Agricultura Familiar: Muito além da subsistência

A Agricultura Familiar está presente em todos os países desenvolvidos, que têm como base de seu dinamismo econômico uma saudável distribuição da riqueza nacional. Mas, para que esta forma de agricultura seja desempenhada de forma eficiente e para que exista um fortalecimento da mesma, é preciso que haja uma interdependência entre diversos fatores sociais, como é o caso de  movimentos sociais, diversos ministérios, governos estaduais e municipais, agentes financeiros, entre outros.

A UFRRJ de Seropédica tem contribuído para que isso se torne realidade, investindo na Agricultura Familiar, tendo como objetivo o fortalecimento das atividades desenvolvidas pelo produtor familiar, de forma a integrá-lo à cadeia de agronegócios, proporcionando-lhe aumento de renda e na valorização do produtor rural e a profissionalização dos produtores familiares.

O Seropédica Online entrevistou os idealizadores do Projeto da Agricultura Familiar da UFRRJ:  Anelise Dias – Professora Adjunta Departamento de Fitotecnia/ Instituto de Agronomia, Nídia Majerowickz – Pró-Reitora de Assuntos Financeiros, Igor Silva Pinheiro – Agrônoma Residente, Letícia Ribeiro Pinto dos Santos – Agrônomo Residente, Stéfane Ketlyn de Oliveira – Graduanda em Ciências Biológicas-Bolsista de Extensão Universitária.

Anelise Dias, quando aconteceu a primeira feira?

Em 14/09/2016.

Há quanto tempo vocês tentam implantar essa feira (há quanto tempo existia o projeto?)

Há cerca de um ano.

Precisou ser investido algo?

Sim. Há investimentos da UFRRJ para aquisição de bancas, bolsas de Residência Agronômica e Extensão Universitária, material para divulgação, além de muita dedicação da coordenação e de colegas da Universidade e de instituições parceiras, destacando-se o Programa de Residência Agronômica, coordenado pelo Professor Eduardo Lima, a Emater-Rio, Embrapa Agrobiologia, Pesagro-Rio, Agribio Defensivos Alternativos, ITERJ e o Grupo de Agricultura Ecológica – GAE.

Por que esse projeto foi criado/ com que objetivo?

A Feira da Agricultura Familiar na UFRRJ é um dos eixos de um projeto de Extensão que envolve também a compra de alimentos para o Restaurante Universitário (RU) diretamente de agricultores, através do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), assistência técnica e extensão rural aos agricultores participantes, capacitação de agricultores e técnicos e pesquisas participativas.

Essas ações fazem parte de uma política institucional de apoio à agricultura familiar. A feira e as compras para o RU são canais de venda direta que têm o potencial de fortalecer, gerar renda e dar visibilidade aos agricultores de Seropédica e municípios vizinhos.

Como ele funciona?

As feiras estão previstas para ocorrer nas duas primeiras quartas-feiras de cada mês, durante o período letivo. As bancas são montadas no jardim interno do Prédio Principal (P1). Às 7 h da manhã, os agricultores começam a chegar e arrumar seus produtos nas bancas. Às 8 h a feira já está montada, muito bonita e adornada pelo belíssimo jardim do P1.

Quantas pessoas estão envolvidas/Quantas pessoas impacta? E quem são? (além dos agricultores, tem escolas? moradores de onde?). Tem quantas barracas na feira? O que é vendido?

São dez bancas e estimamos em pelo menos 30 feirantes diretamente envolvidos, pois cada banca é ocupada por um grupo. Há uma grande diversidade, há agricultores jovens e experientes e expressiva presença feminina. A maioria são moradores de Seropédica. O espaço é aberto a todos que queiram freqüentar, independente de vínculo com a UFRRJ e esperamos que também se torne uma porta de entrada para aqueles que ainda não conhecem a Rural e quem sabe não comecem aqui uma graduação ou uma pós-graduação? Sejam todos bem vindos!

As bancas são muito especiais, diversificadas. Além de frutas, legumes e verduras, geléias, doces, alimentos minimamente processados, contamos com bancas que comunicam novos conceitos e valores, tais como alimentação viva, produtos sem glúten e lactose, plantas alimentícias não convencionais (PANC) e produtos orgânicos.

Esses participantes precisaram passar por algum curso ou seleção?

O critério prioritário para seleção dos feirantes é ser agricultor de Seropédica e em segundo lugar, de municípios vizinhos. Fizemos uma pesquisa na feira livre do km 49 e convidamos os agricultores através de visitas técnicas e divulgação nos canais de comunicação da Universidade.

As primeiras reuniões foram realizadas na Emater (escritório Seropédica) e em parceria com os Extensionistas Patrícia de Castro, Bárbara Brandt e Erich Quintela, explicamos o sentido da feira e construímos coletivamente um acordo de funcionamento.

De que forma impacta na vida das pessoas?

Para os agricultores creio que os aspectos mais importantes são a valorização e o reconhecimento. Trabalhar com a natureza é uma dádiva e a profissão de agricultor deve ser muito mais valorizada e respeitada, especialmente, o agricultor familiar que coloca alimento na mesa do brasileiro assumindo destacada importância na garantia da nossa segurança e soberania alimentar.

Muito importante também é o intercâmbio de conhecimentos com a comunidade acadêmica. A partir da feira tem sido levantadas questões de pesquisa. A pesquisa participativa nos possibilita atuar para solucionar problemas locais e nos permite conhecer as percepções dos agricultores sobre as tecnologias/ processos que estamos propondo e aprender muito com eles também.

Vendendo diretamente aos consumidores, os agricultores recebem remuneração mais justa pelo seu trabalho. Nesse sentido, destacamos o potencial da agricultura de promover o desenvolvimento local, pois movimenta uma série de atividades econômicas a montante e a jusante, fazendo com que a riqueza gerada impulsione um círculo virtuoso local.

Como consumidores temos um papel muito importante, embora tenhamos pouca consciência disso. Nesse contexto, os movimentos nos quais os consumidores apóiam os produtores rurais são muito importantes e envolvem a segurança da comercialização, garantia de preços, compartilhamento de riscos e estímulo à produção orgânica. Dentre os desafios que a feira na UFRRJ impõe, creio que um dos mais importantes é consolidá-la na rotina da comunidade acadêmica e isso depende de consumidores conscientes e politicamente mobilizados em prol da agricultura familiar.

Quais os benefícios para o meio ambiente/saúde?

Os circuitos de proximidade, como são chamados, emitem menos gases de efeito estufa, reduzem de forma expressiva o desperdício de alimentos e de água, são energicamente mais favoráveis.

Só tem produtos orgânicos? Qual a importância desses produtos para a saúde do meio ambiente e a nossa?

Quando começamos o levantamento dos agricultores locais e nas conversas com parceiros percebemos que se restringíssemos o acesso apenas aos agricultores orgânicos, muitos seriam excluídos e perderíamos uma excelente oportunidade para difundir e aumentar a oferta de produtos orgânicos na nossa região. Muitos agricultores não são certificados porque não têm acesso à informação, estão muito isolados, pensam que os custos da certificação são muito elevados. Muitos orientam seus agroecossistemas por princípios ecológicos, mas não sabem como se adequar à legislação de orgânicos.

Existe um marco legal para agricultura orgânica e sistemas de verificação da conformidade orgânica no Brasil que são os mais modernos e acessíveis que existem, tais como os Sistemas Participativos de Garantia (SPG). Os produtores orgânicos exibem em suas bancas seu Cadastro de Produtor Orgânico e fazem parte de SPG vinculados à Associação de Agricultores Biológicos do estado do Rio de Janeiro (ABIO).

A partir dessa interação, agricultores convencionais estão se vinculando aos grupos e recebendo orientações para conversão dos sistemas e adoção do plano de manejo orgânico. Alguns inclusive já foram certificados.

A feira também é um espaço pedagógico para o consumidor, que vai aprender mais sobre a qualidade orgânica. Precisamos incentivar a produção e o consumo de alimentos orgânicos. O Brasil ocupa a triste posição de maior consumidor de agrotóxicos do mundo. Entre 2007 e 2013 o quantitativo de agrotóxicos comercializados no País passou de, aproximadamente, 643 milhões para 1,2 bilhão de quilos. Aos agrotóxicos estão relacionados graves problemas de saúde pública com a intoxicação crônica e aguda de seres humanos, incidência de cânceres e suicídio no campo, além do aumento da poluição nos ecossistemas – injustiças ambientais e sociais.

Ainda é possível se inscrever para participar da feira de agricultura familiar?

Sim. Temos um acordo de funcionamento e fila de espera que será publicada na nossa página do Facebook (Feira da agricultura familiar-UFRRJ Seropédica). Interessados podem se inscrever enviando um email com nome, tel e endereço, através do email: [email protected]

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