A poucos quilômetros dos prédios da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e do fluxo intenso da BR-465, em Seropédica, um santuário de vida insiste em permanecer de pé. São aproximadamente 496 hectares de Mata Atlântica preservada em plena Baixada Fluminense, um território que resiste ao avanço urbano e à especulação imobiliária: a Floresta Nacional Mário Xavier (Flona MX). Criada pelo Decreto Federal nº 93.369, de 30 de outubro de 1986, a Flona é uma unidade de conservação de uso sustentável, sob administração do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Sua principal missão é promover o uso múltiplo dos recursos florestais, conciliando a conservação com a pesquisa científica e a educação ambiental (ICMBio, 2023).
Localizada no município de Seropédica, a Flona MX é hoje um dos poucos fragmentos protegidos de Mata Atlântica de planície no entorno da Baía de Sepetiba, um dos ecossistemas mais ameaçados do estado do Rio de Janeiro. Trata-se de um tipo de floresta com alto grau de umidade, rica em espécies vegetais, pequenos mamíferos, aves e anfíbios. Entre os moradores mais discretos — e preciosos — da floresta está a pequena rãzinha Physalaemus soaresi, uma espécie endêmica, ou seja, que só existe ali, e que está listada como criticamente ameaçada pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN). Seu canto agudo, emitido nas noites quentes e úmidas, é um lembrete biológico de que a vida ainda pulsa, mesmo quando quase ninguém vê.
“Essa floresta é um patrimônio não só da cidade, mas do mundo. Temos espécies que dependem exclusivamente desse ecossistema para sobreviver”, afirmou Andrea de Nóbrega Ribeiro, antiga gestora da unidade pelo ICMBio, durante reunião do conselho consultivo da floresta em 2022 (ICMBio, 2022).
Além da biodiversidade, a floresta também preserva nascentes e áreas de recarga hídrica, sendo fundamental para a qualidade ambiental da região, especialmente em tempos de crise hídrica e mudanças climáticas.
Por estar localizada praticamente ao lado e em frete ao câmpus Seropédica da UFRRJ, a Flona é também um espaço de aprendizado ao ar livre. Diversos cursos da instituição como Biologia, Engenharia Florestal, Geografia e Ciências Ambientais utilizam a área como campo de estudo e extensão. De acordo com Luísa Medeiros, formada em Ciências Biológicas pela UFRRJ, atualmente mestranda no Programa de Pós-Graduação em Geografia, a Flona tem um valor imensurável para a formação dos estudantes da universidade.
– São poucos os lugares em que você tem uma unidade de conservação como essa. Na Baixada Fluminense, ter uma Floresta Nacional é algo de grande importância. Para nós, é como um laboratório ao ar livre – comentou Luísa. – Aqui, os pesquisadores e graduandos conseguem dimensionar como funciona o sistema nacional de unidades de conservação, como ele é aplicado e como isso se materializa no nosso dia a dia. É um privilégio ter um espaço como este, que nos permite democratizar o acesso a esse tipo de informação.
Além disso, Luísa Medeiros destaca que a Flona se tornou um verdadeiro centro de pesquisa e ensino, essencial para a educação ambiental, muito pelo trabalho feito com o projeto de extensão, que tem como foco regularizar, oficializar e criar novos roteiros ecopedagógicos para as trilhas. Atualmente, junto ao também pesquisador Bruno Machado, atua como coordenadora adjunta do programa de Extensão Guarda Compartilhada da Flona Mário Xavier, projeto idealizado e gerido por Karine Bueno Vargas, docente da UFRRJ.
O projeto visa viabilizar a educação ambiental para os estudantes do município de Seropédica, formando educadores ambientais que possam atuar nas comunidades locais.
– A floresta tem uma entrada principal pela Estrada Rio-São Paulo, mas na parte do bairro Boa Esperança, há entradas irregulares que ainda comportam fluxo de pessoas sem fiscalização – explicou Luísa.
Seu trabalho envolve a digitalização da trilha que leva até o Talião da Sapucaia, um local muito visitado por pessoas religiosas em busca de conexão espiritual. Ela acredita que a digitalização da trilha, em conexão com os emplacamentos e o mapeamento biogeográfico, por via de QR codes nas placas, vai facilitar o acesso à informação para os que frequentam a unidade em prol de um cuidado maior com uma área tão rica e tão próxima da influência humana.
Luísa destaca também que, para o desenvolvimento de uma educação ambiental eficaz, é essencial compreender a percepção da comunidade local sobre a Floresta Nacional Mário Xavier.
– Antes de tudo, temos que conhecer a comunidade local para ser aptos a desenvolver essa educação. Um estudo de percepção ambiental é necessário para saber a relação das pessoas com o local e o que elas valorizam ali – explicou.
Ela também aponta que, apesar de ser residente em Seropédica há 11 anos, ela mesma só compreendeu a magnitude da floresta ao se aprofundar no seu estudo. Para Luísa, o melhor cenário seria contar com equipes multidisciplinares, incluindo psicologia, educação física, biologia e outras disciplinas que claramente poderiam se beneficiar e beneficiar o espaço da Flona MX. Ela sugere, por exemplo, o desenvolvimento de pesquisas sobre o impacto da floresta na saúde mental, além de atividades como corridas de orientação, que já são realizadas na área.
– A Flona oferece um potencial enorme para a comunidade e para o ensino, e o que precisamos fazer é estudar e organizar maneiras de democratizar esse espaço – concluiu a coordenadora do projeto.
Para maior uso da floresta por parte da população, ela propõe a expansão dessas atividades para outras modalidades ao ar livre, promovendo um turismo esportivo sustentável, como corridas de orientação, por exemplo.
Além das trilhas e espécies emblemáticas, a Flona abriga a memória do agrônomo Mário Xavier, homenageado com o nome da floresta, e defensor da conservação ainda nos anos 70. No entanto, a floresta enfrenta desafios, como a pressão urbana e o risco de incêndios. Esforços conjuntos entre o ICMBio, a UFRRJ e a comunidade local buscam garantir a preservação desse importante patrimônio natural. Em tempos de queimadas e desmatamentos recordes, a presença de um reduto verde em plena Baixada Fluminense é uma resistência concreta e simbólica ao mesmo tempo.
A Floresta Nacional Mário Xavier é um santuário silencioso que exige nossa atenção. Em meio à pressão urbana, ela não clama por socorro de maneira óbvia, mas sussurra através do som do vento entre as árvores e da riqueza de vida que ainda preserva. Seu valor vai além da biodiversidade que abriga: é um ponto de convergência para pesquisa, educação e bem-estar. A FLONA se torna uma verdadeira resistência, lembrando-nos de que, enquanto houver dedicação e empenho em protegê-la, a floresta continuará a contar sua história.
Texto: Kaliel Barbosa (estudante de Jornalismo sob supervisão da professora Cristiane Venancio)



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