No dia 12 de setembro de 1936, um sábado, a imprensa escrita carioca noticiava que a população sintonizasse 980 kilociclos para ouvir, pela primeira vez, a Sociedade Rádio Nacional. Dotada de um potente transmissor, foi criada pelo grupo do jornal A Noite, do qual faziam parte as revistas Noite IlustradaVamos Ler e Carioca. Às 21h, um gongo soou três vezes e a voz marcante do radialista Celso Guimarães anunciou: “Alô, alô, Brasil! Está no ar a Rádio Nacional do Rio de Janeiro”. Depois, ouviu-se a melodia Luar do Sertão e uma bênção realizada pelo cardeal da cidade. 

A inauguração ocorrida sem grande solenidade não impediu que a Nacional se transformasse em uma verdadeira lenda, vitoriosa em termos de programação e de público. A frase dita frequentemente – “Senhores ouvintes, bom dia! O rádio traz a paz, a educação e a alegria” – na verdade não expressava completamente tudo o que aquela caixa sonora irradiava.

A partir do conteúdo da programação e até dos anúncios, que até os dias de hoje são lembrados, muitos compreenderam que nesse meio de comunicação, que alcançava recantos distantes, não bastava falar: era preciso saber falar. Durante a Era Vargas, o presidente, habituado a dirigir-se às massas em comícios, repetia cadenciadamente, pelo rádio, nos inúmeros discursos oficiais, a frase: “Tra-ba-lha-do-res do Bra-sil”.

Também não seria sem intenções que, em 1940, a importante Rádio Nacional, um instrumento de propaganda e de afirmação para o regime, tenha sido estatizada, transformando-se na rádio oficial do governo brasileiro. 

Aos poucos, a programação da Nacional e das demais emissoras ganhou novos formatos, muitas vezes por meio dos lucros oriundos da publicidade, incluindo o lançamento, em 1943, de uma famosa marca norte-americana de refrigerantes. Programas voltados para a música, o humor e as radionovelas, assim como programas de calouros e shows transmitidos ao vivo, realizados em diferentes bairros da cidade, conseguiam enorme sucesso. Inúmeros maestros, com suas orquestras, cantores e compositores, fizeram escola nas ondas da Rádio Nacional, marcando profundamente a história da vida artística brasileira (e carioca). Tudo isso sem esquecer as transmissões esportivas, que ocuparam um espaço importante na história do rádio. Locutores deixaram suas marcas na forma particular de narrar as partidas emocionantes, as vitórias – como a da Copa do Mundo de 1958 – e as agruras das derrotas – como a de 1950, em pleno Estádio do Maracanã (Estádio Jornalista Mario Filho), com os torcedores emudecidos pelo espanto e pela surpresa.

Emilinha Borba, Marlene, Carmélia Alvez e outros cantores e cantoras no palco da Rádio Nacional, por onde passaram os maiores ídolos da época (Crédito: Acervo Rádio Nacional – EBC)

“Pelo rádio, o indivíduo encontra a nação, de forma idílica; não a nação ela própria, mas a imagem que dela se está formando. O rádio comercial e a sua popularização será capaz não apenas de vender produtos e de ditar modas, mas de mobilizar as massas”, observa o sociólogo Orlando Miranda.

A chamada Era do Rádio, vista por muitos contemporâneos como sendo o milagre dos milagres da tecnologia da época, consagrou astros e estrelas no firmamento cultural do Brasil. Contudo, para a historiadora Armelle Enders, “a única estrela fixa dessa constelação é a cidade do Rio de Janeiro”.