Um peixinho com pouco menos de três centímetros mobilizou cientistas e obrigou uma indústria gigante de alimentos a repensar sua fábrica em Seropédica (RJ).

A espécie de rivulídeo encontrada por biólogos é raríssima e possui características bem peculiares para sobreviver. O achado foi recebido com incredulidade pelos biólogos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), que trabalhavam com a hipótese de que a espécie estaria extinta.

As descobertas foram publicadas no mês passado em uma revista científica e trazem informações inéditas. O último encontro dos cientistas com o Leptopanchax opalescens ocorreu há oito anos, no Rio de Janeiro e, desde então, o peixinho não tinha sido mais mais visto.

A espécie só vive em poças d’água. Nada de rio, lago, água corrente. Só poças. Na época de chuva, esse tipo de rivulídeo deposita os ovos na poça. Na seca, todos morrem e os ovos permanecem enterrados. Os ovos eclodem quando a chuva cai novamente, e assim o ciclo se repete. As gerações não convivem entre si, e todos nascem órfãos.

As características frágeis e a vida passageira dos peixes da família rivulidae renderam a alcunha “peixe das nuvens” e “peixes-anuais”. Os rivulidae formam uma grande família de peixinhos que há milhares de anos migraram do oceano para a água doce. Muitos ainda sequer têm “nome artístico” conhecido, e 125 das 350 espécies do país correm risco de extinção.

O opalescens foi descrito pela ciência pela primeira vez em 1942, mas ainda é um dos mais misteriosos da família. No passado, foi encontrado na região norte do estado do Rio de Janeiro e é considerado extinto em cidades fluminenses. Cientistas já ficaram 31 anos sem vê-lo. Segundo o ICMbio, é considerado “criticamente ameaçado de extinção”.

As salsichas e o peixinho

Poça - Divulgação/UFRRJ - Divulgação/UFRRJ
Leptopanchax opalescens só vive em poças d’água Imagem: Divulgação/UFRRJ

A BRF S.A, uma fusão entre as empresas Sadia e Perdigão, atendeu uma exigência da secretaria ambiental estadual para inspecionar a existência de espécies ameaçadas de extinção na fábrica em Seropédica. O procedimento é de praxe e a empresa investiu na Fundação de Apoio à Pesquisa Científica e Tecnológica da UFRRJ, que enviou biólogos para analisar o terreno.

Em novembro de 2019, cientistas iniciaram a procura dos opalescens na região de Mata Atlântica, onde o peixe das nuvens é endêmico. Havia chance de encontrá-lo, mas as expectativas não eram altas. Após chuvas na região localizada a quatro quilômetros do rio Guandu, o grupo se surpreendeu com cerca de oitenta peixinhos que nadavam em uma poça.

À época, a empresa estava construindo uma fábrica de salsichas. A nova planta foi readequada para não afetar a região de poças usadas pelos peixes e deve ser inaugurada no primeiro semestre deste ano. Assim, a indústria pode continuar sua produção e a espécie rara é preservada. Ecoa entrou em contato com empresa para informar mais detalhes, mas a BRF afirma que o porta-voz responsável pelo tema está de férias.

Procurando rivulídeo

Macho e fêmea - Divulgação/UFRRJ - Divulgação/UFRRJ
Macho e fêmea da espécie Leptopanchax opalescens Imagem: Divulgação/UFRRJ.

Após abril, assim que as chuvas passaram, os cientistas não encontraram mais a geração de peixes descobertos anteriormente. Deu tempo de coletar informações detalhadas e inéditas, como o tamanho do aparelho sexual, a diferença nas dimensões entre machos e fêmeas, e descrições sobre o ambiente onde vivem, como a acidez e oxigenação da água acumulada.

O macho tem cor alaranjada e pode chegar a 28 milímetros, enquanto a fêmea é cinza e mede 24 milímetros. A poça precisa ter no máximo 40 centímetros de profundidade, temperatura entre 24º e 27ºC.

A descoberta foi publicada em dezembro de 2020 na revista científica “Zoologia, da Sociedade Brasileira de Zoologia”. A conclusão revelou características inéditas, mas os pesquisadores afirmam que a principal revelação é que o opalescens ainda existe.

Mas afinal, qual a importância de um peixe microscópico, capaz de mudar os planos de uma das maiores empresas do país? “O peixe que nós encontramos é um dos melhores indicadores para definir se o meio ambiente está preservado”, explica o professor da UFFRJ Francisco Gerson Araújo, coordenador do Laboratório de Ecologia de Peixes e um dos autores do estudo.

Faltam informações precisas sobre os ovos, cópula e sobre do que se alimenta o rivulídeo de Seropédica. Pelos próximos anos, os cientistas voltarão para a análise das poças em períodos de chuva e a área verde deverá ser preservada pela empresa, que não poderá construir naquela região específica do terreno.

Caso o peixe nuvem desapareça, os efeitos podem ser catastróficos. “O rivulídeo pode comer um inseto que carrega um vírus, ou uma bactéria, que é letal para o humano. Por milhares de anos, ele pode ter se encarregado de controlar a propagação de uma doença e nós não sabemos. Por isso, é importante mantê-los vivos, pois é o homem que desequilibra o ambiente”, diz pesquisador.

Fonte: UOL