De geração em geração, as plantas são usadas para o fortalecimento da saúde. Mas é preciso cuidado no uso

De acordo com o IQVIA, o Brasil se tornou o sexto maior mercado farmacêutico do mundo em 2017. O País é campeão no consumo desenfreado de medicamentos e naturaliza a automedicação com produtos sobrecarregados de química, como os anti-inflamatórios. Por outro lado, são incontáveis os ensinamentos e receitas de plantas brasileiras utilizadas para combater doenças. São transferidos de geração em geração e os produtos estão disponíveis em feiras livres e no mercadinho mais próximo.

Descendente de avós indígenas, a agente de saúde Roseane Santana, 46, cresceu ouvindo que as plantas curam. Na sua casa, o consumo de chás e infusões com ervas medicinais tem prioridade, em detrimento dos medicamentos farmacêuticos. “A gente ouvia dos efeitos colaterais e sabe que muitas vezes o produto ajuda para um problema, mas acaba provocando outro. Até hoje é assim com meus filhos e netos”, conta. No quintal, ela cultiva ervas que servem de remédio para febre, dor de cabeça, gripe, dor de barriga e até sinusite.

O poder medicinal das plantas é objeto de estudo no âmbito acadêmico. A professora de farmacobotânica da UFPE, Karina Randau, é especialista em química de produtos naturais e explica que o modelo biomédico, com o uso contínuo de medicações, pode levar o organismo à toxicidade. “Muitas vezes você chega numa consulta e, quando o prescritor não passa um medicamento, você não volta mais. Temos várias plantas utilizadas como expectorante, como o Xambá, utilizado na produção de xarope. Então, por que não iniciar com um produto natural?”, observa.

Ciente da eficácia das práticas populares e tradicionais de uso de plantas medicinais e remédios caseiros, o Governo Federal criou em 2006 a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (Decreto nº 5.813), que propõe a inserção destes recursos no Sistema Único de Saúde (SUS). Em Recife, o Sistema Integrado de Saúde (SIS), no Engenho do Meio, bairro da Zona Oeste, oferece atendimento gratuito e desenvolve prescrições desta modalidade de tratamento sobretudo para pacientes com doenças crônicas, como hipertensão e diabetes.

O desejo de “livrar a pessoa dos seus males, dores e dificuldades sem o uso de carga química adversa e, muitas vezes, tóxica” foi o que levou a farmacêutica Marise Matwijszyn à especialização em terapias complementares e a atender no SIS. “Existem casos de pessoas que tomam até cinco medicamentos tarja preta e não têm melhora. Sabe quando melhoram? Quando começam a respirar, tomam um chá calmante e aprendem a desestressar por si – sem o uso de química.”

Para o uso de plantas medicinais é preciso cautela: saber a planta que será utilizada, em virtude dos diversos tipos, e como será utilizada. O consumidor deverá fazer o próprio controle de qualidade e saber a procedência, quando foi coletada e como está armazenada. O uso também não dispensa os tratamentos com medicamentos farmacêuticos, bem como seu uso deve ter acompanhamento médico quando o paciente faz uso de polifarmácia para que a interação medicamentosa seja considerada. A orientação é de gestantes, lactantes, crianças abaixo de 2 anos e idosos não façam o uso sem prescrição.

Karina Randau, professora de farmacobotânica da UFPE e especialista em química de produtos naturais
Karina Randau, professora de farmacobotânica da UFPE e especialista em química de produtos naturais – Foto: Arthur de Souza/Folha de Pernambuco

Prática
Muitos dos aliados para os tratamentos naturais estão na cozinha, no quintal ou são de fácil acesso. O alho, por exemplo, pode ser utilizado na comida ou em forma de chá como complementar no cuidado de hipertensos, bem como para combater a tosse, febre e demais estados de resfriamento. Algumas folhas também têm ação anti-hipertensiva, como a do abacateiro e do chuchu. O banho com as folhas e flores da colônia é popularmente conhecido por ajudar a baixar a febre em crianças e acalmá-las. Para problemas digestivos, são queridas a erva doce e o boldo – este último, inclusive, é excelente para desintoxicar fígado e vesícula.

Os chás das cascas de aroeira e barbatimão são famosos pelas ações anti séptica, bactericida e cicatrizante. No entanto, especialistas alertam que o uso deve ser externo ou em bochechos, pois eles não devem ser ingeridos. Outro alerta é para o uso da erva conhecida como “quebra-pedra”. O chá costuma ser utilizado para casos de pedras nos rins, mas, diferente do que diz o nome, ele não age nos cristais e, sim, a dilatar a uretra. Caso os cristais sejam grandes, eles podem obstruir o canal e gerar outro problema. Por isso, é necessário raio-x e orientação profissional ou preferível os consumos de melão, melancia, suco de limão e muita água.

No “Viver Bem”, a apresentadora Patricia Breda conversa com Camila Ribas, Jornalista, Terapeuta energética e idealizadora do Portal Namastu. Ouça: