Acidentes com motos matam 458 pessoas em um ano no Rio e sobrecarregam hospitais públicos
1 de junho de 2025

No último dia 13 de outubro, o dançarino e empregado de uma empresa de extintores de incêndio Alex Reis Peçanha Júnior, de 30 anos, deu entrada no Hospital Estadual Azevedo Lima, em Niterói, com ossos da face esfacelados e traumatismo craniano. O rapaz retornava de moto de uma festa no Morro do Serrão, também em Niterói, quando perdeu o controle do veículo, bateu numa árvore e caiu com o rosto no chão. Precisou ficar internado por 39 dias e deverá ainda ser submetido a mais uma cirurgia, para corrigir a visão dupla no olho direito. Mais de sete meses depois do acidente, ele se mostra arrependido e garante que não repetirá atos inconsequentes: pilotar sem habilitação e capacete e após ingerir bebida alcoólica.

A imprudência sobre duas rodas — que mata, deixa sequelas, abala famílias, impacta listas de espera para cirurgias e afeta as contas dos setores públicos — virou uma bola de neve. Dados preliminares do Sistema de Informações sobre Mortalidade (Sim), do Datasus, revelam que, no ano passado, os acidentes com motos provocaram pelo menos 458 óbitos no Estado do Rio, soma superior às de 2023 e de 2022.

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Apenas na rede de urgência e emergência da capital, os atendimentos a essas vítimas quase triplicaram de janeiro a abril deste ano (9.686), se comparados com igual período de 2023 (3.398), segundo a Secretaria municipal de Saúde. Ainda nessas unidades, a cada quatro cirurgias ortopédicas de emergência — que custaram R$ 130 milhões em 2024 — três são por acidente de motocicletas. Considerando o tratamento pós-cirúrgico, o custo total sobe para R$ 200 milhões.

O impacto das motos no dia a dia — Foto: Editoria de Arte
O impacto das motos no dia a dia — Foto: Editoria de Arte

A despeito da dura realidade das ruas e dos números, o prefeito Eduardo Paes atendeu ao pleito de motociclistas e decidiu rever as medidas mais polêmicas do Plano de Segurança Viária, anunciado em 16 de maio e que deveria entrar em vigor hoje, com o objetivo de reduzir acidentes com motos. O limite de velocidade de 60km/h e a proibição de que esses veículos trafeguem nas pistas centrais das avenidas Brasil, Presidente Vargas e Américas não serão mais implantados. Sobre outras ações previstas — como a ampliação das faixas para motocicletas —, a prefeitura não informou quando serão implementadas.

Problema começa em 2020

Pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Erivelton Pires Guedes destaca que, quanto a óbitos por motos, o quadro do Estado do Rio é grave, embora melhor do que a média brasileira. No território fluminense, a taxa de mortos nesses acidentes foi de 2,4 por cem mil habitantes em 2023 (último ano com dados consolidados do Datasus). A informação consta no capítulo sobre motos do Atlas da Violência 2025, lançado recentemente pelo Ipea.

— O problema começou em 2020 (início da pandemia de Covid-19), com a entrega de comida. Veio a moto para transporte de passageiros. E a situação foi piorando — analisa Guedes.

Alex Reis Peçanha Júnior, que sofreu acidente de moto em outubro do ano passado: ainda com visão dupla de um dos olhos — Foto: Arquivo pessoal
Alex Reis Peçanha Júnior, que sofreu acidente de moto em outubro do ano passado: ainda com visão dupla de um dos olhos — Foto: Arquivo pessoal

Em Niterói, o motociclista Alex foi salvo, mas o trauma psicológico ficou:

— Sofri muito. Tive de colocar chapa na cabeça. Não sei se vou voltar a pilotar.

Já o motoboy Joel Lucas Machado, de 27 anos, conta que é habilitado e não dispensa o capacete. Ele sofreu um acidente na Linha Vermelha, a caminho da Ilha do Governador para fazer uma entrega. Diz que foi fechado por um motorista, que fugiu. Ficou 12 dias internado no Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, precisou fazer cirurgia na perna direita e teve alta na última quarta-feira. Contudo, não sabe por quanto tempo terá de usar cadeira de rodas e quando poderá voltar a trabalhar.

— O motorista não ligou seta nem olhou pelo retrovisor. Os médicos dizem que vou andar. Só que não sei quando, porque é um processo — lembra Joel. — Estou sem trabalhar, e as contas não esperam.

Diretor do Getúlio Vargas, Paulo Ricardo Lopes da Costa afirma que a grande maioria dos acidentados que chegam à unidade são vítimas de moto: foram 1.532 dos 1.889 de janeiro a abril deste ano.

— O cenário vem piorando pelo excesso de velocidade e a falta de uso do capacete — ressalta. — O grande problema são as sequelas: motora, de fala e de acuidade visual.

O mesmo acontece no Hospital Estadual Alberto Torres (Heat), em São Gonçalo. Lá, além das mortes, o tempo de internação e de cuidados após a alta médica, as amputações e as vítimas de moto com sequelas graves têm crescido. Marcos Correa, coordenador da ortopedia do Heat, alerta ainda para os casos de menores:

— Temos um índice maior de ocorrências de crianças acima de 12 anos como condutores de motos. Já as menores são vítimas da falta de responsabilidade dos pais no transporte, muitas vezes com três ou mais passageiros na moto.

Tantas ocorrências graves se refletem nos repasses de valores das Autorizações de Internação Hospitalar (AIHs). No estado, as relativas a internados por acidentes de moto mais que triplicaram de 2014 para 2024, refletindo o aumento do custo desses pacientes. Ressalvada a defasagem da tabela SUS, subiram de R$ 5,5 milhões para R$ 18,6 milhões nesse período.

Consumo de antibióticos

O Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), especializado em cirurgias ortopédicas de alta complexidade, também fica no meio do turbilhão. Para a unidade, estado e prefeituras encaminham pacientes, incluindo os de acidentes de trânsito, mais de 60% deles por moto. A estimativa é que as pessoas transferidas tenham postergado 1.120 cirurgias eletivas em 2023 e 1.450 no ano passado.

— Cada um desses pacientes que chega tira a vez de cinco que estão na fila. Como têm lesões graves, interrompemos a fila para tratá-los — constata a diretora do Into, Germana Bahr.

As ocorrências de moto cresceram de 16% para 19% entre os doentes transferidos, de 2023 para 2024. Junto com os demais casos de acidentes de trânsito, impactaram até nos gastos com antibióticos: no ano passado consumiram mais de R$ 1 milhão desses medicamentos.

— Motos não param no sinal vermelho, andam pela calçada, na contramão. Acabamos gastando muito do nosso orçamento, que seria para cirurgias eletivas, com os acidentados de moto, por desobediência às leis de trânsito. Faltam educação, conscientização e uma melhor fiscalização — sintetiza Germana.

Fonte: O GLOBO

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