Histórias do Brasil: Por que o Brasil comprou o Acre e perdeu a Cisplatina?
18 de julho de 2025

Bem, comecemos com a Cisplatina e depois vamos pro Acre.

Cisplatina

A perda da Cisplatina foi consequência de diversos fatores. Hoje em dia, costuma-se dizer que o Brasil perdeu a guerra da Cisplatina e até hoje os argentinos ficam cantando vitória. Mas se você analisar bem cada detalhe do que aconteceu entre 1825 e 1828 (o período de duração dessa guerra) você percebe que o Brasil não perdeu a guerra em si, o Brasil não perdeu o combate propriamente dito, ele foi obrigado pelas circunstâncias a largar a Cisplatina. Foi como o exemplo dos EUA no Vietnã. Os americanos não perderam a luta em si, eles foram obrigados a abandonar a luta. Da mesma forma, Napoleão não perdeu a guerra na Rússia em 1812 (ele venceu o exército russo em combate), ele foi obrigado a abandonar a luta por diversas razões como o inverno e uma mobilização de uma nova coligação na Europa.

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Fazendo um resumo da campanha, no mar a marinha brasileira (conhecida na época como “Armada Imperial”) deitou e rolou em cima da marinha argentina. Pra ter ideia, o maior navio de guerra que os argentinos tinham era uma fragata comprada de segunda mão dos chilenos chamada 25 de Mayo (data da revolução de maio de 1810, que dá início ao processo de independência argentina). A 25 de Mayo parecia um caiaque comparado com os maiores navios brasileiros, que eram tipo “navio de linha” (navio de grande porte, os maiores da época). A diferença de forças entre as duas marinhas era tanta que o Brasil sequer se deu ao trabalho de mandar os seus navios de linha, não era necessário. O Brasil mandou pra Cisplatina só navios de pequeno porte (brigues, escunas, etc.) e dos navios de médio porte mandou só 4 corvetas e uma única fragata, a Niterói.

O coronel Brandsen morre enquanto liderava uma carga da cavalaria argentina na batalha do Passo do Rosário (“Batalla de Ituzaingó” pros argentinos). Na versão argentina dos relatos, a tal carga foi decisiva forçando os brasileiros a baterem em retirada. Na versão brasileira, a carga falhou diante da fuzilaria brasileira não tendo influência sobre a decisão brasileira de recuar.

Como esperado, só esses navios menores aí foram suficientes pra colocar a marinha argentina na roda. A armada republicana (argentina) não tinha chances contra a armada imperial em combate regular em mar aberto. Por isso os argentinos preferiam lutar com táticas de guerrilha naval atacando os BRs de surpresa e logo indo embora o mais rápido possível antes dos brasileiros reagirem (a tática do “bater e correr”). Na retirada, os argentinos adentravam em águas mais rasas do Rio da Prata sabendo que os navios brasileiros, por serem maiores, não poderiam segui-los por lá sem correr o risco de encalhar. As únicas 3 batalhas navais regulares da guerra (tirando as escaramuças navais em estilo guerrilha) foram todas dentro do Rio da Prata em águas mais rasas, que favoreciam os argentinos por terem embarcações menores.

Infantaria brasileira se defendendo de um ataque de cavalaria argentino

Mesmo o terreno (ops, as águas) favorecendo os argentinos eles só venceram em Juncal (onde eles renderam uma esquadra BR inteira só de navios de pequeno porte, as corvetas e fragatas NÃO estiveram em Juncal) perdendo em Monte Santiago e Lara-Quilmes sendo que em Quilmes eles perderam a 25 de Mayo, que saiu bastante castigada do combate e foi perseguida e cercada por 3 navios brasileiros – a sua tripulação foi obrigada a encalhar a fragata jogando-a com tudo numa praia próxima a Buenos Aires pra escapar da captura. A 25 de Mayo ficou tão danificada pelo fogo brasileiro que nunca mais entrou na água. Historiadores brasileiros como Gustavo Barroso contam que supostamente depois de tirarem a 25 de Mayo da jogada a esquadra BR ainda fez questão de desfilar na frente do porto de Buenos Aires (com vários civis no porto assistindo) pra fazer pouco da cara dos argentinos e mostrar que a marinha deles não era de nada. Diz-se que os marinheiros BRs ficavam nos conveses acenando pros civis no porto gritando “Viva o Brasil! Viva o Imperador!”.

Porém, se no mar os BRs fizeram dos hermanos gato e sapato e só dava Brasil e depois do Brasil era o Brasil de novo, em terra firme o negócio tava mais complicado. Se no mar a briga tava resolvida pro Brasil, em terra os BRs tavam tendo trabalho. Em terra firme, os argentinos e uruguaios estavam se valendo de táticas de guerrilha, que diferente do que ocorria no mar estava dando certo já que os pampas uruguaios eram um território habitado por pessoas de origem castelhana adeptas da causa republicana. Em terra, houve raras batalhas, ou seja, combates regulares. A campanha terrestre se resumiu a guerrilhas por parte dos republicanos (argentinos e uruguaios) e raides (o que hoje no EB chama-se “ações de comandos”) por parte dos imperiais (brasileiros).

A fragata Niterói ataca a 25 de Mayo num 1×1 na batalha de Lara-Quilmes

Em guerras de guerrilhas e raides como a campanha terrestre da guerra da Cisplatina (como o Vietnã também), não dá pra dizer quem está ganhando ou quem está perdendo justamente porque raides e guerrilhas são tipos de guerra irregular – mesmo os raros combates regulares (como a batalha de Passo do Rosário, também chamada de Ituzaingó) dessa guerra terminaram com desfecho inconclusivo, empate técnico. Nesse tipo de guerra, não há uma linha de frente bem definida e a qualquer piscar de olhos um lugar tido como fundão da retaguarda pode virar linha de frente. Guerrilhas e raides não têm intenções de ocupar território permanentemente como na guerra regular. Guerrilhas e raides são guerras de atrito e desgaste onde a intenção não é nocautear o inimigo mas cansá-lo. Em guerras desse tipo, não dá pra saber quem tá ganhando, só dá pra saber quando ela acaba. Citando o Rocky Balboa, numa guerra de guerrilhas e raides (como a Cisplatina e o Vietnã) vencer não se trata de bater mais mas sim de quanto você aguenta apanhar. É um tipo de guerra em que vence quem aguenta apanhar por mais tempo. Nesse tipo de guerra não existe forte e exército fraco.

Assim, na campanha terrestre havia esse empasse por causa do uso das táticas de guerrilha e raide. Mas no geral, os republicanos predominavam no pampa enquanto os brasileiros mantinham o controle direto de Montevidéu e Colônia do Sacramento (que estavam sendo cercadas por tropas argentinas), que juntas concentravam 2/3 da população do Uruguai na época. Os argentinos fizeram várias investidas contra ambas as cidades mas falharam contra as defesas brasileiras – os republicanos só conseguiram tomar posse das duas cidades quando a guerra acabou e as defesas brasileiras receberam ordens do Rio de Janeiro pra abandoná-las e entregá-las ao inimigo. Por sinal, o futuro marechal Duque de Caxias (que na época ainda era major) serviu nas defesas de Montevidéu com menções por bravura em combate.

O “juramento dos 33 orientais”, o “grito do Ipiranga uruguaio”.

Esse empasse em terra, estava fazendo a guerra durar muito e consumir muitos recursos de ambos os países. No caso argentino, era ainda pior porque a marinha brasileira estava impondo um bloqueio naval que travava as importações e exportações argentinas comprometendo a economia (e consequentemente os esforços de guerra já que manter tropas em combate é caro) e deixando o país à beira do colapso. Em julho de 1827, o general argentino José de San Martín (o “George Washington da Argentina”) chegou a dizer a um ministro do governo que, por causa do bloqueio naval brasileiro, ele acreditava que a Argentina não iria aguentar mais um ano de guerra e que portanto Buenos Aires teria que buscar um acordo com o Rio o mais rápido possível. A situação no Brasil não era muito diferente e a gente também não iria aguentar mais muito tempo. A economia daqui também foi afetada pela guerra, mas não tanto como na Argentina já que, diferente da gente, eles estavam sob bloqueio naval.

O imperador Dom Pedro I já não era bem visto por certos grupos políticos, que o pressionavam e se colocavam como obstáculos ao seu governo – esse pessoal mais tarde (em 1831 mais precisamente) conseguiria forçar o homem a abdicar. Inclusive, senadores e deputados opositores ao imperador conseguiram barrar várias vezes a aprovação de envio de reforços para a Cisplatina atrapalhando propositalmente os esforços de guerra e jogando contra o próprio país como que fazendo questão de ver Dom Pedro perder a guerra – o envio de reforços dependia da aprovação parlamentar, que era mais complicado de se conseguir num parlamento de maioria da oposição. Além de lidar com os argentinos e uruguaios, o imperador ainda tinha que lidar com os políticos brasileiros. A opinião pública nos dois países também se voltou contra ambos os governos pressionando-os pra sair logo da guerra, como aconteceu com o tio Sam no Vietnã – isso pesou principalmente no Brasil, onde a opinião pública foi contra a guerra desde o começo (na Argentina, a opinião pública começou a favor e depois foi virando pro lado do contra).

O povo comemora o fim da guerra da Cisplatina

Se já não bastasse tudo isso, a Inglaterra (a até então superpotência mundial) ainda veio se meter em assunto alheio visto que a guerra estava atrapalhando os negócios dos empresários ingleses na região. Os ingleses intimidaram ambos os governos obrigando-os a sentar na mesa de negociações e chegar a um acordo pra acabar logo com o conflito. Como nenhum dos dois conseguiu ser o dono do Uruguai pelas armas, decidiu-se que ele não seria de nenhum dos dois e passaria a ser um país independente. Pro Brasil abrir mão da Cisplatina, os argentinos também tiveram que abrir mão de algumas coisas – pouco mencionadas hoje em dia quando fala-se nessa guerra, o pessoal só se lembra do Uruguai. No caso, os portenhos abriram mão do atual oeste de Santa Catarina e da atual região de Sete Povos das Missões (noroeste do RS). Os argentinos também deram livre passagem sem taxas aduaneiras a navios brasileiros pelo rio da prata e pelo rio Paraná, que era algo muito importante pro Brasil visto ser a principal forma de acesso ao Mato Grosso na época – chegar no MT por terra era muito complicado na época, por incrível que pareça era mais fácil dar a volta pela Argentina.


Acre

Quanto ao Acre, lembremos que originalmente o Acre pertencia à Bolívia. Mas surgiram lá movimentos separatistas que tentavam fazer do lugar um país independente. Esses movimentos separatistas tiveram bastante apoio de brasileiros interessados nos seringais acrianos e invocando antigos tratados de demarcação de fronteira, que devido à limitação tecnológica da época poderiam ter imprecisões de vários km de forma que o Acre poderia na verdade estar do lado brasileiro da fronteira. Mas é de se notar que o governo brasileiro não tinha muito interesse no lugar. O interesse era do governo do estado do Amazonas e de empresários. O governo federal não tava nem aí.

Tropas bolivianas entrincheiradas no Acre

Na verdade, no começo o governo brasileiro até tava ajudando os bolivianos mandando forças pra ajudar o exército da Bolívia enquanto o governo do AM ajudava os separatistas. O interesse do governo federal surgiu quando se descobriu um tratado entre a Bolívia e os EUA no qual os americanos se comprometiam a ajudar em caso de guerra com o Brasil – apesar de que os americanos na verdade não tinham intenção de cumprir o acordo e quando os bolivianos pediram a ajuda os americanos negaram e deixaram a Bolívia na mão. Nisso, o governo federal se viu obrigado a interferir pra evitar uma guerra ocasionada com a Bolívia e EUA pelos interesses estaduais. O representante diplomático do Brasil, o Barão do Rio Branco, negociou com o governo boliviano e conseguiu chegar num acordo em que o Brasil compraria o Acre.

Por: Quora

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