Em tempos de vírus em alta e corrida pela fabricação de vacinas, uma questão às vezes nos intriga: por que é que certas doenças, como o sarampo, nos infectam e nos fornecem imunidade para o resto da vida, enquanto outras, como a gripe, demandam várias etapas de vacinação através dos anos?

Ou seja, por que existe imunidade vitalícia para algumas doenças, e não para outras? E no caso do novo coronavírus, como funciona a questão da imunidade?

A chave para falar do desenvolvimento pleno ou não da imunidade são os nossos anticorpos. Espécies de glicoproteínas que produzimos em resposta às infecções, eles constituem uma das defesas mais conhecidas do nosso corpo. Os anticorpos revestem as células invasoras e tentam evitar que elas sequestrem as nossas próprias células e se repliquem no organismo.

Anticorpos "lutando" contra o novo coronavírus (Fonte: iStock)Anticorpos “lutando” contra o novo coronavírus (Fonte: iStock)

Por que somos reinfectados?

Após eliminarmos uma infecção, o número de anticorpos se reduz, mas alguns permanecem “de plantão”, preparados para aumentar a produção novamente se aquele mesmo tipo de doença voltar a atacar. É por isso que um teste de anticorpos reconhece se você já foi infectado por determinada doença e também impede que ela possa nos contaminar de novo.

Em entrevista ao site Live Science, o imunologista Marc Jenkins, da Escola de Medicina da Universidade de Minnesota nos EUA, explicou que, quando somos reinfectados com uma doença, isso não significa que o corpo perdeu sua imunidade. Somos infectados de novo porque aquele patógeno sofreu algum tipo de mutação. 

Nesses casos, o que ocorre é que o sistema imunológico não é capaz de reconhecer aquela mutação porque o nosso organismo normalmente apresenta um resposta imunológica muito menor. Porém Jenkins faz questão de lembrar que “o corpo realmente não esquece”.

O SARS-CoV-2 adere ao trato respiratório superior (Fonte: Cassems/Reprodução)O SARS-CoV-2 adere ao trato respiratório superior (Fonte: Cassems/Reprodução)

Vírus e mutação

Para Jenkins, que é diretor do Centro de Imunologia da universidade americana, o vírus da gripe é um dos melhores exemplos de mutante que modifica seus genes com facilidade. Tão logo conseguimos detonar uma cepa do vírus, logo chegam outras que o nosso sistema imune não reconhece.

Outras doenças, como a poliomielite, foram quase erradicadas do planeta justamente porque o seu causador, o Poliovírus, que vive no intestino humano, não tem capacidade para mutações rápidas, explica Jenkins.

O resfriado comum e outros tipos de vírus que normalmente se concentram apenas no nosso trato superior, que são os órgãos localizados fora da caixa torácica, têm a tendência de nos reinfectar não necessariamente porque sofrem mutações rápidas, mas porque o corpo não trata patógenos fixados nessa região como invasores.

O imunologista Mark Slifka, do Centro Nacional de Pesquisas em Primatas do Oregon, explicou ao Live Science que os “nossos corpos não se preocupam com o trato respiratório superior”. Isso pode explicar a falta de reações corporais em relação a casos leves de covid-19. Assim, como o vírus do resfriado, o SARS-CoV-2 adere ao trato respiratório superior, não sendo “visto” como uma ameaça.

Fonte: Shutterstock/ReproduçãoFonte: Shutterstock/Reprodução

O tempo de “validade” dos vírus

Num estudo do tipo preprint, ou seja, que ainda não foi revisado por pares, publicado no banco de dados MedRxiv, constatou-se que 10 de 175 pacientes com sintomas leves de covid-19 conseguiram se recuperar da doença sem desenvolver anticorpos detectáveis.

Para todas as doenças que não sofrem mutações rápidas, a imunidade tende a durar muito tempo. Não se pode, no entanto, falar de imunidade vitalícia, embora alguns casos possam ser assim considerados na prática, como os anticorpos do sarampo e da caxumba que, segundo um estudo de 2007, levariam 200 anos para desaparecer.

No  mesmo estudo, os anticorpos contra o vírus Epstein-Barr da mononucleose também apresentam uma “validade” de 200 anos, porém outros desaparecem do organismo em menos tempo, como os da varicela que duram cerca de 50 anos, e os do tétano, com apenas 11 anos.

E o novo coronavírus?

Fonte: Adriana Duduleanu/EyeEm/Getty Images - ReproduçãoFonte: Adriana Duduleanu/EyeEm/Getty Images – Reprodução

Isso nos remete à grande questão que o mundo inteiro quer saber: será que a imunidade ao novo coronavírus terá vida tão longa quanto à da varíola, ou precisaremos ficar “atualizando” a vacina ano após ano como no caso da gripe?

Marc Jenkins acredita que as evidências de infecções naturais e de testes de vacina atuais sugerem que a imunidade ao novo coronavírus será do tipo vitalício, pois a maioria das pessoas tem produzido anticorpos neutralizantes, justamente aquele tipo que impede que os vírus entrem em nossas células.

Outra boa notícia, diz Jenkins, é que o vírus da covid-19 não tem sofrido mutações rápidas. E conclui, para a felicidade geral da Humanidade: “Este vírus tem características dos vírus contra os quais temos tido muito sucesso na vacinação“.

Fonte: Mega Curioso

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