A História submersa da Represa de Piraí, Ribeirão das lajes

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Esta é mais uma daquelas histórias que nossos livros escolares não contam ou o fazem superficialmente. Mais um episódio dramático da vida brasileira que se perde no tempo pela falta de credibilidade de nossa historiografia oficial. 

Parte 1 – O Esplendor

A Represa do Ribeirão das Lajes abastece os municípios de Seropédica , Itaguaí e parte do município do Rio de Janeiro com água potável e faz funcionar a hidrelétrica de Fontes Nova, a 50 km da capital. Nesta série, você verá que nem tudo é paz e tranqüilidade sob as calmas águas  dos enormes lagos que serpenteiam entre as montanhas da Serra das Araras, reduto de hotéis-fazenda, casarões campestres e resquícios da história colonial.

Esta história pode ser contada a  partir da biografia de uma das maiores cidades fluminenses do século 19, a então riquíssima São João Marcos, anteriormente conhecida como Vila de São João Príncipe.

Nos idos de 1700, o desbravamento pelos bandeirantes da região do Vale do Rio Paraíba compreendida entre Resende (antiga “Campo Alegre de Paraíba Nova”) até a cidade de Paraíba do Sul possibilitou a construção de uma estrada real para que os paulistas pudessem enviar, com segurança, os quintos do ouro para o Rio de Janeiro.

Este caminho serviu de esboço para a atual rodovia Presidente Dutra (Rio-S. Paulo) e foi o principal acesso, no século seguinte, para as centenas de fazendas que transformaram o sudoeste fluminense numa das regiões mais ricas não apenas do Brasil, mas do mundo. São João Marcos era um dos principais núcleos produtivos – 2 milhões de arrobas de café por ano – e estava numa posição geográfica privilegiada: no centro da área produtora, na confluência de grandes rios, próximo à capital (Corte) e com ligação direta com o mar via Mangaratiba – estas vantagens, paradoxalmente, colaboraram para a tragédia da cidade, como veremos mais adiante.

Terra natal do Prefeito Pereira Passos e do ministro e acadêmico da ABL Ataulfo de Paiva, São João Marcos viveu intensamente o brilho da era dos barões do café, no século XIX: foi uma das mais importantes cidades, com 20.000 habitantes, teatros, escolas públicas e fábricas.

Artistas de óperas e músicos conhecidos eram trazidos do exterior para se apresentarem nos diversos teatros da sociedade local (as ruínas de um deles existem até hoje, à beira da rodovia Rio-Santos, em Mangaratiba); as muitas famílias abastadas contratavam governantas estrangeiras e professores particulares (preceptores) para educação privada de suas crianças; bibliotecas inteiras e instrumentos musicais chegavam em carroças e lombo de mulas; arquitetos e mestres-de-obras famosos eram chamados para erguerem novas casas e prédios públicos. 

Também foi em São João Marcos que construíram a primeira estrada de rodagem do Brasil, em 1856, com 40 km de extensão, para escoar o café das fazendas do Vale do Paraíba para o Porto de Mangaratiba. No sentido inverso, em tráfego intenso, subiam mercadorias e escravos, muitos escravos. Só o maior fazendeiro da região e homem mais rico do Brasil em todos os tempos, o Comendador Joaquim José Breves, considerado “o rei do café” no Brasil Imperial, tinha oficialmente 6 mil negros – na realidade, especula-se que tivesse o dobro disso, contando os não registrados.

Como berço da expansão cafeeira no Vale do Paraíba, São João Marcos abrigou em suas terras os mais poderosos e abastados fazendeiros do País e suas plantações abasteceram o mercado europeu do século XIX. Mas seu fim estava próximo e seria marcado por uma longa e incrível sucessão de acontecimentos sombrios.

 

Mapa com relevo da Serra das Araras, indicando São João Marcos, concepção de 1882 – 

 Eduardo Canabrava Barreiros

Criada em 1733, São João Marcos atingiu o auge da prosperidade no século seguinte, com a expansão da cultura cafeeira fluminense. O padrão de vida elevado e os recursos investidos em educação, cultura e bem-estar justificavam a adoção do termo “barão” para designar os refinados latifundiários fluminenses, em oposição aos “coronéis”, como eram chamados os fazendeiros do resto do País  (poderosos porém truculentos, sem polimento social).

Parte 2 – O começo do fim

Em 1854, Irineu Evangelista de Souza inaugurou a primeira ferrovia do Brasil, ligando Mauá a Raiz da Serra, no fundo da Baía de Guanabara. A proliferação dos trens causou a decadência de muitas vilas e povoados, já que a preferência geral passou para o transporte ferroviário, mais rápido e seguro que os lombos de burro, pequenas embarcações e carroças antes utilizadas. São João Marcos não ficou imune à queda no movimento de tropeiros pelo caminho velho (que vinha de São Paulo) e acusou uma grave perda no comércio.

Mas o infortúnio não costuma andar desacompanhado: além de vir apresentando queda de rendimento em decorrência do esgotamento das terras, a produção cafeeira fluminense sofreu outro golpe em 1889, com a abolição da escravidão. Os fazendeiros não conseguiram suprir a necessidade de grandes contingentes humanos para trabalhar nas plantações e a produção caiu a níveis desastrosos. Enquanto isso, os agricultores do Oeste Paulista, com lavouras mais recentes e contando com lavradores assalariados, meeiros e imigrantes, assumiram a liderança do mercado rapidamente.

A situação estava péssima para a cidade. Com a decadência da cultura cafeeira fluminense e o desenvolvimento dos novos meios de transporte, São João Marcos foi perdendo importância e sua população ficou reduzida a pouco mais de 7 mil pessoas no início do século 20.

Resistindo bravamente à decadência, a população e autoridades de São João Marcos tentaram se adaptar aos novos tempos e apoiaram o que seria a grande esperança de recuperação da economia local: a construção da Estrada de Ferro entre Barra Mansa e Angra dos Reis. Realmente, a ferrovia trouxe de volta o antigo ar de prosperidade e novas possibilidades começavam a ser desenhadas para o futuro de São João Marcos.

Enquanto isso, a menos de 100 quilômetros dali, a cidade do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, se desenvolvia aceleradamente, o mesmo acontecendo com os municípios vizinhos. Era o ano de 1907, a população aumentava e a ordem era transformar a capital numa metrópole moderna, orgulho da república. A grande questão era onde conseguir as fontes dos recursos exigidos pelo progresso, como energia elétrica e água potável encanada, por exemplo. 

A solução já estava em mãos dos engenheiros da Light (cia. de eletricidade do Rio), que havia dois anos estudavam as possibilidades para suprir a crescente demanda. E a melhor opção, segundo eles, era criar uma represa e uma hidrelétrica no Ribeirão das Lajes, no alto da Serra das Araras. Só tinha um probleminha: 97 grandes fazendas iriam ficar debaixo d’água. Justamente as maiores propriedades da área rural de São João Marcos.

Planta de São João Marcos e arredores – Departamento de Patrimônio da Light, 1913

Combalidos economicamente e sem o poder político de outrora, os fazendeiros de São João Marcos pouco puderam fazer contra a inundação de suas terras, a não ser reclamar. Ofícios, atas, moções e comunicados da época retratam o sofrimento dos moradores e mostram com riqueza de detalhes o desespero das autoridades locais com o início da construção da Represa de Ribeirão das Lajes.

Parte 3 – A inundação, as mortes, o horror

Havia um silêncio compactuado do governo quando a obra foi liberada para a Light, em 1907. A represa, com capacidade inicial para 224 milhões litros de água, abasteceria de eletricidade o Rio de Janeiro e dezenas de municípios vizinhos. 

A inundação teve início: os morros logo se transformaram em ilhas e uma centena de fazendas coloniais foi tragada. Os luxuosos teatros, bibliotecas e capelas desapareceram da noite para o dia. Plantações e casas sumiram sob as águas turvas do Ribeirão das Lajes e seus afluentes. Enormes áreas da zona rural submergiram e muitos caboclos foram pegos de surpresa. 

As águas subiram rapidamente – talvez mais rápido do que o esperado – e alguns milhares de galinhas, cães, vacas, mulas e carneiros ficaram encurralados. Morreram afogados ou de fome e jaziam apodrecendo na beira d’água. A inundação formou extensas áreas alagadiças às margens da represa, acumulando grande quantidade de restos orgânicos, e o mau-cheiro se espalhou por quilômetros, durante vários meses. 

Nenhuma assistência foi prestada à população rural e nem houve um planejamento tático para a operação. Fecharam as comportas da represa e salve-se quem puder. As famílias pobres não tinham para onde ir, outras não acreditavam “nessa tal inundação”, e ficaram. E morreram. 

A falta de cuidados sanitários fez proliferar a malária, antes restrita a algumas áreas isoladas da região, como a localidade de Arrozal. A doença espalhou-se e tornou-se uma terrível epidemia, fazendo sucumbir milhares de pessoas nas cercanias da represa, sem alarde. Metade dos 7.000 habitantes da outrora invejável São João Marcos foi contaminada pela peste. 

Os que restaram foram protagonistas de terríveis histórias, como a presenciada e documentada por Luís Ascendino Dantas, líder comunitário local:

“… em uma das casas, uma mulher morta tinha em seu colo uma criança que ainda mamava, e a seus pés outra que chorava.” 

O relato deixado pelo fazendeiros  Agrippino  Griecco  e Luiz de Souza Breves descreve outras cenas trágicas: 

“No pior período da epidemia, abriam-se valas enormes no cemitério e muita gente ainda viva foi para a cova de cambulhada com os defuntos. Nos arredores encontravam-se cães devorando cadáveres e achou-se até uma criancinha morta…” 

A população pediu desesperadamente por auxílio, mas nada foi feito. Uma tácita cumplicidade entre o governo, os grandes jornais e a Light, visando o interesse maior do Distrito Federal, impôs a silenciosa quarentena de duas décadas em que se arrastou a trágica agonia dos habitantes das redondezas de São João Marcos. Um ato de genocídio que foi, simplesmente, “esquecido” por nossa história. 

Os poucos habitantes que resistiram no centro urbano do município sobreviveram isolados, no mais completo esquecimento, deixados lá para morrer. Suas terras submersas, sua população dizimada pela peste e sua economia extinta – mas não sua esperança. Ainda havia vida. E haveria mais e maiores tragédias.

Mapa “Partie du Bresil. Amer. Merid. 28”, de Philippe Vandermaelen, Bruxelas, 1827 

Região de São João Marcos do Príncipe

Desde o início da inundação, em 1907, e por mais de vinte anos até que a malária fosse erradicada da região, ninguém falou de São João Marcos do Príncipe, foi como se a cidade não existisse. Ali perto, entretanto, a The Rio de Janeiro Tramway, Light and Power Co. Ltd. operava à plena força a lucrativa Usina de Fontes, sua primeira grande hidrelétrica, movida pela água da represa do Ribeirão das Lajes. 

Parte 4 – A bonança

A decadência de S. J. Marcos foi tão forte que, em 1938, o governo estadual decretou a sua anexação, como distrito, ao pequeno município vizinho de Rio Claro – uma humilhação para aquela que fora a cidade com maior poder aquisitivo e melhor padrão de vida do País. 

Restava na cidade a população mais pobre e simples, que aos poucos reencontrava a alegria de viver e tentava superar a tragédia. Os carnavais de SJM e as festas do padroeiro ficaram famosas e passaram a atrair turistas. A cidade renascia. Havia a disputa entre as fanfarras e clubes locais, animando a cidade. Bloco carnavalesco era um só, mas tocavam duas bandas, a do Maestro Modesto Loyola e a do Maestro Juca Mal. Tinha desfile de carros alegóricos, escola de samba e concurso de fantasias. Fora das festas, os marcossenses seguiam a vida: plantavam, criavam, (re) construíam e estudavam. 

O Rio de Janeiro continuava crescendo e a Light, na década de 1930, começou a projetar a expansão da represa de Lages, o que levaria, inevitavelmente, à extinção de S. J. Marcos. Os  argumentos que a companhia, as autoridades governamentais e alguns jornais do Rio de Janeiro utilizavam para justificar a completa destruição da cidade eram: 

  1. a) a necessidade urgente de ampliar o abastecimento de água para a cidade do Rio de Janeiro, então Capital Federal; 
  2. b) ampliar a geração de energia elétrica, motor fundamental da industrialização que se iniciava no RJ. 

Em 1939, uma reportagem de O Globo informava, com entusiasmo, que a Light comprara 78 fazendas e algumas casas da cidade, pretendendo adquirir toda a área de São João Marcos para inundá-la. Era o começo da campanha a favor da expansão da represa. A notícia das verdadeiras intenções da companhia surpreendeu os moradores de SJM, que iniciaram um desesperado movimento por socorro. 

De um lado, a Light, a grande imprensa e os governos estadual  e federal queriam destruir a cidade; de outro, o povo queria preservá-la. Quando tudo parecia perdido, os moradores ganharam um apoio inesperado: o departamento cultural do Estado, representado por Rodrigo Mello Franco de Andrade, indicou a cidade como “monumento cultural” e exigiu a sua preservação. 

A questão repercutiu na imprensa fluminense e, no mesmo ano, o Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – SPHAN, tombou a cidade. Classificada oficialmente como “raro exemplo intacto de conjunto de arquitetura colonial”, São João Marcos finalmente estava salva, fora do alcance da temível Light. Pelo menos, assim pensava e comemorava o povo, que não conhecia o poder de donos de jornais, da multinacional e do Estado Novo.

Mapa Geral da Republica dos Estados Unidos do Brasil, de Miguel Calmon, 1908

Em 1939, os marcossenses fizeram uma grande festa para comemorar a decretação de monumento nacional e o bicentenário da cidade. Enquanto isso, a Light ameaçava reduzir a geração de energia caso a expansão da barragem de Lajes não fosse autorizada. A poderosa companhia canadense, inglesa e americana detinha, além da geração e distribuição de energia elétrica, os serviços de bondes, ônibus, telefones e gás do Rio de Janeiro.

Parte 5 – O “destombamento”

O governo cedeu à pressão da Light e o presidente Getúlio Vargas entregou a cidade, desconsiderando a decisão do SPHAN e as reivindicações da população. Escandaloso, foi o primeiro caso de “destombamento” no Brasil. O decreto-lei nº 2.269 autorizou a desapropriação de terrenos, prédios e quaisquer benfeitorias que viessem a ser inundadas.

No contexto autoritário do Estado Novo, a população não teve outra saída que se submeter. Como a desapropriação era obrigatória, a Light ficou à vontade para ignorar o valor de mercado e avaliar as propriedades conforme a sua própria conveniência. Os moradores receberam indenizações miseráveis que não lhes permitiram comprar sequer um lote nas cidades vizinhas de Lídice, Rio Claro, Mangaratiba, Itaguaí ou Piraí.

Para a opinião pública da capital, os jornais descreveram um quadro muito mais favorável que a realidade. Promessas foram feitas e decretos assinados com o objetivo de garantir a reconstrução da cidade em outro local – e nada foi cumprido.

A desocupação foi cruel: a Light “indenizava” e imediatamente as pessoas tinham que sair de casa, levando apenas os móveis, em caminhões da empresa. Imediatamente entravam os operários com marretas e demoliam tudo. O madeirame era empilhado e queimado. Em vão, os moradores pediam para levar as madeiras para construírem barracos em outros lugares. 

Nas palavras de Wilson Coelho, vítima da desapropriação:”… olha, a Light (…) era estrangeira, ela preferia queimar tudo e não dava, não dava um pau, uma ‘tauba’ pra ninguém.  Nem  dava, nem vendia, tá entendendo?”.

As demolições começaram numa Quinta-Feira Santa. A população protestou, saindo pelas ruas com cartazes que diziam: “somos 4.600 brasileiros e não queremos desaparecer”. De nada adiantou, as turmas de operários com marretas se sucederam, os prédios próximos da represa foram demolidos por barcos rebocadores com cabos de aço e o restante dos quarteirões foi reduzido a pedregulhos pela dinamite.

O caso mais traumático foi o da Igreja Matriz. Sua construção datava de 1796, com arquitetura maneirista, típica dos jesuítas, e barroca; seu interior era todo decorado em ouro. Os operários se recusaram a mexer com o prédio sagrado e a construção era tão sólida que os recursos “normais” de demolição não seriam suficientes.

A Light, então, contratou um especialista, Sr. Dudu, de Rio Claro, para dinamitá-la. Consta que, por coincidência ou maldição, o dinamitador  logo depois do serviço ficou “corcunda” e perdeu tudo, terminando seus dias como jardineiro no colégio de freiras de Valença, RJ.

Como a questão da derrubada da Matriz despertou o clamor público e a indignação dos católicos, o governo baixou um decreto (3 de junho de 1940) que obrigava a Light a reconstruir o templo em local próximo e a salvo das águas. Acalmados os ânimos, três anos mais tarde, a empresa se veria livre da obrigação por novo decreto (nº 5.739) que substituiu a reconstrução da Matriz por uma simples indenização de 600 contos de réis ao Estado.

Apenas o cemitério foi respeitado e parcialmente transferido para o alto de um morro. São João Marcos finalmente estava extinta, em ruínas. Era hora de levá-la para o fundo das águas.

Mapa digital da Serra das Araras, indicando a Represa de Ribeirão das Lajes, 2005

Pouco antes de ser posto abaixo, em 1940, o centro de São João Marcos tinha, além da Igreja Matriz, uma antiga capela, pertencente à Irmandade Nossa Senhora do Rosário e dedicada a São Benedito; dois cemitérios, o da Irmandade e o da Caridade para os pobres; dois clubes, o “Marquense”, de elite, com futebol e danças, e o “Prazer das Morenas”, mais popular; um teatro, o “Tibiriçá”; um hospital e uma pensão, além da primeira estrada de rodagem do Brasil, aberta nos tempos áureos do café. Já não circulava mais o jornal local, “O Município”, fechado em 1932. Um pouco afastadas, uma jazida de manganês inexplorada e uma fonte de água mineral. 

Parte 6 – O fim

À distância, do alto dos morros, ex-moradores, curiosos e funcionários da Light acampados precariamente se acotovelavam para verem sumir a terra que um dia abasteceu toda a Europa de café. Pela segunda vez, São João Marcos seria inundada pelas águas revoltosas e turvas que apagavam os rastros de 200 anos de trabalho, fausto e progresso. A cada dia elas se aproximavam mais do centro da cidade, e foram subindo, subindo, até que estancaram – sem alcançar as ruínas da demolição. 

Logo surgiu o rumor de que os técnicos da Light haviam errado os cálculos e que a demolição de São João Marcos tinha sido desnecessária, pois a água se nivelara bem abaixo do nível da cidade. A população começou a se revoltar e, segundo alguns operários da Light  contaram depois, a ordem superior veio rápida: “era preciso inundar a cidade, a qualquer custo!” E quase custou a própria represa, pois foi preciso fechar as comportas e fazer o nível subir além dos limites máximos de segurança da barragem. 

A água apenas molhou alguns centímetros das ruínas de SJM, o suficiente para “justificar” a expulsão dos 5 mil moradores, a estúpida agressão ambiental e o desaparecimento de dois séculos de nossa história. Desde então, jamais a represa tornou a alcançar a cidade, nem nos períodos de chuva mais intensa. A brutal destruição de SJM foi mesmo uma burrada de engenharia. Tanto sofrimento por um erro na prancheta.

Hoje, resta pouco de São João Marcos do Príncipe. Virou local de pastagem. Ainda existem alguns calçamentos em meio ao matagal. Caminhando pela antiga rua principal, avistam-se algumas ruínas. Uma única ponte resiste , intacta, como se ainda esperasse por passantes. No alto do morro, o cemitério público; o branco dos túmulos salta entre o verde, lembrando que, num passado não muito distante, aquela cidade teve vida e foi habitada por algo mais que pequenos pássaros.

O esquecimento está por toda parte, escondido sob cada pedra, nas ruínas e na História. Mas agora vocês sabem. E isso muda tudo.

Mapa da zona cafeeira fluminense em concepção de 1882, indicando a cidade de São João Marcos – Eduardo Canabrava Barreiros, 1972

 

Fonte: Prof. Celso de Martin Serqueira