Quem a procura, nunca mais volta: conheça a história da misteriosa Cidade Perdida de Z

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Descoberta em 1912 por um explorador britânico, a cidade pré-colombiana trouxe o desaparecimento de Percy Fawcett, a história que inspirou a criação da famosa série de filmes ‘Indiana Jones’.

Em 1912, um famoso explorador britânico criou uma espécie de teoria que apontava uma cidade perdida, chamada de ‘Z’. O coronel Percy Harrison Fawcett, alimentou a sua teoria após as descobertas na região do Machu Picchu. A teoria de Fawcett aponta uma cidade pré-colombiana na região do Mato Grosso, no Brasil. 

Rapidamente, ele a batizou como “A cidade perdida de Z”, que para Fawcett significava o berço de toda a civilização e até mesmo a origem da famosa civilização perdida de Atlântida, o suprassumo dos exploradores. O povo de ‘Z’ seria formado, talvez, por cartagineses, fenícios ou povos gregos, que teriam navegado até a América do Sul e se infiltrado pelo interior do continente, fundando a cidade em alguma parte perdida da Amazônia.

A teoria

A lenda ao redor dessa história, fala sobre um naufrágio que aconteceu no século XVI, onde um português chamado Diego Álvares é o único sobrevivente, sendo salvo por indígenas tupis. O português acaba sendo inserido na cultura dos nativos, depois de meses, conseguindo se comunicar e aprendendo o seu idioma.

Diego acaba vivendo junto a eles e se casa com uma jovem indígena chamada Paraguaçu, e com ela tem vários filhos. Um deles, era chamado de Muribeca. Já adulto, Muribeca encontra uma rica mina de prata e ouro. Sendo um dos poucos que sabia sua localização, fez riqueza e fama vendendo pepitas no porto da Bahia.

Muribeca teve um filho chamado, Robério Dias, que se tornara um homem ambicioso e amargurado por não ser considerado “branco” por ser parte índio. E, por causa disso, quando em Portugal, foi questionado pelo rei sobre a localização das minas de seu pai, a qual ele aceitou revelar, desde que recebesse o título de Marquês. O rei concordou.

Ao chegar na Bahia com os exploradores do rei, pediu para ver o documento de nomeação antes de começar a viagem. E ao ler, percebe que não é o título de marquês, e sim um título sem muita importância. Robério então se recusa a revelar a localização das minas e é preso por muitos anos, até que morre, levando ao túmulo a informação.

Cerca de 200 anos depois, desde o surgimento dessa possível história, o naturalista Manuel Ferreira Lagos, encontrou em um canto da Livraria Pública da Corte, um manuscrito datado com aproximadamente cem anos, conhecido como o ‘Manuscrito 512’. Era uma carta de um bandeirante que estava há anos em busca das minas de Muribeca.

Primeira página do manuscrito. Foto: Reprodução/Fundação Biblioteca Nacional

Confira a tradução da carta:

Manuscrito 512

Relação histórica de uma oculta e grande povoação antiquíssima e sem moradores que se descobriu no ano de 1753.

“Havia dez anos que a comitiva viajava pelos sertões em busca das minas de prata de Muribeca.

Depois de uma longa peregrinação, incitados pela incansável cobiça por riqueza por todos esses anos, estávamos quase perdidos pelo vasto sertão baiano quando descobrimos uma cordilheira de montes muito elevados. Ela brilhava muito, principalmente quando o sol batia ali diretamente, parecendo ser composta de cristais e tudo aquilo era tão bonito e admirável que apreciamos aquela vista por um bom tempo.

Decidimos investigar aquela cordilheira e chegamos com facilidade até o pé dos montes, porém, mesmo circulando as montanhas, não conseguimos achar uma forma de subir aqueles Alpes e Pyreneos Brasílicos, fazendo com que todos se decepcionassem.

Montamos acampamento para descansar e bater em retirada no dia seguinte para seguirmos nossa viagem. No entanto, aconteceu de um negro da comitiva correr em disparada atrás de uma caça e, por um grande acaso, descobriu-se um caminho entre duas serras que pareciam cortadas artificialmente.

Seguimos por ali, e descobrimos uma antiga e deteriorada estrada de pedra.

Gastamos mais de três horas na subida até chegarmos a um campo, onde pouco mais de meia légua nos foi possível avistar o que parecia uma cidade.

Não nos aproximamos e esperamos dois dias na tentativa de fazer contato, porém, ficamos confusos quando percebemos que ali não havia habitantes.

Um índio de nossa comitiva resolveu se arriscar e foi até a cidade, voltando pouco depois afirmando não ter descoberto sequer rastros de habitantes.

Fomos todos, então, explorar a cidade, cuja entrada se dava por uma portal dividido em três arcos, sendo o do meio maior. E nele haviam inscrições que não conseguimos ler pois estava muito alto.

Logo após o arco, havia uma rua larga com muitas casas em ambos os lados.

Entramos em algumas dessas casas e não achamos móveis ou qualquer objeto que pudesse nos dar alguma informação sobre quem habitou aquela cidade.

Quando chegamos no fim da rua, nos deparamos com uma grande praça, onde, no centro, sobre uma alta coluna de pedra preta, havia a estátua de um homem que apontava o norte com seu braço.

No lado direito dessa praça há um enorme edifício, como se fosse a casa principal, onde encontramos, talhado em alto relevo a figura de um jovem com peito nu e uma coroa de louros sobre a cabeça.

Do outro lado há outra grande construção em ruínas que parece ter sido o templo que fora destruído, talvez, por um terremoto

Encontramos vários símbolos e escritas que não pudemos entender.

Na frente da dita praça corre um rio largo e bonito, com campos de flores à sua volta . Havia também lagoas cheias de arroz, que nos serviu bem.

Descemos o rio por três dias até que chegamos a um trecho onde o rio fica muito maior, cheio de penínsulas. Encontramos uma pedra misteriosa entalhada com símbolos parecidos com os do templo, e que não entendíamos nada.

Encontramos uma grande casa. Subimos por uma escada que nos levou a uma grande sala, onde vimos mais inscrições misteriosas.

Depois de explorar a casa, voltamos para as margens do rio onde encontramos ouro sem muito trabalho. Aquilo nos prometia muita riqueza.

Um de nossos companheiros, chamado João Antônio, encontrou uma moeda de ouro, onde havia a figura de um jovem de joelhos e do outro lado um arco, uma coroa e um flecha.

Estas notícias mando a vossa majestade, deste sertão da Bahia. ”

Segunda página do Manuscrito 512. 

Ninguém descobriu até então, quem foi o autor deste manuscrito e o que aconteceu com ele posteriormente. O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro publicou o manuscrito em sua revista, atraindo caçadores de tesouros. Uma dessas pessoas era Percy Harrison Fawcett.

O britânico era um aventureiro já conhecido, que realizava várias incursões nas selvas Brasileiras. Uma dessas incursões chamou a atenção de todos. Ele foi o primeiro a fazer o mapeamento da fronteira entre Brasil e Bolívia em uma expedição de 18 meses pela até então inóspita selva tropical, mais conhecida entre os aventureiros por ‘Inferno Verde’.

Quando o manuscrito chegou até Fawcett, ele sabia que deveria ir atrás daquela cidade, a qual chegou até a imaginar se não seria Atlântida ou uma nova criação dos sobreviventes da mítica e avançada cidade.

Percy Fawcett. Foto: Reprodução/History UK

Mas tudo isso foi visto com muito ceticismo pela Real Sociedade Geográfica britânica, o que dificultou muito para que o Coronel conseguisse um financiamento para a expedição. Após algumas tentativas, anos depois, Fawcett conseguiu algum dinheiro e foi atrás da chamada cidade perdida.

Entre 1920 e 1925 ele fez duas curtas expedições em companhia de um norte americano na tentativa de encontrar a misteriosa cidade, porém ela não estava onde ele achou que estava e então percebeu que teria que investir mais tempo na tarefa.

Convidou Jack Fawcett, seu filho mais velho, e um amigo dele chamado Raleigh Rimmel, para participar da perigosa aventura. E como os recursos arrecadados eram poucos, aquele era o número máximo de integrantes que Fawcett poderia ter na sua expedição.

Nos início, em 1925, o trio seguiu até Cuiabá (MT) e lá se juntaram aos guias contratados. Subiram o alto Xingú a cavalo até o Posto Bacairi, que era um posto avançado que Fawcett dizia ser “o último vestígio de civilização” que encontrariam antes de prosseguir.

Nas correspondências do Coronel, ele informava que tudo estava bem, com exceção do amigo de Jack que adoeceu. Relatos de constantes ataques de animais selvagens e insetos indicavam que a expedição estava difícil. No entanto, Fawcett possuía bastante conhecimento em sobrevivência na selva e sobre as culturas indígenas, sabendo até mesmo como impressionar indígenas hostis com instrumentos musicais e ganhar, assim, sua simpatia.

Em maio chegam a um local que Fawcett chama de ‘Acampamento do Cavalo Morto’, onde demite os guias, pois ele pensava que, a partir dali, o caminho para a cidade perdida deveria se manter em segredo.

Antes dos guias partirem, o trio encaminhou mais correspondências, o coronel mandou notícias para os jornais que estavam o financiando e para sua esposa, dizendo: “Vou me encontrar com índios selvagens em breve, mas você não deve temer nenhum tipo de fracasso”.

Percy Fawcett e Raleigh Rimmell (1925) – Posto Simão Lopes. Foto: Reprodução/Pinterest

 Então, eles entraram na mata em direção às terras dos índios Kuikuros e Kalapalos e desde lá, desapareceram. Mas o trio só foi considerado como desaparecido dois anos após esse episódio, porque, antes de viajar, o coronel Fawcett informou que depois que entrassem na mata selvagem, poderiam ficar meses incomunicáveis.

Um jornal inglês ofereceu dez mil libras para quem fornecesse provas do que havia acontecido ao explorador. Porém, até então, ninguém sabia do paradeiro do explorador.

Uma das ordens do Coronel Fawcett era de que se ele não retornasse, não deviam fazer nenhuma tentativa de resgate, pois, se ele, com toda a experiência e conhecimento que tinha da selva sul americana, fosse vencido pelo inferno verde, era pouco provável que outros sobrevivessem.

Com medo de roubarem a descoberta dele, a rota que planejava seguir foi mantida no mais absoluto segredo, podendo ter seguido para qualquer lugar da gigantesca selva, o que dificultou mais ainda a tentativa de resgate. 

Mesmo assim, várias expedições de resgate foram realizadas para tentar encontrá-lo. Todas sem sucesso, resultando em mais desaparecimentos. Estima-se que mais de 100 pessoas morreram ou desapareceram nesse processo.

Uma esperança

Em 1931, um caçador suíço chamado Steffan Rattin chega à embaixada britânica em São Paulo dizendo que tinha notícias sobre Percy Fawcett. Ele foi recebido, então, pelo cônsul-geral Arthur Abbott, que conhecera Fawcett.

O suíço contou que ele e mais dois amigos estavam em uma expedição de caça e chegaram até uma aldeia indígena no noroeste do Mato Grosso, sendo recebidos pelos nativos que, em determinado momento, ficaram bêbados. Nesse momento um homem branco mais velho de cabelos amarelados longos, vestindo peles de animais se aproximou do suíço e disse que era um coronel britânico e que era mantido prisioneiro ali, pedindo para que Rattin pedisse socorro ao Major Paget na embaixada britânica.

Sir Ralph Paget era o antigo embaixador e poucas pessoas sabiam da amizade de Fawcett com ele. Isso ajudou a convencer o cônsul, mesmo se questionando como os indígenas deixaram o suíço sair dali enquanto mantinham outro homem branco aprisionado.

Convencido da sinceridade de Rattin, forneceu um incentivo para uma pequena expedição de resgate. Rattin partiu com mais dois homens e nunca mais foram vistos.

Região onde a expedição acontecia. Foto: Reprodução/Seguindo Passos História

Outras versões

Em um relatório de 1942, um general brasileiro afirma que Fawcett e os dois companheiros foram mortos pelos índios Kalapalos. Alguns anos depois, dois nativos dessa tribo confessaram as mortes a Orlando Villas-Boas, e ainda mostraram onde estavam as ossadas.

Contudo, as arcadas dentárias e as estaturas dos esqueletos não batiam com as dos exploradores, e posteriormente, por algum motivo, os descendentes de Fawcett se recusaram a fazer o exame de DNA. Já Villas-Boas insistiu até o fim de sua vida que aqueles ossos eram de Percy Fawcett.

Não demorou para que mais teorias malucas surgissem, inclusive a de que ele tinha encontrado a cidade perdida e por lá permanecera.

A esposa de Fawcett morreu em 1954 dizendo que sempre esteve em contato via telepatia com seu marido e seu filho, que estavam vivos no Brasil.

Orlando Villas-Boas com a suposta ossada de Fawcett. Foto: Wikimedia Commons/C.V.B. arquivo da família Villas Bôas

A história do desaparecimento de Percy Fawcett continuou intrigando a todos, o mistério que nunca foi solucionado chamou a atenção de um aventureiro, conhecido como James Lynch. Nos anos 90 ele organizou uma grande última expedição para ir atrás de Percy Fawcett.

James tinha uma equipe de especialistas, jipes preparados para a selva, barcos, GPS, rádios e uma grande quantidade de equipamentos tecnológicos e máquinas que Fawcett sequer poderia imaginar em sua época.

Ele chegou até próximo do ponto onde Fawcett foi visto pela última vez. Porém, para prosseguir, ele precisou deixar grande parte do equipamento e parte da equipe para trás e seguir de barco pelo Rio Xingú, e, assim que achasse uma área propícia para pouso, enviaria as coordenadas por rádio para um avião levar o equipamento.

Quando o dia estava quase terminando, James e os demais avistaram cabanas. Eles haviam chegado a uma isolada tribo dos Kuikuros. O chefe da tribo permitiu que James acampasse nas proximidades da aldeia e também que usasse suas terras para pousar o avião com equipamentos.

No dia seguinte, eles conseguiram ouvir o pequeno avião pousando próximo do acampamento. Pouco depois que iniciaram a caminhada para ir de encontro a aeronave, um dos indígenas Kuikuro veio correndo dizendo que havia problema.

Ao correrem, perceberam que estavam sendo cercados por indígenas com arcos e antigos rifles. Ao que tudo indicava, outras tribos também puderam ouvir o avião pousando.

O cerco ficava cada vez mais fechado e cinco membros da expedição correram em desespero até a aeronave, pulando para dentro do avião, gritando para que o piloto decolasse.

Vários indígenas tentaram segurar o avião pela asa, enquanto os tripulantes se livravam do peso e o piloto com muita dificuldade conseguiu decolar com um indígena ainda agarrado à asa, ao perceber que a aeronave estava decolando, acabou soltando e deixando eles fugirem.

James Lynch assistia a tudo aquilo boquiaberto, até que foi informado que a partir daquele momento, ele e o resto da equipe era prisioneiro deles. Os aventureiros permaneceram presos por três dias sob ameaças. Um resgate foi pago, incluindo os dois barcos, e então os prisioneiros foram libertados.

A história do mistério da cidade perdida de ‘Z’ e o desaparecimento de Percy Fawcett virou referência para o surgimento dos famosos filmes do personagem Indiana Jones, criado por George Lucas e Steven Spielberg, e interpretado pelos atores Harrison Ford e River Phoenix.

Em 1 de junho de 2019, a história foi contada pelo autor David Grann, com direção de James Gray, no filme ‘Z – A Cidade Perdida’, interpretado por Charles Hunnam, como o coronel Fawcett; Robert Pattinson, como Henry Costin; e Tom Holland, como o filho de Percy, Jack Fawcett.

Fonte: Portal Amazônia