Especialistas da TNC Brasil citam benefícios ambientais e econômicos ao priorizar a preservação de fontes de água frente às mudanças climáticas

Entre 23 de agosto e 1º de setembro, ocorreu a Semana Mundial da Água de 2022, cujo tema central foi o papel da água sob diferentes perspectivas, como valoração, conhecimento tradicional e direitos humanos.

As águas invisíveis ou despercebidas, como as de aquíferos ou do solo, também foram foco do evento, na busca por soluções para os grandes desafios relacionados à disponibilidade e à qualidade de água, num momento em que as crises hídricas se tornam cada vez mais frequentes não apenas no Brasil, mas globalmente.

Apenas neste verão no Hemisfério Norte os exemplos catastróficos são inúmeros. A seca na China, que reduziu o canal úmido de um dos maiores rios do mundo, o Yangtze, a cerca da metade de sua largura normal; a pior seca na Europa nos últimos 500 anos, assolando a metade do continente e afetando produção agrícola, abastecimento e geração de energia elétrica; e as secas extremas no México, na Califórnia, no Texas, na Somália, na Etiópia são indicações da urgência de mudar a forma como o uso e manutenção dos recursos hídricos são pensados.

Nesse contexto, as Soluções baseadas na Natureza (SbN) podem ser uma contribuição importante para a regulação hídrica, diminuindo os impactos de períodos de estiagem severa na disponibilidade de água. As SbN podem ser definidas como a gestão e uso sustentável da natureza para enfrentar desafios como mudanças climáticas, segurança hídrica e alimentar, proteção da biodiversidade, saúde humana e gestão de risco de desastres. Um exemplo é a restauração de áreas úmidas ou da vegetação nativa, sobretudo em áreas estratégicas para a recarga de aquíferos e para proteção de nascentes e sistemas aquáticos em geral, que pode contribuir para a retenção da água na escala de bacia hidrográfica.

Embora a relação entre a floresta e a disponibilidade hídrica seja um tema muito discutido, gerando diversas hipóteses sobre como a cobertura vegetal pode impactar a quantidade e qualidade de água das bacias, estudos indicam a contribuição da vegetação para a saúde dos corpos de água. A redistribuição de água da chuva dentro de uma bacia hidrográfica é influenciada pela cobertura de vegetação nativa e uso da terra, conforme ilustrado abaixo.

Na época de chuvas, a quantidade de água superficial, ou seja, em rios, riachos, lagos e outros corpos de água, tende a ser muito maior numa bacia hidrográfica desmatada, e com maior risco de provocar erosão e inundações, em comparação com outra que mantém sua floresta original. Por outro lado, na época de estiagem, o volume de água superficial tende a ser maior nos corpos de água da bacia com cobertura florestal, porém escasso na bacia com supressão da floresta.

Como as soluções baseadas na natureza, como a restauração da vegetação, contribuem para a manutenção das águas dos rios. (Foto: The Nature Conservancy)

Como as soluções baseadas na natureza, como a restauração da vegetação, contribuem para a manutenção das águas dos rios. (Foto: The Nature Conservancy)

Isso acontece porque a cobertura florestal aumenta a interceptação da água das chuvas, facilita a infiltração dessa água no solo e diminui a velocidade do escoamento superficial, ou seja, da água que escorre na superfície do solo. Todos esses fatores contribuem para o armazenamento da água e sua liberação gradual no período de seca, num processo de regulação da vazão de rios.

Assim, a água observada nos rios na época de estiagem é na realidade água que foi retida no solo e nos aquíferos livres durante as chuvas. Numa bacia sem vegetação, onde a maior parte da água precipitada foi escoada pela superfície e o armazenamento de água não ocorreu ou foi mínimo, rios ou reservatórios tendem a apresentar baixos níveis ou, em casos extremos, secam no período de estiagem.

A escassez de água é um problema que vem afetando todos os continentes e depende não apenas da disponibilidade de água numa região num determinado momento. Os eventos climáticos extremos, a urbanização, o desmatamento, a poluição das águas e o crescimento populacional gerando aumento da demanda e consumo são as principais causas de escassez hídrica.

O relatório sobre mudanças climáticas do IPCC (2022) comenta que os eventos extremos ocorrerão com maior frequência e o impacto sobre a água poderá ser superior ao esperado, dado que haverá menos tempo para recuperação dos mananciais, afetando não apenas as pessoas, mas também os sistemas produtivos e ecológicos.

Segundo a Unesco (2021), o uso da água aumentou em seis vezes nos últimos 100 anos a uma taxa que supera mais de duas vezes a taxa de aumento populacional. Ainda que o Brasil apresente uma das maiores reservas de água doce do mundo, a demanda concentra-se em áreas de menor disponibilidade relativa. Aproximadamente 70% da água doce disponível no país se encontra na bacia amazônica, onde menos de 5% da população está concentrada, ao passo que as cidades mais populosas estão em bacias menores cujos mananciais enfrentam fortes pressões de ocupação e são altamente dependentes das chuvas.

Além do impacto no abastecimento humano, outro setor que vem sendo altamente afetado por eventos de escassez hídrica é o elétrico. Segundo a Operadora Nacional do Sistema Elétrico, nos últimos sete anos os reservatórios das hidrelétricas receberam um volume de água inferior à média histórica e, em 2021, registraram a pior média mensal de toda a série histórica de medição.

Os subsistemas do Centro-Oeste e Sudeste, responsáveis por cerca de 70% da geração de energia do país, atingiram níveis inferiores a 20% de sua capacidade de armazenamento nos últimos anos.

Um caso emblemático foi a estiagem ocorrida de 2014 a 2015 no Sistema Cantareira, que atende 7,5 milhões de pessoas da Região Metropolitana de São Paulo e cujas bacias hidrográficas apresentam um alto grau de perda de sua vegetação original. Essa estiagem resultou na redução do nível de água do reservatório para menos de 5% de sua capacidade e gerou a tão mencionada crise hídrica em São Paulo.

Dada a evidência crescente de que eventos climáticos extremos impõem um desafio de adaptação para cidades em todo o mundo, garantir segurança hídrica para o bem-estar das pessoas e para o desenvolvimento econômico torna-se cada vez mais urgente. As Soluções baseadas na Natureza podem contribuir para a segurança hídrica como medida complementar aos investimentos em infraestrutura convencional já realizados.

Assim sendo, face a um problema complexo de gestão territorial, econômica, social e política, é necessária a alocação de investimentos em SbN nos processos de planejamento territorial das bacias hidrográficas e de definição de políticas públicas e instrumentos de gestão ambiental.

*Eileen Acosta é Especialista em Recursos Hídricos, Bruna Ciasca é Economista Ambiental e Edenise Garcia é diretora de Ciências, todas da The Nature Conservancy Brasil.

Fonte: Galileu