A terceira e última matéria da série sobre as consequências da crise climática no Rio de Janeiro lembra o desastre na Serra Fluminense em 2011 e fala de possíveis problemas futuros

Há 11 anos, o estado do Rio de Janeiro viveu o que muitos especialistas consideram a maior tragédia climática da história do Brasil. As fortes chuvas que atingiram a Serra Fluminense deixaram, de acordo com os registros de órgãos públicos, mais de 900 mortos e 30 mil desalojados. O trágico cenário não mudou muito nessa última década e não estamos livres de novas situações similares. É sobre isso que a terceira e última matéria da série #CriseClimáticaNoRio, produzida pelo DIÁRIO DO RIO, vai falar.

Em janeiro de 2011, tudo parecia normal na nova década que se iniciava até que tempestades caíram na Região Serrana do Rio causando um estrago que dificilmente vai ser superado. Segundo dados oficiais do Governo do Estado do Rio de Janeiro, foram 918 mortos e 34.600 pessoas desabrigadas ou desalojadas na região. Fora 99 vítimas seguem desaparecidas, de acordo com o Ministério Público Estadual – dados divulgados em 2021.

Cícero Costa, comerciante de 58 anos, morador de Nova Friburgo, sobreviveu ao desastre. Superar é mais difícil. “Já passou esse tempo todo e ainda lembro e choro pensando naquilo tudo. Eu estou aqui, mas muita gente conhecida, querida, se foi naquela época. Perdi muita coisa. Ainda é difícil falar sobre”.

Bairro Córrego Dantas, na cidade de Nova Friburgo. Foto: Marcos de Paula/Agência Estado

“Foi inesquecível e uma trágica por consequência das mudanças do clima. Numa região que, por acaso, é bem florestada, mas mesmo assim tem limite na capacidade de resistir a tanta chuva”, destacou Sergio Margulis, autor do livro “Mudanças do Clima: tudo o que você queria e não queria saber”.

Outro especialista no tema, Christovam Barcellos, coordenador do Observatório de Clima e Saúde e vice-diretor de Pesquisa e Ensino do Icict/Fiocruz, explica um pouco o desastre e faz um alerta:“Foi causado por uma frente fria, carregada de umidade, com ventos do oceano o tempo todo se chocando contra a serra e a serra com declividade, solo raso, muito úmido, acaba tendo erosão, deslizamento de terra, enchentes. Infelizmente é o que prevemos para esse ano de 2022, principalmente nesse verão que está muito chuvoso e com a mudança nos padrões de circulação do ar”.

Vista aérea mostra os estragos provocados pela chuva em Teresópolis — Foto: Marino Azevedo/ Governo do estado RJ

Christovam, ainda, continua: “Não é possível que todo verão, a gente seja surpreendido. Existe tecnologia para evitar grandes estragos. Há pouco tempo foram instaladas sirenes, sistema de alarme, em áreas de risco em épocas de fortes chuvas. O importante é que a gente aprenda. O Poder Público tem que confiar nas previsões sobre as mudanças climáticas a longo prazo e a curto prazo, como pode ser nesse verão. Precisamos estar muito atentos e o Poder Público sabe disso, existem instituições que fazem um ótimo trabalho para ajudar na identificação e na prevenção de desastres”.

Outras são as grandes consequências da crise climática em um lugar como o Rio de Janeiro. A tão falada elevação do nível do mar é uma delas. Além das grandes secas, como citamos na matéria anterior desta série.

“A elevação do nível do mar é um processo muitíssimo lento. Na verdade, tudo depende do cenário climático, de qual vai ser o esforço da humanidade em reduzir as emissões de carbono, de tentar controlar o problema. Se a gente for num patamar parecido como está agora, está previsto um patamar de elevação de um metro do nível do mar até 2100. Um metro é muita coisa. Imagine quantas cidades estão à beira mar. Uma cidade como o Rio de Janeiro está relativamente protegida porque tem um nível médio de cerca de quatro metros acima do nível do mar, mas as praias vão ficar inundadas. É um problema seríssimo, pelo lazer, pelo turismo. E o problema dessa elevação é um processo lento e muito difícil de frear. O aquecimento vai derretendo todo o gelo polar, o gelo das montanhas, e isso evidentemente desemboca nos oceanos, e há cenários alarmantes. A questão da elevação é que ela realmente tem um impacto muito grande, apesar de ser um processo mais lento, não ser violento e brusco, não ter extremos como tem no caso das chuvas e deslizamentos. As ressacas são eventos já recorrentes, com a elevação do nível do mar elas tendem a ficar mais intensas.  Ao contrário da cidade do Rio de Janeiro, que está um pouquinho acima do nível do mar, há áreas que estão abaixo. Então, à medida em que o nível do mar vai subindo, esses locais vão sofrer as consequências. No fundo da Baía de Sepetiba, na região de Itaguaí, são exemplos. São regiões muito sujeitas a qualquer elevação do nível do mar. No médio prazo, essas cidades e esses bairros estão mais vulneráveis a inundações. É preciso desde já pensar as obras, que vão demandar prazos longos. É preciso ir pensando em soluções a longo prazo porque, inevitavelmente, essas áreas de baixada são muito vulneráveis. E tem muita gente morando lá. Toda a Baixada Fluminense e a Zona Oeste estão vulneráveis à elevação do nível do mar. É preciso pensar nisso também”, explica Sergio Margulis.

Como podemos ver, os problemas, as consequências da crise climática presente no mundo todo são realidade no Rio de Janeiro. Mas o que podemos fazer para evitar o pior?

“A gente tem que ser um pouco mais agressivo, não só no Rio de Janeiro, mas também em nível nacional. Acho que nem preciso falar da péssima gestão ambiental e climática do governo federal. No Rio de Janeiro, foram feitas algumas coisas. Há um plano de adaptação às mudanças do clima para o estado, um estudo técnico do qual tive o prazer de participar, de liderar também. Estão previstas mudanças e adaptações, como sistemas de alerta, melhorar a drenagem das cidades, evitar que as pessoas ocupem áreas muito vulneráveis a deslizamentos e inundações, a refrigeração das escolas, hospitais, centros de saúde. Isso é muito importante porque as temperaturas vão aumentando. A manutenção das infraestrutura de abastecimento de água, transportes e água, principalmente com drenagem pluvial, são muito importantes”, finaliza Sergio Margulis, que foi secretário nacional de Desenvolvimento Sustentável (na SAE), assessor especial de dois ministros do Meio Ambiente no Brasil, Presidente da Feema (atual INEA) e pesquisador do IPEA.

Fonte: Diário do Rio