Médicos relataram que perder esse sentido pode estar entre os sintomas da infecção pelo vírus.

“Acordei e não conseguia sentir o gosto ou o cheiro de nada. Foi a coisa mais aguda que já experimentei”, contou a londrina Holly Bourne. Como ela não teve os sintomas de coronavírus mais conhecidos – tosse e febre alta –, não foi elegível para ser testada pelo Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS). Mas sua experiência de perder repentinamente o olfato, combinada com “pressões estranhas na cabeça”, dores de cabeça e exaustão levaram seu médico a diagnosticá-la “na hora” com a Covid-19 em uma consulta feita por telefone.
 

Embora ainda não existam estudos consistentes sobre a ligação entre o coronavírus e o olfato, médicos relataram que perder esse sentido pode estar entre os sintomas da infecção pelo vírus. No entanto, a prevalência e a duração desse sintoma não estão claros.

“Tive sorte de não ter os sintomas horríveis de verdade”, diz Holly, uma escritora de 33 anos. Mesmo assim, ela conta que sua perda do olfato, ou anosmia, como é tecnicamente chamada, como “uma das coisas mais perturbadoras que já passei, porque eu não me sentia no controle… Eu me senti impotente e assustada.”

Além do impacto psicológico de acreditar que você pegou um vírus mortal e a tristeza que vem com a ausência do prazer de comer, muito ligado ao olfato, a anosmia também pode ser perigosa. Foi o que a escritora descobriu quando o namorado dela perguntou por que um pote de plástico de margarina estava derretendo no fogão da casa deles em Londres. De costas para o fogão enquanto preparava alguns sanduíches, ela não conseguiu notar o forte cheiro de algo sintético derretendo.

Assim como ocorreu com as dezenas de pessoas com perda de olfato com as quais a CNN conversou, Holly procurou respostas no Google e nas redes sociais, já que não há conselhos oficiais das autoridades de saúde disponíveis sobre esse tema. Ela compartilhou o que encontrou em um tópico no Twitter, onde algumas pessoas relataram que o olfato ainda não havia voltado depois de três ou quatro semanas da primeira manifestação.

O que muitas pessoas que têm anosmia ou hiposmia (perda parcial do olfato) surgida durante a pandemia de coronavírus querem saber é: quanto tempo isso vai durar? Será permanente?

A resposta, de acordo com o professor Steven Munger, diretor do Centro de Olfato e Paladar da Universidade da Flórida, ainda é desconhecida.

A volta do olfato “pode levar dias, semanas, às vezes até meses ou anos em raras ocasiões. Às vezes é algo gradual, às vezes acontece de uma vez e realmente não sabemos as razões”, acrescentou. Para Holly, o pior parece ter passado. “Já faz quase duas semanas e agora cerca de 70% do meu olfato voltou. Uma narina está melhor que a outra”, contou Holly.

Mark Driver, um enólogo de 55 anos de Londres, começou a se sentir mal com tosse, dor de garganta e febre baixa depois de entrar em contato com um ex-colega que havia contraído a Covid-19 em Dubai. Por volta do oitavo dia da doença, Mark perdeu o olfato. “Isso coincidiu com dores de cabeça muito fortes na testa, logo acima dos olhos”, relatou.

“O olfato é muito importante para o meu trabalho, então fiquei preocupado que ele não voltasse.” Vinte dias desde que ficou doente, o enólogo diz que sua degustação de vinhos continua “terrível” e ele ainda não consegue sentir cheiros muito bem.

Sian Griffiths, 60 anos, que administra uma pousada (agora parada) em Argyll, na Escócia, começou a se sentir cansada em 28 de março e notou que havia perdido o olfato ao cozinhar um curry no dia seguinte. “Percebi que não tinha paladar, e confirmei isso ao morder sem querer uma vagem de cardamomo. Isso foi bem pertubador, pois eu não tinha outros sintomas, como nariz entupido”, lembrou.

Como muitas outras pessoas no Reino Unido, Sian seguiu as diretrizes do governo e não entrou em contato com o serviço de saúde local porque não tinha tosse ou febre. Mas ficou preocupada depois de alguns dias. “Coloquei o nariz acima de uma jarra de café: nada. Uísque: nada. Fritar bacon: nem sinal. Comer qualquer coisa era muito desagradável, até repulsivo, porque eu não podia ter certeza de que o que eu estava comendo era realmente comida”, acrescentou a escocesa.

A questão sobre a sensação de perda de olfato ou paladar se resume ao uso científico ou coloquial da palavra sabor, diz o professor Steven. “Quando os cientistas falam sobre paladar, eles se referem ao que você pode detectar na boca e que lhe dá uma sensação – doçura, salinidade, amargura, acidez ou umami. Mas paladar mais olfato é o que o seu cérebro reúne para criar a função do sabor”, explicou.

A dona de pousada escocesa notou que perder o olfato significava que ela não sabia mais se a comida estava estragada, dizendo “é quase automático cheirar a caixa de leite ao abri-la e antes de serví-lo, só para ver se não estragou”. Vivendo no décimo-segundo dia depois de perder o olfato, ela conta: “Tenho pequenos sinais de que o olfato está voltando. Quase como se algumas moléculas estivessem passando. Senti cheiro de tinta fresca onde eu estava pintando madeira alguns dias antes… Acho que tenho 10% de olfato e paladar hoje.”

Amy Walker, 30 anos, gerente de finanças e negócios de Londres, sentiu que estava com um resfriado forte e perdeu o olfato em 18 de março – mais de três semanas atrás.

“Eu estava totalmente letárgica, só para ir da minha cama ao banheiro parecia que eu tinha corrido uma maratona”, lembrou. Como ela havia estado em contato com uma pessoa cujo teste dera positivo para coronavírus, Amy ligou para o serviço de apoio do NHS, mas depois de um longo tempo em espera, percebeu que, como seus sintomas não estavam afetando seu sistema respiratório, ela deveria seguir os conselhos do site do NHS.

“O paladar e o olfato sumiram juntos. Estou em recuperação de um distúrbio alimentar que tive por mais da metade da minha vida e a perda do paladar é um gatilho muito forte para mim psicologicamente – eu imediatamente me senti infeliz”, relatou.

“Isso trouxe de volta o medo da comida e uma atitude de ‘então tá, se eu não posso provar, então qual é o sentido de comer alguma coisa?’”, acrescentou. “O fato de estar confinada e tão exausta com aqueles dois sentidos que foram tirados de você, e ainda ter pânico e medo em todos os lugares, exauriu todas as minhas forças”.

Amy diz que seu paladar e olfato estão agora em torno de 50%. Só que o fato de o paladar e olfato voltarem pela metade subitamente e pararem nesse ponto fez com que ela pensasse “agora vou ficar assim para sempre”.

Claire Hopkins, presidente da Sociedade Britânica de Rinologia, é a médica otorrinolaringologista que está encarregada de fazer com que a perda de olfato seja incluída como sintoma da Covid-19 pela Organização Mundial da Saúde.

A médica pediu que a perda do olfato fosse incluída em um aplicativo móvel de rastreamento de sintomas de coronavírus desenvolvido pelo King’s College London. Posteriormente, em abril, o King’s College relatou que sua pesquisa descobriu que a perda do olfato ou do paladar é um preditor mais forte da infecção por coronavírus do que a febre. Das 400 mil pessoas no Reino Unido que relataram um ou mais sintomas entre 24 e 29 de março, 18% perderam o olfato ou o paladar e 10,5% estavam com febre.

As centenas de pessoas que a contataram para compartilhar suas experiências depois que ela divulgou uma carta em 20 de março na ENT UK (organização que representa cirurgiões de ouvido, nariz e garganta no Reino Unido) deixaram a médica impressionada. A carta dizia que pacientes com anosmia de início recente deveriam se auto-isolar.

Quando um de suas colegas do Guys & St Thomas Hospital, em Londres, divulgou sua carta, em cinco minutos ouviu vinte médicos dizendo “é exatamente isso que eu tenho”. Um deles fez um teste numa clínica particular para Covid-19 e deu positivo naquele dia, diz ela.

Há uma escassez de testes de coronavírus no Reino Unido. Em 9 de abril, por exemplo, o Departamento de Saúde do país informou que pouco mais de 10 mil pessoas foram testadas; a meta do governo até o final do mês é testar 100 mil por dia, segundo o secretário de Saúde Matt Hancock.

Isso significa que pacientes e médicos estão tendo que se auto-isolar com base nos sintomas, o que obviamente torna ainda mais importante saber quais são os do coronavírus.

Desde que foi inundada com perguntas depois que sua carta foi publicada, a doutora Claire Hopkins fez uma pesquisa por e-mail com quase 2.500 pacientes que sofreram súbita perda do olfato. No momento do preenchimento da pesquisa, cerca de 50% disseram que já estavam começando a sentir uma melhora. No follow-up de uma semana, dois terços relataram que já estavam começando a ver mais melhoras.

Caso você não se recupere, o conselho da médica é procurar um médico quando for possível ter consultas presenciais novamente.

Conselhos para quem está sem olfato

O que as pessoas podem fazer para ajudar no retorno do olfato durante a pandemia de coronavírus?
Para aqueles que se sentem ansiosos e preocupados, o professor Steven Munger avisa que eles devem “reconhecer o que é legítimo”.

Do ponto de vista da segurança, existe o potencial de não conseguir detectar incêndios e consumir alimentos estragados, mas também existe “um componente emocional real com o ator de cheirar, uma conexão trazida por esse sentido” que está ligada às nossas interações sociais que frequentemente giram em torno de comida ou bebida.

“Há também essa conexão com o mundo: flores, o cheiro do cabelo de um parceiro, todos esses tipos de coisas são muito reais e não os ter pode ser um tipo de isolamento emocional”, argumenta.

Um dos tratamentos que os médicos otorrinolaringologistas às vezes usam para a perda do olfato que pode resultar de uma resposta inflamatória é o uso de esteroides nasais, como explica o professor. Isso envolve espirrar medicamentos com esteroides no nariz para tentar reduzir a inflamação.

A doutora Claire Hopkins explica que normalmente na anosmia pós-viral “consideraríamos o uso de comprimidos de esteroides”, no entanto, esse não é o caso agora porque a Organização Mundial da Saúde está alertando contra o uso de esteroides orais para pessoas com infecções por Covid-19, que poderiam aumentar a gravidade das complicações respiratórias.

“Até que tenhamos certeza de que os esteroides não causam danos, estamos evitando-os, principalmente nas primeiras duas semanas. A maioria das pessoas que se sofre piora passa por isso entre os dias oito e doze em termos de complicações respiratórias. Existe o potencial de que, se você ultrapassar a janela de catorze dias, o risco de usar esteroides possa ser menor, mas ninguém realmente sabe ao certo”, acrescenta a especialista.

CNN BRASIL

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