Cidadão – SAC.